Changes
1 Sweet Child O'Mine
Notas iniciais
Tô falando, eu sofri.
Mas eu amei escrever essa fanfic, assim como eu amei escrever S.C.M ou qualquer outra long na minha vida. Essa é a primeira longshot que eu escrevi, e eu não poderia estar mais orgulhosa de mim por conseguir.
Não que esteja linda e maravilhosa; na verdade o contrário. Acho que tem muitos erros e eu tenho muito que aprender. Mas eu gostaria de compartilhar com vocês por que eu amei escrevê-la e espero que vocês gostem de lê-la.
Boa leitura meus bebês.
TEXAS — Universidade Batista de Wayland, 2016. Anfiteatro. 20:04
Deanna Winchester
Se Sammy estivesse dentro daquela sala, Jesus, eu teria a comprovação de que ele era um nerd em absoluto. Era tudo tão amplo, limpo e refrigerado que eu tinha certeza de que aquele era o lugar onde Sam deveria estar; não eu.
Naquele mesmo horário o Alce deveria estar orando com Mary e John na mesa de jantar, tentando horrivelmente se esquivar de fazer uma prece para poder comer em paz. Ironicamente eu desejava que Deus tivesse piedade dele naquele último ano escolar, e pedia para que ele passasse na faculdade de Direito mais distante possível.
Na boa, Mary e John merecem tratamento psicológico, pensei, mas o jogo se volta contra mim e cá estou eu, me sentindo uma pré-adolescente ansiosa para me livrar logo de mais uma sessão de terapia.
Não que não ajudasse, já que todas as divindades existentes sabiam o quanto eu havia evoluído com aquele papo motivacional e técnicas de respiração.
Escutei um estrondo atrás de mim e quando me virei pude vislumbrar Dr. Shurley acompanhando outros integrantes do grupo de apoio que a universidade oferecia para dentro do anfiteatro gelado: — Meu nome é Chuck Shurley e vocês estão no Disney Channel!
— Está mais pra SyFy! – alguém berrou do outro lado da sala e eu comecei a me levantar para ir até o palco onde sempre nos reuníamos para formar uma roda. Gargalhei baixinho.
— Muito engraçado Charlie – Dr. Shurley retrucou e uma onda de risadas reverberou pelo enorme ambiente – Vamos crianças, formem uma roda para que o tio Chuck consiga ver todos vocês.
— Talvez você precise de novos óculos – aproximei-me do homem baixinho e ele revirou os olhos, mas sorrindo logo depois: — Winchester, como sempre tão engraçada! Por que você não vai se sentar como uma boa garota enquanto eu faço uma contagem básica? Você sabe como eu posso me embaralhar se vocês estiverem se movendo.
Ri pelo nariz, sentando-me ao lado de Cassie. Ela tinha entre os dedos uma caneta rosa com um diamante de plástico roxo completamente horroroso na ponta, esfregando furiosamente em seu pequeno caderno de gatinhos algumas linhas que eu não conseguia distinguir.
Não posso dizer que eu não a achava um pouco estranha, mas se todos nós não fossemos... não haveria necessidade de estarmos lá. Então fiquei observando-a enquanto arrumava minha mochila sobre minhas pernas cruzadas, minhas botas cutucando a parte inferior das minhas coxas. Ela estava tão concentrada, os cabelos ondulados caindo nas laterais do rosto que eu incrivelmente ainda não havia memorizado...
— É um pássaro.
— Sonofbitch— Jesus Cristo, não me leve agora. Meu coração! – pousei uma mão sobre o meu seio esquerdo, não ligando se talvez eu o estivesse apertando ligeiramente forte na frente de tantas pessoas – Você me matou de susto, Cassie.
— Desculpe, eu fui um pouco idiota em falar assim com você – seus olhos encontraram os meus rapidamente, cor de céu limpo no Inverno.
Balancei minha cabeça: — Não se ofenda dessa maneira. Não foi nada demais.
— Oh, entendo – seus dedos continuaram a se movimentar no papel e agora que ela havia dito eu realmente podia ver as asas detalhadas e as penas entrelaçando suas pequenas penugens umas nas outras – Gabriela me disse que auto ofensa é uma maneira de aliviar a angústia dos outros.
— Quem é Gabriela?
— Minha irmã – Cassie ergueu os olhos do caderno, fechando sua caneta com aquela tampa enorme e estúpida de plástico roxo que reluzia com a luz branca do palco, piscando para longe das minhas vistas quando escutamos Dr. Shurley chamar nossa atenção.
Franzi o cenho com a estranha conversa anterior. Tuuuuuuuuuuuuuuudo bem.
— Sejam bem-vindos nessa noite de segunda-feira. Eu gostaria de fazer dois comunicados antes da nossa sessão começar: Eliot está concluindo seu curso de ADM de Empresas depois de duas dependências em cálculo, então meus parabéns por se livrar da matemática Eli! – todos comemoramos juntos balançando as mãos, uma salva de palmas silenciosa para não perturbar alguns dos integrantes do grupo – Essa será sua última sessão conosco, faremos todo o possível para que seja agradável. O segundo aviso que eu gostaria de dar é que através da sala dos professores, eu descobri que amanhã cupcakes de chocolate serão assados e cobertos de chantilly por nossas abençoadas cozinheiras, então acho que seria legal todos saírem um pouco mais cedo de suas aulas para conseguir pegar um.
Mesmo depois de um ano dentro da universidade, eu não conseguia assimilar a ideia de que pessoas tão gentis quanto Chuck existiam. O Dr. Shurley havia me encontrado na chuva, chateada com um teste de Metodologia Teológica com meu joelho sangrando horrores por uma queda idiota em algumas pedras.
— Ei, garota que eu sempre vejo por aí cantando garotos mas com quem eu nunca conversei. Por que você está aqui na chuva?
— Não percebe que eu vim aqui no meio do pátio só ‘pra levar um raio no meio da cabeça e não ter que lidar com ninguém?! – gritei frustrada e esfreguei meus olhos, mesmo sabendo que imediatamente eles estariam molhados de chuva outra vez – Vá embora professor! Por favor...
Seus dedos enroscaram-se embaixo do meu queixo e levantaram meu rosto, fazendo-me encarar seus olhos claros e idiotas de cachorrinho como os de Sammy: — Meu nome é Chuck Shurley e eu gostaria que você fosse até o anfiteatro comigo para a experiência mais libertadora de toda a sua vida.
E eu fui achando que se tratava de um clube de nudismo, mas quando eu me dei conta eu até que gostava de falar o que me incomodava.
— Vamos fazer alguns exercícios de respiração para acalmar vocês, pequenos nervos expostos.
— Cuidado Dr. Shurley, nós vamos arrumar apelidos tão delicados quanto os seus para você – uma garota chamada Dorothy falou, fazendo-me sorrir com a ideia de chamarmos Chuck de “Deus” novamente.
— Apenas respire, Dory – ele piscou e logo nós estávamos fazendo percepção de respiração, fazendo-me sentir tão estufada de ar como eu seria ao comer uma torta. Ao final, eu podia sentir a tensão escorrer dos meus ombros e me deixei levar pelo fluxo de conversas do grupo, adorando o fato de esquecer das minhas origens, preocupações, mitologias e afins.
Não me dei conta de que estávamos praticamente no final da sessão, minha barriga doendo de rir após alguma piada boa e roleplays de nossos maiores medos. Antes, técnicas de enfrentamento me faziam estremecer, mas agora tudo o que eu pensava era no próximo passo que eu daria, o que mais eu poderia fazer.
— Eu gostaria que, começando por Cassie e em sentido anti-horário, vocês dissessem três coisas que vocês não gostam em vocês e como vocês lidam ou lidariam com isso em situações futuras. Vocês que estão por último, não pensem. Ouçam o que seus colegas têm a dizer.
Voltei minha cabeça para Cassie, seus cabelos ondulados espalhados por suas costas e ombros, escondendo o rosto como cortinas. Eu sabia que essas eram as piores técnicas para a garota e isso me deixava um pouco incomodada. Saber que ela se sentir assim e não saber como agir era o que mais me angustiava.
— Logicamente é notável como a minha falta de familiaridade em situações de exposição é uma das coisas que eu não gosto em mim. Eu também não gosto de ser assexual¹ por que isso me torna diferente dos outros e no mundo em que nós vivemos, ser diferente pode ser um problema, apesar de que eu não me incomodo em ser panromântica². Por último eu não gosto de ter ataques de pânico, já que eles me lembram de tudo que é estranho em mim.
Suguei meu lábio inferior entre os dentes, sentindo o gosto de manteiga de cacau amornar-se na minha língua: — Como você lida ou lidaria com isso, Cassie?
— É devido que eu me exponha mais até que eu perceba que eu devo me incomodar apenas com o que eu acho, mas como Gabriele diz: é mais fácil falar do que fazer. Toda a vez que eu iniciar um relacionamento eu devo me identificar como assexual para evitar sexo forçado, já que algumas pessoas têm problemas em ouvir “não” – Cassie disse aquilo com tanta naturalidade e uma inocência tão peculiar que meu peito se amargou, sabendo que realmente existiam pessoas que poderiam força-la a fazer algo que ela não queria – Sobre meus ataques de pânico, eu tenho técnicas para afastá-los, mas eu não posso mudar tudo o que há de estranho em mim.
— Você não precisa mudar, Cassie. Só aceitar. Todos nós somos estranhos e você é especial do seu jeito. É clichê? Deus, como é clichê, mas se você não se amar antes que tudo no mundo, quem é que vai? – as palavras saltaram da minha boca antes que eu pudesse evitar, e eu arregalei meus olhos balançando a cabeça com força, sentindo meus cabelos curtos pinicarem meu pescoço – Esqueça, provavelmen-
— Obrigada Deanna! – um sorriso torto e grande tomou conta do seu rosto, sumindo com seus olhos atrás de algumas ruguinhas que meudeuseramtãoadoráveis – Eu me sinto bem melhor agora – o seu sotaque era de alguma região desconhecida para mim, mas eu me senti estranhamente aquecida ao ouvi-lo deslizar.
Aconteceu que depois disso eu não consegui me concentrar muito nos outros depoimentos e enquanto eu pensava que eu tinha feito algo bom para alguém que era tão puro, um pouco de culpa apertava o meu peito: — Sua vez, Deanna – levantei os meus olhos que estavam perdidos em um carneirinho de poeira e cabelos no chão, olhando para todos à minha volta.
— Eu não gosto de não conseguir dizer não aos meus pais, e isso provavelmente engloba as outras duas coisas que eu não gosto em mim, que são: gostar de garotas e não poder beijá-las e cursar Estudos Cristãos enquanto, na verdade, eu gostaria de estar cursando Gastronomia.
De repente a minha euforia tinha se esvaído e tudo o que eu conseguia pensar era que aquela afirmação decepcionaria os meus pais. Com certeza eles ficariam sabendo que eu tinha dito aquilo e viriam me buscar, levar-me de volta para Lawrence e me fazer casar com algum cara rabugento de lá.
Eu vivia com medo das ligações de John, dos e-mails de Mary e dos sms que Sammy me mandava à noite. Meu coração disparava, fazendo-me pensar em tudo o que eu poderia ter feito de errado para eles estarem me chamando.
— Respire fundo Deanna – vi as unhas azuis escuras de Cassie quase cobertas por seu sobretudo bege tocarem o meu joelho. Eu obedeci, piscando para as lágrimas acumuladas nos meus cílios escorrerem furtivamente e eu as limpei rapidamente.
— Acho que eu devo superar os meus medos e dizer não. Afinal, a vida é minha e eles não podem me controlar – murmurei observando as feições do Dr. Shurley, que assentia e sorria orgulhoso para mim. Minhas bochechas se aqueceram e eu desviei o olhar.
Chuck se levantou do chão: — Muito bem, eu agradeço do fundo meu coração por vocês compartilharem isso comigo. Espero que na quarta-feira vocês venham para cá com progressos. Deanna, eu gostaria que você esperasse um pouco, por favor.
Quis me estapear. Óbvio que depois do que eu havia falado ele tiraria mais conclusões e me obrigaria a fazer mais tempo de terapia, como eu era estúpida...
Joguei a minha mochila nas costas e me levantar, andando em sua direção, desviando de algumas pessoas atrapalhadas vindo na minha direção. Coloquei minhas mãos nos bolsos de trás dos meus shorts, apoiando o peso do corpo em uma das minhas pernas e tentando parecer o mais estável possível depois de todas aquelas palavras.
