Chaos
7 Capítulo 06 - Segredos
O corredor pelo qual Emma e Joey passavam era bem iluminado por luzes fluorescentes. Cheio de canos metálicos espalhados pelas paredes. Um lugar assustador, frio e sem janelas.
Eles caminhavam à procura de uma saída, já haviam desistido de seus amigos, provavelmente estavam mortos a essa altura. Quando chegaram perto de entrar em um corredor adjacente àquele, foram surpreendidos por três homens com roupas iguais às deles. Um calafrio percorreu o corpo de Emma e ela abaixou a cabeça levemente, esperando que eles não a reconhecessem. E não reconheceram.
Após o susto, eles entraram no corredor à sua direita e continuaram caminhando. No fim do tal corredor, havia uma rampa. Segundos depois, eles a subiram, encontrando uma sala aterradora, como um necrotério. Estava cheia de mesas de metal parecidas com camas. Em cima delas, vários corpos cobertos com panos brancos. Eles sabiam que eram cadáveres porque podiam ver seus pés para fora da coberta.
Do outro lado da extensa sala, havia uma grande porta.
Andaram mais um pouco. Emma, acidentalmente, tocou o pé de um dos cadáveres e se assustou. Era gelado.
– O que foi? – Perguntou Joey, com uma voz abafada pela máscara.
– Nada, eu só... – Ela começou a falar mas parou, adquirindo uma expressão de horror no rosto.
– Emma, o que houve? – Ele ficou preocupado.
Ela andou até o outro cadáver, ao lado daquele cujo pé ela havia tocado, e levou a mão à boca.
– Está me assustando – Disse ele, se aproximando.
– É o Ezra – Ela finalmente falou. Seus olhos estavam lacrimejando.
– O que?
– Essa tatuagem – Apontou para o pé pálido do cadáver. Havia um pequeno símbolo da paz no centro. Ela lembrou do dia que ele fez a tatuagem. Havia feito uma promessa, então a saída que encontrou foi tatuar o pé, onde ninguém veria – É dele.
– O que? Não pode ser – Ele ficou atordoado.
Ela virou-se e colocou mão sobre o rosto, chorando, enquanto Joey caminhou até o cadáver e tocou o lençol. Relutantemente, puxou o pano branco, preparando-se para o pior. O que viu foi chocante. Realmente era Ezra, estava pálido e seu pescoço extremamente inchado e de cor arroxeada.
– É ele? – Perguntou Emma, com uma fraca voz.
Joey não respondeu, apenas caminhou até ela e a abraçou. Emma entendeu o sinal e chorou com mais força.
– Por que eles fizeram isso? – Ela perguntou, aos prantos, com a cabeça sobre o peito dele.
– Eles irão pagar, eu juro – Joey confortou-a. Se ele chegasse até os EUA em segurança, aquelas pessoas iriam estar com grande problemas. O único empecilho, porém, era justamente esse, chegar até lá.
– Nós não vamos conseguir sair daqui, vamos acabar mortos também.
Joey olhou os outros cadáveres, acreditando que alguns deles poderiam ser seus amigos.
– Não! Nós vamos sair daqui – Ele disse – Escute-me, ele levantou a cabeça, olhando em seus olhos através da máscara – Nós vamos sair daqui sim, eu te prometi, não foi?
Ela não disse nada.
– Precisamos ir, agora.
Os dois saíram andando, com um pouco de pressa, até a porta. Abriram-na e entraram em um corredor diferente. Aberto e com janelas.
No fim, havia uma grande porta, provavelmente para a saída.
– Finalmente – Disse ela, aliviada.
– Eles devem estar vigiando – Falou Joey – Como sairemos?
Eles sentiram algo encostar suas cabeças. Era frio.
– Simples – Disse uma voz masculina, atrás deles – Vocês não sairão.
Calafrios percorreram seus corpos. Emma e Joey viraram-se lentamente, até os canos dos dois revólveres que o homem segurava encostarem suas testas. Ele estava vestido com um terno preto e gravata vermelha. Usava um óculos de grau e seus cabelos eram curtos.
– Entrem nesta sala – Ele disse, jogando seus olhos para o lado esquerdo rapidamente. Havia uma porta de metal.
Lentamente, Emma e Joey caminharam até a porta. Ela abriu e os três entraram.
O que havia ali era um escritório. Amplo e sofisticado, com móveis de madeira e uma parede de vidro no fundo, pela qual era possível enxergar o mar.
– Sentem-se.
