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15 Capítulo 15 - Eu só estou curiosa com uma coisa…


Notas iniciais
Eu acho que a vida no interior não te fez bem, Utau... Anda se metendo demais na vida alheia

Nadeshiko deslizou os dedos finos pela fotografia, já velha e meio amassada, de tanto ser dobrada e desdobrada. Um sorriso melancólico espalhou-se pelo seu rosto, enquanto ela se deixava ser inundada pelas lembranças daqueles dias longínquos.

Na foto, estavam ela, Tadase, e Nagihiko, no bosque que havia nos fundos da casa dos Fujisaki. Nagihiko estava emburrado, pois Nadeshiko brincava mais tempo com Tadase do que com ele. Tadase sorria para a foto, com o rosto gentil e corado de sempre, e segurava a mão de Nadeshiko, que havia sido pega de surpresa, e olhava para baixo, envergonhada. Eles não deviam ter mais do que cinco anos naquela foto, e o pai de Tadase construíra um tipo de forte na arvore mais alta, onde eles passavam todo o tempo juntos. Nagihiko logo se cansou de brincar ali, pois preferia jogar bola com os outros meninos, de maneira que aquela casa na árvore acabou se tornando o precioso lugar secreto de Nadeshiko e Tadase.

— Será que aquele lugar ainda está lá? – ela indagou para a foto, passando de leve os dedos pelo rosto fofo e infantil de Tadase.

— O que está fazendo aí? Nós vamos chegar atrasados! – a voz de Nagihiko soou imperativa, enquanto ele colocava a cabeça para dentro da porta do quarto de Nadeshiko.

— Ah, Onii-chan! – Nadeshiko sobressaltou, apressando em esconder a foto no meio das coisas da sua mesa antes que Nagihiko a visse. – O que houve? – ela indagou, nervosamente, ainda tremendo pelo susto.

— Nós temos que ir pra aula… — ele estranhou o comportamento da irmã, mas preferiu não pensar nisso agora – Já está pronta?

— S-só um pouquinho, eu tenho que arrumar o cabelo! – ela pediu, rindo sem graça, enquanto voltava a fechar a porta. Nagihiko arqueou uma sobrancelha. O cabelo dela já estava arrumado…

Nadeshiko voltou para o lugar onde tinha escondido a foto, e resgatou, suspirando com ela junto ao peito. Depois, guardou-a dentro da agenda escolar, colocando dentro da bolsa azul, e finalmente saindo do quarto. O uniforme amarelo xadrez não era nem um pouco agradável de olhar, muito diferente do uniforme da escola estrangeira que ela frequentava antes. A saia também era um tanto mais curta… fazia Nadeshiko se sentir desconfortável. Mas ela se acostumaria rápido, e sem reclamar, como era de seu feitio.

— Vamos? – Nagihiko indagou, andando em direção à porta.

— Hai… — Nadeshiko sorriu de volta, com o coração batendo forte.

Ela ia ver Tadase, na escola, mesmo que eles não estivessem na mesma série… apenas isso era capaz de fazê-la ter vontade de dançar, de sair voando, de cantar… tudo ao mesmo tempo. Isso porque, mesmo depois de tantos anos, ao ver Tadase novamente, ela voltou a sentir todos aqueles sentimentos que afloravam dentro do seu peito naquela época. Eles pareciam diferentes, agora, afinal, ambos estavam mais velhos. Mas ainda estavam lá, preciosos e intocados, da maneira que sempre estiveram. Apenas esperando, para ser despertos.

~

—Taiyou ga niau yo tobikiri no egao misete… tanran tan tan taran…

— Utau-chii está cantando!! – Yaya exclamou com assombro, enquanto caminhava ao lado da loira, e de Rima e Amu.

— Cantando? – Utau parou de súbito, corando ligeiramente – Eu não estava cantando não!

As quatro estavam indo para a escola juntas como sempre, estreiando os seus uniformes de inverno (que ainda eram no estilo marinheira, mas de mangas compridas), com a saia amarela para Utau, vermelha para Yaya, e verde para as outras duas. Utau, ainda usava uma meia calça preta por baixo, além dos sapatos mocassins marrons.

— Estava sim! – Amu riu – e ainda era uma música bem alegre…

— Você está apaixonada, Utau? – Rima, diferente do habitual, até exibia um sorriso malicioso, e um brilho estranho no olhar.

