Chamado do mar
1 Capítulo Único
Nunca fui muito ligado nessas coisas de mitologias e lendas, mas certa vez aconteceu algo comigo que me fez repensar minhas crenças. Por vezes lembro daquele dia e penso que tudo não passou de uma doce alucinação, que seria um absurdo achar que tudo aquilo tivesse sido real. Mas sempre que isso me ocorre, abro a última gaveta da minha escrivaninha, no compartimento mais secreto, onde guardo meus pequenos tesouros particulares, e lá está ela, sorrindo para mim: uma esponja marinha, amarelada e ressecada pelo tempo fora d'água. Ela era a prova cabal de que eu não estava louco. Então, não poderia deixar de sorrir-lhe de volta, acariciando-a suavemente com a ponta dos dedos. Sinto a rigidez de seus poros ressecados sob a pele, e embora ela tenha perdido a maciez de outrora, isso ainda me faz lembrar de cada detalhe daquele dia em que me perdi em um mundo de sonhos. Para sempre, aquela esponja seria cúmplice de meu segredo.
Era uma tarde de verão do ensino médio e a classe tinha organizado uma excursão para a Praia dos Sonhos, a última parada da cidade vizinha. Era um lugar afastado e de difícil acesso, devido a sua geografia recortada e aos morros rochosos que a envolviam, muito diferente da maioria das praias convidativas de nosso país. No entanto, sua inacessibilidade não era um empecilho para um bando de adolescentes cheios de adrenalina nas veias.
Eu estava satisfeito em poder ir, era uma oportunidade para relaxar depois de meses a fio com o fantasma do vestibular sobre meus ombros. O que eu não contava, no entanto, era com a companhia grudenta de Mariana. Ela era uma patricinha da minha sala que se achava superior ao resto do mundo. Estudávamos juntos desde o ensino fundamental, mas nunca na vida ela sequer havia levantado o olhar para mim. Entretanto, nas semanas que precederam o passeio, ela parecia ter tomado consciência da minha existência e por algum motivo eu me tornei, da noite para o dia, o cara mais interessante da escola.
— Sabe, Marcos, eu nunca te vi com garota nenhuma — disse ela no intervalo, para o meu espanto.
Acho que você nunca me viu de jeito nenhum, pensei eu.
— Deve ser porque eu não tenho namorada — eu caí na besteira de dizer.
Depois disso, minha vida virou um inferno. Ela passou a me seguir para todos os lados e não perdia uma oportunidade de se insinuar para mim. Eu até tentava fugir, dizer que não estava interessado, mas uma garota quando está determinada a algo consegue ser mais pegajosa que baba de lesma.
Desta feita, no dia do passeio as coisas não tinham mudado muito. Ela insistiu para sentar-se comigo no banco do ônibus, quase expulsando meu amigo Fábio aos pontapés – com o qual eu já havia combinado previamente de sentar-me, para evitar a companhia forçada da garota. O pior de tudo eram as olhadas maliciosas do resto do ônibus, seguidas dos burburinhos não baixos o suficiente, e das risadas zombeteiras. Mariana sorria para mim com olhos famintos e jeito de quem iria atacar a qualquer momento. Eu puxei o capuz do moletom para o rosto e virei de costas para ela, afundando na poltrona do ônibus e fingindo dormir. Minha vontade era de me enfiar em um buraco de tanta vergonha.
Mas aquilo não podia continuar, eu tinha que fazer alguma coisa! Iria aproveitar aquele passeio para colocar os pingos nos is com Mariana. Se preciso fosse, até lhe diria que não gostava de garotas e sim de garotos – coisa que só não tinha dito antes por medo de ela sair espalhando isso pelo colégio todo. De qualquer forma, estava decidido a fazer com que ela desistisse de mim.
Quando o ônibus finalmente parou, ela tocou em meu ombro para dizer que tínhamos chegado, e eu imediatamente levantei e desci, deixando-a para trás. Passei os olhos rapidamente por cima do aglomerado de estudantes e logo avistei meu amigo Fábio, indo até ele.
— Por favor, ajude-me a me livrar dela — implorei.
Como resposta, ele riu, achando aquilo a coisa mais engraçada do mundo.
— Eu e o resto dos rapazes queremos saber o que você fez para seduzir a garota mais difícil da escola — disse ele, zombando de mim.
