Chains

8 Garantia? Sim...


Notas iniciais
Sejam bem-vindos à cabeça bipolar, doente e hematomaníaca do nosso baixinho predileto. Um pedido de desculpas breve aqui, já que esse capítulo saiu totalmente atrasado e ainda por cima, sem a ilustração. Um contratempo acabou por acontecer e os capítulos do 8 ao 19 foram excluídos do meu computador, e meu ânimo caiu lá pro núcleo da terra. (Sim, os backups também foram junto...) Mas como ainda não desenhei a imagem do capítulo, podem deixar a sugestão de alguma parte que gostariam de ver, já que é nessas horas que eu peco bastante. Boa leitura ♥

Assim que o soltei, acabei levantando os olhos levemente, pela curiosidade de ver sua reação. Eu provavelmente riria da cara de babaca que Dio fazia, se a tensão do momento não fosse tão absurda. Me distanciei dele, brincando com o sangue que estava na minha mão direita, desenhando aleatoriamente na palma.

Sangue tem uma cor bonita. Sempre foi uma das razões pelas quais gosto de matar as coisas. Que graça teria se não agonizasse em um banho desse líquido? E não só dos meus inimigos; eu acabei por descobrir que também gosto de ver meu próprio sangue. E o que estava na minha mão agora era uma mistura de um tom de vermelho bem escuro com outro mais vibrante, que também era bonito de se ver.

Desejei com todas as forças que o que acabei de fazer não tenha sido entendido errado. Nem por ele, nem por mim. Declarei trégua. Mas não paz. E só duraria enquanto toda aquela sensação ruim fosse embora, aquela que eu sei que o causador foi ele.

Garantia?

Não...

Afinal, eu ainda quero matá-lo, e foi por isso que eu o persegui até aquele maldito templo da deusa: só para ver sua cabeça fora do pescoço. Então, por quê? Por que minha cabeça ficou tão conturbada naquela hora que eu cheguei ao ponto de quase...? Ridículo. Era ridículo.

Fechei meu punho direito, e meus dedos, que antes brincavam na palma, agora a apertavam com força. Se eu tinha algo para descobrir, agora estava naquela mão, que latejava como se fosse terminar de partir-se ao meio. Era uma dor terrível que eu fiz questão de aumentar.

Mas me contive, antes que realmente a rasgasse pela metade. Fui até o banheiro, arrastando Dio junto, e lavei todo aquele sangue. A água fez arder um pouco. Quando terminei, me virei, já saindo dali, e ouvi ele tentando lavar o próprio sangue também, porém, continuei a andar. Queria sair de perto. Fui parado, obviamente.

As correntes deveriam estalar agora, mas permaneciam sempre silenciosas. Nunca emitiam um só ruído, e isso só me ajudava a esquecer que elas existem, e a redescoberta sempre me deixava um gosto amargo na boca.

O braço dele estava imóvel, não importando a força que eu fizesse. Mesmo que tenham sido só alguns segundos até ele parar de lavar-se, e eu saiba que a culpa daquele corte era minha, não suportava ficar esperando-o. Tudo que eu queria era poder deitar em uma maldita cama e afundar tudo que eu sentia num sono profundo o bastante para que eu esquecesse das ideias indesejadas que flutuavam em minha mente.

Assim que senti um leve fraquejar nas correntes, comecei a andar de novo, direto para o quarto, apagando a luz e me deitando na hora. Os dois livros ainda estavam no criado-mudo, intocados. Não tive coragem de pegar algum para ler. Ouvi Dio se deitando, mas não tinha certeza, pois eu tinha me virado para a parede.

Entretanto, ainda não podia dormir. Esperei o som dos sinos, nada pacientemente. Eles vieram muito tempo depois, contudo, consegui me manter ali. E o barulho foi tão horrível quanto antes; o corte na minha mão doía duas vezes menos que o ecoar daquilo. Cada badalada fazia minha cabeça girar, mas aguentei. Aguentei o suficiente — do jeito que aquele idiota conseguia, de algum modo, aguentar — e continuei quieto. Não gritei de agonia, não me contorci, não me mexi. Até que o som começasse a ficar lento, não movi um músculo.

Começou a esfriar.

E foi aí que finalmente me levantei, querendo cambalear, mas mantendo as pernas firmes, e fui até o criado-mudo onde era dito ter algo. Pela visão periférica, consegui ver o braço de Dio, provavelmente querendo acender uma chama demoníaca, mas deve ter hesitado ao me ver de pé.

Abri a primeira gaveta, e vi um disco de vidro, esculpido com um símbolo triangular e um círculo em sua volta. O tamanho não passava de um dedo. O mesmo símbolo estava estampado na caixa do interruptor na parede, em baixo relevo. Eu tinha pensado que era só algum tipo de decoração quando olhei pela primeira vez, mas o pequeno disco acertava-se ali perfeitamente.

O símbolo recém-encaixado brilhava em laranja, levemente, quase imperceptível em meio ao barulho e a luz que vinha por baixo da porta. A temperatura aumentou em menos de cinco segundos. Por um momento, pensei que ele estaria quente como ferro em brasa, mas dele não emitia nenhum calor; o calor parecia estar no ambiente, e não a emanar do símbolo.

