Champagne Dream
1 Capítulo 1- Welcome to Burlesque
Notas iniciais
O suor escorria por sua testa naquele momento enquanto seu corpo se movia de um lado para outro na cama de casal que havia comprado há algumas semanas. As mãos agarravam o lençol como se dependessem daquilo para sobreviver, como se o lençol fosse salva-la de algum mal terrível. O peito subia e descia em uma velocidade incrível, quase inacreditável, o ar se tornava escasso. Como se voltasse a superfície depois de um longo e cansativo mergulho, a procura de ar sua boca se abriu assim como seus olhos, o tronco se levantou de uma vez fazendo com que ela se sentasse em sua cama. Os olhos verdes demonstravam medo puro e genuíno, as lágrimas não tardaram a se formar, se aglomerando em sua linha d’água a ponto de escorrem segundos depois. O coração batia tão rápido que parecia que iria sair de seu peito a qualquer momento e então fugiria para o mais longe possível, pois já não aguentava a carga de sentimentos que ela sentia. O peito continuava a subir e descer rapidamente, chegava a doer respirar daquela maneira. Olhou de um lado e viu Bolacha, seu gato amarelo dormindo um sono profundo. Olhou para o outro lado e tudo o viu fora a janela aberta e a cortina esvoaçando, voando por seu quarto.
Sem sucesso em conseguir controlar sua respiração, a mulher virara seu quadril, colocando ambos os pés no chão, se levantando em seguida. Estava um tanto tonta, cambaleou até a porta do banheiro onde se apoiou por um tempo enquanto tentava normalizar sua respiração. Após algum tempo, finalmente adentrara ao banheiro olhando-se no espelho apenas para constatar o que já sabia. Olhos arregalados, respiração irregular, suor por todo o rosto e tronco, coração batendo a mil. Havia tido um sonho ruim novamente. Com a ponta dos dedos, ela girou a torneira da pia branca, deixando que a água saísse para então colocar uma de suas mãos embaixo. Molhou o rosto com a água gelada, esperando que aquilo a acalmasse, sempre a acalmava, era um de seus truques. Se olhou no espelho mais uma vez, os lábios estavam tão brancos quando a pia embaixo de si. A mulher fechara os olhos, controlando sua respiração aos poucos, aquilo tinha que acabar, seu corpo e sua mente já não aguentavam mais, era desgastante, contraproducente e extremamente ruim sentir toda aquela carga de sentimentos.
Tudo começara após o acidente em uma rodovia em Denver, sua cidade natal. Mesmo nos dias atuais, dois meses depois de tudo o que acontecera, Emma Swan não sabia precisar corretamente o porquê aquele acidente acontecera, em um minuto ela estava rindo e mudando a música no som do carro, no outro, o carro havia capotado e Neal Swan, seu irmão, sangrava bastante, o que o levou a morte horas depois. Emma se tornara inflexível quanto ao assunto nas semanas que sucederam o acidente, não falava muito, quase nunca saia, porém seu trabalho continuava impecável, se não melhor do que sempre fora. Se destacava em investigações, resolvia casos e conseguiu colocar uma boa quantidade de traficantes atrás das grades. Em sua visão, ela estava melhor do que nunca, porém seu emocional se tornava cada vez pior, resultando em terrores noturnos e pesadelos imensuráveis. A família havia desistido de ajudar, seus pais eram idosos e já não conseguiam lidar tão bem com a resistência que a filha tinha a tudo e todos. Emma se tornara um fardo, ou pelo menos se sentia assim.
Em uma noite em particular, a mulher decidira se mudar, vendo nessa escolha uma nova chance para sua vida. Falara primeiro com seu chefe, o Capitão Cragen, pedindo a ele que a ajudasse quanto a tudo, pois nos últimos dois meses o homem vinha desempenhando mais o papel de pai de Swan do que o de seu chefe. Tudo estava pronto após algumas semanas, o lugar para onde iria, o apartamento e até mesmo as questões de trabalho estavam resolvidas, parecia que a vida começava a querer dar uma segunda chance a Emma.
