Chamas do Inverno - Hiatus
2 Capitulo I
Notas iniciais
Fosran, Reino dos Dragões.
Dezenove anos mais tarde.
O tempo era ruim, de certa ou total forma, independente de interpretações, o tempo era ruim. Damon entendia muito bem o quão sua vida seria ruim, não porque escolheu que fosse de tal maneira, mas ele não possuía alguma outra rota, uma fuga ou qualquer escolha.
Sentou-se na cama e massageou a nuca dolorida, a brisa fria adentrava no quarto pela janela entreaberta, a malha fina que revestia seu corpo era insuficiente para deter que tal chega-se a sua pele clara. Passou a mãos pelos longos fios negros e macios em sua cabeça, e suspirou.
Os pés descalços tocaram o chão, o moreno dirigiu-se para o local onde as cortinas dançavam. Olhou pela janela e pode ver que o sol já havia despertado, o doce perfume das flores do jardim invadiam o local, e aparentemente, este seria um dia aceitável.
Vestiu rapidamente uma roupa adequada para o momento, peles de carneiro faziam a maior parte do seu guarda-roupa, assim como de ursos e algumas raposas dos bosques do leste e sul. Calçou suas botas e saiu de seu aposento, caminhou pelo largo corredor e viu a porta do quarto do irmão entreaberta.
Silian, sua mãe aguardava do lado de fora. Em suas mãos um pano úmido manchado de sangue, seus cabelos alaranjados caiam sobre a face pálida, as sardas se misturavam a pequenas linhas próximas aos olhos claros, denunciando sua idade mais avançada.
– Mãe? – Chamou o rapaz.
A mulher o olhou e abriu um sorriso de canto, aparentemente havia passado a noite em claro.
– Como ele está? – Continuou.
Enchendo os pulmões com todo o ar possível, ela segurou as lágrimas que enchiam rapidamente seus olhos e encarou o pano sujo em suas mãos.
– Pior. – Disse por fim.
O moreno se aproximou e a abraçou, não por muito tempo, mas o suficiente para que ela se sentisse melhor. Damon amava o irmão e no estado em que se encontrava era difícil para qualquer um, Angel nunca havia o ajudado em um minuto sequer, ao contrario, até o momento só tornava sua vida mais impossível do que já parecia ser, mas independente disso, continuava sendo seu irmão.
Desceu as escadas e caminhou pelo castelo, comeu um pequeno pedaço de pão com mel, por insistência de uma das senhoras da cozinha. O alimento desceu como pedra, não por causa da comida em si, o gosto estava excelente, mas o humor de Damon estava um pouco pior que péssimo.
Queria poder ajudar Angel, mas se nem os sábios descobriam sua doença, como um garoto como ele conseguiria fazer algo? Não podia mover montanhas e certamente, escalá-las demoraria muito, para seu irmão não sobrava muito tempo.
Apressou-se para fora, talvez se soubesse de alguém que poderia ajudá-lo. O sol forte atingiu-o diretamente, deixando sua visão turva por um pequeno período de tempo, o rapaz tinha pequenos problemas com a claridade. Continuando a caminhada, seguiu o perfume das flores, um longo e tedioso caminho.
Não muito longe pode avistar a jovem baixinha ao lado dos lírios. Correu até a mesma e sorriu, ela retribui o sorriso ao vê-lo se aproximar, mas seus olhos estavam carregados de dor e melhor que todos, Damon podia ver isso, em qualquer pessoa, em qualquer lugar.
Amélia trabalhava no castelo, tinha exatos vinte e dois anos, um coração puro e lindas orelhas de coelho, ela havia engordado nos últimos cinco meses, mas Damon preferiu ignorar isso e não pensar nada. A jovem puxou uma mecha do cabelo castanho para trás da orelha e se sentou no pequeno muro de pedras.
– Então... – O jovem falou, sem jeito.
– Você sumiu nos últimos dias... Senti sua falta. – Ela mexia em seu vestido.
– É, estava à procura de algo.
– Do que?
Damon enfiou as mãos nos bolsos quentes de sua blusa e parou para pensar por um momento.
– Não sei, só estava procurando.
– Como queria achar algo que não sabe o que é? – A moça franziu a sobrancelha.
– Hum... – Ele deu de ombros. – Quando achar te conto.
Ela sorriu e em seguida encarou o chão, segurou forte o vestido e mordeu o lábio inferior.
– Qual o problema, Amélia? – O moreno sentou-se ao seu lado, mas evitou olhá-la.