Eu o encarei, fuzilando-o com o olhar.
— Não tem graça!
Neste momento, porém, Mariana havia me descoberto e não perdeu tempo:
— Hey! Não é elegante deixar uma dama para trás.
Senti o sangue me subir pela cabeça.
— E quem disse que estou tentando ser elegante?
Ela deu de ombros.
— Esqueça, vamos subir as rochas. Você vai me ajudar, porque não tenho muita coordenação motora e posso acabar escorregando e caindo…
Lancei um último olhar desesperado para Fábio, que coçava a cabeça. Ele não estava mais rindo, mas me olhava sem jeito.
— Desculpe, Marcos, mas acho que esse problema é seu… — disse ele, finalmente respondendo a minha primeira pergunta.
Grande amigo!
Assim que começamos a subir, percebi que ficaríamos para trás. Enquanto todos avançavam, escorando por entre as pedras, eu tinha que parar para ajudar Mariana. A cada obstáculo, ela gritava e me fazia voltar para ajudá-la. Logo, estávamos sozinhos na trilha dos rochedos. Alguns metros à frente, percebi que estávamos perdidos naquele labirinto de pedras. Pedi que ela me esperasse e avancei alguns metros, gritando na esperança de que alguém me ouvisse. Mas tudo o que recebi como resposta foi o barulho das ondas se quebrando sobre as rochas lá embaixo. Quando voltei, olhei com raiva para Mariana, pois ela havia nos metido naquela situação. Porém, a garota começou a chorar.
— O que faremos agora? Sou jovem demais para morrer.
Devia ter pensado nisso antes, pensei eu com amargura.
— Fique calma. Se não conseguirmos encontrar a praia, na pior das hipóteses teremos que ficar aqui e esperar que os outros voltem e nos encontrem. Não existem muitas passagens por aqui…
Ela concordou com a cabeça, mas ainda tremia de medo. Antes que pudesse se aproveitar da situação, me pedindo que a abraçasse, eu resolvi que o melhor era colocar o máximo de distância entre nós.
— Olhe, está vendo aquela rocha lá em cima? Vou até lá, ver se consigo enxergar alguma coisa da praia. Enquanto isso, fique aqui e tente não entrar em pânico.
— Está bem… — disse ela a contragosto.
Eu tirei o tênis para não escorregar e me afastei, passando por entre uma fresta de rochas que se apoiavam no topo, e logo cheguei do outro lado, onde mais um morro rochoso havia sido esculpido pela natureza. Com alguma dificuldade, iniciei a escalada, apoiando-me pelo lado esquerdo, que se erguia em uma parede íngreme. Cheguei ao topo arfando, mas feliz por me livrar de Mariana ao menos por alguns minutos.
A superfície do morro era plana e se projetava para dentro do mar, por isso era possível ter uma visão de todo o horizonte azul. Por um instante, me detive a observar aquelas águas infinitas que sempre me fascinaram. O vento, que soprava do leste e bagunçava meus cabelos, movimentava-se sobre elas, descrevendo-lhe ondas selvagens e perigosas. Respirei fundo, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha, e passei a observar as margens com mais cautela. Tudo era rochas e mar. Calculei que a praia ainda devia estar distante, pois dali de cima não dava para vislumbrar nem uma fresta dela. Desapontado, voltei os olhos para o mar, e foi então que o vi pela primeira vez…
Não percebi o que era logo de cara. Em um movimento brusco das ondas, um ser se projetou, brilhando ao sol. Inclinei-me mais sobre a beirada do morro, tentando desvendar o que era. Pelo formato do corpo, pensei se tratar de uma pessoa.
— Hey! Aqui! — gritei para ele, acenando com as mãos acima da cabeça.
Apesar da corrente, ele nadava com grande habilidade, e estava vindo em minha direção quando ouvi algo caindo bem atrás de mim. Virei-me por um instante para me dar conta de que Mariana havia me seguido.
— Mas o que você está fazendo aqui? — disse eu, com raiva.
— Não consegui esperar… — ela arfou. — Com quem… Você estava falando? — emendou, erguendo-se do chão com a desenvoltura que até aquele momento não tinha demonstrado, e correu para o meu lado, olhando para o mar com desconfiança.
No entanto, para todo lugar que se olhasse, não havia nem sinal de criatura alguma.