Estralara os dedos, um a um enquanto se olhava no espelho, era possível ver suas olheiras enormes, quase tomavam conta de seu rosto, estava exausta mas não conseguia dormir. A viagem para Los Angeles aconteceria em algumas horas, considerando o fato de que acordara às quatro da manhã, sendo que havia ido dormir às duas da manhã. Estava com uma péssima postura, sentia dores de cabeça constante e um cansaço acima do normal, o que a fazia tomar pílulas de suplementos e vitaminas todos os dias. Saiu do banheiro minutos depois, encontrando Stevens, seu segundo gato, na porta do banheiro. O mesmo a olhara por instantes, miando em seguida.
—Hey Stevens. —Ela sorriu, se abaixando para acaricia-lo. —Iremos para Los Angeles amanhã, você está animado? —O gato miara para a dona, fazendo com que a mesma torcesse os lábios em um bico. —Eu também acho que será bom para nós três, mas confesso que estou com um frio na barriga. —O acarinhou por mais algum tempo e então se levantou, voltando a cama.
Stevens acabou por segui-la, subindo na cama e se acomodando junto à dona. Juntos, os dois começaram a assistir Law & Order, com Emma tampando os olhos do gato sempre que uma cena muito violenta acontecia. Enquanto os olhos verdes mal piscavam olhando diretamente para a televisão logo a frente de sua cama, o dia lá fora amanhecia, com direito aos primeiros raios solares entrando pelas brechas dos vidros da janela. As horas se passavam enquanto o pequeno apartamento onde Emma Swan morava começava a tomar vida devido à arrumação que ela fazia, pois só poderia buscar o restante dos moveis daqui alguns dias. As malas já estavam a postos próximas a porta de entrada enquanto Swan terminava de se arrumar para ir até o aeroporto. Colocara Stevens e Bolacha dentro de suas devidas caixinhas de viagem e então começou a levar as coisas para fora, chamando o elevador posteriormente.
Já dentro do táxi, Emma dava adeus a Denver sem derramar nenhuma lágrima, havia se despedido de todos no dia anterior e deixou claro que não queria ninguém no aeroporto quando ela se fosse. Swan possuía suas particularidades, principalmente quando se tratava de sentimentos, poderia contar nos dedos com quantas pessoas ela realmente se relacionava e levava o relacionamento para frente, então pode-se deduzir que nenhum caso de amor fora doloroso de se deixar para trás quando seus pés foram para dentro do avião. O voo em si fora tranquilo, sem turbulências e sem conversas por parte do senhor que estava sentado ao lado dela, a loira até mesmo conseguira pegar no sono por alguns longos minutos, sentindo-se razoavelmente descansada quando acordou, prestes a ver o avião pousar em Los Angeles.
Quando o avião pousou, Emma Swan sentira um frio na barriga que lhe alertara que dali para frente seria apenas ela e os gatos, sem família, sem amigos, sem nada. De certa forma isso lhe trazia um alivio maior do que qualquer psicólogo já havia conseguido, mas do que qualquer conselho vindo por parte de seus amigos do departamento de polícia, era libertador estar ali e não ser conhecida.
Após se instalar em um apartamento pequeno em Echo Park, Emma começava a se sentir em casa em LA. O trabalho lhe era comum, havia alguns crimes mais violentos e ela nunca tinha descanso, porém tal fato lhe fazia refletir sobre como isso viera como uma boa coisa devido aos sentimentos que lhe circundavam, principalmente durante as madrugadas mal dormidas. Em sua equipe de trabalho era possível achar todo o tipo de pessoa, mas o principal era seu parceiro, Robin Locksley, um homem extremamente engraçado, mas que amava mais do que tudo empunhar sua arma e disparar alguns tiros. Havia também Ruby, que era o equivalente as personagens de series de televisão que mexem com a parte tecnológica da investigação, e Ruby Lucas com certeza as deixavam no chinelo. O terceiro membro da equipe era August, um homem bastante reservado, mas que não abria mão de uma cerveja após o expediente, o mesmo fizera amizade rapidamente com Emma, virando assim seu ponto de referencia e seu pseudo psicólogo para todos os momentos. Por fim, mas não menos importante, havia Ariel, uma mulher de mente a frente de seu tempo, com uma inteligência surreal que fazia com que Emma se perdesse em seus pensamentos, a mulher falava rápido e sempre fazia com que tudo ao seu redor fizesse sentido, era ótima nas investigações. Um novo departamento vinha com um novo chefe, e por mais que a detetive Swan amasse Cragen como um pai, Robert Gold virara seu ídolo após alguns dias. O homem era inteligente, culto e fino, sempre tão educado e polido em suas falas, talvez ele fosse a versão feminina de Emma, mas sem os surtos de Sherlock Holmes que ela possuía.
