Chalé Nas Montanhas

35 Um filme e uma lareira - Zangada !


Hoje

Ela depositou os pratos dentro da pia, enquanto ele revolvia o fogo da lareira.

A luz que a chama incidia sobre a sala emprestava um aspecto sombreado ao lugar. Ele tinha escolhido uma camisa branca, calça jeans e estava descalço, seu cabelo estava diferente, muito mais encaracolado e ele parecia bem mais novo, com uma cor bronzeada muito saudável.

Sara ficou olhando para ele, joelhos no tapete, sentado sobre os pé, com o atiçador.

Ela viu um sorriso discreto aparecer em seus lábios, o que ele estaria pensando ?

_O que foi, querida ?

_Em que está pensando ?

“Que nossa casa poderia ter uma lareira também !” — Na verdade ele achou que estivesse ficando paranoico, com tantos pensamentos românticos.

_Nada !

_Hum …

Ela se encolheu no sofá esperando por ele.

_Você quer que eu pegue uma coberta ?

_Acho que não …. venha aqui ! Temos a lareira e e eu tenho você !

Ele se sentou ao lado dela a abraçando.

_Eu já disse que você tem um cheiro bom ?

_Dezenas de vezes.

_Você tem … é uma delícia.

Ela beijou seu peito, inalando profundamente.

Assim que o filme começou, ele esticou as pernas na banqueta e ela se encolheu mais ainda em seus braços.

Algum tempo depois … ela olhou para ele, que parecia mesmo muito interessado em saber o que ainda viveriam Francesca e Robert Kincaid.

Um romance proibido, mas leve, de certa forma.

Era um filme bonito, profundo e delicado.

_Está gostando, Gil ?

_Muito bom … você está cansada ?

_Não ! — Estava bom o aconchego de seus braços, o silêncio, a luz do fogo, ele lhe deu um beijo suave e voltou sua atenção ao filme.

Assim que os créditos começaram a subir, ele ouviu ela suspirar.

_O que você faria se tivesse descoberto um romance secreto de sua mãe ?

Pergunta difícil.

_Eu não sei, Sara … talvez me assustasse um pouco … melhor não saber !

_E se ela quisesse que você soubesse … que tivesse deixado isso por escrito ?

Ele pareceu pensar !

_É muito estranho … pensar no meu pai … ah não sei querida … eu ficaria muito chocado !

_O filme te chocou ?

_Não !

_Então ….

_Mas ela não é a minha mãe …

Ela sorriu e passou a mão sobre a barba macia.

_Vamos subir ?

Ele olhou para a lareira, o tapete macio, talvez pudesse fazer da sala um lugar especial para … namorar !

_Acho que tenho outra ideia. Fique aqui.

Ele foi até o quarto, apanhou algumas cobertas, os travesseiros, depois os ajeitou no tapete e lhe deu a mão.

_Quer namorar comigo, aproveitar o fogo da lareira ?

_Eu aceito sr. Grissom !

Ele estava a ajeitando sobre as cobertas quando se lembrou de outro detalhe.

_Tem mais uma coisa ….

Ele foi até a cozinha e voltou com duas taças e a garrafa de vinho.

_Pronto … agora tudo parece perfeito.

Eles se aconchegaram no tapete olhando a lareira, degustando o sabor suave do vinho tinto.

_Aqui é bom …

_Qualquer lugar com você parece bom.

_Gil … nunca pensei que fosse tão romântico !

Na verdade nem ele.

_Talvez faltasse oportunidade …

_E precisa de oportunidade para ser romântico ?

_Como posso lhe agradar quando estamos no trabalho ? Acho que não cairia bem.

_É …

_Além do mais descobri que gosto de ter paz … isso me inspira.

Muitas revelações.

Ele tomou seu copo e depositou no chão, ao lado do seu.

Beijou suas mãos, e depois a boca macia. As mãos dele estavam quentes, assim como seu corpo dela reagindo sob ele, havia fogo, paixão, carinho.

Lentamente se despiram e fizeram amor delicadamente. O momento pedia romance e suavidade. As sombras alaranjadas do fogo sobre seus corpos, o crepitar da madeira, o torpor do vinho em suas mentes.

Dois amantes, um lugar perfeito e o sentimento que evoluía, que crescia com uma força assustadora.

Eles adormeceram muito tempo depois, mas antes ele teve que responder a outra pergunta dela ! Mais uma.

_Você a deixaria ?

_Como ?

_Se fosse Robert você deixaria Francesca ?

_Ah … o filme ! Não era uma decisão que cabia a ele.

_Sabia que esta seria sua resposta !

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Antes

Assim que seu voo foi anunciado, ela agarrou sua mala e se encaminhou para o portão de embarque, mas parou assim que ouviu uma voz a chamando.

_Sara !

_Gil ! Você não tinha uma reunião ?

_O prefeito está atrasado, ele teve um compromisso.

_Que bom que etá aqui … gostei da surpresa.

_Queria me despedir de você !

Ele a beijou longamente a apertando em seus braços.

_Até breve, querida. Aproveite tudo o que puder.

_Eu … preciso ir …

_Não esqueça de me ligar !