– Eu... – Ela hesitou por um momento. – Acho que já percebeu isso, acho que qualquer um já percebeu isso! – A moça tentou rir.
Damon forçou um sorriso enquanto sentia os olhos da garota caírem sobre ele.
– Do meu irmão?
– Não me deitei com mais nenhum homem, você sabe que eu...
– Sim. – O rapaz a interrompeu. – Eu sei.
– Tenho rezado todas as noites, pedindo para os Deuses que o salvem...
– Ele vai ficar bem e você poderá contar. – O maior se levantou e olhou-a.
– Eu não vou contar, só quero que ele fique bem.
– Porque não vai contar?
– Não é um amor recíproco e eu sou uma mulher qualquer, um filho pra ele será só um peso, ainda mais meu. – Ela sorriu no mesmo momento que quis chorar e de certa forma, aquilo afetou o rapaz.
– Amélia, nós estamos juntos desde pequenos, não é possível que ele não sinta absolutamente nada.
– Acho que você não conhece seu irmão, Damon... – Ela se levantou. – Mas vai ficar tudo bem! Estou vendo um jeito de ajudá-lo.
– Acho que todos estão. – O moreno revirou os olhos. – Apesar de não merecer.
– Não seja ruim!
– Não estou sendo ruim, talvez... Só um pouco sincero.
– Todos merecem viver, independente do que tenham feito. – Amélia cruzou os braços. – As pessoas mudam.
– Nem todas. – Ele se virou e começou a caminhar sem uma direção certa.
– Damon! – Gritou a pequena.
O rapaz não virou, apenas parou e esperou.
– Eu vou tentar... – Continuou a mesma.
– Eu sei que vai. – Assim dizendo, o jovem voltou a caminhar.
* * *
Damon passou pela cidade cumprimentado todos que via, não de um jeito falso como deveria fazer, da forma seca e sem vontade, como se sentia no momento. Chegando ao porto de Fosran, sentou-se e olhou para a água e dessa mesma maneira, passou o dia. Completamente vazio e cheio, contradizendo os próprios pensamentos inúmeras vezes.
Por um curto momento, sentiu uma grande falta de sua irmã. Ela sim saberia o que fazer. Lanna? A Rainha do Reino dos Leões governava ao lado de Hans a mais de sete anos, e nesses sete anos, Damon viu a irmã algumas cinco, seis vezes. Trocavam cartas, mas nunca seria a mesma coisa.
O crepúsculo tomava o horizonte, uma mistura de angustia e desconforto enchia o peito do rapaz. Daria tudo para ser qualquer coisa nesse momento, qualquer coisa menos ele mesmo.
Bateu a ponta da bota na água e se levantou, observou tudo ao seu redor e não muito longe dali pode ouvir a folia em um bordel conhecido. Aproximou-se do local e como esperado, as coelhas estavam quase nuas e bebendo com homens quaisquer. Nada diferente do normal, além da falta de Angel no estabelecimento.
Damon apressou os passos e viu que as ruas estavam quase vazias, as lamparinas começavam a ser acesas, os pequenos comércios começavam a fechar e as pessoas voltavam a suas residências.
Madame Kora, dona do bordel, conversava com um rapaz baixinho e de bochechas rosadas. O rapaz tinha uma longa calda branca e orelhas da mesma tonalidade, assim como a senhora a sua frente, o que levou o moreno a pensar que poderiam ser parentes, mas pelo pouco que sabia, Madame Kora não havia casado, nem ao menos tido nenhum filho.
O pequeno, que conversava com a senhora, olhou para Damon e ambos se encararam por um curto período de tempo, até que o moreno voltasse a caminhar, aquele rosto lhe parecia familiar.
Uma estranha figura encapuzada passou rapidamente ao lado do rapaz, aquele perfume pertencia a alguém conhecido, mas ele não conseguia se lembrar no momento. E como não havia nada que podia fazer, pôs-se a seguir aquilo. Uma das inúmeras habilidades do jovem era se camuflar, claro que se tornava muito mais fácil durante a noite, além de que qualquer um de seus dons se fortalecia quando o sol se deitava.
Seus pés deixaram de tocar o solo e ele passou a levitar, alguns dragões conseguiam ser mais sorrateiros que próprios gatos. Damon esfregou os braços, a roupa já não era o suficiente para esquentá-lo naquele momento.
A figura tomava um caminho diferente, e seguia a oeste, em direção aos bosques proibidos. O que aquilo tinha na cabeça afinal? O moreno não deixou de segui-la, em nenhum momento, tinha certeza que se algo acontecesse teria forças suficientes para escapar, além de que sempre teve a curiosidade de saber o que habitava aquele local.