— Algo que vi no mar… — disse devagar, tentando digerir a cena que acabara de presenciar. — Acho que era um peixe…
Ela olhou para mim espantada.
— E estava falando com um peixe? Você é mesmo esquisito…
De repente, minha paciência com ela havia se esgotado. Estava convencido de que sua presença havia espantado aquele ser, e isso me irritava.
— E você nem tinha que estar aqui! Eu disse para me esperar, por que veio afinal?
— Porque preciso ter uma conversa séria com você! — retrucou ela, em um tom que me assustou.
— Conversar o quê? — tornei, na defensiva.
— Nesses dias tentei me aproximar de você, mas percebi que você só me despreza… Quero saber o que fiz para merecer isso, sou uma pessoa tão horrível assim para merecer tal tratamento?
A sinceridade nua e crua pode te dar um soco na cara de vez em quando, e aquela me acertou com tanta força que me quebrou as pernas. Pela primeira vez, eu não sabia o que dizer.
— Isso não é verdade, eu não desprezo você…
— Mas não me acha digna da sua companhia!
— Está se diminuindo, mas não é bem assim — improvisei. — Eu só não estou a fim de você, acho que deveria ir atrás de alguém que goste de você, mas isso não significa que te ache uma pessoa horrível…
— Certo… Então me diga, o que acha sobre mim?
— Sério, isso não é necessário…
— Não, eu quero saber!
Eu olhei para ela e encarei sua face desarmada. Eu não tinha experiência com garotas, mas não queria magoá-la agora que estávamos jogando as cartas na mesa. Vasculhei minha mente, tentando encontrar algo que a fizesse desistir de mim para sempre, mas nada tão ruim que a machucasse. Teria que encontrar um meio termo. Ela continuava a me olhar, ansiosa pela resposta, e após muito pensar, acabei soltando:
— Acho que você é como uma… Uma esponja…
Não fazia a mínima ideia de onde tinha tirado aquilo, mas até que poderia funcionar.
— Esse foi um elogio que nunca me fizeram — disse ela, pensativa.
— Quem disse que é um elogio?
— Então explique!
— A esponja à primeira vista é macia. Quando você a aperta, ela é suave, tenra, aderente, mas quando você a esfrega na pele, o atrito de sua superfície porosa a torna áspera, às vezes até machuca.
— Humm… E você quer me apertar ou me esfregar?
Olhei para ela, atônito. Será que não desistia nunca?
— Você não entendeu o espírito da metáfora!
Ela começou a rir, achando muito engraçado, e a se aproximar perigosamente de mim. Instintivamente, dei um passo para trás.
— Eu entendi sim, só não sabia que tinha um gosto tão estranho! — continuou ela, colocando uma das mãos em meu peito. — Vamos, me deixe ser sua esponja!
Seu contato repentino me assustou e, em pânico, fui obrigado a dar outro passo para trás para evitar que seus lábios encontrassem os meus. O que eu não fazia ideia, porém, era de que já estava no limite do precipício do morro, e ao pisar em falso, meu corpo inclinou-se para trás. Mariana deu um grito e tentou me puxar de volta, mas já era muito tarde…
Dizem que a vida passa por sua mente como um filme em câmera lenta quando se está a beira da morte, mas eu só tive tempo para assimilar a gravidade da situação quando caí de costas sobre as águas salgadas e elas me partiram com a dor de mil chicotadas. Abri a boca, tentando encontrar o ar, mas fui engolido por uma onda que passava, sendo arremessado com violência para uma das rochas de forma irregular que circundavam aquela porção de mar. A primeira pancada que recebi fez com que eu mal sentisse o impacto da segunda. Só percebi que estava sangrando quando olhei para baixo e notei que o mar tingia-se de vermelho. Em meu desespero, tentava, em vão, segurar-me na rocha a fim de evitar a fúria de mais uma onda.
No entanto, enquanto estava lá, à deriva, com a cabeça e parte do dorso sangrando, tive a visão mais mística de toda a minha vida. O que eu tinha visto antes era, na verdade, um homem. Mas não um homem comum. Da cintura para cima, tinha uma pele morena e seus cabelos, lisos e negros, brilhavam ao sol, em uma harmonia perfeita. Porém, a partir de seu baixo-ventre, projetava-se uma cauda de peixe, com milhares de escamas prateadas que lhe conferiam um efeito mágico esverdeado. Vinha nadando em minha direção, movimentando a cauda escamosa com grande agilidade sob a água.