— O que? – a mais velha engasgou, nervosamente – A-apaix…. Mas de onde você tirou essa ideia, Rima???

— Ora, pessoas apaixonadas ficam assim felizes do nada… — Foi Amu quem respondeu, dando de ombros.

— E ficam rindo do mesmo jeito bobo que você estava rindo há pouco… — Rima observou.

— E cantam!!! Como você está fazendo agora!!! – Yaya bradou por fim, erguendo os braços.

— Ah, até parece que um bando de pirralhas como vocês sabe alguma coisa de amor… — Utau revirou os olhos, rindo desdenhosamente. Por dentro, ainda estava nervosa, mas ela sempre foi boa em disfarçar certas coisas – Eu só estava cantarolando, só isso…

— Cantarolando como uma tola apaixonada… — Rima ainda insistiu, falando entredentes.

— Ei, Utau-chii, olha lá seu irmão!! – Yaya apontou alegremente. O coração de Utau deu um salto, involuntariamente, ao ver Kukai caminhando despreocupadamente, com as mãos atrás da cabeça, ao lado de Tadase. Os dois também usavam os uniformes de inverno, embora Kukai se recusasse a usar a gravata amarela. Tadase, por outro lado, estava com o uniforme preto e verde completo, e bem alinhado.

— Aaah, Tada-kun! – ela disfarçou rapidamente, pois certamente havia deixando escapar um daqueles sorrisos estranhos ao ver Kukai. Saiu correndo na direção dos dois garotos, e sem alternativa a seguir, Rima, Amu e Yaya a seguiram.

— Yoo! Tadase! Irmão da Utau-chii! – Yaya cumprimentou, como se já os conhecesse há eras.

Rima apenas acenou rapidamente com a cabeça para eles, e Amu corou indisfarçavelmente, olhando para Tadase e então desviando o olhar. Mas Utau, nem um pouco discreta, agarrou Tadase como sempre.

— Aaah, Tadasee, você está tão cheirosinho!! Deixa a Onee-chan te abraçar!! — ela gritou, empolgada. Kukai bufou, revirando os olhos.

— M-me solta, Utau-nee… — Tadase protestou inutilmente, se debatendo.

— Por que?? Você acha que está velho demais para ser abraçado pela Onee-chan? – ela replicou, sem nunca soltá-lo. Há essa altura, as garotas já estavam ficando com pena do loiro, que apenas se conformou, deixando Utau bagunçar seus cabelos mais um pouquinho.

— Ah, Fujisaki! – ouviram Kukai bradar de repente, acenando para alguém que se aproximava pela outra rua, descendo a colina. Tanto Utau quanto Tadase desviaram o olhar para aquela direção, automaticamente.

Kukai já havia recomeçado a andar, dessa vez acompanhado por Nagihiko. Mas Nadeshiko, que também estava ali, ficara para trás, e encarava Tadase e Utau com um semblante assustado e perturbado. Quando percebeu que sua presença havia sido notada por eles, ela corou, se apressou em virar-se e seguir o irmão, segurando a pasta com as duas mãos nervosas e trêmulas.

Utau soltou o relutante Tadase, finalmente. Ele estava meio pálido, e com uma expressão estranha. A loira ia perguntar se estava tudo bem como ele, mas antes que pudesse, ele voltou a andar, com os olhos fixos nas costas da garota que se afastava. Lentamente, as garotas recomeçaram a sua caminhada.

— O que foi isso? – Yaya pulou para frente, agitada.

— O clima pesou de repente, não foi? – Amu também estava intrigada.

— Eu não faço ideia…

Depois de chegar na escola, Utau tentou seguir Tadase, para perguntar a ele o que estava acontecendo, mas ele já não estava mais por perto. Sendo assim, ela seguiu diretamente para a sua sala de aula, vendo que Kukai já havia se acomodado, chegando antes dela, e lia displicentemente um mangá de basquete emprestado de algum outro colega. Ela tinha a intenção de perguntar a ele, já que talvez Nagihiko ou o próprio Tadase, pudessem ter contado algo, mas logo desistiu, afinal, não era recomendado conversar sobre assuntos delicados com todas aquelas pessoas avidas por fofocas ao redor.