Após uma longa caminhada, ambos pararam próximos á floresta. Barulhos estanhos já podiam ser ouvidos, os troncos das arvores eram negros, e suas folhas um verde tão escuro quanto tais. A vida naquele local era mínima, ou era isso que os livros e os anciões contavam.
O de capuz passou a correr, perdendo-se na escuridão da floresta, Damon tentou segui-lo, mas era quase impossível enxergar qualquer coisa. Parou e passou a caminhar enquanto sentia o fraco cheiro do perfume doce. Respirou fundo e tentou conectar-se com o local, mas algo o bloqueava.
Por ainda estar em desenvolvimento, não tinha cem por cento de suas habilidades e isso o prejudicava às vezes. Ou quase sempre. O tempo era ruim. Seus olhos aos poucos se apropriavam ao escuro, e malemá ele enxergava. Continuou a seguir o cheiro e seu peito se encheu de uma estranha dor, o que o fez apressar-se.
A luz estava à frente, uma brecha entre as arvores iluminava algo caído no chão. As arvores movimentaram-se, o que assustou o rapaz e independente do ato, ele continuava a se aproximar.
Próximo o suficiente, viu que era a figura de capuz. Arrancou a veste e viu dois rostos, ficou paralisado por um curto período de tempo. Amélia tinha em braços, seu bebê. Ela o olhou e chorou enquanto o sangue escorria do canto de sua boca.
– Salve. – A jovem usou suas ultimas forças para dar a criança ao moreno.
– Amélia, o que está fazendo aqui? – Com o bebê prematuro em suas mãos, Damon arrancou a manga de sua blusa para esquentá-lo e em seguida abaixou-se ao lado da mulher. – Irresponsável! Poderia estar morta agora!
Ao tentar pegá-la, percebeu que a mesma estava presa a algo, mas nada via.
– Eu não queria que fosse assim. – A mulher chorava cada vez mais. – Eu o amo tanto... Quero que cuide dele, Damon, salve-o e diga a Angel que o amo, diga que esse filho é dele!
– Do que está falando?! – O maior a puxava com mais força. – Mesmo que ele não mereça seu amor ou esse filho, você ira dizer a ele, Amélia!
– Angel tinha dito... Que Vinci era um lindo nome, então este será. – Ela sorriu ainda chorando.
– Pare! – Gritou.
Até o momento, Damon não havia ouvido o choro da criança, mas não se importou, poderia estar dormindo, já que estava quente por causa da veste e em seus braços.
– Me perdoe, por não amá-lo. – A pequena sorriu e o chão a sugou repentinamente. – Eu irei, para que ele possa viver...
– Amélia... – O moreno tocou o solo com sua mão livre e em seguida tentou cavar, desesperadamente. – Amélia!
Segurou com cuidado o bebê nos dois braços e sentiu seu peito doer um pouco mais, o ódio o consumia, até olhar para a criança e perceber que a mesma não respirava. Deitou-a no chão e massageou seu peito, soprou sua boca e nariz, numa mínima esperança de tê-lo de volta e depois de minutos num mesmo processo deixou que seu ódio se transformasse em lágrimas.
Pegou novamente o bebê e abraçou-o com força. Rugiu, não como um leão, ou até mesmo um dragão. A noite escutou a sua dor e as criaturas de todos os bosques, já temiam sua irá.
* * *
Algumas horas depois, após enterrar o pequeno no pé da arvore mais velha e bonita próxima ao reino, prometeu visitá-lo sempre que possível e trazer presentes. Cogitou a ideia de matar o irmão, mas sabia que o sacrifício de Amélia seria em vão e essa era a ultima coisa que desejava.
Ao voltar para o reino, passou perto do bordel onde a farra era ainda maior, parou por um momento e observou o local. Estava tudo estável, até que observou uma figura alta e ruiva com duas coelhas. Angel bebia e ria.
– Hoje, todos bebem por minha conta! – Gritou enquanto apalpava os seios de uma.
Damon passou a mão por seu braço nu e cogitou novamente a ideia de matá-lo, mas não queria carregar mais uma morte consigo, mesmo que o individuo merece-se imensamente, sofrer. Não valia a pena.
O jovem loiro próximo de Damon observou-o de trás de uma arvore qualquer. Podia sentir que algo incomodava-o e estava curioso por aquela figura alta de cabelos negros, quando decidiu aproximar-se, o moreno voltava a caminhar, deixando o gato ali sozinho, vendo-o partir.
É só um tempo ruim, aqui dentro. O tempo todo, todo o tempo.
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