Chaos

4 Capítulo 03 - O Segundo Andar


O navio era grande, parecia a pista de um aeroporto, entretanto, estava vazio. Eles caminharam um pouco até a cabine do comandante, mas ela também estava vazia, a pequena porta estava aberta e o painel estava piscando com luzes multicoloridas, mas não havia ninguém. O que estava acontecendo com aquele lugar? Emma sentiu que precisava descobrir o quanto antes.

– Vamos procurar os outros – Ela disse, começando a caminhar de volta em direção à cidade.

– Não é melhor dois de nós ficarmos aqui... Porque pode aparecer alguém... – Disse Ezra.

– Tá bom, você e Gwen ficam, Ryan, Joey e eu vamos procurá-lo – Ela concluiu.

– Ok – Concordou ele.

– Por mim tudo bem – Falou Gwen.

***

De volta à cidade, que mais parecia um labirinto de prédios velhos, Emma, Joey e Ryan procuravam o outro grupo. Na verdade, também procuraram os donos do navio. Procuravam qualquer pessoa que pudesse explicar o que estava acontecendo.

Naquele momento, eles caminhavam por uma rua que nunca haviam estado antes. Descobriram isso porque, apesar de ser igual às outras, havia uma pequena poça de sangue no meio do asfalto. Sangue esse, que formava uma trilha até a porta de um dos prédios dali.

Eles correram até a poça do líquido avermelhado e olharam mais de perto. Pelas gotas e marcas de sangue que formavam a trilha até o prédio, Joey constatou:

– O dono desse sangue foi ferido e correu para o prédio, provavelmente tentando se esconder.

– A pergunta é... – Disse Emma, olhando a trilha de sangue – Por quê?

Eles caminharam até o prédio e abriram a porta vermelha de madeira. O cheiro de carne podre novamente invadiu suas narinas. O lugar era como todos os outros, uma pequena sala com piso quadriculado, preto e branco. A diferença ficava por conta da escada no canto esquerdo. Os outros andares provavelmente eram salas de piso monocromático também.

No canto direito, havia um homem deitado no chão. A trilha de sangue terminava nele. Joey se aproximou e virou o corpo. Assim como o outro cadáver que eles haviam encontrado, o corpo estava inteiro, com a pele escura e com bolhas estouradas, das quais saía um líquido escuro, necrochorume.

Os outros dois nem se aproximaram, ficaram longe, cobrindo seus narizes com o braço.

– Ele está segurando um caderno – Disse Joey.

– Um caderno? – Perguntou Emma.

– Sim.

Joey levantou-se e pegou o caderno. Aproximou-se dos outros.

– Ele escreveu duas uma página – Analisou ele.

– O que tem aí? – Ryan perguntou.

– “Esse lugar está me deixando louco. Eu acho que eles criaram, criaram esse inferno. Eu não sei há quanto tempo estou aqui, mas quando vou sair. Nunca. Parece que o tempo passa rápido em algumas áreas da cidade. Eu não dizer porque, mas é estranho, aqui, neste prédio... É tão estranho, eu não sei. Se tiver algum aparelho eletrônico, algum relógio digital ou celular, dê uma olhada, pensará que está quebrado, mas não está, é isso mesmo. Os seres humanos parecem não ser afetados pela mudança do tempo. Isso é insano. E não é só isso, o espaço também é afetado, eu não sei explicar, mas é possível que você passe pelo mesmo local duas vezes sem nem mesmo andar em círculos, são as áreas de perigo da cidade, você pode ficar preso, vai andar e andar e sempre chegará ao mesmo lugar. A culpa é dessa cidade, vá embora, enquanto eles ainda não te pegaram”

Ryan e Emma pegaram seus celulares.

– O que tem de estranho? – Perguntou Joey.

– A não ser que hoje seja dia 28 de junho de 2019, não tem nada de estranho – Disse Emma.

– No meu é 29 – Disse Ryan.

– O que? – Ele ficou surpreso. Pegou os celulares dos dois e constatou que era verdade.

– Ainda tem mais? – Perguntou Emma.

