Chara
5 A paixão de Chara
Notas iniciais

Uma semana passou. Na manhã de terça-feira Chara foi para a escola. A primeira aula era de Religião. Chara a odiava. Sua falta de crença em relação a coisas sobrenaturais era maior que seu ódio pelos cuidadores. Ele não entendia porque precisava saber essas coisas então ele começou a desenhar em vez de prestar atenção.
— Chara, leia o próximo versículo, por favor. — A professora o avistou. Ela naturalmente o escolheu porque vira que ele não estava prestando atenção. Contudo, ele deixou a Bíblia dele aberta caso algo assim acontecesse.
— Provérbios 14:27, versículo 27: O temor do Senhor é fonte de vida, para desviar dos laços da morte. — ele resmungou.
— Então Chara, o que acha que isso significa? O que o Senhor está tentando nos dizer com isso? —
— Que nós precisamos ter medo dele para que a gente possa ser feliz...? -
— Exato. Temos que saber respeitar o Senhor e temer as consequência em desobedecer seus mandamentos. — disse a professora.
— Isso não faz sentido. Respeitar e temer são coisas contraditórias. Se você teme você não respeita e vice-versa. Sem falar que pessoas que sentem medo de algo não são felizes. — Chara opinou.
— Não cabe a nós questionar o Senhor, Chara. Quando finalmente vai entender isso? Temos que aceitar todos os seus mandamentos sem questionar! O Senhor é perfeito. Ele te ama e odiaria ter que puni-lo por questionar suas ordens! — disse a professora furiosa. Chara não se deu o esforço de contra-argumentar. Discordara de tudo que ela disse mas não queria discutir com uma professora.
Quando as aulas acabaram dois colegas de turma se aproximaram, um menino de pele escura, cabelos crespos e olhos castanhos e uma menina loira, pálida de olhos azuis.
— Ei Chara, os professores liberaram a quadra pra gente brincar. Quer vir? — o menino perguntou.
— Não obrigada, to ocupado. — Chara respondeu.
— Porque sempre está tão quieto? Você nunca fala com ninguém. É quase assustador. — disse a menina com um tom arrogante.
— Bora logo, o que seria melhor que brincar com todo mundo? — o menino insistiu.
— Não sei, não consigo pensar em nada...- disse Chara sarcasticamente. — ... mas eu tenho um compromisso hoje. — ele completou.
— Ouvi falar que você vai a um negócio chamado psicólogo. É isso? — o menino perguntou.
— Eu ouvi que psicólogos são pra pessoas dementes. Dizem que tem que ser muito perturbado pra precisar que alguém conserte sua mente. — a menina disse.
— Também dizem que tem que ser muito idiota para acreditar numa coisa dessas. — Chara disse friamente.
— Ei, não a chame de idiota! — o menino bradou.
— Sinto muito mas é a verdade. Se você simplesmente acredita em tudo que dizem sem questionar e correr atrás das respostas você mesmo, você é bem idiota. — Chara estava farto de discutir com essas crianças e simplesmente foi embora. Na psicologa ele desabafou sobre isso.
— Você poderia ter dito isso de maneira mais gentil. — disse Jessica.
— NÃO, NÃO ME VEM COM ESSA NÃO! Você sabe que não é verdade! Como eu poderia ser gentil com alguém que diz uma coisa tão imbecil?! — disse Chara furioso.
— Não é totalmente imbecil, Chara. Você está se esquecendo de que são apenas crianças. Eles nunca passaram pelo que você passou, eles nunca foram obrigados a agirem como adultos. Precisa-se de muita maturidade para questionar as coisas e correr atrás de respostas por conta própria. Até lá eles vão acreditar em qualquer coisa que ouvirem de seus pais ou de amigos. — disse calmamente. Chara não teve outra opção além de concordar. Mas em segredo ele desejou que essas crianças passassem por coisas piores que ele passou.
No dia seguinte a mesma garota veio falar com ele.
— Oi Chara. — ela disse gentilmente. Chara a lançou um olhar irritado.
— Que foi? — ele perguntou.
— O que você me disse ontem me fez pensar. Perguntei alguns adultos sobre psicólogos e eu vi que estava errada. Me desculpe por ter te chamado de demente e perturbado. Agora eu sei que psicólogos estão aí para ajudar as pessoas que se sentem mal. Acho que todos nós deveríamos falar com um. — ela disse dando pequenas risadas para não parecer sem-graça. — E eu também não sabia que você era órfão. Eu sinto muito, você deve estar passando por muitas dificuldades. — ela completou.
