Chantilly

3 Novembro de 2000. (Parte II)


Somente cinco dias se passaram desde a última vez que escrevi. Infelizmente, dessa forma, perdi muitas lembranças que jamais retornarão, mas foi preciso.

As pessoas na cidade andam precisando de ajuda e, como sou uma das últimas pessoas que contém — por enquanto — a maior parte das memórias, resolvi ajudá-las. É realmente muito triste o que vejo dia após dia pela janela. Vizinhos, conhecidos, amigos de décadas, esbarrando uns com outros no meio da rua e sem se reconhecer. Não sei o que poderia ser feito. Não sei por que isso está acontecendo, mas, leitor, se o problema não tiver sido solucionado ainda aí no futuro, imploro que contate ajuda logo.

Provavelmente está se perguntando o motivo de eu não fazer isso, certo? Pois bem, leitor, eu tentei. Tentei diversas vezes e não foi viável. O governo francês finge não ver o que está acontecendo ao responder \"providenciaremos ajuda.\" Providenciaremos ajuda? Vê se pode! Nunca vi frase de descaso maior... E a arrogância, ah, a arrogância da mulher ao telefone. Acredito que seria melhor se eu fosse até lá pedir por socorro, mas temo não conseguir retornar ou até mesmo chegar lá e esquecer o motivo pelo qual queria ajuda. Não resta tempo.

Gostaria de poder contatar algum médico, mas os da região... Você já sabe. Eles mal se lembram onde moram. Como vou pedir para estudar e descobrir a solução?

Sinto-me só. Não tenho com quem conversar ou com quem contar. Somente você, leitor, poderá me ajudar. Isso se eu estiver viva até esse diário ser encontrado. Sinceramente, eu espero estar.