– Sim, tem – O cientista respondeu, e em seguida, voltou a ditar o conteúdo da carta – “Eles me pegaram, eu não consegui, então tudo o que posso fazer é tentar avisá-los – Joey começou a ler a segunda página. Eles se entreolharam, assustados – Se estiver lendo essa carta, por favor, vá embora. Corra para longe, navegue de volta, se precisar, nade até a costa. Só não fique nesta cidade. Se preza por sua vida, vá embora agora mesmo. Eles são doentes, sequestram as pessoas e fazem experimentos, não peça ajuda, não deixem ele te ver, e se você conseguir sair vivo, nunca mais volte ou deixe alguém voltar ao triângulo das bermudas.” E depois ele escreveu “vá embora” várias vezes, até morrer, provavelmente.

Os três estavam estupefatos. O mistério apenas aumentava.

– Precisamos tirar Gwen e Ezra do navio, agora! – Disse Emma.

***

Gwen, com a testa sangrando, corria pela praia em direção a cidade. Aqueles homens pegaram Ezra. Quebraram seu pescoço. Que cena grotesca. Ela estava desesperada, correndo e chorando, sem saber o motivo pelo qual os homens de branco deixaram ela escapar. Talvez porque soubessem que ela não poderia sair daquele lugar. Não viva.

Ela cruzou a avenida e virou a esquina, deparando-se com um homem de roupa branca e máscara de gás. Gritou e correu ainda mais, entrando pela porta de um prédio no outro lado da rua. O homem ficou parado, observando enquanto ela sumia de vista, subindo as escadas. Ele sabia que, na verdade, ela nunca mais sairia daquele lugar, mesmo se quisesse.

***

Gwen estava no primeiro andar do prédio, sabia disso por que havia um número 1 ao lado da escada, pintado na parede. Aquele andar era uma sala pequena com o piso preto e branco, como todas. Subiu as escadas novamente, até o segundo andar. Havia um número 2 pintado na parede ao lado da escada. Ela olhou pela pequena janela pela qual entrava a luz. Podia enxergar o prédio a frente. Havia alguém a observando pela janela do outro prédio. Era uma mulher de pele negra e cabelos pretos. Gwen levou um susto. Era ela mesma.

– Mas que merda é essa? – Ela perguntou, apertando os olhos para enxergar melhor. Percebeu que a “outra Gwen” fazia a mesma coisa que ela. Era como olhar em um espelho. Assustada, ela continuou a subir as escadas. Chegou ao terceiro andar, mas havia um 2 pintado na parede. Subiu até o quarto andar, novamente um número 2. Subiu ao quinto andar. Agora, o número na parede era o 1. Resolveu olhar pela janela. Ficou em pânico quando viu que realmente ainda estava no primeiro andar. Desesperada, desceu a escada, a qual ela pensou que a levaria para o térreo, mas surpreendeu-se ao ver o número 5 pintado na parede. Olhou pela pequena janela e viu que estava no topo do prédio. Era alto ali.

– O que diabos está acontecendo? – Ela perguntou para si mesma, desesperada. Como havia descido o primeiro andar e agora estava no quinto?

Gwen virou-se e viu a porta de entrada do prédio, que deveria estar no térreo. Ali era o quinto andar, como a porta de entrada poderia estar ali?

Lentamente, ela caminhou até a porta, que não tinha janelas e tocou a maçaneta. Ficou mais aliviada ao pensar que aquela poderia ser a porta do telhado. Abriu e entrou em uma sala, igual a todas as outras. Olhou para a escada que havia no canto esquerdo. Seu coração bateu mais forte e seu pânico aumentou quando ela viu o número 2 pintado na parede. Estava no segundo andar novamente. Subiu a escada e, relutantemente, olhou o número na parede. Não era número, era uma letra. A letra G, de ground floor (Térreo). Finalmente estava salva. Ela deu um sorriso e correu até a porta de entrada. Ao abri-la, ao invés de sair para a rua, entrou em outra sala. O segundo andar.

Gwen estava chorando, desesperada. Como iria sair? Não sabia. Sentou-se no chão, olhando para as paredes e o teto. O número dois parecia encará-la, como se o prédio estivesse zombando. Ela tinha quase certeza de uma coisa. Nunca mais sairia dali.