Chara estava surpreso. Isso era muito inesperado. Nunca ninguém lhe pedira desculpas. Ele de repente sentiu algo estranho. Um sentimento estranhamente bom. Ele não estava mais irritado.
— É, exatamente. Psicólogos são profissionais que sabem muito sobre a mente humana. Eles podem ajudar pessoas a se sentirem bem consigo mesmas. Eles não são apenas para pessoas com problemas graves mas também para aqueles que estão tristes e desconsolados. Você pode ir para um psicólogo mesmo se sentindo bem. Nunca é demais falar com um profissional de saúde. Sobre ser órfão, relaxa. Tá tudo bem. Eu apenas espero que um casal legal me adote. — disse Chara amigavelmente com um tom sereno em sua voz. Ele nunca teve vontade assim de ser gentil. Talvez agora fosse um bom começo.
— Eu tenho certeza disso. Tô torcendo por você! — a menina disse radiante.
— Desculpe, não sou bom com nom... -
— Amy. — a menina o interrompeu.
— Certo, Amy. — disse tentando esconder seu constrangimento. Amy então sugeriu:
— Quer tomar sorvete? Eu pago. Deve ser muito ruim ter que voltar para aquele orfanato todo dia. Porque não tira um dia pra ficar longe daquele lugar? -
Chara começou a gostar cada vez mais de Amy. Não retornar ao orfanato era uma coisa muito estúpida de se fazer e certamente ele seria punido. Mas ele não pôde recusar essa oferta. Sorvete, um dia longe daquele lugar e uma menina gentil com certeza valiam algumas cintadas. Ele estava acostumado de qualquer jeito.
— Bem, não posso recusar, né? — disse alegremente. Chara e Amy andaram por alguns minutos até alcançarem um parque. Era primavera e flores estavam desabrochando por toda vila. Amy comprou sorvete de morango para ela e sorvete de chocolate para Chara. Eles sentaram num banco e admiraram a natureza daquele parque.
— Sempre gostei da natureza. — disse Chara olhando para as árvores. — Queria passar um dia inteiro no bosque, longe de pessoas. -
— É, eu também. — Amy concordou.
Chara sentia que fazia mais parte da natureza que da sociedade humana. Mas hoje, para variar, ele conheceu uma pessoa legal sem ser Jessica. Amy era uma menina muito bonita. Chara começou a sentir coisas que ele nunca sentira antes. Ele sentia como se quisesse ser uma pessoa melhor. Era como se o mundo ao redor tivesse ganhado cores mais vívidas. Chara começou a olhar fixamente para Amy. Ela virou e ele desviou o olhar constrangido. O rosa de suas bochechas transformou-se em vermelho.
— Haha, eu gosto de suas bochechas rosadas! — ela disse
— O-obrigado. — ele respondeu sem jeito. Ele devorou o que sobrara de seu sorvete rapidamente, uma decisão da qual ele se arrependeu logo em seguida. Sentiu uma dor de cabeça repentina, como se todo seu cérebro estivesse congelado. Amy riu. "Caramba, eu devo parecer muito idiota." pensou
— Tem um pouco de sorvete em volta da sua boca. — ela disse.
"QUE? ME SUJEI DE SORVETE? COMO?! MEU DEUS..." Isso era algo incomum para um Chara que geralmente comportara-se de maneira tão 'adulta'.
— Não se preocupe, vou limpar. — Ela tirou o sorvete no rosto de Chara com seu polegar gentilmente. Ele olhava hipnotizado para o rosto dela que agora estava bem próximo do seu. Ele não percebeu que começara a babar. A risada dela o acordou do transe. Ele percebeu mais uma vez que deve estar parecendo muito idiota e corou mais ainda. De repente ele ouviu a voz de uma mulher:
— Amy! Graças a Deus! O que estava pensando? Porque não voltou para casa depois da escola? — disse a mulher aborrecida que tinha se aproximado.
— Mãe! Me desculpe! É que eu estava me sentindo pressionada. Ele me fez vir com ele. Eu estava indo para casa mas ele me abordou. Disse que espalharia boatos sobre mim se não quisesse ficar com ele. -
Ao ouvir estas palavras de Amy Chara sentiu como se estivesse sendo esfaqueado repetitivamente no coração e no estômago. Todos os sentimentos bons que tinham surgido dentro dele simplesmente sumiram sem deixarem rastros e foram substituídos por náuseas e uma revolta profunda. Toda sua determinação acabara de morrer. Como se não pudesse piorar a cuidadora de Chara chegou logo depois da mãe de Amy. Ela o pegou pelo braço e o arrastou de volta ao orfanato.
Isso vai ser doloroso.
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