Sentando-se no seu lugar perto da janela, Utau ouviu alguém rindo pelas suas costas, criticando o seu uso de meia-calça, e falando mal dos seus sapatos. Revirou os olhos para aquela falta de louça para lavar, e começou a rabiscar qualquer coisa no canto da classe. Antes que percebesse, havia escrito o nome de Kukai. Apressou-se em riscá-lo com toda a força, sentindo-se a maior das idiotas. O que ele era? Uma garotinha do fundamental? Talvez a convivência com Amu e as outras estivesse fazendo sua mente retroceder…

— Olha só os óculos de sol que eu comprei! – uma voz aguda furou os ouvidos de Utau, e ela desviou o olhar, por pura curiosidade. – São legítimos! Da Gucci! – a garota anunciou, orgulhosa e altiva, satisfeita com as expressões de admiração e inveja das amigas

—Você é idiota? – antes que pudesse refrear sua língua, Utau já havia deixado escapar. As garotas a encararam todas ao mesmo tempo, considerando-a tanto quanto a um inseto rastejante. El a acabou tendo que continuar. – Isso daqui é Channel! Não tá vendo o “C” gigante bem aqui?? E não, ele não é legítimo! Não pode nem ser chamado de óculos de sol, só pra começar…

A garota que antes se exibia, corou furiosamente, quase derrubando o objeto das mãos, mas uma das outras riu desdenhosamente para Utau.

— E o que você sabe sobre marcas, hein? – ela a olhou dos pés a cabeça, arqueando a sobrancelha, franzindo os lábios.

Utau suspirou. Podia ter dito que já havia tido um óculos daqueles para cada dia da semana, e que cada um havia custado mais do que o aparelho de celular de cada uma delas. Podia ter falado sobre o seu closet enorme, lá na mansão em que ela vivia, que era maior do que aquela sala de aula. E podia ter contado sobre os inúmeros desfiles de marcas famosas, inclusive Gucci, Channel, ou seja lá o que fosse, em que ela já havia ido com a sua mãe. Mas Utau engoliu todas as palavras, e sorriu para as garotas, como se sentisse pena delas.

Sim, ela já havia sido aquela garota que exibe as suas roupas novas para as outras. Roupas das quais ela nem gostava, mas comprava apenas por que era tendência, por que tinha uma etiqueta de marca, por que era o que todas tinham. Aquela vida sem sentido… Utau já havia se sentido assim. Então, era capaz de entender perfeitamente o que as motivava a ser dessa maneira, mesmo que não concordasse.

Nikaido-sensei adentrou naquele instante, mandando todos tomarem seus lugares. As garotas riram de Utau, mais uma vez, e então se dispersaram.

— Hoje nós estaremos recebendo em nossa sala de aula um novo aluno transferido – Nikaido começou, assim como Utau já esperava.

— Aluno novo? Eu não sabia disso!

— Será que é um garoto? Espero que seja bonito!!

Utau riu disfarçadamente da desilusão que as garotas estavam prestes a ter, e voltou à atenção para o professor.

— Por favor, recebam Fujisaki Nadeshiko-san, que será nossa aluna a partir de agora… — ele indicou a porta, e Nadeshiko adentrou. Com a cabeça erguida e um porte rígido, ela caminhou até o centro da sala como se esse fosse um palco, praticamente flutuando. A sala ficou em silêncio de repente, e todos encaravam Nadeshiko, mas ela não parecia se abalar com os olhares indiscretos – Vocês devem saber, ela é irmã do nosso Fujisaki Nagihiko, e é mais nova do que vocês. Por isso mesmo, peço que a acolham como colega, e a ajudem no que for necessário. Por favor, se apresente à classe… — Nikaido indicou, entregando a ela um giz. Aquilo era apenas parte do protocolo, já que não havia naquela cidade ninguém que nunca tivesse ouvido falar dos Fujisaki, e da filha deles que estudava na Europa.

Nadeshiko aceitou, e virou-se para o quadro, escrevendo com uma caligrafia impecável, os kanjis do seu nome. Depois, voltou-se novamente para a turma, e curvou-se de maneira respeitosa e polida.

— Meu nome é Fujisaki Nadeshiko, e eu estudarei com todos vocês, a partir de hoje. Yoroshiku onegai shimasu. – ela se ergueu, e Nikaido indicou a ela uma classe vaga, na fileira ao lado de Utau, bem na frente.