— Fico muito feliz, garota Winchester, por você ter compartilhado seus medos conosco – ele sorriu gentil – Eu sei que você é uma garota forte, mas saiba que suas escolhas até agora não te tornam menos. Na verdade você é bem corajosa de tomar decisões como essas, mas eu espero que as próximas sejam por sua conta. Não viva a vida que seus pais querem pra você, viva para você.
Abaixei os meus olhos e chutei uma pedra imaginária: — Agora é o momento gay onde nós abrimos nossos braços e nos abraçamos?
— Só se você quiser.
Ri molhado, minha garganta entupida de lágrimas que eu não queria derramar. O nó entalado nela doía e eu pensava que seria impossível de tirá-lo dali sem um urro histérico ou um soluço gigante, mas quando eu me aconcheguei no ombro de Chuck e deixei meus olhos vazarem fiquei feliz de não precisar abrir mais do que uma fresta dos meus lábios para o ar passar.
Fiquei um minuto naquela posição, esperando que os espasmos no meu peito parassem e me afastei do psicólogo, vendo seu pescoço molhado borrado de rímel: — Sua namorada não vai gostar de ver essa mancha no seu pescoço.
— Ela sabe como vocês são sentimentais – ele olhou para as cadeiras do anfiteatro e acenou para uma mulher de cabelos cor de fogo, que acenou de volta: — Me desculpe por isso, mas ele parece um Teddy Bear! – berrei para ela e pude ouvir sua gargalhada.
Chuck se abaixou e pegou o casaco escuro no chão, vestindo-o antes de se voltar para alguém atrás de mim: — Cassie, vamos?
Franzi o cenho e me senti envergonhada por saber que Cassie estava ali o tempo todo, me vendo chorar pateticamente no pescoço de Chuck. Mas isso passou rápido, o fato do psicólogo estar acompanhando ela para fora do anfiteatro atiçando mais a minha curiosidade: — Ei, esperem! – corri atrás deles – Você não quer que eu te acompanhe até os dormitórios Cassie? Eu estou indo para lá agora mesmo.
Dr. Shurley voltou-se para a garota de cabelos castanhos como em uma pergunta silenciosa, e ela virou-se para mim com os lábios gosmentos de gloss: — Tudo bem. Você pode ir, doutor, a sua namorada está esperando.
— Fiquem seguras, garotas! Tenham uma ótima noite!
Ele se virou e saiu, deixando-me segurar a porta para Cassie passar: — Obrigada – ela agradeceu.
Saltitei para alcançar os seus passos, colocando as mãos nos bolsos da frente dos meus shorts e começando a caminhar silenciosamente ao seu lado. Ficamos assim, escutando algumas poucas cigarras cantando ao nosso redor e o céu estrelado cobrindo nossas cabeças até que, para Cassie, fosse o suficiente:
— Você deve estar se perguntando o motivo do doutor estar me acompanhando para os dormitórios – ela falou em um tom de voz agradável, rouco como era, enquanto arrumava o sobretudo ao redor do corpo. Não era uma noite tão fria assim, mas ela parecia se sentir à vontade – Eu tive um ataque de pânico sozinha ao voltar para o dormitório depois de uma aula extra de História da Arte, e eu acabei me machucando.
Arregalei os meus olhos: — Você podia ter me chamado antes para te acompanhar!
Sua mão esquerda arrumou a franja em frente aos olhos enquanto seus passinhos de bailarina – certinhos e rítmicos – diminuíam de velocidade até parar: — A gente nunca sabe quando alguém está disposto a ajudar por boa vontade. E eu nem mesmo sabia que estava tão sobrecarregada assim para desencadear ataques de pânico depois de tanto tempo – seus olhos me fitaram por alguns segundos, voltando-se para a luz do poste acima de nós – Sabe, eu nunca tinha notado você verdadeiramente até hoje.
Sorri para ela, dando um passo para sinalizar que deveríamos voltar a andar. Cassie me acompanhou: — Digo o mesmo sobre você.
— Quero dizer... eu não posso imaginar o quão ruim deve ser pra você fazer coisas que você não quer – ela suspirou pesadamente, e um gosto amargo estabeleceu-se debaixo da minha língua – Eu tenho um espectro autista muito leve, mas que me impediu de algumas coisas na minha infância. Só agora eu tenho o apoio dos meus pais e... eu não posso imaginar como deve ser viver sem isso.
Minha vista ficou um pouco turva e a cor subiu para as minhas bochechas. Uma parte de mim gritava para afastar esse assunto de uma vez por todas, justificando que ele não deveria ter sido abordado desde o princípio e etc. Mas a outra parte implorava para que Cassie me convencesse que nada daquilo havia sido culpa minha e que nunca seria.
— Uma merda – respondi ao seu questionamento – Depois você se acostuma, vivendo só pra acordar no dia seguinte – resmunguei quando minha bota enroscou-se no chão e me fez tropeçar – Só que depois do Dr. Shurley, talvez isso tenha mudado um pouco. Agora eu acordo para contestar minha professora de Fundamentos da Educação Religiosa e fazer exercícios de respiração com Chuck.
Escutei uma risada límpida, obrigando-me a girar a minha cabeça para ter o rosto de Cassie na minha linha de visão. Sua garganta mexia um pouco, assim como o colar que se perdia no decote da blusa social branca. Quem usa blusa social no dia-a-dia? E por que eu acho isso a coisa mais preciosa do mundo?
— Fico muito feliz por você, Deanna.
— Yeah. Eu também.
Existiam muitas coisas passando na minha mente, muitas perguntas que eu gostaria de fazer para Cassie, muitas desculpas para fazer ela ficar mais um pouco e fazer o restinho da minha noite um bocado mais feliz. Porém nós chegamos à porta do prédio A de dormitórios femininos, o prédio de quartos individuais, e eu parei no pé das escadas enquanto Cassie subia. Vislumbrei seus jeans colados e suas sapatilhas pretas com fitinhas azuis enquanto ela se mantinha em frente à luz da entrada, olhando para mim.
— Às vezes eu sou um pouco lenta e entediante. Eu costumo repetir uma série de coisas todos os dias para não sair muito do meu cronograma, por que isso evita que eu fique ansiosa – ela confidenciou em uma voz um pouco alta, para que eu escutasse -, mas eu não me importaria de abrir uma exceção para um almoço no refeitório com você. O que acha?
Cassie me chamou para sair. Isso rondava a minha cabeça enquanto meu coração batia rápido no meu peito e os dedos das minhas mãos formigavam. Era errado. Eu sequer tinha amigas para evitar situações assim, se John e Mary descobrissem...
— Se isso alivia um pouco da sua tensão, nós vamos estar entre muitas outras pessoas e como amigas – Cassie sorriu para mim, daquele jeito diferente que eu nunca tinha visto antes.
Respirei fundo: — Tudo bem – balancei a cabeça, orgulhosa de mim mesma e sorri para Cassie – Às vezes eu sou rude e glutona, tenho medo de machucar aqueles com quem eu me importo e nunca saí com uma garota antes, apesar de gostar delas. E curto rock clássico, pra caralho. A gente pode almoçar amanhã, e pegar vários cupcakes.
— Eu não mato aula, mas gostaria que você pegasse um para mim – rimos baixinho. Eu podia sentir que ela estava se sentindo mais à vontade com a minha presença, e ela confirmou isso com cinco palavras: — Pode me chamar de Cas.
— E você me chame de Deanna, eu nunca tive um apelido em toda a minha vida – não que jerk e esquilo contém como alguma coisa interessante para uma garota com quem vou sair. COMO AMIGA, sublinhei mentalmente.
— Okay, Deanna.
Peguei-me olhando sorrateiramente para a silhueta de suas coxas enquanto ela se virava e o sobretudo subia, esquecendo-me do mais importante: — Eu não sei o seu telefone! – gritei.
Mas ela havia sumido da minha vista atrás da porta de madeira, e eu virei noventa graus em direção ao meu prédio, listando o encontro da manhã seguinte como mais um motivo para acordar.
***
TEXAS — Universidade Batista de Wayland, 2016. Refeitório. 11:57.
Cassie Novak
Faltavam três minutos para o sinal bater e prestar atenção era o máximo que eu podia fazer. Matar aula nunca esteve e jamais estaria dentro dos meus planos. Obviamente eu não me opunha à ideia de que talvez Deanna não estivesse ligando para o curso e quisesse fazê-lo. Talvez esse fosse o modo mais saudável de enfrentamento para ela, e eu estava feliz por sua satisfação.
Anotei em caneta azul algumas coisas escritas na lousa, complementei com comentários que a professora fazia e colei post-its rosas para curiosidades ou pinturas que eu deveria verificar na Internet. Quando eu anotei um “D”, percebi o quão dispersa eu estava; tinha feito florezinhas e carinhas felizes em volta da letra, já que Deanna merecia.
Olhei para o relógio, e faltavam dois minutos.
Algumas crianças não têm a capacidade de se lembrar de suas infâncias de maneira vívida, mas infelizmente eu tinha. Lembro-me de passar a aula escutando a professora falar e batendo o pé no ritmo do relógio, impossibilitada de ficar parada ou minutos depois eu sentia como se eu pudesse bater minha cabeça entre as mãos até sangrar.
Não que eu sentisse que isso estava voltando de repente, já que eu estava calma. Mas, às vezes, o som do relógio e a maneira como tempo passava devagar me dava um arrepio na espinha e tudo o que eu podia fazer para evita-lo era organizar minhas canetas. Eu estava fazendo isso naquele momento.
— Vamos encerrar por aqui classe – a professora Welch virou-se para nós — Para a próxima aula eu solicito a pesquisa de vocês e em suas palavras eu friso, sobre o modernismo americano, em uma folha avulsa. Escolham uma obra e façam uma análise breve para ser apresentada na próxima semana. Tenham um bom dia.
Recolhi os meus materiais e acenei para Anna Milton, uma garota ruiva da minha sala. Meus pais me explicaram que é legal cumprimentar as pessoas que você conhece, para uma boa convivência: — Cassie! – ela sorriu para mim, vindo na minha direção.
— Tudo bem Anna? – perguntei, sentindo-me culpada por querer deixa-la para ir almoçar com Deanna. Sorri apertado.
— Sim, sim. Hoje nós vamos almoçar fora do campus, você quer ir com a gente? – a ruiva convidou, arrumando sua bolsa lateral verde musgo cheia de desenhos e símbolos em enoquiano. Alguns estavam errados, mas contive o impulso de fazer a observação. Isso doeu um pouco em mim, a ansiedade parecendo atingir as pontas dos meus dedos.
— Eu agradeço o convite, mas eu combinei com uma amiga que iria encontra-la no refeitório hoje para conversarmos. Mas quem sabe outro dia? – eram bordões ensaiados com os meus pais alguns meses antes de eu ir para a universidade, já que eles não poderiam sair do Alasca para me salvar no Texas de maus entendidos e grosserias da minha parte.
Não que eu tenha algum controle, lembrei-me do que o Dr. Shurley sempre ressaltava nas terapias. A culpa não é minha.
— Claro! – Anna sorriu para mim – Se divirta com a sua amiga. Tchau Cassie – ela acenou para mim e eu devolvi o gesto. Tudo bem, tudo estava bem.
ESTOU TRÊS MINUTOS ATRASADA E SE A PRIMEIRA PESSOA QUE REALMENTE ME DEU BOLA ESTIVER INDO EMBORA?
A passos rápidos comecei a ir na direção do refeitório, desviando de algumas pessoas e esperando que, com os saltos que eu dava para evitar as escadas, minha saia não subisse o suficiente para mostrar a minha calcinha de gatinhos. Deus, como eu amo gatinhos.
Entrei no refeitório e virei minha cabeça várias vezes, buscando Deanna com seu rosto sardento e o nariz fininho. Ela era tão bonita. Quando Deanna se ofereceu na noite anterior para me levar para o dormitório, eu torci todos os dedos do pé para manter minha calma. Eu estava tão feliz! Mas estava com medo de afastá-la com toda a minha euforia.
Então tentei me acalmar.
— Cas! Aqui! – virei para o lado e vi duas pernas deslizando de cima da mesa para o chão, cabelos curtos revoltos e desfiados para todos os lados e os olhos verdes tão brilhantes quanto o sorriso que me chamava. Em suas mãos, dois cupcakes de cores diferentes se estabeleciam, o azul já na metade – Eu tentei esperar você, mas eu tenho muita fome.
Na sua bandeja haviam batatas, um hambúrguer mordido e um pedaço de torta, além de um refrigerante: — Tudo bem, eu cheguei atrasada...