Os dois cientistas sentaram nas cadeiras de couro à frente da grande mesa de madeira com vidro e o homem sentou-se na grande cadeira do outro lado. Abriu uma gaveta e colocou os dois revolveres. Pegou um charuto cubano, colocou-o entre os lábios e acendeu. Deu uma tragada e em seguida pegou uma garrafa de uísque e derramou o líquido em um copo.
– Quem são vocês? – Ele perguntou, enquanto a fumaça saia de sua boca.
Emma e Joey ficaram calados. Aterrorizados.
– Vamos lá, vocês não querem que eu pegue meus revolveres novamente, querem? – Ele ameaçou, com uma visível tranquilidade. Era um homem extremamente intimidador.
– Somos cientistas – Respondeu Joey.
– Hum... Cientistas... – Ele deu um gole no uísque – Como os outros.
– Onde estão eles? – Perguntou Emma.
– Eu faço as perguntas primeiro.
O homem encostou-se na cadeira de couro e suspirou.
– O que faziam no Triângulo das Bermudas?
– Nós... Nós tínhamos uma teoria sobre o mistério e esperávamos prová-la – Respondeu ela, nervosamente.
– Eu posso saber qual a teoria?
– O afundamento dos navios é causado pela diminuição da densidade da água, causada pela grande quantidade de metano encontrado nessa região.
– É uma teoria interessante, entretanto, devo dizer que vocês não chegaram nem perto do que aquele lugar é de verdade.
– O que quer dizer? – Perguntou Joey.
– Já ouviu falar em um buraco de minhoca? – O homem perguntou, sorrindo com seus dentes amarelados.
– Um atalho através do espaço e tempo – Respondeu ele.
– Exatamente!
– Mas é impossível – Disse Emma, quase esquecendo do monstro que aquele homem era – Um buraco de minhoca não se mantém estável por tempo suficiente para uma travessia.
– Esse sim.
– Você está me dizendo que o Triângulo das Bermudas é um buraco de minhoca?
– Não, apenas estou dizendo que há um no meio dele, por isso já foi possível alguém passar normalmente.
– Porque não chegou a entrar no buraco.
– Correto.
Eles ficaram em silêncio, absorvendo a informação. Para o espanto deles mesmos, não achavam isso tão difícil de acontecer, pelo menos não depois do que haviam visto na cidade.
– Existe uma coisa que está me deixando intrigado – Ele apoiou os cotovelos na mesa e as mãos juntas no queixo – Quando meus homens os encontraram, vocês disseram que não contariam a ninguém o que nós fazíamos... Ele deu mais um gole no uísque – O que vocês sabem sobre o que fazemos aqui?
Eles ficaram em silêncio. Nervosos.
– Estou esperando uma resposta.
– Experimentos – Respondeu Emma, por impulso.
– Ah... Experimentos.
– Nós encontramos um homem em um dos prédios da cidade e ele havia escrito cartas, avisando sobre isso.
– Que interessante – Ele deu seu sorriso intimidador.
– Vocês não estão curiosos para saber sobre isso.
Novamente, ficaram calados.
– Há alguns anos, cientistas da Califórnia voltaram de uma viagem avisando ter encontrado uma nova cidade, até então desconhecida. A imprensa não chegou a saber, mas nós verificamos com aviões e navios. Os navios chegaram à tal cidade e as pessoas, cientistas e oficiais, juntamente com membros do governo, analisaram o local e concluíram que ninguém nunca havia estado ali, com isso voltamos à terra firme e descobrimos que o nosso navio estava sendo procurado. Inclusive já haviam buscas no mar... Eles alegaram que os pilotos dos aviões não conseguiram encontrar nenhuma cidade, e pior, que o navio teria afundado no oceano... Mas como era possível? Eu mesmo estava naquele navio, havíamos passado apenas algumas horas na cidade, analisando o loca... Acontece que, na verdade, nós ficamos duas semanas naquele lugar. Dentro do buraco, o tempo passa de forma diferente – Ele olhou para os cientistas, com um sorriso quase diabólico – Então pesquisamos mais e descobrimos que essa cidade não pode ser vista por um avião, porque ela fica em outra dimensão...
Parecia uma história de ficção científica, era quase inacreditável.
– Eu não acredito – Disse Emma.
– Eu sei que você acredita, depois do que viu nesta cidade... Esse lugar é sobrenatural.
– Como você sabe que eu vi algo?
– Todos veem, todos presenciam as “brincadeiras” dessa cidade – Ele fez um sinal de aspas com a mão ao dizer a palavra – Entretanto, nem todos sabem como evitá-las.
– Isso não justifica os experimentos – Joey falou, criando coragem de enfrentá-lo, finalmente.