O professor retomou então a aula, pedindo a todos que abrissem seus livros. Utau sentiu a agitação que se assomava em burburinhos, aumentando cada vez mais. Apurou os ouvidos, percebendo os comentários das garotas ao seu redor.

— Você viu o cabelo dela? Que coisa comprida, e fora de moda…

— Aposto como aqueles cílios são postiços! Ninguém tem cílios daquele jeito! E aquela pele… ela deve colocar muita maquiagem todos os dias, não é?

— E ainda fica agindo toda perfeitinha, pra chamar a atenção dos garotos! Eu vi ela vindo para a escola com o irmão, e com o Kukai-kun!

— Então ela está de olho no meu… digo, n-nosso Kukai-kun? Imperdoável! Eu não vou deixar isso ficar assim!

Utau trincou os dentes, arrependendo-se instantaneamente por ter parado para ouvir aquelas conversas sem sentido. Ao que parecia, estava sendo reservada à Fujisaki Nadeshiko o mesmo tratamento que ela recebeu (e ainda recebia) por ser uma novata, mesmo ela sendo alguém daquela cidade. Utau sentiu-se mal pela garota…

Olhou de soslaio para ela. Mantinha a mesma posição ereta e nobre de antes, mas Utau sabia que ela podia ouvir os comentários, mesmo àquela distância. Observou com cuidado, e percebeu que os ombros pequenos dela tremiam, ainda que ela se esforçasse em manter a cabeça erguida. Provavelmente, deveria estar triste ou, em uma hipótese mais absurda, com raiva de todas aquelas garotas. Mesmo tendo uma impressão ruim de Nadeshiko no início, motivada puramente pelos ciúmes, ela não conseguia evitar ser solidária àquela condição de exclusão. Não apenas por estar em uma circunstância similar, mas também por que, por um ou outro motivo, havia sido graças à Nadeshiko que toda a sua situação confusa com Kukai havia de certa forma sido esclarecida. Então… bem, Utau estava devendo uma à ela.

~

Depois de todo o período de aulas, finalmente chegou a hora do almoço, e como habitual, Utau levantou-se para ir comprar comida. A culinária da sua mãe ainda não era boa o bastante para merecer ser exibida em um obentou, isso era fato. Kukai pareceu motivado a acompanha-la, mas os colegas de time logo o levaram para o lado oposto, pois eles tinham uma seção de corrida marcada para agora.

Utau não se importava com isso, e andou diretamente para o refeitório, onde logo encontrou Rima e Yaya na fila da cantina, e Amu esperando-as com o seu próprio almoço em mãos. Pegou um sanduíche qualquer, e se juntou a elas.

— Você não vai pedir o rámen de sempre, Utau? – Amu estranhou.

— Pensei de ir almoçar no telhado hoje – ela respondeu evasivamente, dirigindo-se para as escadas com as três kouhais em seu encalço. A sua intenção era a de espiar Kukai enquanto ele corria ao redor da escola, na verdade.

— Então vamos…

No caminho da escada, elas encontraram Tadase, parecendo meio perdido entre subir ou descer. Utau se apressou em ir perguntar o que havia acontecido, ainda tendo em mente o comportamento estranho dele no caminho para a escola.

— Ah, o Fujisaki-kun está com o time de basquete, então eu pensei em procurar… — ele hesitou, desviando o olhar para os pés – U-um lugar para almoçar, era o que eu estava procurando.

Utau sabia muito bem que Tadase sempre havia sido um péssimo mentiroso. Mas também sabia que ele devia estar com algum problema, ou não agiria daquela forma estranha. Convidou-o para almoçar com elas, mais pelo olhar quase desesperado que Amu lançava para ela, pedindo silenciosamente por isso, do que por qualquer outro motivo. E ele aceitou, por pura educação, mesmo sendo óbvio que ele preferia estar em outro lugar agora. Juntos, o grupo continuou subindo as escadas, até a porta de acesso à cobertura. Mas, ao abrir a porta, Utau notou que outra pessoa já havia tido a mesma ideia que eles.

— Ah, Fujisaki-san… — ela cumprimentou surpresa a garota, que comia sozinha o seu almoço, em um dos bancos dali. Nadeshiko engoliu em seco, sobressaltando com a inesperada companhia, e pareceu prestes a engasgar ao ver Tadase saindo de trás de Utau, e a fitando diretamente.