Voltei para a cama, me sentindo como se tivesse corrido uma maratona. Eu berrava internamente com a colisão de metais dos sinos, mas ainda mantive a total compostura, até que o som cessasse completamente.

Minha cabeça continuou latejando por mais um tempo. Massageei as têmporas, e por pouco não soltei algum ruído de alívio quando a dor passou.

A sensação de estar sendo observado era algo comum nos últimos dias, e essa sensação era a que eu estava presenciando naquele momento. Obviamente não tinha como ter cem por cento de certeza, mas só a chance me irritava. Eu não queria me virar e confirmar, não queria olhar para ele. Queria esquecer tudo aquilo; dormir e acordar no outro dia, livre de toda a bagunça inexplicável dentro de mim.

O ar começou a fazer falta em meus pulmões. Aquela cor sempre tingia cada pensamento novo que emergisse. Vinho. Toda vez eu me lembrava daqueles olhos, tinha vontade de me encolher em uma bola e sumir.

E isso porque, além da sensação de como se tivessem colocado sete selos explosivos no meu estômago, eu me sentia fraco. Quase inferior; inferior a ele.

Ridículo.

Era ridículo.

Eu não queria ajuda nenhuma vinda daquele idiota, não queria que ele me olhasse, não queria nem ouvir sua voz.

Mas sei que aquilo tudo se devia à pergunta que eu fiz antes, na qual “interesse” foi a resposta. De longe, percebi que ele não estava mentindo, e percebi que eu compartilhava um certo interesse por ele também. Isso me dava uma dor de cabeça insana.

E a culpa era dele. Eu estava tendo aquele sentimento ruim por causa dele. Eu não conseguia respirar por causa dele. Eu não conseguia dormir por causa dele. Eu estava nervoso por causa dele. Eu perdi o controle por causa dele. E nada garantia que eu não faria aquilo de novo.

E isso tudo, em um prazo tão curto, de só alguns dias. Eu não entendia. Eu não entendo como. E não consegui apagar o fato, por mais que negasse, de que desde o primeiro momento nesse fim de mundo em que acordei na sala do trono, algo em mim já apontava para ele. Mas isso não acontecia em Elyos, não aconteceu durante minha luta com ele em Ernas, e não era para estar acontecendo o jeito que estava agora.

Em meio ao ato de me revirar na cama para tentar dormir, acabei dando de cara na imagem do dito cujo, e diferente de mim, ele já estava dormindo feito pedra. Como esperado, não consegui olhar por muito tempo sem desviar. Com isso, pude avistar um pequeno ponto luminoso, debaixo da cama dele. Era um ponto alaranjado, bem fraco, quase invisível em meio ao escuro. Tentei discernir o que era, criando um pouco de luz com magia dimensional, usando o mínimo de energia possível para não fazer barulho e agredir ainda mais meus ouvidos. E a pouca luz que criei foi refletida de volta, o ponto alaranjado se tornou roxo.

Diluí a magia e observei. Voltou a ser alaranjado. Tentei fazê-la levitar até mim, mas simplesmente não se movia; e fazia sentido, já que se eu mesmo não consigo mais flutuar, obviamente não conseguiria fazer objetos flutuarem.

Me decidi por ir lá eu mesmo. Por mais que eu não quisesse chegar perto, minha curiosidade era maior, e faltou pouco para eu tropeçar nas correntes como aquela mulher tinha feito. Agachei, estendi minha mão por debaixo da cama e retirei um objeto leve, aparentemente de metal. Era uma tesoura. Uma tesoura grande, bonita e fina.

A abri e fechei repetidas vezes. Fazia um som satisfatoriamente agradável. Baixo e agradável. Um som de metal que não maltratava meus tímpanos.

Mas, por alguns segundos, eu olhei de novo. Olhei para Dio. Permanecia dormindo, calmamente. Continuei a abrir e fechar a tesoura.

Algo gritou em minha cabeça, ritmado com o som: eu quero arrancar essa calma dele.

Foi um movimento rápido e certeiro. Cortei, sem hesitar, sua garganta, até que a cabeça se separasse do corpo e eu pudesse ver sua coluna vertebral.

Ao menos, era o que meu interior dizia para eu fazer. Era o que eu queria realmente fazer. Porém, minha mão não avançava. Eu não mais abria e fechava a tesoura, ela estava imóvel abaixo do queixo dele, apontando como um assassino apontaria para sua vítima. Eu podia matá-lo a qualquer momento. Na posição que ele estava, seu pescoço ficou tão exposto que qualquer corte um pouco mais fundo o faria sangrar até morrer, não importando o quanto de regeneração asmodiana ele tivesse. Mas eu não me mexia.

Por quê? A culpa de tudo é dele, não? Eu tenho a chance perfeita agora, por que não consigo simplesmente matá-lo de uma vez? Tudo se resolveria. Mesmo arriscando minha vida, ainda existia a probabilidade de tudo ser mentira e eu não acabe morrendo junto. A personalidade original que o Tesserato disse ter assumido não se mostrou totalmente veraz e eu tinha percebido muito bem, mesmo que usasse desse ponto para ganhar algumas discussões.

E eu sei que eu arriscaria na probabilidade de mais uma mentira. Eu arriscaria sem hesitar. Eu sou assim.