— Não! – Deanna acenou com as duas mãos, um pouco de chantilly rosa caindo na mesa – Eu matei a última aula inteira e meio que eu sou uma crítica gastronômica, então a comida me chama. Você não tem culpa!
Ri pelo nariz, colocando minha bolsa em uma cadeira e arrumando minha saia: — Tudo bem – tranquilizei-a – Vou buscar o meu almoço.
Acabei pegando batatas fritas, uma salada e algum peixe sem graça, além de uma água com gás. Quando voltei para a mesa, Deanna estava com o rosto ligeiramente pálido: — Você está bem, De?
Os olhos voltaram-se para mim, confusos.
— De? – ela perguntou.
Encolhi os ombros: — Pensei que, como você não tinha um apelido, eu poderia te chamar assim.
O cenho da loira se franziu e quando eu pensei que tinha feito mais alguma coisa de errado naquele dia seu semblante se suavizou e ela sorriu para mim: — É perfeito.
Não precisávamos de agradecimentos naquele momento, então eu apenas enfiei batatas fritas na minha boca até que ela estivesse à vontade para me falar sobre seu nervosismo e a súbita falta de fome.
— Meus pais me ligaram – assenti, escutando – S-Sabe, às vezes é difícil para eu aceitar que eles estão longe e não estão me controlando, mas eu só consigo me lembrar da minha época no High School e eles exigindo que eu fosse para a igreja e... eles me ligaram agora e eu pensei que fosse por causa do almoço com você – Deanna riu amargurada – Mas na verdade eles só queriam saber se eu vou para casa nesse final de semana. E eu disse que não.
Arregalei os meus olhos, ligeiramente surpresa com aquela afirmação. Eu não podia estar mais orgulhosa da atitude de Deanna, mas eu não sorriria por medo de ter alface nos dentes. Então cobri a minha boca: — Você não está fazendo isso só para provar um ponto, está?
— É claro que não! – Deanna bufou irritada e eu sabia que não era comigo. Era ilógico ela ficar irritada com algo que eu tinha dito, mas Gabriela explicou para mim uma vez que algumas pessoas só querem ouvir que alguém se importa.
Eu estendi minha mão para a sua, e segurei sua palma quente na minha fria. Não pelo que Gabriele tinha dito, mas sim pelo que eu achava certo. Eu queria pegar a sua mão na minha: — É natural da minha parte ficar preocupada, De. Eu não quero que você se machuque – expliquei – Mas saiba que eu acho que sua atitude foi muito corajosa.
Os olhos aguados da garota se viraram para mim, e eu percebi que os meus dedos não formigavam mais de ansiedade. Eu queria acalmá-la também, então apertei sua palma com mais força.
— Você acha? – Deanna parecia uma garotinha perdida buscando um alento, e eu sorri para ela, não me importando com a ausência ou presença de folhinhas verdes entre os meus dentes: — Sim De. Você está de parabéns!
Rimos um pouco e desvencilhamos nossas mãos naturalmente, voltando-nos para nossos almoços. Ela parecia um pouco envergonhada, mas feliz. Isso foi o suficiente para mim.
— Gostei muito do seu pingente – apontei para o colar de Moko perdendo-se entre os seios de Deanna – Você ganhou de alguém?
A loira engoliu um pouco da massa escura do cupcake, mas afirmou de boca cheia: — Yeap! Meu irmão me disse que é um símbolo de proteção, algo sobre algum deus...
—... africano – estendi minha mão na direção dos seus seios e busquei entre eles o colar. De repente notei minhas ações e lancei-me para trás, vendo o rosto vermelho de Deanna observando meus dedos – Desculpa! Às vezes eu não tenho noção das coisas que eu faço por que eu não vejo malícia pelo fato de que eu não sinto nada! Eu vou entender completamente se você não quiser mais falar comigo e eu vou até fechar os olhos para isso ficar menos constrangedor para nós duas – apertei meus olhos e balancei a cabeça repentinamente para os lados, buscando conforto no balanço. O pânico esmagava os meus pulmões e eu pensei que Deanna viraria um soco em mim por eu ser tão atrevida, mas eu apenas senti sua mão no meu ombro.
— Ei, Cas – sua voz ficou rouca e baixinha, cobrindo todas as outras vozes do refeitório que tinham ficado ainda mais altas – Isso foi... estranho, incrivelmente quente e totalmente fora da minha zona de conforto, mas se você diz que não tinha malícia nisso, e eu sei que você não sente nada, então eu acredito.
— M-M-Mas eu... isso foi sem o s-seu consentimento. A culpa é minha.
— Você tem todo o consentimento para fazer o que quiser comigo e, se eu não gostar, eu direi para você – a palma da sua mão estabeleceu-se nas minhas costas, esfregando em movimentos lentos a minha pele subitamente sensível por cima das minhas camadas de roupa – Cas, você quer sair daqui?
Meus olhos ainda estavam fechados até então, logo eu os abri e percebi que algumas lágrimas tinham escorrido pelo meu rosto: — Mas vamos levar as batatas. E o seu hambúrguer.
— E os cupcakes, não se esqueça!
Andamos com as comidas equilibradas nas nossas mãos até o pátio repleto de grama e nos sentamos perto de uma família de joaninhas: — Oh, eu não via joaninhas com tanta frequência em Anchorage.
Deanna estava bebendo o seu refrigerante e soluçou estranho, tossindo depois: — Você mora no Alasca?
— Tecnicamente eu moro aqui agora, mas sim, eu vim do Alasca.
— Wow! É bem longe daqui. Eu sabia que o seu sotaque não era texano – a garota apontou orgulhosa de si mesma pela observação – Eu sou de Lawrence, no Kansas.
— Parece ser um lugar legal para se viver – arrumei a minha saia, sentindo a graminha pinicar meu bumbum. A tensão anterior ainda estava presente sobre meus ombros, mas eu tomava golfadas de ar profundas para me acalmar – Você e seu irmão gostam da região?
Deanna bebeu mais um pouco do refrigerante e particularmente eu achava que ela gostava de fazer bastante barulho ao comer, mastigando de boca aberta e sorrindo com pão grudado nas gengivas.
— Eu gosto, bastante. Sammy quer ir para Stanford e ficar longe de Lawrence por um bom tempo – a loira suspirou baixinho – Eu saí de lá por necessidade, mas meus pais me obrigaram a fazer Estudos Cristãos e me tornar uma boa moça.
Pisquei para o pensamento retrogrado e ilógico dos pais de Deanna: — Desculpe-me falar isso, mas... o Sr. e a Sra. Winchester têm pensamentos arcaicos. Eles não podem achar que você cursar Estudos Cristãos vai te tornar uma moça direita. Ninguém é perfeito! Além disso, eu adoraria visitar um restaurante seu e eles estão me privando dessa oportunidade.
Gabriela dizia que as melhores piadas chegam quando você menos espera. Eu não julgaria aquela frase como uma piada, sequer havia resquícios de ironia na minha voz, mas Deanna abriu a boca – agradavelmente livre de qualquer comida mastigada – e riu audivelmente, fazendo alguns passarinhos voarem da árvore ao nosso lado.
— Quem diria... Cas, uma piadista!
Sorri dando uma risadinha: — Eu tento, eu tento...
— Senhoras e senhores, e ela continua! – seus cílios estavam cobertos de rímel e ligeiramente molhados pelas lágrimas das gargalhadas e quando o sol bateu contra o seu rosto e refletiu nos seus olhos verdes eu soube que ela era a garota mais bonita que eu já tinha visto em toda a minha vida.
Mesmo com toda a minha estranheza, minhas manias e meu pânico, eu sabia que eu queria beijar ela pelo menos uma vez enquanto eu estava viva. E para isso ela precisava estar completamente confortável com si mesma.
— Como é viver no Alasca? – a voz de Deanna se acalmou, e eu mordisquei um pedaço do meu cupcake com cobertura rosa antes de responder. Estava uma delícia.
— Frio, principalmente – ri com Deanna – Mas é agradável. Lá tem um porto, muitas montanhas cobertas de neve, é um lugar lindo para tirar fotos! – respondi entusiasmada – Quando eu era pequena, eu costumava ter dificuldades em me concentrar, principalmente no verão. Então meus pais começaram a me levar para uma pista de patinação, onde eu aprendi a dançar um pouquinho e me deixar ser.
Meu tom de voz aprofundou-se quando comecei a falar da minha infância, sendo ela um dos momentos mais difíceis de toda a minha vida. Deanna aproximou-se de mim, limpando a blusa e as calças jeans das migalhas de hambúrguer e cupcake: — Você está vivendo em um estado relativamente mais quente, Cas. Tudo bem com isso?
Dei de ombros, lambendo um pouquinho do chantilly do doce de chocolate que eu segurava: — Eu fui em vários psicólogos durante toda a minha vida e o que você aprende com eles De é que, se você quer alcançar um objetivo – fiz um punho e balancei-o no ar, como se pegasse algo -, viver do seu jeito e sem medo de virar uma esquina e não saber o que pode ou não desencadear um ataque de pânico, você precisa superar obstáculos. Sejam eles literais ou não. Os meus, no caso, eram o calor e a baixa-estima.
Deanna lançou uma mão nos meus cabelos, acariciando a minha nuca e enroscando os dedos em alguns fios. Seu sorriso me salvou ali, tenho certeza. Talvez tenha dissolvido um coágulo ou desentupido alguma veia, mas eu senti uma parte de mim renascendo com um simples fodido — como diria Gabriela – sorriso.
— Você é tão bonita, Cas. Não posso imaginar como você podia ter uma baixa-estima – ela falou baixo, observando o meu rosto como se ela tentasse se convencer de que eu era real.
— Não, De. Eu sei que sou bonita...
— Tão modesta! – a loira gargalhou ainda acariciando os meus cabelos e eu agradeci mentalmente por isso. Será que eu fiz outra piada?
—... mas eu tenho Asperger e algumas partes de mim são feias. Sabe, aquela coisa de organizar as calcinhas e meias por cores e dias da semana? Exato. Eu era estranha na Elementary School por que eu já sabia tocar piano e estava aprendendo violino. Me chamavam de monstra superdotada ou Megamente. Algumas crianças podem ser cruéis quando não entendem aquilo que acabam de descobrir. Então eu passei a ignorá-las e me tornei quem sou hoje. Não sou 100%, mas talvez uns 87%?
Deanna desvencilhou os dedos da mina nuca e arrumou a minha franja, e eu franzi o nariz pelas cócegas em minhas pálpebras semicerradas. Ri curto para ela, que me observava tão serena que por alguns segundos eu me perguntei se ela realmente havia me escutado: — Não mude. Se supere ainda mais Cas. Você é a maravilha de um anjo, como eu não te notei antes? – De balançou a cabeça parecendo incrédula de si mesma, e senti minhas bochechas corando.
Não houveram beijos naquela tarde até o nosso segundo período de aulas, momento no qual Deanna saiu cabisbaixa para se aprisionar em mais uma sala na qual ela odiava estar. Não houveram abraços ou caminhadas de mãos dadas até o refeitório que nos separaria. Deanna só perguntou: — Você tem aulas noturnas hoje?
E eu respondi: — Não.
Ela arrumou a mochila nas costas e ergueu o rosto para mim com um sorriso tão lascivo e natural e perguntou: — Você pode me passar o número do seu celular dessa vez?
Eu coloquei uma mão sobre a boca, rindo: — Por que não?
E enquanto eu caminhava para a minha aula de Forma, Cor e Composição, eu percebi o quão natural eu conseguia ser com ela. Meu jeito de falar, de sentar, de contar piadas – ou tentar – e me expor. Não havia medo de que ela me julgasse, pois ela não faria.
Definitivamente eu tinha um crush em Deanna Winchester.
***
TEXAS — Universidade Batista de Wayland, 2016. Dormitório de Cassie. 13:39.
Deanna Winchester
— É taciturno!
— É poético, De. Poesia não é apenas purpurina e beijos. A arte pode ser estranha e triste e preta e branca... – Cas respondeu mal-humorada, seus cabelos amarrados em um rabo de cavalo despenteado e caótico no topo da cabeça. Particularmente ela parecia uma cientista maluca, mas eu só a abracei forte, sabendo que pressão profunda³ era um dos métodos que mais a acalmava.
— Por que você está assim, andorinha? – rodeei os meus braços em volta dos seus, sentindo sua respiração descompassada no meu pescoço. Naquela mesma semana, Cas teve um ataque de pânico no grupo de apoio e eu não pude fazer nada para ajudá-la, ficando apenas desesperada atrás do Dr. Shurley que a acalmava.