Conforme as semanas passavam, Swan parecia se distanciar cada vez mais do passado sombrio que resolvera deixar em Denver quando decidira se mudar. A noite era sempre a pior parte do dia, pois seus demônios vinham lhe atormentar, ao passo que ela sempre estourava pipoca em uma enorme panela que havia comprado na primeira semana em LA, e então se servia com uma enorme taça de vinho. Sentava-se no sofá, sempre na companhia de Stevens, e então juntos eles acompanhavam a sétima temporada de Law & Order. Já havia perdido as contas de quantas vezes havia declinado os convites para uma noitada na cidade dos anjos, os amigos sempre ficavam chamando Emma de “senhora de idade” e coisas do gênero, pois fora o trabalho e a academia, ela nunca saia de casa regularmente.
Em um dos fins de expediente, com todos mais alegres que o normal, pois o dia não tinha sido assim tão corrido e tumultuado, Swan finalmente resolvera se abrir para novas experiências em Los Angeles, aceitando enfim o convite que August fizera. Pelo pouco que tinha ouvido sobre o programa da noite, todos, menos Gold, iriam a uma casa de shows no West Hollywood, porém Emma nada mais sabia, nem ao menos sabia se precisava passar em casa para se trocar, não sabia o quão chique o lugar era. Depois de organizar suas pastas e fechar sua gaveta, a loira percebeu que todos a esperavam de forma paciente, pois sabiam o quão metódica a detetive poderia ser. Ela sorriu, os olhando como quem fazia um pedido de desculpas silencioso.
—Eu tenho que passar em casa para me trocar ou tudo bem eu ir assim? Não conheço Los Angeles, vocês sabem disso! —Ela se levantou, puxando o blazer preto que usava por cima da blusa branca social de botões, para depois passar a mão pela calça social preta que ficava colada as pernas bem torneadas que possuia.
—Fique tranquila, o seu look policial de serie americana vai dar para o gasto! —Robin sorria enquanto dava um leve murro em seu braço. —Podemos ir agora?
—Claro, você não consegue se conter não é mesmo? As mulheres de West Hollywood podem esperar, Locksley, eu lhe garanto! —Ela sorriu, o olhando por baixo.
Foram em dois carros, o de Locksley, com Emma e August, e Ruby em seu carro, junto com Ariel e outro homem do mesmo departamento que Swan não fazia ideia de quem era. Robin era o tipo de homem que poderia animar a festa de uma senhora idosa de oitenta anos sem muito esforço, e isso se aplicava a qualquer lugar, principalmente enquanto ele dirigia. O som estava quase no ultimo volume, tornando a conversação dentro do veiculo praticamente impossível. Emma contava com aquele momento no carro para saber aonde iriam e para o que ela deveria se preparar, porém, tudo se tornara um mistério e não havia nada que ela pudesse fazer para mudar tal realidade. O trânsito estava ameno naquela sexta-feira à noite, o que parecia bem estranha para a loira, pois LA nunca era amena, principalmente no trânsito de um dia agitado. Robin dirigira pelo o que parecia quarenta minutos ou menos, estacionando na única vaga da rua. Ao descer do carro, Emma Swan vislumbrou a Sunset Strip pela primeira vez, se encantando com a quantidade de luzes e pessoas transitando. Ruby chegara alguns minutos depois, demorando um pouco para achar uma vaga.
Quando todos finalmente se reuniram, andaram por alguns minutos chegando à fachada do lugar onde passariam parte da noite. Os olhos verdes se faziam curiosos, olhando tudo ao seu redor. Era possível escutar a música que vinha de dentro do lugar, não era música eletrônica, pois não se tratava de uma boate, era música feita para atiçar os nervos.
—Robin? —Emma ainda olhava para um cartaz na porta que dizia “A melhor vista do Sunset Strip”.
—Emma? —Ele olhou para trás de soslaio.
—Está me levando a uma casa de strip-tease na minha primeira noite fora em LA? —Todos gargalharam.