— Woow~ então essa é a irmã do Nagi que tavam falando! É a cara dele!! – Yaya bradou, recebendo uma cotovelada discreta de Amu pelo excesso de eloquência.

— Se nós estivermos incomodando…

— Está tudo bem, podem ficar! – Nadeshiko se apressou em dizer, com sua voz baixa e soprada. Ninguém pode deixar de perceber a troca de olhares entre ela e Tadase, e Amu se remexeu, incomodada.

— Hm… o seu almoço… foi você quem fez? – a rosada tentou puxar assunto, tentando acobertar a sua falta de jeito. Nadeshiko, ainda que visivelmente desconfortável, ainda tentou sorrir.

— Sim. Eu que fiz…

— Ah, Fujisaki-san sempre foi ótima na cozinha, desde que éramos… — Tadase percebeu que estava falando muito mais alto do que costumava, ao receber os olhares de todas as garotas subitamente — … pequenos. – ele concluiu, com as orelhas corando, e voltou a se concentrar no seu almoço.

— Isso é tão legal… ahn… qual o seu nome mesmo? – Yaya, nem um pouco constrangida, já estava sentada do lado da garota, invadindo seu espaço pessoal na maior cara de pau.

— Nadeshiko… — ela respondeu, sorrindo cordialmente.

— Ah, que nome compridooo!!! – Yaya reclamou – Vou te chamar de Naddy, é muito mais fácil!

— Que falta de educação, Yaya! – Amu ralhou.

— Está tudo bem, eu não me importo… — Nadeshiko sorriu da mesma maneira educada, e Amu se recolheu. Observou a garota por alguns instantes, e tentou se manter um pouco mais ereta, com as costas e as pernas alinhadas, como ela fazia.

— É verdade que você estudou na Inglaterra? – Rima indagou de repente, no seu tom desinteressado de sempre.

— É sim. Eu estudei dança por cinco anos, na Real Academia de Dança, e fiz mais alguns cursos… — ela respondeu.

— Sugooii!! Deve ter sido muito legal! – Yaya se empolgou – Você dançava balé? Por que, sabe, a Yaya adora balé!

— Eu estudei todo tipo de dança, porém prefiro manter o estilo tradicional da minha família… — Nadeshiko respondeu.

Depois disso, deu-se início a uma interminável sessão de perguntas, a maioria vindas de Yaya, sobre as danças, as comidas da Inglaterra, o clima, as pessoas… até mesmo sobre a Rainha da Inglaterra Rima queria saber. Tadase não parecia muito empolgado na conversa, Utau reparou, e logo que terminou de comer ele inventou qualquer coisa que tinha que fazer, e saiu. Nadeshiko lançou um longo olhar para ele, ao vê-lo saindo, mas continuou a responder as perguntas de todas, polidamente.

Utau ergueu-se, enquanto as outras se distraiam com a conversa, e se apoiou na grade com os cotovelos, tentando ver lá embaixo. Não demorou muito para notar o grupo de garotos que corria em duas fileiras pelo pátio da escola. Kukai estava entre eles, com o rosto brilhando de suor. Ele notou Utau no telhado, e acenou para ela, com um sorriso idiota no rosto. E então tropeçou, desfazendo a formação, e recebendo uma repreensão do capitão Nagihiko. Utau riu.

— Meu irmão está sendo muito rígido, com essas corridas logo na hora do almoço, não é mesmo? – Utau nem havia notado quando Nadeshiko se juntara a ela, na observação silenciosa. As outras três garotas continuavam conversando, e agora Yaya fazia uma apresentação de balé, em cima de um dos bancos.

— Acho que esses garotos molengas tem que sofrer um pouco… — Utau suspirou.

— Bem… seu irmão… e você também, é claro, parecem ser pessoas muito boas – Nadeshiko dizia, distraída em sua observação – Souma-san foi muito gentil em oferecer-se para me mostrar a escola, hoje de manhã, inclusive.

— Ah, ele fez isso? – Utau exclamou meio alto de mais, em um tom indignado – Muito gentil da parte dele, não é? Muito gentil. É tanta gentileza que fico até comovida!