— N-Não consigo... resp-pirar... – Cassie tomava respirações rasas e ruidosas, assustadoras e tão fora da minha realidade que tudo o que se passava na minha frente era tão irreal quanto um sonho.
— Sinta o meu coração Cassie – Chuck colocou a palminha pequena e trêmula de Cassie em seu peito, inspirando profundamente. Inconscientemente eu fiz o mesmo, tentando me acalmar, e Cassie parecia estar inclinada a fazê-lo, o rosto repleto de lágrimas e sua voz rouca de tanto gritar “pare com esse barulho!” lamuriando como uma criança assustada.
Na minha cabeça, estar abraçando Cassie com tanto carinho e preocupação me trazia avisos nas vozes de meus pais. Era inevitável. Eu conseguia me ver trancada no quarto de novo, proibida de sair com meus amigos depois de toda a confusão com a garota Bela.
Mas era Cas ali, aquele pequeno anjinho dos olhos azuis que sempre me colocava pra cima com seus discursos motivacionais sobre “superar barreiras” e “defender bandeiras”, nem que ela precisasse costurar um coração pansexual sobre uma bandeira preta, cinza, branca e roxa.
E desenhar uma para mim, para eu guardar no meu bolso e me acostumar com a ideia de que as cores azul, rosa e roxo eram minhas novas melhores amigas.
— Acho que é saudade dos meus pais – a morena fungou, acalmando-se depois de alguns minutos. Ela levantou os braços e segurou meus ombros, sorrindo corajosamente para mim piscando para deixar as últimas lágrimas caírem – Eu também estou lotada de trabalhos e eu preciso organizar as minhas meias.
— Você quer que eu as organize para você?
Então lá estava eu, catalogando meias rosas e pretas para segundas-feiras, amarelas e brancas para terças, amarelas e cinzas para quarta, azuis e roxas para quinta e estampadas para sexta-feira, por que sexta-feira era o dia corajoso de explorar um novo lugar e usar uma estampa diferente.
— Oh, De! Você faz bolinhas tão perfeitas – Cassie observou sobre o meu ombro – Obrigada por fazer isso por mim, eu finalmente terminei a minha pesquisa. Welch consegue atormentar os meus sonhos com essa ideia de “entregue o trabalho no prazo ou um dia eu vou te matar”.
— Ela parece vingativa.
— Você não imagina o quanto – Cas cutucou o meu ombro e me fez virar para trás.
Sua silhueta não era muito marcada, disso eu sabia, mas o vestido preto decotado acentuava sua cintura e ressaltava a pequena fitinha azul amarrada em seu pescoço, que se movia conforme sua respiração mudava ou ela engolia. Nos pés ela usava All-Stars que pareciam pintados por ela mesma, algo que pareciam cometas rasgando o céu escuro. Suas bochechas estavam brilhantes e coradas, seu cabelo solto contornando o rosto e os pequenos olhos livres de qualquer maquiagem me observando. Sua boca não tinha nada mais que um gloss.
Ela era tão linda que eu queria chorar.
— Você se trocou atrás de mim e eu nem percebi?! – a primeira coisa estúpida que me veio à boca.
— Na verdade, sim – Cas riu e mostrou seus dentinhos. Ela era uma flor – Algum problema?
Balancei a cabeça assustada: — N-Não, claro que não. É que eu... você... er- você sabe, eu- droga!
Virei o meu corpo para a cômoda de Cassie, apoiando meus cotovelos nela e deixando minha cabeça cair entre as mãos. Eles não estão aqui. Eles estão em Lawrence, no Kansas. Você está no Texas com uma garota muito quente e muito bonita e que te respeita muito. John e Mary não podem encostar em você. John e Mary não podem te fazer mal aqui.
— Deanna? – o meu nome parecia desacostumado na voz de Cassie e ela gaguejou ao me chamar, provavelmente preocupada com a minha reação nada menos do que imbecil.
Virei minha cabeça tentando privá-la de toda a frustração que transpareceu nos meus olhos por milésimos de segundos e sorri em sua direção: — Se nós vamos sair em um segundo encontro, espero que seja ‘pra valer.
Cas parecia subitamente esperançosa, entrelaçando os dedinhos animados na frente do corpo e pondo-se nas pontas dos pés e descendo, várias vezes. Sorri com a capacidade da garota de ser cada vez mais adorável: — Você tem ideia de algum lugar em que possamos ir?
Pensei por alguns minutos.
— Você gosta de mágica?
***
TEXAS, River Walk Street, 2016. 17:46.
Deanna Winchester
— Você definitivamente demora muito ‘pra se arrumar – Cassie brincou com o meu brinco antes de nos sentarmos nas mesas de um restaurante de comida texana em frente ao rio. O clima estava começando a esfriar e eu me obriguei a começar a tirar a jaqueta que vestia – Você lembra que eu vim do Alasca, certo? Pra mim esse clima é de verão. Meu sobretudo está comigo, além disso.
Formei um “o” com a minha boca enquanto voltava a colocar minha jaqueta: — Tudo bem, Elsa.
— Você é quem tem muito fogo – Cassie gargalhou corando do que havia falado e eu a acompanhei.
— Acho que alguém está passando muito tempo comigo – cantarolei feliz como não ficava há muito tempo. Um encontro. Com uma garota. Finalmente. Observei sua mãozinha estendendo-se para fora da cerca que protegia as pessoas de caírem no rio, sentindo a mudança de temperatura.
— Eu até que estou gostando disso – ela desviou os olhos do rio – Quero dizer, gostando do que estamos tentando – seu braço atravessou a mesa e seus dedos alcançaram a palma aberta da minha mão.
Pensei em responder algo, mas antes que eu tivesse a chance de abrir a minha boca para algo além de um sorriso torto, uma voz surgiu do nosso lado: — Uma boa tarde quase noite, garotas. O casal gostaria de fazer os pedidos? – um homem simpático com um crachá bonitinho que estampava “Kevin” perguntou.
Casal. A ideia aqueceu meu pescoço e minhas bochechas, e eu tinha certeza de que elas estavam tão vermelhas quanto o meu batom.
— Sim, não é amor? – aqueleincríveleperigososorrisodeCassieestavamematandolentamente. De onde ela tirou esse atrevimento?
— C-Claro – mas eu não perderia um desafio, então me ajeitei na cadeira e apertei sua mão com um pouquinho mais de força, pegando o cardápio e abrindo-o na nossa frente – Hoje é a minha garota quem fará o pedido. Ela é tão bonita e tem uma confiança tão forte – encorajei-a com um sorriso, e a aura ao seu redor mudou.
Cassie havia dito em uma das sessões de terapia em grupo que, às vezes, ela preferia ouvir elogios que a encorajassem do que tentar agir sozinha em uma situação de exposição. Eu estava ali, apoiando-a como ela fez por mim ao decorrer daquela semana, e eu esperava que ela se sentisse segura comigo.
Seus olhos vasculharam o cardápio inquietamente, Kevin sendo um atendente gentil não nos apressando ou bufando: — V-Vamos querer um Akaushi Burger, me desculpe se não pronunciei certo – suas bochechas coraram quando ela se voltou para a parte infantil do cardápio -, um Bronco Buster por que é menor, uma Heineken e... vocês têm suco de laranja?
— Pode apostar que temos! – o garoto asiático anotou tudo tão rapidamente que eu fiquei assustada. Kevin confirmou o pedido e nos deixou a sós, sorrindo adoravelmente.
Virei-me para Cas, que ainda mantinha sua mão na minha. Eu podia sentir que estávamos suando, mas eu não fiz muita questão de desembaraçar nossos dedos: — Você fez muito bem, querida.
A morena revirou os olhos, mas manteve o sorriso em seu rosto: — Acho que nós deveríamos descobrir mais sobre a outra – ela apontou e arrumou a franja que esvoaçava com o vento agradável.
— É verdade – concordei – Vamos fazer um jogo? Uma pergunta por uma pergunta?
Cas sorriu, soltando sua mão da minha e apoiando o queixo nas suas palmas entrelaçadas: — Pode começar. Adoro jogos intrigantes!
Sorri para aquela pequena miragem sendo iluminada pela luz das velas sobre a mesa e pelas lâmpadas amareladas do estabelecimento: — Qual é a sua cor favorita?
— Azul. E a sua?
— Rosa.
— Você não parece uma garota de rosa, Regina George.
— E você não parecia uma garota de piadas até então, Jim Carrey.
— Sou mais Steve Martin.
— Touché— formei um biquinho – Minha vez de novo! Qual é a sua música favorita?
Dessa vez Cassie hesitou: — Estou entre Spring de Vivaldi e Silence de Beethoven.
Fiz minha melhor cara de indiferença.
— Eu não faço a mínima ideia de quais sejam essas músicas – Cas riu e começou a cantarolar animadamente uma, sua voz desafinando algumas vezes – Essa eu reconheço!
— Todo espectador assíduo de filmes de época conhece essa. Spring é maravilhosa – seu sorriso era revelador, toda sua paixão por música estampada naquela abertura de lábios finos que eram os seus – E a sua música favorita? – Cas me perguntou e eu também me peguei pensando. Talvez escolher coisas boas em nossas vidas fosse algo mais desafiador.
— Acho que Changes, de Black Sabbath – meus olhos desviaram-se para a escada de pedras que estava atrás de algumas mesas, sua extensão limpa e movimentada naquele período da noite. Algumas imagens de Bela vieram à minha cabeça, alguns gritos e a extensão de cicatrizes que agora pertenciam à pele da minha barriga – Acho que eu deveria escolher outra, apesar de amar essa. Ela traz muitas lembranças.
Escutei Cas estalar os dedos na minha direção e eu voltei meus olhos para os azuis, que de repente pareciam tão preocupados. Não era meu objetivo deixa-la triste ou aflita naquela noite; aquele era o nosso segundo encontro oficial, e ela estava sendo a pessoa mais querida e atenciosa do mundo.
A última coisa que eu queria era desfazer esse encanto que era o sorriso em seus lábios, mas aquele flashback quebrou alguma linha de felicidade que eu tinha em mim, e eu já não tinha forças para justificar o motivo.
Eu a deixei triste e nem consigo desfazer isso. Você é uma imbecil.
— Todas as músicas trazem lembranças – Cassie começou em voz profunda, como se ela própria estivesse se lembrando de algo. Estendi a minha mão, querendo afugentar qualquer sentimento ruim que se estabelecia debaixo da sua pele. Pelo menos isso eu conseguia fazer – Cabe à você deixar que elas deturpem algo que pode significar tantas coisas.
Meu peito se aqueceu e meu rosto relaxou. Era inevitável o efeito que Cassie tinha sobre mim. Se era saudável ou não, talvez eu não estivesse sã o suficiente para julgar: — Você é muito especial, andorinha. Obrigada.
— Você também, tigre.
Arregalei os meus olhos e apontei um dedo em riste para Cassie, surpreendendo-a: — Isso foi uma referência à Survivor?! Você é a minha mais nova referência de vida, Cas.
A morena franziu o cenho parecendo ligeiramente confusa: — Na verdade você está com esse delineador de gatinho e eu pensei em um, mas você é tem muita atitude e força para um simples animal doméstico, apesar de que meu Deus, como eu amo gatinhos. Então pensei em tigre – Cassie deu de ombros – Mas se você quiser eu posso fingir que sim, foi uma referência à Survival.
— Na verdade é Survivor, mas tudo bem andorinha. Eu adorei o apelido – a fitinha em seu pescoço se moveu conforme a risada borbulhava e de repente escapava da sua boca, um som alto e descontrolado.
— Eu sou horrível em chegar nas pessoas! – ela constatou.
— Você chegou em mim, o que é bem complicado. Na verdade eu te colocaria em um pedestal só para te parabenizar pela coragem.
Cassie continuou sorrindo comigo e ficamos em silêncio por alguns segundos, sem nenhuma necessidade de palavras. Não era o tipo de silêncio constrangedor, e sim aquele agradável que se estabelece sobre duas pessoas quando elas têm intimidade o suficiente.
Eu estava completamente feliz.
— Chegaram os pedidos do casal mais bonito da América!
Erguemos nossos olhos e fitamos Kevin segurando a bandeja com nossos pedidos. Seus cabelos estavam grudados na testa, provavelmente suados pelo tempo preso na cozinha. Peguei-me pensando: quantos anos será que ele tem e por que ele está aqui?