Então, por que eu não consigo nem o encostar quando ele está tão vulnerável?

Coloquei o tanto de força que conseguia, avancei minha mão um pouco mais para perto. A ponta da tesoura tocou seu pescoço. Ele se mexeu de leve. Ela era tão afiada que, com só um pouco mais de pressão, já tiraria sangue.

Mas ao invés do dele, quem pareceu estar sangrando era eu. Minha mão direita começou a latejar, doendo tanto quanto na mesma hora em que a cortei. E a dor não era pouca. Tentei continuar o que estava fazendo, mas o corte ardeu como se estivessem queimando minha carne viva. Recuei a tesoura de perto de Dio e a soltei no chão, frustrado.

Eu estava quase lá, foi tão perto... Entretanto, a dor tinha me distraído como se aquele corte quisesse me impedir de avançar. Era como se aquela “trégua” que declarei não estivesse sendo honrada, e eu fosse punido por isso.

Não fazia sentido algum.

Garantia?

Talvez...

Voltei a pegar a tesoura do chão, e a guardei no criado-mudo, bem no fundo da última gaveta, e voltei para minha própria cama, nauseado.

Não consegui dormir quase nada naquela noite, e se em alguma hora eu consegui pegar no sono, foi porque a noite logo acabaria. Assim que eu notei a luz do dia entrando pelo intervalo entre a porta e o chão, o símbolo cessou seu brilho e caiu da parede. A temperatura continuou normal.

Assim que senti que ele estava prestes a acordar, me levantei e abri a porta, deixando a luz da manhã entrar e machucar meus olhos, peguei um livro do criado-mudo e me sentei, tentando ler. No começo, eu não consegui prestar muita atenção, mas depois de alguns minutos, já estava concentrado.

Era o livro sobre a história dessa dimensão, que Dio tinha achado. Falava sobre as guerras e lendas de todos os continentes. As guerras eram somente pequenos confrontos ou relatos de andarilhos que lutaram com alguns monstros insignificantes, mas eram todas muito bem detalhadas, diferentemente da “Guerra Divina”, que era a guerra de mais influência citada no livro inteiro e só ocupou o espaço de um ou dois parágrafos, no máximo.

Eu tinha fingido muito bem não demonstrar tanto interesse nessa guerra, mas o fato de que ela foi tão mal descrita e se assemelhava tanto com a Primeira Guerra Mágica em Ernas me intrigava. Fui até o sumário, procurando mais alguma coisa sobre a Guerra Divina, mas parecia ser só aquilo mesmo. Com o dedo indicador, passei todos os títulos, até o final da folha. Meu dedo parou, quase saindo do contato do papel.

“Segunda Guerra Mágica, páginas 326 – 350. ”

Estava espremido em letras extremamente miúdas no rodapé, como se o espaço que cada coisa tomaria na folha não tivesse sido calculado corretamente e ainda estivesse sobrando um título para colocar. Se eu não analisasse com muita atenção, isso teria passado despercebido.

Rapidamente revirei o livro em procura das respectivas páginas, passando pelas primeiras cem, duzentas, até chegar nas trezentas. Folheando mais devagar, cheguei até a página numerada 325, porém, não tinha mais nada após isso além da contracapa de couro, desgastada pelo tempo. Nada aparentava ter sido rasgado. A página 325 parecia realmente ser a última do livro.

Hesitei um pouco, mas engoli em seco e abri a boca.

— Teve alguma outra Guerra Mágica em Ernas, além da primeira? Não adianta mais fingir, eu sei que você está acordado. — Eu disse, tentando esconder a ponta de nervosismo. Tive sucesso.

— Não. — Ouvi Dio murmurar em um tom ligeiramente baixo. — Não que eu saiba.

— Talvez aqui tenha tido. — Joguei o livro para ele, sem me preocupar em mirar. Eu estava virado de costas, então não consegui ver se ele tinha pegado ou não, mas provavelmente tinha, pois ouvi somente um leve baque ao invés do som do livro caindo no chão. — E, se existiu a Segunda Guerra Mágica, então também teve a primeira.

O mandei olhar para o rodapé do sumário. O som do papel sendo virado durou alguns segundos.

— Essa Guerra Divina... — Ele começou a falar.

— É possível que seja só um nome alternativo que deram para a Primeira Guerra, porque não tem nada sobre ela no livro e, se o que você disse lá na “biblioteca” for verdade, as duas guerras são muito semelhantes.

— Mas não tem nenhuma página sobre a Segunda Guerra aqui, só está no sumário. Algum idiota qualquer pode ter escrito isso no livro.

— Impossível, é coincidência demais. Alguém deve ter se livrado das páginas de algum jeito.

— Você acredita tanto assim em um sumário? — Dio jogou o livro na minha cama, eu presumi, pois senti um pequeno impacto. — Pensei que fosse mais cético que isso. — Ele completou, em um tom que me soou quase como desdém.

Eu estava, até agora, contendo meu nervosismo por falar com ele, mas logo o nervosismo que parecia de ansiedade se tornou de raiva.

— O quanto você pensa que me conhece pra achar que sabe no que eu confio ou deixo de confiar? — eu disse, fechando o punho.

Você devia parar de fazer perguntas que não quer saber a resposta.