Nadeshiko riu, contidamente, escondendo os lábios com as mãos. Um vento mais forte passou, levando os seus cabelos e os de Utau para o lado. Ela tremeu, com o frio repentino.

— É claro que meu irmão se opôs firmemente, e disse, com palavras um tanto rudes, para Souma-san ser mais discreto. – ela elucidou, fitando Utau diretamente agora – Eu não tive a chance de agradecer por sua hospitalidade, em me receber no dia em que cheguei à cidade. Foi muito sensível da sua parte ir me receber na estação de trem…

Utau sorriu sem graça. Como haveria de pensar mal daquela garota, como andava fazendo, quando ela era um poço de delicadeza e de boa educação? Chegava a ser irritante a forma como Utau não conseguia se irritar com ela. Mas também, tornava-se mais evidente, agora, olhando de perto, que ela não parecia nem um pouco feliz como seus inúmeros sorrisos sugeriam. Utau bem que tentou segurar sua língua, mas ela foi bem mais rápida do que ela, mais uma vez.

— Nee, Fujisaki-san… bem, eu posso perguntar uma coisa meio… pessoal?

— Claro. – ela respondeu, um tanto admirada. Utau hesitou, mais enfim resolveu ser direta logo de uma vez, antes que se arrependesse.

— Você já conhecia o Tadase, não é? Vocês são amigos de infância, certo?

— Etto… sim, eu conhecia… — Nadeshiko certamente não esperava por aquilo, e suas bochechas voltaram a se colorir, indisfarçavelmente, confirmando seja lá qual teoria Utau houvesse formado áquea altura.

— Hm, eu reparei… vocês parecem meio estranhos um com o outro, desde que você chegou… Bem, o Tadase não parece ele mesmo, ele anda tão calado… Então eu pensei em perguntar… aconteceu algo?

— Algo? Você diz… Eu presumo que não, bem… — ela era natural ao falar, mas Utau reparou em uma pequena hesitação nas palavras – Nós não nos vemos desde que eu fui embora, então é natural que haja um estranhamento inicial, depois de tanto tempo… Mesmo que eu tenha ficado feliz em vê-lo novamente, eu… — ela parou abruptamente, como se estivesse com medo de falar mais do que devia, e então desviou o olhar para a frente, sem se focar em nada diretamente.

Utau se preparou para perguntar mais, mas foi interrompida severamente por Yaya, que queria por que queria que Nadeshiko avaliasse sua performance como Bailarina clássica. E logo o horário do almoço teve fim, e todas tiveram que voltar para a sala de aula.

-

Assim que o sino badalou, indicado o final das aulas, Utau correu para a classe de Kukai, mais rápido do que qualquer uma, agarrando-o pelo braço.

— Você não tem treino hoje, certo?

— Hoje, não… — ele respondeu, surpreso – Mas o que…?

— Então vamos logo para casa! – ela exclamou, carregando-o para fora antes que ele sequer terminasse de fechar a mochila.

— O que deu em você, Utau? – Kukai estranhou, enquanto a garota o rebocava escada a baixo – Ficou com saudades de mim? – sugeriu, com um sorriso tolo no rosto.

— Quieto! – ela bradou – Eu estou intrigada com algo, achei que você pudesse me ajudar…

— Acho que a vida no interior não te fez bem – ele comentou, enfim conseguindo acertar o passo com a loira – Anda se metendo demais na vida alheia…

— Não é se meter! Eu nem fiz nada… ainda. Eu só estou curiosa com uma coisa… Sabe, a irmã do Fujisaki… e o Tadase?

— O que tem eles? – ele indagou, e Utau teve que revirar os olhos. Era tão óbvio que existia alguma relação entre aquelas dois, como Kukai não conseguia ver?

— Eu pensei que, como amigo do Nagihiko, você pudesse ter ouvido alguma coisa…

— Ouvido sobre o que? Eu só sei que eles são amigos de infância, os três, só isso… Embora…. Bem, o Nagihiko anda mesmo meio irritado…

— Anda irritado? Por que? – Utau se empolgou, ansiosa por saber mais sobre aquele caso. Eles agora atravessavam o pátio, saindo pelo portão.