— Um Bronco Buster para um estômago pequeno – ele colocou o prato com o pequeno hambúrguer na frente de Cassie, que colocou os pulsos sobre a mesa observando os próximos de Kevin como um felino -, Akaushi Burgerpara os exploradores de novos sabores – ele colocou o fucking hambúrguer gorduroso e suculento diante os meus olhos -, uma cerveja para quem eu não vou pedir a identidade e um suco de laranja para a loira!
Troquei olhares com Cassie e nós nos viramos para Kevin, que parecia segurar uma risada: — Eu estava brincando, um suco de laranja para você – ele reposicionou o suco – e a cerveja para você – se perguntarem, essa cerveja é sem álcool. Qualquer pedido ou reclamação, é só me chamar! Me chamo Kevin, mas eles costumam me chamar de Profeta. Se vocês descobrirem o motivo, ganham um doce.
Cas deu uma risada simpática e assentiu, voltando-se para o seu lanche. Eu saquei a minha carteira da minha bolsa antes que o garoto pudesse ir embora e estendi para ele vinte dólares: — Por fazer minha andorinha rir. E por ser um profeta, mas eu realmente terei que dormir o resto da minha vida com essa dúvida.
O garoto guardou o dinheiro: — Vocês podem entrar depois para pagar a conta comigo. Aproveitem e participem do Karaokê que temos! – ele sorriu para nós antes de se afastar, e eu não me importei de pegar o hambúrguer depois de manusear o dinheiro.
Trocamos algumas palavras sobre o quão gostoso estavam os hambúrgueres, eu convenci Cassie a beber um gole da minha cerveja e ela balançou a cabeça afirmando que era gostosa, mesmo que seu rosto contorcido dissesse o contrário. Aquela noite estava sendo maravilhosa.
Eu não queria que acabasse nunca.
Quando terminamos, Cassie pousava uma mão sobre o estômago e limpava os dedinhos em um guardanapo. Eu deveria estar sem metade do meu batom vermelho e bebi meu último gole de cerveja antes de pegar a maquiagem na minha bolsa, passando um pouco mais sobre os meus lábios.
— O show de mágica começa daqui quarenta minutos Cas. Você quer fazer alguma coisa antes de irmos comprar os ingressos? – chamei sua atenção e voltei a guardar o batom na bolsa. Seus olhos fitaram a minha boca e voltaram-se para o estabelecimento fechado.
— Eu quero que você cante uma música pra mim – ela falou calmamente – Sabe, no Karaokê, se estiver tudo bem.
Não pensei duas vezes, levantando-me da cadeira e estendendo a minha mão para pegar na de Cassie, que se levantou, arrumou o vestido e pegou seu sobretudo e sua bolsa para depois pegar na minha mão. Nós sabíamos que elas estavam gordurosas de carne e molhos, mas não nos separamos até achar Kevin novamente.
— Se não é o segundo casal mais meloso da noite!
— Achei que fossemos o primeiro – peguei o papelzinho que ele nos estendia e peguei minha carteira novamente, surpreendendo-me quando Cassie estendia duas notas verdinhas para Kevin: — Eu pago hoje – e me lançou o sorriso mais iluminado possível.
— Oh, é verdade – Kevin brincou consigo mesmo, devolvendo o troco para Cas. Ela guardou as notas com suas unhas coloridas na carteira preta cheia de strass e virou-se para mim, ainda esperançosa.
— Kevin, como eu faço para cantar uma música no Karaokê?
Então pela segunda vez no dia eu me encontrava em uma situação completamente desconhecida, tão estranha quanto catalogar meias para dias da semana de acordo com suas cores: cantando Eye Of The Tiger, com direito a dança e tudo, para uma garota que de repente tinha um chapéu de caubói vermelho na cabeça e uma camiseta azul entre os dedos.
— So many times, it happens too fast, you change your passion for glory!— ergui meu punho e chutei o ar, vendo algumas pessoas se levantarem para me verem cantar. As bochechas de Cassie e as minhas próprias estavam vermelhas, nossos sorrisos nunca se desmanchando.
Talvez fosse o álcool no meu sangue e a adrenalina no de Cas, mas quando me dei conta seu corpo estava abraçando o meu e nós estávamos cantando no microfone: — And he's watchin' us all in the eye of the tiger — minha pequena andorinha não sabia a música o suficiente para cantá-la no ritmo certo, mas seu falsete até que contrastou bem com aquilo que reverberava para fora da minha boca.
Talvez fosse algo mais cavado.
Saímos do restaurante acenando para Kevin e fugindo das salvas de palmas altas demais para Cassie, que começou a se assustar. Mas mesmo assim um sorriso no seu rosto se estabelecia e eu não podia estar mais feliz.
— Eu só tinha ouvido essa música naquele filme do lutador! – Cas disse e eu gargalhei, jogando meu braço sobre seus ombros e começando a caminhar suavemente ao seu lado.
— Rocky?
— Exato! – ela saltitou – Você estava tão gostosa dançando lá em cima. Eu só conseguia pensar em te beijar.
Estaquei no lugar, as palavras “gostosa” e “beijar” reverberando na minha cabeça através da voz de Cassie. Ela se livrou do meu braço e apertou as mãos sobre a boca e deu dois passos vacilantes para trás, aquela aura insegura atravessando o seu corpo mais uma vez: — Eu não quis...
Atravessei o espaço que nos separava, segurando o seu braço sem força, apenas para mantê-la no lugar. O vento batia forte contra nós e o chapéu de caubói vermelho de repente estava caído para trás de sua cabeça, sendo pendurado apenas pela cordinha no seu pescoço: — Você tem certeza de que não quis dizer aquilo?
Os olhos azuis de Cassie estavam confusos, aflitos, como se buscassem respostas e desculpas para aquele ato. Poucas pessoas passavam por nós naquele momento, e nenhuma delas realmente prestando atenção em nós.
— Eu... v-você estava muito linda. Realmente gostosa nessa minissaia de couro. Não que eu queira algo sexual com você, mas... de repente eu queria muito te beijar. E é isso.
Seu rosto caiu, os cabelos cobrindo-o como cortinas como se ela estivesse tentando escapar do meu olhar reprovador. Naquele momento eu não pensei em John ou em Mary ou em Sammy ou em Bela e em tudo que eu havia passado durante meu High School. Eu não pensei que eu realmente estava congelando naquele vento frio por causa do rio, ou que Cassie tinha um cílio na bochecha.
Só depois de colocar a minha mão na sua nuca, inclinar a sua cabeça para trás e encostar os meus lábios naquela boca é que eu pensei em tudo.
E em nada.
Não foi uma batalha de línguas ou uma busca por espaço. Não foi um beijo cinematográfico ou um beijo francês. Ninguém realmente dominou aquele ato e nenhuma de nós de fato segurou as lágrimas. Havia saliva, gosto de gloss e batom barato, língua e dentes. Nós soluçávamos como pré-adolescentes descobrindo-se ao primeiro orgasmo sem mesmo chegarmos a um.
Éramos estrelas morrendo, explodindo em um universo onde o vácuo não permitia som, brilhando por alguns anos luz e de repente se apagando.
Mas nunca sumindo verdadeiramente ou para sempre. Aquele momento era e sempre seria infinito naqueles minutos em que embaralhamos nossos dedos nas roupas uma da outra.
Não posso dizer que quando chegamos ao show “The Magicians” nós vimos alguma mágica além da nossa.
***
TEXAS — Universidade Batista de Wayland, 2016. Dormitório de Cassie. 03:48.
Cassie Novak
Deanna presenciou dois ataques de pânico meus. Em um deles, Dr. Shurley me ajudou a ficar calma e Deanna me acompanhou até a ala médica da universidade, onde eu liguei para os meus pais e os certifiquei de que tudo estava bem.
No outro Deanna me acompanhava para os dormitórios à noite, e quando um gato passou correndo por nossa frente mais parecendo um leopardo possuído por um demônio eu caí de joelhos no chão, a dor se alastrando por minhas pernas e parecendo tomar todas as células do meu corpo até o meu peito. Lembro-me de pensar que eu sabia que morreria um dia, mas não daquela maneira.
Mas Deanna parecia mais preparada do que da última vez, não se aproximando de mim subitamente e erguendo as mãos para cima.
— Não vou tocar em você sem a sua permissão – ela usava aquela camiseta gigante e ridícula que eu havia comprado no restaurante do nosso segundo encontro, onde os dizeres “come and take it” eram estampados – Está tudo bem, você está segura, você está comigo. Estamos na universidade.
— Eu n-não consigo... – a frase não sobrevivia para fora da minha boca, o ar entrando ruidosamente nos meus pulmões e fazendo-os doer. Minha visão ficava cada vez mais turva, e eu sabia que iria desmaiar a qualquer momento.
Mas então Deanna pegou na minha mão com toda a delicadeza possível e colocou-a sobre o seu seio esquerdo, por dentro da blusa. Ela não usava sutiã, e eu pude sentir toda a real temperatura e textura da sua pele contra a minha: — Sinta meu coração, andorinha. Respire fundo comigo. Dentro e fora. Dentro. Fora. Isso, muito bem. Você está indo muito bem!
Aqueles elogios eram desnecessários, já que eu não tinha feito nada de surpreendente, mas tudo era ilógico e um pânico imenso, então deixei que eles me acalmassem.
— Você quer que eu te abrace, Cassie? – Deanna perguntou baixinho, sua voz limpa e serena. Ela estava ali comigo, provavelmente tão apavorada quanto e me oferecendo um abraço. Assenti, não tirando a minha mão do seu seio e deixando que ela me levantasse para cima de suas coxas, abraçando-me com força o suficiente para me fazer estremecer.
Ficamos alguns minutos naquela posição, o pânico se dissolvendo e o cansaço me atingindo como um soco e meus olhos começaram a se fechar: — Você acha que consegue ir até o seu quarto comigo?
E com certeza a minha tigrezinho se importava comigo.
Por isso que naquele dia, quando pela primeira vez presenciei um ataque de pânico de Deanna, eu me obriguei a manter a calma.
Entreabri meus olhos, sentindo uma movimentação estranha e rude na cama. Pensei em xingar Deanna por ser espalhafatosa pela manhã e me acordar daquela maneira, mas então eu senti um aperto na minha blusa e abri os olhos completamente, sentindo o suor de Deanna espalhando-se por toda a minha regata de dormir e seu coração batendo rápido sobre meu estômago.
— Ei, De – deslizei seu corpo e coloquei sua cabeça contra o meu travesseiro, vendo o formato do seu corpo encolhido como uma criança querendo proteger-se de monstros. Seus cabelos estavam empapados de suor, os olhos cerrados e deixando algumas poucas lágrimas escorrerem e seu corpo estava muito tenso para estar adormecido – Olhe para mim, está tudo bem.
Os olhos verdes abriram-se irrigados, parecendo tão machucados pelas lembranças que eu mesma quase chorei. Sua mão atravessou o espaço que nos separava e eu a apertei com os meus dedos. Os seus estavam tão frios e pálidos que o verde musgo de suas unhas mais parecia verde escuro. O soluço atravessou a sua boca, um fio de saliva caiu sobre os lábios e os olhos voltaram-se a fechar, humilhados por toda aquela cena.
— Posso fazer algo por você, De? – deitei-me ao seu lado, sentindo os soluços balançarem a minha cama. Rodeei o seu corpo com meus braços e plantei em seu cabelo gorduroso muitos beijos – Você quer que eu te abrace bem forte?
A loira demorou alguns segundos para responder, mas assentiu forte com a cabeça: — Tudo bem, eu vou te abraçar bem forte então. Você está comigo, então o que quer que tenha acontecido em seu sonho é apenas uma ilusão. Você está segura comigo.
Ecoei as mesmas palavras que ela tinha recitado para mim, e eu observei por cima de sua cabeça o suor em suas coxas, a calcinha de bolinhas roxas, ressaltada na pele bronzeada.
Embalei o seu corpo por alguns minutos, quase como nunca fiz em dois meses juntas. Como quando Gabriela me embalava depois de um pesadelo, sempre cantarolando alguma música desconhecida. Deanna não parecia mais tão assustada, então afastei seu rosto do meu pescoço molhado. Ela era bonita demais para chorar.
— O que houve, tigre? – perguntei baixinho, sentindo sua respiração falhando contra o meu peito.
Deanna suspirou: — Eu sonhei com Bela – a garota filha da puta que estragou o resto do High School da minha garota, é, com certeza Deanna estava chateada.