Assim que ele começou a inspirar para poder falar, minha irritação aumentou. Era uma pergunta retórica. Só fique quieto. Não quero ouvir sua voz. Se ouvisse...

— O bastante para saber que você nunca confiou em nada. Nas discussões diplomáticas de Elyos entre as famílias, a família Terr nunca aceitou com facilidade algo que outras propunham, porque o tal “prodígio” deles conseguia convencer todo mundo de que estavam errados.

Ou seja, você. Você convencia a todos até que mostrassem uma prova concreta que você estivesse com vontade de acreditar. Sempre foi assim, não?

Quando eu me preparei para replicar, ele continuou. A voz dele tinha desacelerado, como se, mesmo não tendo feito a pergunta, quem tinha a maior dúvida era ele.

— E aquilo, ontem... — Mas o parei. Eu sabia exatamente quais as próximas palavras que sairiam das cordas vocais daquele maldito.

Me virei de frente, ele estava sentado com as pernas cruzadas, não prestei atenção no rosto. Tentei não fazer isso.

— Vou sair daqui, antes que aquela humana pombo-correio venha encher o saco. — Passei rapidamente pela porta, não o dando espaço para completar a frase.

A corrente me travou no corredor, o que me deixou ligeiramente mais irritado, porém, logo se afrouxou. Comecei a andar, sem nenhum objetivo em mente além de sair daquele quarto. Dio estava logo atrás, como sempre, parecendo um cachorro preso à guia. Eu não imaginava os motivos de conseguir fazê-lo me seguir para todo lado sem resistência aparente, dada as situações anteriores entre o campo e a floresta. Talvez fosse só para me irritar.

Durante a passagem pelo corredor, entrei no banheiro, fiz tudo o que tinha de fazer e saí rapidamente, ignorando a presença dele. Continuei a ir para qualquer lado.

No meio do caminho, ouvi um barulho. Madeira se chocando contra madeira, e vinha dos fundos da casa. Fui imediatamente ver se era algo interessante.

Abri as cortinas e a porta de vidro que separavam a casa do jardim, Dio se aproximou um pouco, provavelmente querendo saber o que eu estava fazendo, e eu me afastei.

Vi, a alguns metros, Nahu, com o mesmo traje de luta que sempre vestia o dia todo. Pensei na inegável possibilidade dela dormir com aquele traje, já que nunca a vi vestindo nada além disso.

Em sua frente, o tronco claro de uma árvore sem folhas exibia duas marcas de golpes, mas eram aparentemente velhos. Empunhando uma espada de madeira com as duas mãos, a vi dar um golpe no tronco, depois outro e outro. Ela parecia estar, de certo modo, treinando. Porém até eu, que não luto com armas, via que ela não tinha técnica alguma. Estava quase abaixo do nível amador, e mal machucava a casca da árvore.

Depois de mais tentativas, virou-se para recuperar o fôlego e acabou vendo a mim e a Dio. Ela congelou no lugar em que estava, seus olhos arregalados.

— V- Vocês... acordaram cedo hoje. — Ela, ainda em choque, largou a espada de madeira. — Eu vou... vou ir ver Arani.

Saindo dali de mansinho, se aproximou da porta de vidro, movendo-se de um jeito um duro, mas não entrou antes de olhar para a mim como se eu fosse algum tipo de criatura estranha.

— S-sua boca. — Nahu mirou os olhos onde tinha citado, o que me levou dois segundos para raciocinar que ela estava falando da ferida que a minha mordida tinha deixado no meu lábio inferior. Porém, ela começou a encarar, por alguns segundos, Dio. — Foi ele?

Olhei rapidamente para Dio, o vi abaixar as sobrancelhas em incredulidade do que tinha sido acusado.

— Foi. — Menti.

— Como... como ele fez isso? — A maldita fez questão. Não sei se era só por curiosidade ou se era para me provocar.

— Fui eu que fiz. — Corrigi.

Ela abaixou os olhos, como se já estivesse sem coragem de falar, e estendeu a mão esquerda perto do meu rosto. Antes que eu pudesse recuar, um brilho branco quase invisível contornou os dedos dela, e em um piscar de olhos, se esvaiu.

— P-pronto. — Ela baixou a mão. Eu quase me levei a perguntar do que ela estava falando, mas ao abrir a boca para isso, não senti mais a leve dor que o ferimento causava toda vez que eu falava algo. Passei a língua de leve para comprovar, e realmente não tinha mais nada lá, nem mesmo sangue seco.

Não se despedindo, ela saiu rapidamente dali, como se estivesse apressada para se distanciar, entrando na casa com o rosto sem expressão e focado somente para onde ia. Por sorte não tropeçou mais uma vez nas correntes enquanto passava — coisa que eu internamente torci para acontecer.

Dei alguns passos para fora; o vento da manhã fez meus brincos encostarem no rosto, estavam gelados. No lugar em que Nahu estava antes treinando, residia a espada de madeira que ela tinha usado. Me aproximei para ver de perto, mas a cada passo que eu dava, mais eu via de um pequeno ponto vermelho que se formava no gramado, ao lado da espada. Já a menos de cinco passos, pude discernir o que era: uma pequena caixa, aberta. Cheguei um pouquinho mais perto e logo reconheci o fecho dourado que ela carregava.