_Nunca !

Ele esperou até que a aeronave levantasse voo, pensando que sentiria falta dela.

Segundos depois, alguém o chamava no celular. Estava faltando apenas ele !

........

Assim que ela desceu, havia um homem de cabelos grisalhos segurando uma enorme placa com o nome dela.

_Eu sou a Sara ! Está me esperando ?

_Olá, meu nome é Joe, sou muito amigo de Grissom, ele pediu para vir buscá – la.

_Muita gentileza sua, Joe.

_Venha … minha esposa está nos esperando.

_Como assim ?

_As instalações do seminário mais parecem um dormitório, acho que Grissom queria que ficasse confortável.

_Os incomodando ?

_De jeito nenhum, ele me pediu para conseguir um hotel, fui eu quem insisti para que ficasse em minha casa.

Ela balançou a cabeça, o que estaria por trás daquela ideia ? Qual o problema dela em ficar com os outros. Assim que conseguisse falar com ele, iria querer saber.

Joe era falante e parecia ter um excelente humor. Como Grissom e ele poderiam ser amigos ? Eram tão diferentes.

_São amigos há muito tempo ?

_Faculdade … ele quase não tinha amigos, mas era um excelente professor, me ajudou muito. Se não fosse por ele, talvez tivesse desistido.

_Nossa ! — Ela exclamou surpresa.

_Ele é excepcional, faria qualquer coisa para ajudar uma amiga dele !

Amiga ?”

Ela suspirou, era típico dele, talvez ele nunca tivesse coragem de assumi – la.

_Obrigada, Joe. Você é muito gentil.

Anna a recebeu de braços abertos, era muito mais nova que ele, talvez quase a diferença entre ela e Grissom.

_Os gêmeos estão no banho, não devem demorar para descer.

Os garotos eram exatamente iguais, talvez seis ou sete anos. Tinham os cabelos claros, assim como a mãe, mas se pareciam muito com o pai.

Ela se acomodou no quarto de hóspedes. O mais interessante é que poderia ir a pé até a universidade, bastava caminhar duas quadras. Prático ela pensou !

Seu namorado havia pensado em tudo, para variar, ele tinha o hábito de fazer isso, vivia a surpreendendo.

Ela tomou um banho relaxante e ouviu quando Anna avisou sobre o jantar.

A mesa parecia muito farta, os garotos Jake e Allan estavam fazendo guerra com as ervilhas, assim que ela apareceu, eles pararam imediatamente.

_Então você trabalha com Grissom ?

_Sim … ele é meu supervisor !

Joe e Anna trocaram um olhar cúmplice. O que significava aquilo ?

_Você também gosta de insetos ? — Um dos garotos quis saber.

_Insetos ? Muito pouco … deixo isso para o Gi … Grissom.

_O ano passado nós fomos a uma exposição, ele me explicou sobre quase todos eles.

_Eca ! Baratas, moscas, besouros, prefiro eles de pernas para o ar, depois do inseticida..

Sara sorriu. Jake era avesso a insetos e Allan parecia adorar. A diferença deles era uma pinta exatamente no meio da bochecha.

_Você precisa descansar, Sara … o seminário começa muito cedo, e vai ter que guardar suas energias, eu acho muito puxado.

_Não me importo … quero aproveitar tudo que puder.

Eles sorriram e algum tempo depois ela se ajeitava na cama, lembrando que teria que ligar para ele, tinha algumas perguntas a fazer.

Ele atendeu no primeiro toque.

_E então ? Está bem acomodada ?

_Não se preocupe, Joe disse que faria qualquer coisa para ajudar uma “amiga” sua !

Ela ouviu ele limpar a garganta.

_Você … está chateada ?

_Sim … não vou negar … e fingir que está tudo bem. Estou triste com você !

_Eu … não quis constrangê -la, foi só isso.

_Tem mais uma coisa. Qual o problema de ficar nos quartos disponíveis para os participantes ? O que tem demais ?

_Eu só quis deixá – la mais confortável, Sara.

Se era para ele se sentir péssimo, ela conseguiu. Só pensou em ajudá -la, estava brava e ele não gostava quando ficava assim.

_Eu acho que toma decisões demais por mim, não acha que sou eu quem tenho que escolher ?

_Desculpe.

_Se quer que as pessoas não saibam sobre nós dois, posso tentar entender … e sobreviver, mas ficar incomodando os outros, isso já é demais.

_Sara … olhe … eu não tive a intenção de fazer qualquer coisa que a deixasse nervosa. Foi ele quem se ofereceu, eu apenas pedi que lhe arranjasse um hotel mais … confortável.

Ela desconfiou que aquilo fosse mesmo a única razão, no fundo ele estava escondendo alguma coisa.

_Eu agradeço a preocupação …

_Claro que me preocupo.

_Afinal, você cuida muito bem de … sua equipe. Tudo pelo bem estar de seus subordinados.

Ele suspirou profundamente.

_Eu tenho que desligar … amanhã preciso acordar muito cedo.

_Boa noite, Sara !

Ela não respondeu, depois acabou se arrependendo, mas já estava feito. Tinha ficado mesmo zangada com as atitudes dele.