— Você nunca me contou tudo o que aconteceu Deanna – falei baixinho – Fazer isso talvez ajude. Sou toda ouvidos – Gabriela me disse que é uma expressão para: estou ouvindo tudo o que você disser.
A loira olhou nos meus olhos, algumas lágrimas ainda caindo dos seus: — Eu nunca pensei que eu pudesse ser bi, sabe – Deanna começou a dizer, colocando o corpo para cima e se sentando de frente para mim, eu ainda deitada no meu travesseiro – Quando comecei o meu High School eu só pensava em estudar para passar em Gastronomia e sair com minhas amigas. Então um dia ela entrou na minha sala de História e disse para mim “ei, eu vi você no refeitório esses dias! Você é muito bonita”. Então nós matamos algumas aulas juntas, lanchamos juntas e algumas vezes eu a levei em casa, mas eu sabia que queria algo mais.
— Bela também queria algo mais, então começamos. Foi um namoro secreto que durou três meses. Da minha família, apenas Sammy sabia. Mas ele nos apoiava completamente – sua voz começou a falhar e eu sabia o quanto deveria estar doendo segurar o choro – E-Então ela começou a ficar agressiva, começou a sair com outras pessoas e eu não ligava, eu achava que nunca encontraria alguém como ela de novo.
— De...
— Não, me deixe terminar, por favor – ela estendeu a mão para mim e limpou as lágrimas, arrumando sua camiseta de dormir antes de continuar: — Então um dia meus pais foram me buscar na escola e eu descobri que Bela tinha contado tudo. Tudo! Meu pai me deu um tapa no rosto e minha mãe ficava perguntando “o que foi que eu errei?” como se eu fosse simplesmente abrir a porra da minha boca e dizer que a culpa não era deles, e sim minha! Mas eu também não tinha culpa!
Deanna suspirou fortemente: — Então eles me levaram para a igreja. O pastor veio falar comigo, mostrar que eu iria para o inferno e aí eu o mandei para o inferno. Dessa vez o tapa veio da minha mãe, e eles me jogaram no carro junto com Sammy e disseram que eu era uma decepção, uma garota ingrata. Que eu tinha nascido uma garota e que garotas precisam se procriar com homens para continuar a repassar a palavra do Senhor. Eu me culpei por tanto tempo Cassie, por tanto tempo...
Os soluços da minha garota recomeçaram fortes, e eu estendi o meu braço para estabelece-la sobre o meu corpo: — Você não tem culpa de nada. Deus não vai te castigar pelo que ou por quem você gosta ou deixar de gostar, Ele apenas não quer ver você se culpando por algo que o Sr. e a Sra. Winchester pregam. Essa não é a palavra Dele.
Algo dentro de Deanna se quebrou, pois os soluços transformaram-se em urros sofridos e ela espasmava até ficar sem ar, sugando-o erraticamente para depois fazer tudo de novo. Eu sabia que eram quatro horas da manhã e que eu tinha vizinhos bem mal-humorados, mas eu não impedi Deanna de chorar.
Aquele era o seu momento de liberar tudo, e eu estaria ali para remendar alguns pedaços.
De acabou adormecendo uma hora depois, suspiros desregulares ainda atravessando a sua boca e o som aquoso das respirações que ela tomava com o seu nariz. Então saí da cama com cuidado, busquei no armário o meu cobertor de pressão profunda e coloquei sobre o seu corpo, sabendo o quanto aquilo a ajudaria a continuar dormindo por um bom tempo.
Eu decidi não dormir naquela noite, ansiando por Deanna acordar. Sentei-me sobre o meu pequeno sofá, reli alguns capítulos de A História da Arte com a luz do abajur acesa e quando o meu despertador anunciou seis horas da manhã com seu som infernal, segurei a caixinha que estava sobre o meu colo com muita força através do susto e pulei sobre ele, querendo subitamente que Deanna não levantasse.
Tarde demais.
— Bom dia andorinha – sua voz era rouca e congestionada – O que é isso na sua mão?
Escondi atrás das minhas costas: — Nada!
— Qual é, Cas! Você está escondendo algo. O que é? Eu sou uma garota curiosa! – Deanna levantou-se e deixou a blusa de dormir deslizar para o começo de suas coxas. Eu estava de joelhos no chão, com o despertador em uma mão e a caixinha em outra, parecendo tão caótica quanto eu pensava que estava.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!É agora ou nunca. Gabriela sempre me dizia que atitudes falam mais do que palavras, então me levantei do chão, joguei o corpo de Deanna sobre a cama e subi em sua cintura.
— Woah, Cassie! – suas sardinhas espetaculares estavam ressaltadas pela vermelhidão que tomava o seu rosto. Eu sentia que meu seio provavelmente estava querendo escapar da minha regata, mas aquele momento era crucial demais para eu me preocupar com exposição. Pela primeira vez na vida eu pensei em algo que não era a exposição em primeiro lugar – O que diabos você está fazendo?
— Deanna – joguei o despertador que ainda estava em minha mão no chão – Você é a garota mais linda que eu já vi na minha vida, e eu constatei isso no nosso primeiro encontro no pátio da universidade – declarei, sentindo o meu coração acelerar – Eu nunca pensei que isso fosse durar tanto tempo, mas eu estou cansada de sermos amigas coloridas. Eu quero mais.
Abri a caixinha desesperadamente e peguei as pequenas pulseiras que estavam lá dentro: — Eu estudo Enoquiano, que é o nome relacionado à língua angélica criada por John Dee e Edward Kelley.
— E o que isso tem com você sentada nas minhas c- oh, Cas!
Seus olhos desviaram do meu rosto e se mantiveram nas pulseiras da minha mão. Eu havia pedido para Miguel, um dos garotos da minha sala de Estética e Arte e que trabalhava com esculturas feitas com ferro, para projetar dois pingentes com letras em Enoquiano para Deanna e eu.
— Eu tenho Asperger e sou panromantica, qualquer pedido de namoro vindo de mim seria diferente – peguei o seu braço direito e amarrei a cordinha rosa – Esse símbolo é um C, de Cassie. E esse daqui – comecei a tentar amarrar a cordinha no meu braço, sem sucesso -, é um D, de Deanna – joguei a minha pulseira sobre o estômago de Deanna, assustando-a – Deanna Winchester, você quer namorar comigo?
Os olhos verdes estavam arregalados, os cílios castanhos claros adornando suas lindas írises cor de grama, cuja cor eu adoraria passar para algum quadro meu.
— Cassie, eu- — Deanna estava pasma na cama, sem reação.
— De, você sabe que eu te amo e tudo mais, tanto que eu acabei de te pedir para manter um relacionamento sério comigo. Mas eu tenho que ir para a aula e...
— Tudo bem andorinha! – ela me puxou para baixo, dessa vez trocando de posições comigo e me fazendo soltar um gritinho. Seus dedos agora quentes alcançaram meu pulso direito e amarraram o cordãozinho azul, com o símbolo em enoquiano – Eu aceito, eu aceito, eu aceito, Cassie Novak – o seu sorriso foi crescendo conforme ela repetia as palavras, e o sentimento foi crescendo, crescendo e crescendo dentro de mim.
— Eu também – ecoei sem necessidade, feliz demais para fazer algo além de me inclinar para cima e puxar sua cabeça para a minha.
Nos beijamos, mas eu não cheguei atrasada na aula.
***
KANSAS, Lawrence, 2016. McDonald’s. 14:30.
Deanna Winchester
— Eu não acredito que você me convenceu a viajar um dia inteirinho para chegarmos aqui e comermos no McDonald’s – Cassie parecia levemente chateada e cansada, todo o estresse de mudar de metrôs rápido o suficiente para não perde-los consumindo suas forças – Eu sei que você é a minha namorada, mas eu odeio isso.
Aproximei nossas cadeiras e abri os meus braços, recebendo o peso do corpo de Cas contra o meu: — Eu sei andorinha, eu sei. Como posso me redimir?
Cassie levantou os olhos com expectativa: — Levante os braços e grite “a Cassie é bonitona”.
Afastei o seu corpo, levantei-me da cadeira e ergui os braços: — A Cassie é bonitona!
***
— Bando de preconceituosos.
— Acho que o que fizemos lá era desagradável para eles, apenas isso tigre.
— Eu não ligo – começamos a andar, depois de sermos expulsas do estabelecimento, e dei graças a Deus por não termos que ficar mais sentadas. Minha bunda deveria estar quadrada.
Cassie buscou minha mão com a sua, arrumando o chapéu vermelho que combinava perfeitamente com o seu cachecol da mesma cor, toda a sua extensão coberta pelo sobretudo que ela tanto amava: — Você parece uma turista.
— E de fato sou, De. Agora me diga, o que vocês, caubóis, tanto fazem aqui no Kansas? – ela me olhou com os olhos divertidos, arrumando a mochila pesada nas costas. Soltei nossas mãos e alcancei a alça de tecido preto com suas asas confeccionadas pela própria Cassie, jogando-a nas costas junto com a minha mochila.
— Meu Deus, acho que estou vendo o meu boi andando sozinho na rua Cassie! Ajude-me a pegá-lo!
As gargalhadas aliviaram a tensão de passar vinte horas em metrôs ajudando Cas a se acalmar ou tentar dormir, e apesar do dia estar nublado e anunciando o Inverno que logo chegaria, o seu sorriso iluminou o meu caminho.
Hoje nós iríamos nos apresentar para os meus pais.
Cassie disse que eu fui a maior designer desse projeto, tentando pacificamente contar que eu era bissexual e que eu estava namorando uma garota com síndrome de Asperger e que nós tínhamos pulseiras parecidas em um jantar de Ação de Graças.
Mas a verdade era que eu queria manda-los a merda. Depois eu esperava que eles me pedissem desculpas e tudo ficasse bem, Sammy tirando sarro de mim e nós comendo purê-de-batatas empelotado.
— Papai e mamãe estão ligando Deanna! Você quer falar com eles? – Cas me tirou dos meus pensamentos, pegando o celular com capinha de gatinhos com purpurina e deslizando o dedo na tela antes que eu tivesse a chance de dizer qualquer coisa: — Alô? Oi mamãe!
Ela era muito preciosa por tratar os pais assim. Eu queria guardá-la em um potinho e nunca mais soltar: — Sim, chegamos bem. Deanna me tratou muito bem, nós acabamos de comer sanduíches no McDonald’s e daqui a pouco nós vamos para a casa dos Winchester. Não. Sim. Aham. Eu sei, Deanna também, mas ela precisa fazer isso. Você quer falar com ela? Tudo bem. Fale pro papai que eu mandei um beijo e que estou com saudades. Te amo! – Cassie estendeu o telefone – Mamãe quer falar com você.
Cassie me apresentou para os seus pais pelo Skype, enquanto eu usava nada mais que calcinhas. Eu me lembro de ver Crowley Novak virando o rosto corado e Abaddon rindo para sua filha subir um pouco mais a webcam.
— Sinto muito Sr. e Sra. Novak! Eu não estava esperando...
— São apenas seios, querida. Qual o seu nome?
— D-Deanna Winchester, senhora.
A linda mulher de cabelos vermelhos riu: — Pode me chamar de Abaddon.
Respirei fundo: — Alô?
— Oi Deanna! Como você está?— ela perguntou suavemente, e eu pude escutar talheres sendo postos em alguma mesa.
— Ansiosa, na verdade – confessei. Crowley e Abaddon mostraram ser ótimas pessoas, apesar do Sr. Novak ainda me assustar um pouco -, mas eu penso que se eu não disser nada será pior.
— E você está certa. Não é bom reprimir o que você sente por tanto tempo. Mas eu tenho certeza de que seu irmão irá te apoiar muito.
— Sim, Sammy sempre me apoiou, independentemente do que fosse.
Fiquei em silêncio alguns segundos, minha respiração trêmula atravessando o celular – Mas mesmo assim estou com medo.
— Deanna querida, me escute. Se algo der errado, qualquer coisa, Crowley, eu, Gabriela e principalmente Cassie, estaremos com você.
— Obrigada – eu estava verdadeiramente aliviada em ouvir aquelas palavras – Eu não quero decepcioná-los – pois apesar de tão pouco tempo conhecendo-os, eu sentia que eles eram outra parte da minha família. Eu não queria fazer mal para eles.
Fitei a silhueta de Cassie com o meu celular entre os dedos registrando fotos de tudo o que conseguia, desde as copas das árvores quase desnudas até rachaduras no chão. Às vezes aquela garota olhava para mim e sorria como se não me visse por anos, e eu sentia que apesar de estar a alguns passos de mim, ela estava longe demais.