—Burlesque Lounge nunca foi e nunca será uma casa de strip, Emma, esse lugar é onde você pode ser quem você realmente é, é um lugar para a boa apreciação das artes! Confie em mim, você vai se encantar. —Ele então passou o braço pela nuca de Emma, a trazendo para mais perto. —Eu sou o melhor parceiro do mundo, não te colocaria em uma fria, você sabe disso!
—Você sabe que eu sou bastante hétero, não sabe? —Ele afirmou com a cabeça. —Porque me trouxe a uma casa de mulheres que dançam artisticamente? O que possivelmente poderia me instigar aqui?
—Emma, entre e veja com seus próprios olhos, caso não se sinta instigada, eu chamo um táxi e você vai para casa ficar com seus gatos assistindo series policiais!
A loira finalmente cedera, rindo ao parceiro enquanto adentravam ao Burlesque Lounge rapidamente. O ambiente era sufocante, e ao mesmo tempo extremamente acalentador, havia vidro nas paredes, o que lhe possibilitava uma visão geral, porém com menos detalhes, de todo o lugar. Os olhos verdes curiosos olhavam para todos os lugares enquanto todos pagavam suas entradas. Emma ouvira o começo de uma música, e então seus olhos foram arrastados para o palco principal, onde dançarinas estalavam seus dedos em alto e bom tom, alertando sobre o inicio do show daquela noite. A música cessara, e apenas os estalos continuaram. Robin, percebendo que Emma já estava perdida, tirara mais uma nota de vinte dólares, pagando a entrada da parceira para então arrasta-la para dentro pelo braço.
As luzes do palco se tornavam escassas, diminuindo a visibilidade cada vez mais, enquanto a luz vermelha tomava conta de todo o lugar. Enquanto os parceiros de trabalho procuravam uma mesa vazia, Swan faltava bater a perna em uma mesa ou outra, pois sua atenção estava focada no palco com pouca luz. Quando finalmente acharam uma mesa, a detetive Swan rapidamente se sentou, cruzando as pernas em seguida como sempre fazia. A luz branca descera pelo palco, dando destaque principal a uma mulher com um corpo extremamente sinuoso, seu cabelo ruivo estava em belos cachos extremamente volumosos, no topo da cabeça havia um chapéu preto que imitava o chapéu dos capitães de navios. A roupa cheia de glitter seguia os padrões de capitã, bem como a meia arrastão que deixava suas pernas em destaque. Era uma mulher linda, que mexia com os sentidos de todos os presentes que simplesmente não conseguiam tirar seus olhos dela. A medida em que tal mulher cantava com uma voz rouca e melodiosa junto a música que voltara a tocar, as outras dançarinas pareciam ganhar vida, levantando as mãos em movimentos suntuosos, levantando seu corpo a medida que a música avançava.
—Aquela é Zelena, a dona desse lugar. —Robin sussurrou próximo do ouvido de Emma.
A letra da música era claramente uma apresentação, uma apresentação do lugar e suas beldades. À medida em que a música continuava, Zelena ia falando sobre cada uma das dançarinas ali presentes, citando seus nomes e alguma coisa sobre sua personalidade. Emma estava de fato encantada, havia inclusive deixado seu cotovelo em cima da mesa para que pudesse apoiar seu queixo em sua mão.
—“Behave yourself” says Apple. —A voz imponente de Zelena dizia de forma melódica e então uma das mulheres ganhava foco, uma das dançarinas, com um short azul marinho tão curto que beirava a indecência, o top branco com listras vermelhas e um pequeno chapéu de marinheiro em sua cabeça. —Welcome to Burlesque! —A mulher sorrira.
—Quem é aquela? Robin... —Ela o cutucara, pois o mesmo conversava animadamente com Ruby. —Robin... Robin!
—O que foi, Emma? Achou algo que a intriga? —Ele sorriu.
—Quem é aquela? —Ela apontou para a mulher que dançava sinuosamente no palco, como se comandasse aquele lugar por conta própria.
—Aquela é Apple, ou Regina, como você preferir, ela é intocável aqui, a menos que você tenha algum segredo para conquista-la!
Notas finais
Stevens, o gato http://www.aaanything.net/wp-content/uploads/2013/07/Soft_beautiful_and_fluffy_kitten.jpeg
Bolacha, o gato http://www.petmaxi.com.br/wp-content/uploads/2016/08/gatodormir.jpg
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