— É a mesma caixa que encontrei ontem, no quarto daquelas mulheres. — A voz de Dio, atrás de mim, apontava o óbvio.

— Eu sei. — Agarrei a caixa na mão, sentindo algo rolar em seu interior.

Era uma pequena bolinha de vidro, sem nenhuma decoração ou algo que indicasse a ser um objeto importante o bastante para se trancar em uma caixa.

Vi a sombra de Dio se mexer no chão, ele provavelmente estava curvado para ver melhor.

— O que é...

— É uma bolinha de vidro. Só uma bolinha de vidro, nada de interessante. — Falei, já fechando a caixa e acabando por trancá-la novamente, voltando a deixá-la no chão.

Ele suspirou, parecendo insatisfeito e um pouco irritado, do jeito que eu queria que ele ficasse. Examinei a espada com o pé, já que ainda estava descalço. Era bem esculpida, e parecia maciça.

Antes que Dio pudesse pegá-la para examinar também, a chutei com o calcanhar para um pouco longe, enquanto ouvia aquele velho — Serre — chamar a mim e a ele.

— Que bom que vocês acordaram cedo! — Dizia, vindo para fora com uma risada e um cetro na mão. — Querem começar o treinamento agora mesmo, já que estão aqui fora?

Eu tinha certeza que ele não me deixaria escolher se queria ou não, pois logo continuaria a falar.

— Farei algo bem simples com o treinamento de vocês, serão só três etapas, uma por semana. A primeira é a que vamos começar agora. — Ele veio mais perto, chegando a menos de dois metros. — Ela consiste em só aumentar a capacidade mágica, que é a quantidade de magia que conseguem armazenar, e que eu vi que vocês têm um pouco de falta.

Capacidade mágica? Se eu bem me lembro, testei isso em Elyos quando ainda era uma criança, e em menos de cinco minutos já tinha elevado a um ponto em que era facilmente comparado com a de um comandante de tropas da minha família, sem precisar de treino algum.

— É só expandir energia comprimida em volta do corpo e mantê-la pelo máximo de tempo possível. Quanto mais tempo conseguirem, mais capacidade vocês terão. — O cetro do velho brilhou um pouco, e uma esfera transparente, luminosa e branca apareceu ao redor dele, fazendo a grama em sua proximidade colar à terra com a pressão. — Desse jeito. Acham que sabem fazer?

Em resposta automática, comprimi a magia em meu corpo e a expeli, criando algo parecido com a esfera dele, que se estendia a quase meio metro de diâmetro de mim. Porém, a minha era inteiramente roxa-magenta, a cor usual asmodiana. Alguns traços da magia que eu desenvolvi — a dimensional — se faziam visíveis através de rastros geométricos retangulares.

Dio também fez a esfera; a dele parecia menor.

— É, é um bom começo. Vão conseguir chegar a um bom nível de capacidade bem cedo. — dizia Serre, sorrindo, enquanto eu me segurava para não pegar toda a energia que coloquei na esfera e jogar no meio da cara dele. — O objetivo de vocês é manter-se deste jeito por, no mínimo, duas horas. E cuidado com a corrente, a densidade das energias pode...

No exato momento em que ele citou, olhei para as correntes totalmente agitadas ao limite da minha esfera e da esfera de Dio, tremendo como se fossem estourar. Num breve momento, puxado com tudo por elas, sendo jogado para a direção contrária, para então alcançar o limite de distância entre mim e Dio, e ser ricocheteado para o encontro direto da minha cabeça com a dele. Tentei com tudo desviar para a esquerda, mas pelo visto, ele acabou por pensar na mesma coisa, o que resultou num barulho fenomenal de um crânio batendo contra outro. Tinha sido forte e rápido o bastante para me deixar um tonto. Por sorte, nenhum chifre dele me atingiu, pois não senti nada me perfurando. Assim que recobrei total consciência, vi que, no meio da ação, eu tinha desfeito minha esfera, assim como ele, que aparentemente também foi jogado ao ar. Todavia, o fato dele ter se machucado do mesmo jeito que eu, não fez minha raiva ter sido digerida. Nem um pouco.

— Puta que pariu, seu animal! Você é tão inútil a ponto de não conseguir nem sair da frente?! — gritei à Dio, ignorando qualquer coisa que Serre pudesse estar dizendo naquele momento.

— Como você quer que eu saia da frente, com esse meteoro que você chama de cabeça?!

— Você é um demente! Por acaso, quando nasceu, os chifres ocuparam o espaço do seu cérebro? Era só dar a merda de um passo pro lado e me fazer o favor de ralar essa tua cara de besta no chão! — Gritei, antes mesmo que ele terminasse a frase, fazendo nossos xingamentos se mesclarem um ao outro.

Eu ouvia um zumbido, parecendo um murmúrio, mas eu aumentava meu tom de voz cada vez mais para sobrepor à de Dio, então não cheguei a prestar atenção. Aquela briga durou o bastante para que eu fosse xingado tantas vezes quanto eu mesmo xinguei ele na minha mente desde que vim para Serdin — e esse número não era nada pequeno.