Aproximei-me da minha pequena andorinha e a abracei, beijando o topo de sua cabeça enquanto ela continuava a observar as fotos que tinha registrado: — Você não vai nos decepcionar. Agora volte para Cassie, daqui a pouco ela estará implorando por atenção.
— Tome conta da minha irmãzinha, esquilo! – ri com a voz de Gabriela ressoando. Seu sotaque era mais presente que o de Cassie, e eu me perguntava se elas eram tão diferentes quanto pareciam.
— Tchau Deanna. Muitos beijos para você e Cassie.
— Para vocês também. Tchau!
Apertei o botão para encerrar a chamada e entreguei o celular de Cassie para ela, rodeando seus ombros com o meu braço e andando ao seu lado: -Sempre temi meus sogros, mas ainda não sei o motivo.
— Nem eu, Deanna. Meus pais são muito bons – ela apontou orgulhosa, afundando o rosto no meu pescoço.
Eu espero ter orgulho dos meus hoje. Apenas um pouco.
***
TEXAS-ALASCA, Avião, 2016. Assentos 67-A e 67-B. 01:08.
Deanna Winchester
A vida não é perfeita.
— Você não pode estar dizendo a verdade! – minha mãe gritou – Eu quero você no seu quarto e essa aberração para fora da minha casa!
— Mãe, basta! – a voz de Sammy era mais grossa do que eu me lembrava, e ela reverberou poderosamente dentro da sala de jantar. Infelizmente, não foi o suficiente.
Eu não notei Cassie assustada no batente da porta de entrada até que John estivesse indo em sua direção, os punhos cerrados e fúria lampejando em seus olhos como dor. Talvez não fosse culpa deles, eu entendo. Mas eu também não tinha. Cassie não tinha.
— Não encoste nela! – berrei colocando-me entre o caminho de John.
A dor era dezenas de vezes pior, uma vez que eu já não sentia ela há tanto tempo. Um soco.
As lágrimas vieram aos meus olhos e eu as tentei segurar, como teria feito anos antes. Mas então as vozes de Sam e Mary gritando para John soltar o meu cabelo foram demais e eu me coloquei de joelhos, gritando em plenos pulmões como uma criança faria. O meu pai se afastou em alguns passos, assustado pela minha reação, e eu senti os braços firmes de Sam nas laterais do meu corpo e os dedos de Cassie entrelaçando os meus.
— Eu tenho nojo de vocês – Sammy cuspiu as palavras antes de me levar para fora, e eu pude ouvir Cassie dizer: — Se Jesus pregou tanto a bondade nesse mundo, eu não posso adivinhar que tipo de palavra vocês transmitem através dessas atitudes grotescas. Espero que o Senhor tenha piedade de vocês quando o senhor e a senhora se encontrarem com o fogo do Inferno.
Desvencilhei-me das mãos grandes de Sam e puxei Cassie para fora. Eu não queria que ela gastasse sua linda voz com pessoas tão grotescas quanto Mary e John.
— Vou leva-las para algum motel. Vamos sair daqui antes que eles venham – Sammy empurrou nossos corpos na direção da baby, o carro que antes dos acontecimentos com Bela era meu. O meu querido Impala reluzente.
Minha segunda frustração da vida.
Muitas vezes nós tomamos caminhos escuros, tristes e que aparentam não ter saída, mas é necessário dar voltas e voltas antes de achar um outro para seguir.
— De, você já está mais calma? – uma turbulência no avião havia me levado ao início de um ataque de pânico e àquela altura eu me embolava com Cassie dentro de um cobertor de pressão profunda.
— Com você aqui do meu lado? – brinquei – Com certeza – dessa vez a minha voz era mais firme.
Você não pede para vir à vida. A verdade é que te obrigam a viver ao decorrer de suas descobertas, e existem coisas – as quais você se sujeita a passar – para tentar atingir um ponto de luz no final dela.
Durante aqueles meses em que convivi com Cassie e a sua pequena bagunça, eu sabia que havia algo me cegando. Mas depois de contar à Mary e John sobre o nosso relacionamento e chorar noites seguidas sem conseguir me levantar da cama, eu vi o sorriso da minha pequena andorinha me acalmando através dos pesadelos e eu percebi que eu finalmente havia atingido o meu ponto de luz.
Às vezes eu fornecia energia para ela continuar acesa, assim como ela me propiciava combustível o suficiente para acender todas as manhãs. Nós duas tínhamos sido golpeadas, desonradas e desfiguradas pela vida. Nós poderíamos estabelecer pequenas mudanças para superarmos toda aquela merda no final, juntas.
E eu não podia estar mais feliz por estar passando por elas.
***
ALASCA, Anchorage, 2016. Varanda da residência dos Novak. 08:43.
Deanna Winchester
— Sua casa é linda do lado de fora Cassie, mas eu estou congelando – Sam murmurou ao meu lado, parecendo suas vezes maior dentro de todos aqueles casacos pesados e sua touca de alce especialmente confeccionada pela minha andorinha, uma vez que “é Natal, Cas. O Sammy vai amar!”.
Eu simplesmente adorava sabotar o meu irmão.
— Acho que perdi a chave da entrada – Cas murmurou frustrada, jogando seu bolinho de chaves dentro da bolsa e suspirando cansada. Ela usava uma jaqueta grossa de pelinhos em cima do sobretudo, calças de moletom confortáveis para aguentar uma viagem de oito horas de avião (e ela realmente tinha reclamado do metrô? Aviões são mais perigosos, com certeza!), botas grossas, seu cachecol vermelho e seu chapéu de caubói.
Estranho, mas adorável.
E eu não podia parar de observá-la, as três palavras querendo saltar para fora de minha boca sorrateiramente como fugitivas da minha prisão mental estabelecida por tantos anos.
Você está livre agora Deanna. Com o seu irmão mais novo, sua namorada e os melhores sogros que você pode ter. No fucking Alasca. Longe do hospício no qual você passou a infância, longe do Kansas, onde suas lembranças cheiram a carvão e sangue ferroso. Bem distante do lugar em que você cogitou tirar a própria vida com aquela lâmina de barbear.
Você está conhecendo a sua nova vida.
— De? – Cas me chamou a atenção – Você está pronta?
Busquei sua mão coberta com luvas felpudas e enrosquei os meus dedos no ombro de Sammy, que se curvou para o meu lado: — Mais do que nunca na vida.
Cassie bateu os nós dos dedos contra a porta maciça, e aqueles minutos de espera foram os piores da minha vida. Contive o impulso de mexer no pingente da minha pulseira e troquei o peso do meu corpo mais do que eu trocava de calcinha em uma semana.
— Quem é o infeliz que bate na porta da minha casa oito horas da m- Cassie! – aquela voz era de Gabriela, e foi inevitável o sorriso que se formava no meu rosto com a postura subitamente rígida do meu irmão ao meu lado. O cara está na seca. A porta se abriu rapidamente e tive um vislumbre de cabelos loiro escuros volumosos e cacheados para todos os lados e olhos cor de mel me estudando – Você deve ser a Deanna – ela constatou – Pensei que você fosse mais alta.
— Muitas pessoas têm essa impressão de mim. Muito prazer – estendi a minha mão para apertar a de Gabriela, já que ela usava nada mais do que uma camiseta gigante que deveria pertencer ao Crowley, mas ela me puxou para um abraço e empurrou o meu corpo para dentro da casa quentinha – Entrem, eu estou sentindo frio nos meus países baixos!
Virei-me a tempo de ver Cassie se desvencilhando da irmã, arrumando seus cabelos e vindo na minha direção já tirando o casaco branco. Fiz o mesmo, a jaqueta de couro úmica pela neve acumulada sobre os meus ombros: — Esse daqui vem de brinde galera? – Gabriela empurrava meu irmão com as duas mãos nas costas enormes do mesmo, fechando a porta atrás de si – Ei! Você é mudo?
— Gabriela, modos por favor!
Girei minha cabeça e vi os cabelos muito vermelhos amarrados lindamente de Abaddon. A mulher deveria ser do meu tamanho, mas seus saltos a deixavam cerca de cinco ou seis centímetros mais alta: — Meu anjinho...
— Mamãe! – minha andorinha correu para os braços abertos de Abaddon, afundando o rosto no pescoço da mulher – Eu senti sua falta – a voz de Cassie era baixinha e ruidosa, chorando envergonhada no pescoço da mãe.
— Eu também, meu bebê. Mas Deanna cuidou de você, não cuidou? – a mulher de cabelos vermelhos acariciava o cabelo de Cassie depois de tirar o chapéu vermelho da cabeça da filha, ainda olhando-o com confusão.
— Sim! – a morena levantou o rosto e estendeu a mão para mim, chamando-me. Tirei da cabeça a minha touca verde e apertei na minha mão direita, pegando a de Cassie com a esquerda – Deanna essa é a minha mãe, mas vocês já se conhecem.
— É um prazer vê-la pessoalmente Sra. Novak – assenti nervosamente, sentindo meu sorriso tremer. Lembrei-me de sua voz no telefone na noite em que Cassie e eu fomos para um motel de estrada em Lawrence, e meus olhos se encheram de lágrimas de repente. Vergonha e timidez assolaram o meu peito rapidamente, e eu não percebi que meu rosto estava sendo forçado para o ombro de Abaddon alguns segundos depois.
— Minha criança... eu estou muito feliz também.
— Obrigada— a minha voz quebrou e eu apertei a mão de Cassie mais forte, puxando-a para um abraço desajeitado também. Fiquei naquela posição por um tempo, aquela casa cheirando a biscoitos natalinos e aconchego e a família, até uma mão apertar o meu ombro e eu me desvencilhar.
— Olá, garotas – o sotaque britânico era inconfundível e o homem baixinho e gordinho também. Crowley ainda podia me assustar, mas suas feições eram receptivas e eu me obriguei a dar um abraço nele, limpando meu rosto das lágrimas com algumas risadas desajeitadas.
— Eu estou um completo desastre! – comentei e me afastei, dando espaço para Cassie abraçar o pai e ser girada no ar duas vezes por ele.
— Todos nós estamos, criança.
Dei-me conta de que eu não havia apresentado Sammy, mas quando me virei para trás o Alce estava animadamente conversando com Gabriela, que segurava os cabelos para amarrá-los em um rabo e cavalo alto e não percebia que sua camiseta subia.
Apesar de que Sammy também não, hipnotizado pelos olhos cor-de-mel tão parecidos com os seus: — Aquele ali é meu irmão, Samuel. Mas ele gosta de ser chamado de Sam, por isso eu o chamo de Sammy – apontei para a pessoa mais alta naquela casa, e ele parecia tão singular quanto qualquer um de nós.
— Ele parece ser um ótimo garoto – Abaddon observou sorrindo – Nunca vi Gabriela tão animada assim em meses. Oh, eu estou preparando o almoço. Parece cedo, mas quero uma mesa farta para tantos convidados. Cas me disse que você gosta de conversar e nós gostaríamos de experimentar algo feito por você hoje!
Engoli em seco.
— Por que vocês não guardam suas coisas nos quartos, tomam um banho e enquanto Cassie provavelmente dorme e seu irmão conversa você não vêm me ajudar a cozinhar?
Apesar de que em casa eu tivesse o dever de cozinhar por ser uma mulher e esse ser o meu trabalho, eu via no rosto de Abaddon que ela realmente queria me ver satisfeita e à vontade dentro da sua casa. Então assenti, pegando minhas malas na porta da casa e cutuquei Cassie: — Você pode me mostrar o quarto onde vou ficar?
— Mamãe, a Deanna vai ficar comigo, não é?
— É claro. Não é como se eu fosse me preocupar com sexo – ela brincou e Crowley resmungou algo muito sujo e todos rimos – Gabriela, mostre o quarto de hóspedes para Sam, por favor.
Cassie tomou a dianteira e subimos a escada de madeira escura, passando por clichês quadros de família pendurados na parede. Vi uma pequena Cas de cabelos ainda mais cacheados e banguela, uma Gabriela vestida de pirulito gigante no Halloween e Cas de anjo, asas pretas gigantes parecendo ser feitas de...
— Absorventes – Cassie completou o meu pensamento – Roubei todos da mamãe. Um grande prejuízo – ela comentou feliz, puxando-me pela mão para irmos na direção de um quarto de porta branca, onde “Castiel” em letras azuis escuras, estava pintado.
— O que significa Castiel?