Ele passou um dos braços envolta da minha cintura e me puxou para si delicadamente. Eu não protestei, primeiro porque não estava em condições físicas para isso, e segundo porque eu estava fascinado com seu encanto e beleza. Ele não tinha dificuldades para me levar contra as ondas. Por mais forte que fossem as águas, ele só precisava de sua cauda para nos guiar, e eu me segurei em seu braços, sentindo sua musculatura perfeita se movimentar contra o meu corpo. Quando dei por mim, tinha me arrastado até uma espécie de gruta, que havia se formado provavelmente pela ação constante das ondas contra as rochas, me deitou ao chão e ficou me olhando de cima, com seus olhos negros tão profundos e misteriosos quanto as águas do Oceano Pacífico. Por um instante, esqueci-me de meus machucados e tentei me comunicar com ele:
— Quem é você?
Ele não me respondeu, mas continuou a me olhar daquela forma perturbadora. Estava me perguntando se teria entendido o que lhe disse, quando percebi que sua cauda estava ao meu redor e não pude resistir. Estiquei a mão para tocá-la, sentindo sua frieza escorregadiça. Talvez isso tenha sido demais, pois ele se afastou, levando sua cauda para longe de mim.
— Me desculpe, não quis assustá-lo… — tentei dizer, fazendo um movimento com o tronco do corpo que me fez ver estrelas. A dor me arrastou de volta para a consciência dos meus ferimentos e eu recuei, fechando-me como uma concha.
Eu não o vi chegar. Apenas senti algo me tocando. Algo macio e reconfortante. Ele o estava pressionando contra o dorso ferido, tentando estancar o sangue. Olhei para baixo e vi uma ponta porosa e amarelada, que tingia-se rapidamente de vermelho, absorvendo o sangue. Uma esponja. De onde ele a havia tirado era um mistério quase tão grande quanto a sua própria existência.
Com o seu movimento brando em minha pele, eu me acalmei, sentindo a dor aliviar um pouco. Então ele levou a esponja até a minha testa, que também sangrava, e assim que senti sua superfície tenra almofadada, encontrei com seus olhos divertidos. Olhando para sua face, notei uma ponta de malícia que parecia querer me dizer: “Então gosta de esponjas?”. Fiquei imaginando se ele poderia ter ouvido minha conversa com Mariana lá em cima.
Enfim, desisti de tentar decifrar aquele ser enigmático e fechei os olhos, deixando-me guiar pela sensação agradável da esponja em minha pele. Mais uma vez, ele a desceu pelo meu corpo, esfregando-a desde o rosto, passando pelo peito, e seu atrito tornou-se intenso. A aspereza de seus poros encontraram-se com o dorso machucado e minha pele ardeu em chamas. O grito de dor ecoou pela gruta e perdeu-se no mar. De repente, não havia mais esponja. Abri os olhos e o vi se afastando para o mar. Eu não queria que ele fosse embora. Não queria perder aquela visão mágica.
— Hey, espere! — gritei, arrastando meu corpo dolorido, tentando alcançá-lo. — Não vá, eu preciso de você…
As ondas estavam mais calmas agora, mas o contato do sal com as feridas abertas me cortaram com a dor de mil facas. Engoli em seco, tentando ignorar aquela tortura, e avancei mar adentro. Ele estava a minha frente, mas era mais rápido e eu nunca chegaria até ele. Em meu desespero, comecei a gritar, implorando que voltasse. Mas, ferido como estava, o esforço que fiz foi fatal. Minha visão tornou-se turva e eu percebi que não adiantava mais lutar, pois minha consciência estava lentamente se esvaindo.
Então deixei que o mar me engolisse, imergindo por completo. Ainda consegui abrir os olhos debaixo d'água e o vi por completo. Finalmente estava voltando para mim, sua cauda descrevendo movimentos precisos contra as águas. Seus negros cabelos voavam em torno de seu rosto como uma moldura perfeita. Ele me segurou em seus braços e colou sua boca na minha, soprando um último resquício de vida. Ali, no fundo do mar, eu me deixei enlaçar, forçando minha língua contra a dele. Ele correspondeu, beijando-me com avidez.