– Ah sim, os experimentos – Ele disse, esfregando as mãos.
O homem levantou-se de sua cadeira e começou a andar pela sala, lentamente, enquanto falava.
– Esse lugar ficou abandonado por alguns anos, até que um novo vírus foi descoberto em dois pacientes. Alguns cientistas começaram a estudá-los e perceberam que os animais que eram vítimas dos testes eram imunes à doença, então percebemos que a única maneira de estudar o vírus corretamente seria testando nos únicos animais que a doença afetava.
– Os seres humanos – Completou Emma, estupefata.
– E qual o lugar melhor para fazer esse tipo de coisas do que em outra dimensão? – Ele perguntou, em tom de ironia.
– Vocês são uns monstros! – Exclamou ela.
– Ah, você nos agradeceria se soubesse o nível de desolação que essa doença pode causar – O homem respondeu, inclinando-se atrás dela e falando perto de seu ouvido. Emma conseguiu sentir o ar quente que ele respirava – Na verdade, essa e todas as outras doenças que foram desenvolvidas e nunca reveladas, tentamos controlá-las aqui. Você é cientista deveria saber.
– Isso é um crime, vocês serão punidos quando forem descobertos! – Disse Joey.
O homem deu uma gargalhada alta e intensa. Até chorou.
– Nós não seremos punidos – Ele disse, enxugando as lágrimas de seus olhos. Ainda ria.
– O governo dos EUA vai descobrir – Falou Emma.
Ele tocou os cabelos loiros dela e alisou.
– Você é muito corajosa – Disse.
Ela não disse nada. Por dentro estava aterrorizada.
– Mas deixe-me lhe dizer uma coisa... Sabe porque nós não seremos punidos? – Ele estava com a mão sobre a mesa, brincando com um lápis amarelo bem apontado.
Ela não disse nada. Joey também não.
– Nós somos aqueles que punem – Ele disse sussurrando no ouvido dela.
Neste momento, ela percebeu tudo. Não adiantaria se ela saísse viva do local. Eles não iriam parar se ela denunciasse à polícia ou à casa branca. Eles são a polícia, a casa branca, tudo.
– O governo, vocês são do governo – Disse ela, atônita. Joey ainda estava tentando “digerir” a informação.
– Pensei que não entenderia a indireta – O homem zombou.
Ele andou até sua cadeira e sentou-se, apreciando a cara de surpresa dos dois cientistas.
– Eu realmente não queria fazer isso, mas faço para o bem da nossa pátria.
– Pátria?! – Gritou Emma, alterada – Você mata pessoas! Pessoas da sua amada pátria!
Ele não disse nada, nem mesmo tirou o sorriso do rosto. Deixou que ela gritasse, apenas abriu uma de suas gavetas e ficou observando-a.
– Acha mesmo que está fazendo isso pelo bem da pá... – Ela disse, mas não terminou a frase. O homem, rapidamente, sacou sua arma de dentro da gaveta e atirou contra a cientista, que caiu no chão imediatamente, com um buraco na testa, feito pela bala do revolver.
Joey ficou atordoado, levantou-se da cadeira e, em um ato de desespero, correu para a porta.
– Pare aí mesmo! – Exclamou o homem, apontando a arma para ele. Joey levantou as mãos e virou-se.
– Por favor, não me machuque – Ele disse, tremendo de medo. Acabara de ver do que aquele homem era capaz.
– Eu tenho uma ideia melhor para você.
***
Horas depois, um caminhão passava em uma estrada de terra entre a floresta. Na traseira do caminhão estavam cadáveres. Vários corpos desfigurados, pálidos, a maioria com rostos paralisados em uma expressão de horror. Havia também o corpo de uma cientista loira, com um buraco no meio da testa. Todos os outros, com exceção desse, haviam sido vítimas dos testes daquela semana. Inclusive o cadáver de Joey, que estava jogado sobre o corpo de uma mulher ruiva.
O motorista parou em um pequeno espaço sem árvores e fez a volta no caminhão. Em seguida, engatou a marcha ré, de modo que o caminhão ficasse a alguns centímetros do penhasco. Depois apertou um botão e o compartimento de trás do veículo foi inclinado lentamente, despejando os cadáveres penhasco abaixo.
Os corpos bateram violentamente contra as rochas, abrindo seus crânios e quebrando seus ossos. Alguns atingiram outros cadáveres em decomposição que já estavam lá e outros caíram diretamente na água. Todos eles sabiam do segredo governamental, segredo esse que seria levado com as ondas, junto com os corpos daquelas pessoas inocentes.
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