— Eu não sei! Mas eu sei que ele desconta tudo nos treinos, e eu não gosto nem um pouco disso! Você sabe, eu nem almocei hoje, e minhas pernas doem tanto…

— Eu não quero saber das suas pernas!! Diga logo, o Nagihiko disse alguma coisa sobre o Tadase? – empertigou-se Utau, quase encurralando Kukai contra o muro da lateral da calçada.

— Ele resmungou alguma coisa sobre… um encontro na padaria, e que deveria manter “aquele garoto” longe da sua irmã, mas eu não sei de muita coisa…

— Hm… então o Nagihiko não gosta do Tadase… — Utau colocou a mão no queixo, franzindo os olhos, enquanto sua mente maquinava o resultado de todas as evidências.

— Não é o Tadase ali na frente…? — Kukai ia dizendo, mas logo se arrependeu, ao notar aquele brilho ensandecido de curiosidade nos olhos roxos da garota, que correu para frente, cercando o pobre Tadase.

Ao chegar perto dos dois, Kukai notou que Utau já iniciara o seu discreto e quase imperceptível interrogatório.

— … a Fujisaki-san é muito educada, e gentil, não é?

— Ah, ela é sim… — o inocente Tadase não sabia onde a sua Onee-chan queria chegar, e Kukai sentiu, mais uma vez, pena dele.

— Ela também deve ser uma dançarina muito boa, para dançar na Europa e tudo o mais…

— … isso eu não sei, Onee-chan. Eu nunca a vi dançando…

— Nunca viu? – Utau estranhou – Mas, se ela gosta de dança, deve ter começado muito cedo. Como você nunca a viu dançar, se conhecendo desde pequenos…?

— Ela não demonstrava tanto interesse… q-quero dizer, sempre foi o Fujisaki-kun que gostava mais de música e de dança…

— O que? – foi a vez de Kukai se indignar – O Nagihiko? Mas como?

— E-eu não acho que eu deva falar de assuntos que não correspondem a mim… — Tadase parou subitamente, virando-se para dobrar a esquina, mesmo que não fosse aquele o seu caminho – Desculpe, Onee-chan, mas eu tenho que ir. Até amanhã – ele assentiu, e então saiu correndo pelo lado oposto.

— Ele… fugiu de mim… — Utau murmurou, incrédula.

— Também! Com você sendo tão sorrateira… — Kukai comentou, com sarcasmo. – De qualquer forma, se você está tão curiosa assim… eu posso perguntar para o Fujisaki…

— Pode? – Utau ergueu os olhos brilhantes, com um sorriso enorme – Você faria isso por mim?

— Se é para você parar de agir como uma stalker maluca por aí, eu vou ver o que posso fazer… — Kukai respondeu, virando o rosto para o lado e coçando a bochecha – Ainda mais… se você parar de correr atrás do Tadase…

— Ah! Você está… com ciúmes? – ela se colocou na ponta dos pés, apenas para encarar Kukai mais de perto – É isso, não é? – ela soltou uma risada estranha, mal conseguindo se conter com aquela expressão perdida que Kukai fazia agora.

— E se for, qual o problema? – ele bradou, virando-se de costas com o rosto corado. – É melhor nós irmos logo para a casa! – ele resmungou, e sem aviso prévio, segurou a mão de Utau e começou a puxá-la.

— Ei, espera, o que você está fazendo? – replicou, com a voz aguda e assustada. E se alguém os visse andando de mãos dadas por aí, o que ela ia fazer?

— O que tem de mais eu levar minha irmã para casa? – Kukai deu de ombros, tão despreocupado como sempre – Além do mais, não ninguém na rua há essa hora…

Utau olhou ao seu redor, percebendo que realmente não havia mais do que um cachorrinho andando no outro lado e um saco plástico flutuando ao vento por perto. Escondendo o rosto ruborizado com a franja, ela apertou um pouco mais a mão de Kukai na sua. Era quente, e confortável. Talvez… não houvesse problema em ser um pouco descuidado de vez em quando…

Notas finais
Yoo, minna-san~~~
Capítulo bem grande, pra compensar a demora nos posts... acho que isso compensa, não compensa?? Espero que sim...
Bem, era isso ~ peço paciência, pois essa pobre pessoa precisa de tempo pra desenvolver os romances, não gosto de atropelar as coisas... leia-se; o tão esperado beijo tá vindo...
Acho que era isso~ Não se esqueçam dos reviews!! o/
Kisu♥