Estava perdido e não queria ser salvo. Não me importava se não voltasse nunca mais, deixaria que a criatura de meus sonhos me arrastasse consigo para as profundezas do oceano, para sempre. Acho que era aquilo que chamavam de “o abraço da sereia”. Seu corpo movimentava-se contra o meu e suas ágeis mãos me exploravam com urgência. De repente, sua cauda estava em todos os lugares. Ela subia e descia por entre minhas pernas e pude sentir seu peso rígido enroscando-se em mim. Antes de fechar os olhos novamente, sua ponta bifurcada subiu até encontrar o pacote no meio das pernas. Não pude resistir à onda de prazer que me subiu pela espinha e soltei um gemido que borbulhou até a superfície. No entanto, eu já não habitava mais este mundo…
Quando acordei de novo, estava seco e em terra firme. Tinham me enfiado em uma cama de hospital e espetado um tubo de soro nas minhas veias. Mas o pior de tudo foi me deparar com o olhar inquisidor de Mariana. Por que sempre ela? — pensei de mau humor.
— Então você realmente encontrou sua esponja — disse ela, apontando para o criado-mudo ao meu lado.
Senti uma nova onda de prazer me invadir ao descobrir a mesma esponja que tinha nos aproximado. Meu sorriso deve ter me delatado, porque ela me olhava com uma carranca azeda.
— Estava no seu bolso quando o resgatamos.
— E como foi isso?
— Depois que você caiu, eu fiquei te gritando, mas você não respondia, então entrei em desespero. Mas nosso monitor já tinha se dado conta que tínhamos nos perdido e voltou para nos procurar. Ele finalmente me encontrou pelos meus gritos — pelo menos para isso eles servem. Então voltamos para a praia, onde um salva-vidas fica sempre a postos com um caiaque para emergências como essa, sabia disso?
Neguei com a cabeça.
— Pois é… Eu insisti para ir junto, estava me sentindo muito culpada. Quando te achamos, você estava coberto de sangue. Tive muito medo de estar morto, mas o salva-vidas viu que ainda tinha pulso e te trouxemos correndo para cá. Você perdeu muito sangue, é um milagre ainda estar vivo…
— Um milagre mesmo… — respondi em voz baixa, olhando novamente para a esponja. Tinha ficado totalmente vermelha, mas o sangue impregnado só era mais uma prova de que eu não tinha enlouquecido. Fiquei satisfeito em saber que tudo aquilo de que me lembrava não tinha sido apenas uma alucinação causada pela dor e que, em algum lugar no mundo, o tritão realmente existia.
— Vai mesmo ficar com essa coisa? — desprezou ela.
— Vou! — nada no mundo me faria afastar daquela esponja.
— Bom, então é melhor tomar cuidado. Sabia que esponjas também são animais? Se ficar fora d'água, ela morre.
— Fique tranquila, não vou deixar que esta morra.
— Você é mesmo esquisito… esquisito e pervertido… — ia dizendo ela, enquanto caminhava até a porta. Fiquei olhando sem entender, até que ela parou na soleira, com a mão na maçaneta. — Sabe, eu nunca vi ninguém ter uma ereção estando à beira da morte.
Ela não ficou para ver meus olhos arregalados de espanto e minha cara vermelha. Fiquei imaginando se mais alguém além de Mariana teria reparado nesse detalhe. Mas, para a minha felicidade, ninguém disse nada. Meus amigos vieram me ver depois e até minha mãe apareceu, toda desesperada. Alguém tinha ligado para ela, que veio correndo, já imaginando que o pior teria acontecido com seu filho.
Com o tempo, minha vida voltou ao normal. Ou tão normal quanto ela poderia ser. Mariana finalmente havia desistido da ideia de me conquistar e voltou a desprezar minha existência, o que me deixou muito satisfeito. Melhor assim.
Quanto ao tritão… eu jamais o esqueci. Cheguei a voltar algumas vezes àquela porção de mar, com a esperança de encontrá-lo de novo, mas nada. Nunca mais vislumbrei sinal algum de criatura lendária, chegando até mesmo a duvidar da veracidade de minhas lembranças. Tinham dito que eu havia batido a cabeça, e isso poderia ter afetado minha noção de realidade. No entanto, existia algo que me fazia acreditar em toda aquela maluquice. Algo que havia testemunhado tudo o que eu tinha vivido naquela longínqua tarde e que agora eu segurava nas mãos: aquela pequena esponja marinha, murcha e ressequida.
Fale com o autor