No meio da discussão sobre quem é o portador do aparente retardo mental — discussão fútil de resposta óbvia — um barulho alto, como o soar de um gongo, ecoou no jardim, interrompendo. Virei para olhar o que era, no mesmo instante.

— CALMA, OS DOIS, POR FAVOR! — pediu Arani, em frente à porta de vidro, com uma panela e uma concha deformada na mão. — Vocês gritam alto demais, eu ouvi a briga lá do meu quarto!

— Ufa, que bom que você chegou. — Serre dizia, parecendo cansado. — Eu não sabia mais o que fazer, quase usei magia para separá-los.

— Tudo bem. Bater panela sempre resolve. — Ela riu um pouco, olhando em minha direção, ou na de Dio, não sei. — Espera. Vocês estão sangrando! — correu para dentro da casa mais uma vez, quase deixando a panela cair — Já volto, vou pegar o meu cajado!

E voltou, ainda correndo. Comecei a sentir o sangue escorrendo testa abaixo.

— Pronto, agora... — Arani olhou para mim e para Dio e franziu a testa. — Meu deus... Isso está horrível... Não está doendo? — E com o silêncio súbito, ela pareceu ter percebido que a pergunta era um tanto estúpida. — Eu vou curar vocês, ok? Não se movam muito.

Ela apontou o cajado em direção à Dio, e o fez brilhar. Quase quarenta segundos depois, que foram muito, muito longos, ela abaixou o cajado e o apontou para mim, repetindo o processo. Demorou um pouco mais, mas consegui perceber que depois dela abaixar o cajado novamente, eu não sentia mais nenhuma dor, só o sangue que já tinha escorrido estava ainda ali.

— Desculpem por não ser tão rápida. Está melhor? — Ela perguntou.

Levei a mão direita até a testa, afim de limpar o sangue, e no meio da ação, ela inspirou ar de um jeito quase asmático.

— Sua mão! Sua mão está cortada também... — A mulher, pela terceira vez levantou o cajado, e sem aviso prévio, tentou curar o corte na minha mão. Passou-se quase três minutos sem nenhum resultado, fazendo-a finalmente desistir. — Perdão, eu não consigo, acho que é profundo demais. Tenho certeza que a Nahu conseguiria, você pode ir falar com ela, quando ela acordar. E falando nisso, aquilo ali não é...

Assim que Arani olhou em direção à caixa vermelha abandonada no meio da grama, vi Nahu disparar pelo jardim, correndo apressada e pegando a caixa, para rapidamente voltar para dentro da casa.

— Nahu, espera! — Arani tentou chamá-la, mas Nahu já estava longe demais. — Nossa, que pressa toda é essa só para pegar a caixa? Pensei que numa hora dessas, ela ainda estivesse dormindo. — Mas, parecendo notar agora, olhou para a espada de madeira, que estava no chão, um pouco longe dali. — Ah, entendi. Rapazes, acho que vou entrar e fazer o café.

Ela fez o que disse, sobrando só eu e Dio no jardim; o velho tinha desaparecido, possivelmente também entrado. Me distanciando o quanto pude, recomecei a fazer a esfera, desta vez visando em manter um pequeno espaço com menos densidade de magia onde a corrente estivesse, para a mesma não entrar em colapso de pressão como da última vez e me jogar para longe. Senti Dio começar a fazer sua esfera também. A corrente começou a colapsar de novo, mas logo parou, pois ele deve ter se dado conta do que era para fazer.

Normalmente, eu manteria uma esfera com a mesma densidade por três meses a fio sem nenhum tipo de esforço; até mesmo dormindo. Mas agora, mantê-la por dez minutos já conseguia tirar meu suor. Previ que em mais cinco minutos, ela se desfaria sozinha.

Mas a de Dio se desfez primeiro, e ele já estava levemente ofegante. Para provocá-lo, coloquei mais densidade na esfera, a grama em minha volta estava sendo quase desintegrada. Fosse qual fosse a reação dele, eu não quis olhar, só provocá-lo e agarrar à ideia de que estava tendo algum efeito nele. Senti a pressão vinda dele voltar, que era o sinal do idiota tentando de novo. Depois dos citados cinco minutos, a minha magia começou a oscilar, então coloquei mais concentração naquilo que eu estava fazendo. Meia hora foi o suficiente para me deixar exausto; absurdamente exausto. Eu sabia que podia fazer mais do que aquilo, mas algo me enfraquecia, eu não sabia o quê. Minha cabeça girou um pouco, minha visão escureceu, mas eu continuei de pé até que aquilo parasse. Eu não me permitiria cair mais uma vez na frente dele. Logo na frente dele. Tive de parar tudo o que eu estava fazendo para me recuperar, mas consegui esconder a vertigem ao fingir que estava só me alongando.

Quando melhorei um pouco, refiz a esfera. Ficou menor, a cor arroxeada estava mais clara e fraca. Não me orgulhei daquilo, mas ao menos mostrei a mim mesmo que não era só míseros trinta minutos que me parariam.

A esfera de Dio sempre se desfazia, e um minuto depois, voltava. Ele não conseguia a manter por muito tempo.

Pouco após, Nahu veio interromper, avisando sobre o café e logo saindo. Dio me forçou a esperá-lo enquanto comia, para depois voltar ao jardim. Por pouco contive a vontade de pegar aquela mesa e jogar na sua cara, por tanta demora. Mesmo que tenham sido só dois minutos esperando.