Cassie parou no lugar e estendeu a mão que segurava o chapéu para a porta, contornando com os dedos as letras tão bem escritas: — Você conhece a história do anjo Cassiel? – a morena perguntou e eu fiz que não – No misticismo judeu, Cassiel é um anjo que simplesmente observa todos os movimentos dos humanos sem realmente interferir em nada. Mas em alguns amuletos, o nome de Cassiel é escrito junto com nomes de inimigos, pois isso protege as pessoas desses inimigos.
Eu ainda realmente não entendia o que Cassiel tinha relacionado com Castiel, apesar de que eu via semelhança com Cassie.
— Isso ainda está um pouco confuso – ela concordou e nós rimos – Eu era muito quieta na barriga da mamãe e ela e papai decidiram não saber o meu sexo antes que eu nascesse. Eles gostam bastante de pesquisar sobre mitologias e histórias bíblicas, e eles viram esse nome “Cassiel” em algumas passagens. Se eu fosse um garoto, eles me chamariam de Castiel, uma variação. Se eu fosse uma garota – ela apontou para si e sorriu -, me chamariam de Cassie.
— Você escreveu para proteção?
Cassie parecia muito nostálgica de repente, seus olhos vagando por todos os detalhes do nome estampado na porta: — Com uma infância cheia de crianças malvadas, a coisa que eu mais queria era um anjo da guarda.
Soltei minhas malas e minha mochila, aproximando-me da minha garota e rodeando-a com meus braços. Beijei a sua têmpora: — Ele sempre está com você.
— E você também, olha a minha sorte!
Ri em seus cabelos, beijando-a no templo mais vezes.
Então sua mão alcançou a maçaneta dourada e a girou, e eu pude ver todas as Cassies e seus sonhos vivendo naquele quarto: vi Cassie em seus sete anos brilhantemente aprendendo a tocar “Twinkle Twinkle Little Star” em seu violino escuro, perguntando-se se todas as crianças a odiariam pelo resto da vida; Cassie em seus treze anos, desenhando pedaços de asas que cobriam a extensão de sua parede furiosamente com canetas e mais canetas de plástico horrorosas; Cassie em seus dezesseis chorando por sua primeira desilusão amorosa ao som de Silence, de Beethoven; Cassie aos dezessete com cabelos caóticos, pintando um quadro de família que estava pendurado sobre sua cama; Cassie aos dezenove, recebendo a notícia de que uma de suas conquistas havia sido alcançada – a carta de Wayland.
Cassie aos recentes 21 anos, meses mais velha do que eu, com um chapéu vermelho ridículo na cabeça e seu sobretudo claro ao meu lado, contemplando o lugar em que viveu por tanto tempo: — É uma pena que eu não tenha conseguido ver o seu quarto.
Alguns livros estavam organizados por cores e títulos em um espaço vazado de sua mesa de cabeceira, tudo tão organizado e sistemático quanto Cassie podia ser: — O meu quarto não é tão bonito assim – lembrei-me do lugar por onde eu vivi os anos infernais da adolescência e me afastei de Cassie, indo até a janela coberta por cortinas azuis claras – Era tudo verde escuro e rosa, cheio de pôsteres de carros e garotos. Eu queria a Sasha Grey no meu teto, mas nem mesmo Sammy podia.
— Fico um pouco feliz que você não tinha ela no seu quarto – olhei para Cassie, que pendurava atrás de sua porta recém fechada o seu chapéu – Tenho direito de ficar com ciúmes por algo que não aconteceu?
Gargalhei alto e não respondi, segurando sua cintura e fazendo-a pular no meu colo. Suas pernas se enroscaram nas minhas costas e nos arrastei para a cama. Eu queria tanto beijá-la.
— Então me beije – minha andorinha sussurrou, e eu não era ninguém para negar.
***
A água batia nas minhas costas e eu sentia a bunda de Cassie contra a minha. Virei-me de frente para ela enquanto a garota fazia o mesmo, seus olhos percorrendo os meus ombros, seios, braços até as cicatrizes da barriga, para onde suas mãos foram levadas.
— Você sabe que eu não ligo, não sabe? – coloquei-a debaixo da água para enxaguar seus cabelos de sabão, e vi seus olhinhos se fechando para evitar ardor.
Ela era linda, gostosa, maravilhosa e tão pura. Eu não via necessidade de tocá-la de um jeito malicioso, a pele do seu corpo encostando nos meus dedos sendo o suficiente por todo o tempo.
— Eu sei Cas, eu sei.
Terminamos o banho e nos trocamos rapidamente; Cassie colocando seus pijamas e eu um macacão antigo para descer para a cozinha. Coloquei o meu boné com a aba para trás, virando-me para minha garota e perguntando: — Estou bem? – a verdade é que eu não queria impressionar ninguém, mas também não queria que Gabe, Abaddon e Crowley olhassem para mim com rostos desaprovadores.
— Ótima! – seus lábios pousaram nos meus em um selinho rápido, e ela abriu a porta do quarto para irmos para baixo, mas antes de colocar um pé para fora seu cabelo molhado mexeu-se e ela estava com os olhos em mim, subitamente – Amanhã eu gostaria de te mostrar um lugar. É uma surpresa, mas... eu queria saber se você quer.
Sorri na sua direção e andei até ela, colocando minhas mãos em sua cintura e aproximando nossos rostos: — É claro que eu quero.
— Afaste-se do meu bebê – a voz de Crowley ressoou e eu pulei para trás, assustada.
— Papai, por favor – Cassie gemeu com a repreensão – Nós não estávamos fazendo algo demais – a morena revirou os olhos e abraçou o pai, que a apertou com força: — Eu sei anjinho, mas você sabe como o seu pai pode ser. Pior que...
—... o rei do Inferno, eu sei – eles riram e eu posso dizer que fiquei ligeiramente incomodada com aquele humor estranho.
Descemos as escadas e, naquela noite, todos provaram a sopa de Deanna Winchester. Cas tocou piano, Sammy exibiu suas habilidades intelectuais, Gabe se entupiu de doces e não dormiu a noite toda, obrigando Sam e eu a ficarmos com ela, enquanto Cassie dormia babando contra a minha coxa.
A lareira estava acesa, a casa quente, meu estômago cheio e as vozes da minha família me embalando para algo próximo do sono. Eu havia percebido naquele momento o quanto eu queria viver para eles e por eles, e quando por fim eu fechei meus olhos...
...eu percebi que estava em casa.
***
ALASCA, Anchorage, 2016. Ben Boeke Ice Rink. 19:50.
Deanna Winchester
Cassie tentava me convencer de colocar os patins de gelo cor-de-rosa como se a cor fosse aliviar a tensão que se acumulava sobre os meus ombros: — Deanna, a minha surpresa não vai funcionar se você não colocar essa bosta no seu pé!
— Eu ouvi um passarinho jurar? – tentei brincar e me esquivar, mas de repente seu rosto parecia muito sério e eu deixei minha cabeça cair, estendendo meu pé gelado para Cassie – Coloque o sapato na sua Cinderela, então.
Os olhos de Cas estavam ansiosos e eu podia sentir que havia expectativa neles, então coloquei minhas mãos sobre os seus ombros e me abaixei na altura de seu rosto. Seus olhos, que por tanto tempo demoraram para se acostumar a olhar nos meus, fitaram-me com apreço: — Não importa a surpresa, eu vou amar.
— Só vem, De – Cassie terminou de amarrar os patins e agarrou a minha mão, ajudando-me a tirar as proteções para entrar no gelo – Eu vou te ensinar a se eq- Deanna!
— Minha bunda! – me contorci no gelo horrendamente frio e segurei a minha bunda com as duas mãos – Vai ficar roxo Cas...
Ouvi a gargalhada melódica da morena reverberar no ambiente solitário, o horário de fechar próximo: — Ótimo saber que a minha dor é motivo da sua felicidade.
— Você é muito dramática, tigre!
Cassie me ajudou a levantar e logo eu estava dando voltas sozinhas no ambiente, sentindo-me a pessoa mais foda do mundo. Chupa essa universo. Eu me equilibro nessa porra de gelo enquanto você fica aí, equilibrando apenas seus astros.
Virei-me para Cassie, que estava do outro lado do rinque de gelo. Acenei para ela.
— Você está me ouvindo daí, De? – Cassie perguntou e veio na minha direção, os pés embaralhando-se em uma dança decorada. Sorri para a facilidade dos movimentos, enquanto eu, na verdade, escorava-me nas paredes de separação: — Sim.
Então de repente Cassie mudou a postura, um pouco mais próxima de mim, mas longe o suficiente para eu não ver o contorno dos seus olhos. Meu coração correu rápido pensando que era o início de um ataque de pânico, seus lábios se entreabrindo trêmulos para dizer algo. Fiquei esperando ela verbalizar que queria voltar para casa, que estava mal ou que queria um abraço, que aquilo tinha sido um erro terrível ou contar alguma história que ela passou dentro do rinque de gelo.
Mas então ela...
— She's got a smile it seems to me reminds me of childhood memories— seus olhos ergueram-se e a franja se partiu ao meio.
Meu coração também. De todas as maravilhas no mundo, a voz de Cassie seria a maior delas. E seus passos de balé no gelo, parecendo vacilantes e ao mesmo tempo tão decididos, traçavam o caminho certo que o meu coração deveria seguir: — Where everything was as fresh as the bright blue sky — seus passos que antes se afastavam a trouxeram para perto de mim, e sua mão pegou na minha.
Eu juro por Deus que abri a minha boca, eu juro pelos anjos que eu verbalizei palavras, mas tudo o que saiu da minha garganta foi nada além de... ar.
— Now and then when I see her face— eu vi o seu sorriso e visualizei o seu corpo deitado na cama, iluminado pela luz da Lua e seus dedos segurando aquela caneta estúpida.
— Estou desenhando seus olhos – Cassie me disse feliz, virando o papel na direção do meu rosto e me dando a visão dos meus olhos parecendo tão reais e verdes e as minhas sardas parecendo constelações de estrelas desconhecidas e confusas.
— Acho que eles não são felizes assim.
Os olhos azuis me observaram concentrados: — É verdade. Eles são mais.
— She takes me away to that special place— e verdadeiramente, depois de tanto tempo juntas, eu observei seu rosto. Suas maçãs do rosto altas e avermelhadas, o nariz não tão delicado, mas maravilhoso, seu maxilar quadrado e a covinha em seu queixo. Seus olhos, as írises contornadas de um azul tão escuro e preenchidas com a cor do céu em dias frios, os cílios escuros e compridos...
Sua boca fina e rosa que me fazia ver estrelas.
— And if I stare too long— Cassie prolongou a frase, as lágrimas dos olhos, refletindo as luzes do teto alto, seguras; já as minhas caindo livremente em direção ao meu casaco. Ela não cantou a frase seguinte, seguindo para o refrão onde eu a acompanhei: — Oh, sweet child o' mine.
A água quente da banheira queimava a minha pele, o vermelho era tudo em minha visão.
Eu nunca pensei que aquele seria o meu fim. Sozinha, em uma banheira com meu sangue, cortes em mina barriga. Jamais eu havia cogitado a possibilidade de suicídio, todas as pregações sobre o purgatório sendo demais para mim.
Jamais, até aquele momento.
— Eu nunca mais vou amar alguém!— grunhi em revolta, batendo minha cabeça na parede. Meus cabelos compridos flutuavam nas minhas costas, roçando como o presente, lembrando-me: você é uma aberração. Você vai arder no fogo do Inferno.
E eu comecei a arrancar alguns fios com os meus dedos em punhos, cortando outros com a minha lâmina sangrenta. Houveram cortes no meu pescoço e no auge da madrugada, quando minha pele era enrugada, os cortes mais profundos e a água gelada, eu repeti: — Eu nunca mais vou amar alguém – como algum tipo de mantra para deixar de amar Bela.
Naquele rinque de gelo, com Cassie entre meus braços e sua voz desafinando um pouco por causa do choro, a única coisa que eu pude fazer era derramar as minhas próprias lágrimas, pois quebrei a única promessa que havia me mantido viva por tanto tempo.
A única promessa que me deu forças para encontrar Cas.
— Eu te amo, Cassie – solucei profundamente e encostei a minha testa na sua – Deus, como eu te amo!
Naquele rinque de gelo, de repente jogada em meus joelhos e uivando com a dor deliciosa que amar me proporcionava, eu descobri que meu caminho ainda era longo. Changes mudou parte do percurso da minha vida, e Sweet Child O’ Mine finalizaria essa direção.
O destino era feito por mim, agora.
A vida não é perfeita. Mas naquele momento, eu escolhi renascer.
— Eu também te amo, Deanna.
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