Continuei com a esfera, desta vez Serre observava de dentro da casa, atrás da porta de vidro. Durou até a tarde. Passei quase metade do tempo parando para descansar, por causa da fraqueza que sentia, além da total falta de ânimo pelo fato de que aquilo não era nada entretivo. Porém, Dio continuou tentando sem parar, mesmo que a esfera dele desaparecesse e demorasse quase um minuto para conseguir fazê-la voltar.

O primeiro dia de treinamento passou desse jeito, só saindo do jardim para ele comer, algum de nós ir ao banheiro ou quando começasse a anoitecer. Após tanta vertigem, minha cabeça pedia por um pouco do sono que não tive na noite anterior. Não me permiti dar tempo suficiente para começar a pensar em alguma besteira, só fechei forte os olhos e dormi. Naquela noite, não ouvi o barulho dos sinos, eu praticamente desmaiei na cama.

O segundo dia me foi pior que o primeiro. Não consegui sequer trinta minutos; e Dio tinha superado o tempo dele. No terceiro, eu estava tão mais fraco que não conseguia manter por cinco minutos. E no quarto, até eu estava enojado de mim mesmo, quase parecendo tão forte quanto um humano. Todas as noites em que não consegui dormir direito, passei mexendo com a tesoura que tinha achado antes, me perguntando como não a tinha visto antes, quando fiz a luta falsa com Dio, e se alguém tinha jogado ali, eu não me lembrava.

O quinto dia era o único dia em que achei que teria um sono decente, a julgar que minha mente também estava exausta de tanto pensar. Mas se eu consegui dormir? Não, é claro.

— Ninguém tá acordado a essa hora. — Ele insistia, enquanto eu fingia estar dormindo. — Se você não levantar sozinho, eu vou te arrastar até lá.

— Pff... Me deixa em paz, senão eu te mato. — Murmurei.

Ele puxou as correntes, eu quase caí da cama, por pouco consegui me equilibrar e ficar de pé. Meus joelhos fraquejaram na mesma intensidade que fraquejavam quando andei pelo campo e pela floresta, mas logo arrumei minha postura.

Ele saiu do quarto, e pouco depois eu tive de o seguir. O quarto atrás de mim começou a gelar; e com uma rápida olhadela, vi que o símbolo que se encaixava na parede parou de brilhar, caindo no chão. O caminho à frente estava com uma temperatura amena, nem sequer o piso estava frio. Acompanhado de uma pequena chama roxa etérea invocada por Dio, bastou alguns segundos para que eu chegasse em um lugar da casa que nunca tinha tido o interesse de vir antes.

— Eu já disse, eu não preciso. Nem quero. — Falei.

— Não precisa? Quer me convencer de que, no estado em que você está, você não precisa? — Remexendo em uma pequena cesta sobre a bancada, tirou algo de dentro e estendeu para mim. Mesmo não conseguindo ver por causa da falta de iluminação decente, eu sabia o que era aquilo. — Anda, pega ao menos um.

— Eu vou voltar a dormir. Boa noite. — Eu ia me virando, mas ele me segurou, não pela corrente, mas pela algema em si.

— Você vai comer isso, ou eu vou te enfiar goela abaixo. — A chama ao lado iluminou o “objeto” que ele tinha em mãos; um pequeno pedaço de massa, mais especificamente pão. — A quantos dias você está sem nada aí dentro? Uma semana?

— O que te import... Ah!? — Senti algo pressionar meu estômago fortemente, mas foi mais um susto do que uma dor. A sensação era levemente morna, e por isso consegui identificar a mão dele, que tinha soltado a algema. Recuei no mesmo instante. — Maldito--!

— Duas semanas? Pra um asmodiano saudável enfraquecer desse jeito, levaria um mês. Já você, quase anêmico do jeito que é, não deve levar nem metade desse tempo. E mesmo se você disser que não, eu acabei de sentir que, se te apertasse com só um pouco mais de força, sentiria sua coluna vertebral através da sua barriga.

— Eu comer ou deixar de comer não é da sua conta.

— É da minha conta, sim. Se ficar fraco desse jeito, você só vai ser um estorvo no meu caminho, então vê se come essa porcaria antes que eu fique mais irritado do que eu já estou. — Ele dizia, num tom oscilante, denunciando o esforço que fazia para tentar esconder a raiva.

Eu sabia que esse era o limite de paciência dele, e só mais uma mínima provocação o faria explodir. Sem hesitar, respondi:

— Não.

E ele perdeu. Começou a dar ordens quase gritando e ameaçava realmente me fazer comer à força, enquanto eu desviava de tudo que ele tentava para vir para cima, e de algum jeito as minhas pernas responderam até certo ponto. Mas, após um curto espaço de tempo, elas travaram e não se mexeram mais. Ouvi um ruído, e ele também deve ter ouvido, pois parou na posição em que estava. Era algum dos humanos vindo.

Olhei para os lados e a única coisa que achei relevante foi a bancada; seria ali mesmo que eu me esconderia. Fui para baixo dela e me acomodei. O espaço ali era o suficiente para que eu ficasse sentado sem problema nenhum. Infelizmente, sem nenhum outro lugar sobrando, aquele chifrudo veio junto. Me espremi em um dos cantos para desencostar o máximo que podia dele; já tive contato físico mais do que julgo o necessário por hoje.

Ele dispersou as chamas que tinha invocado e ficou totalmente quieto. Sem luz, não percebi de primeira quem era, mas alguém tinha entrado ali. A temperatura tinha baixado quando Dio apagou o fogo, mas aumentou assim que os sons de passos ficaram mais próximos.

— Dio? Veigas? Vocês estão acordados? Está tudo bem? — Ouvi a voz totalmente reconhecível de Arani. Ela pareceu não ter avistado ninguém. — Engraçado, eu juro que ouvi...

— Arani? — Agora, a voz de Nahu começou a ecoar de longe, vindo gradualmente para mais perto. — Por que você está aqui na cozinha, a uma hora dessas? Você levou o estabilizador com você, e deixou o nosso quarto frio.

— Desculpe, eu já ia voltar, só ouvi alguns gritos daqui, e pensei que os meninos estivessem com algum problema. — Arani se atrevia a dizer, como se eu e ele fôssemos algum tipo de criança que precisasse desesperadamente de cuidados. — Mas parece que foi imaginação minha. Talvez eu esteja ficando paranoica por eles esses dias, sabe? — Ela riu.

— Eu vou no quarto deles checar pra você. — Quase senti Nahu indo em direção ao quarto, mas a outra, felizmente, a parou.

— Não, não precisa. Você pode acordá-los com seu jeitinho bruto, eu realmente acho que só estou muito inquieta hoje e acabei ouvindo coisas. Um dia, isso passa.

Tentei prestar atenção aos sons, mas era um pouco difícil se concentrar quando imbecil fica se mexendo toda hora ao seu lado. Ele ainda estava tentando se encaixar direito debaixo da bancada, que era pequena demais para ele. Revirei os olhos ao perceber que eu cabia ali perfeitamente e ainda sobrava espaço.

Ouvi um suspiro, parecendo um riso baixo, não sabia de qual das duas mulheres aquilo tinha vindo.

— Você só está assim com eles por causa do que aconteceu antes, né? — Nahu perguntou.

— Eu não sei... Não, não é por causa disso. Eu acho que não... Se olhar por esse lado, talvez eu não esteja tão paranoica com eles assim. — Arani pausou, mas como se estivesse tendo uma ideia repentina, voltou a falar. — Mudando de assunto, você viu como o pequeno esteve? Dos dois, ele é o que mais “comunicativo”, e não falou quase nada esses dias... Também esteve tão fraquinho... Não o vi brincando com o amigo dele, como fez alguns dias atrás... — Quando ela disse “amigo”, minha cara de desgosto só aumentou mais ainda. Somado com a dúvida de qual “brincadeira” ela se referia.

— Você nunca vai mudar, não é...? Ele deve estar bem. Não se preocupe tanto com isso.

— Amanhã, então, eu pergunto se ele precisa de algo. Vamos para o quarto, eu acabei atrapalhando seu sono...

Iam saindo da cozinha, mas os passos de uma delas pararam em meio ao caminho.

— Arani, uma última coisa... Sobre o que conversamos alguns dias atrás, quando você viu minha espada de treino... Você realmente não pode...

— Nahu, chega. Não. Eu pensei que esse assunto tinha acabado naquele dia. — Surpreendentemente, o tom de Arani mudou do irritantemente gentil e doce, para um sério e firme. — Eu não vou te ensinar mais nada. E como eu disse, você também não precisa me ensinar nada.

— Por favor...

— Não, sinto muito. É melhor assim.

Arani, que parecia estar decidida a sair dali, recomeçou seu caminho. Senti um impacto na parede ao lado da bancada em que eu estava encostado. Consegui identificar os dois pares de pernas em minha frente.

Nahu tinha jogado Arani contra a parede.

— Isso não é justo, Arani. Nada justo! Eu quero uma revanche. Eu quero lutar com você de novo. E dessa vez, se eu ganhar, você vai me ensinar tudo o que sabe! — Ela, jogando fora toda a calmaria e indiferença que mantia por vinte e quatro horas na voz, esbravejou imponentemente, recebendo silêncio em troca. — Amanhã.

— Nahu. — Vi Arani se soltar de perto da outra e começar a ir embora. — Está tarde, vamos para o quarto.

A ruiva se manteve ainda perto da parede, mas logo, também foi embora. Não contei nem cinco segundos para que um sorriso involuntário começasse a se abrir no meu rosto.

Peguei da mão de Dio o pão que ele ainda segurava, e mordi com descaso.

Notas finais
Agradecimento especial pra minha sensei Nyry Wyrmkord que tem me dado um apoio imenso durante toda a fic, e também para todos os favoritos/reviews/comentários/acompanhamentos que me deixam muito feliz e me animam muito. Obrigado/a! Se é de algum consolo (?), eu desenhei uma imagem Dio|Veigas sem ligação com a história quando estava sem ânimo pra escrever. Ficou aceitável, checa lá: http://blackfoxu.deviantart.com/art/Throne-670190600 PS: quem conhece "o jogo", deve estar querendo matar o Dio.