Chains
4 O cão sempre acha seu dono
Notas iniciais
Passado o tempo das gargalhadas e das gozações, o que por sinal demorou um pouco, todos decidiram se reunir ao redor da fogueira onde Yoon agora esquentava o jantar.
– Então deixa eu ver se entendi. Você esbarrou em uma moça aparentemente pobre e faminta, acompanhou ela até sua casa e depois comeu uma maça que supostamente continha o veneno – falou Yoon repassando os fatos narrados pelo colega de cabelos verdes.
– Exato! Mas em minha defesa, posso acrescentar que se tratava de uma bela moça? – completou Jae-ha com um sorriso torto
– Resumindo, você caiu no “golpe da Branca de Neve” – falou Hak se divertindo.
– Basicamente isso – concordou Jae-ha coçando a cabeça — – Alias, não me lembro de ter visto ela com maças nas mãos logo que nos encontramos...e ela disse que estava sendo perseguida por ter roubado elas... – falou com a mão no queixo. – Droga! Acho que estavam na bolsa o tempo todo – concluiu indignado
– Ou seja, ela só estava esperando algum idiota passar – disse Hak apontando para Jae-ha
– Como pode ser tão imprudente?! – acrescentou Kija irritado – Seu objetivo era o de averiguar a cidade!
– Mas eu averiguei, você não viu? Me sai tão bem que a moça até me convidou para visitar sua casa e ainda me serviu comida! – respondeu Jae-ha com sorriso radiante.
– Não brinque com coisa séria – repreendeu Kija rangendo os dentes
– Calma Kija, deixe o Jae-ha...-interrompeu Yona
– Obrigado, Yona querida
– ...ele não tem culpa de ter sido enganado de maneira tão infantil – completou ela com o dedo erguido.
Hak não pode deixar de rir do comentário inocente, porém certeiro de sua companheira de infância. Jae-ha apenas suspirou.
– De qualquer forma... – começou Yoon – sabemos onde a garota mora, além de termos a descrição, mais do que detalhada, de suas características físicas – terminou ele fuzilando o com o olhar o dragão verde, que apenas deu de ombro
Enquanto Yoon servia a janta de todos os companheiros, Zeno passava todos os detalhes que conseguiu observar sobre a cidade. Os cidadãos locais lhe contaram sobre uma determinada pessoa, que aparentemente, governava a cidade impondo suas próprias leis.
– Ozoro? – repetiu Yona
– Sim, esse foi o nome que me passaram. Pelo que vi, esse cara está por trás de toda sujeira que corre pela cidade. Mas Zeno não conseguiu mais outros detalhes. As pessoas estavam muito receosas em dizer qualquer coisa. – completou Zeno
– Bem, talvez devêssemos investigar mais sobre esse cara então. Sugiro que amanhã voltemos com mais pessoas, assim teremos mais chance de sucesso – falou Yoon parecendo analisar a situação – Podemos aproveitar para comprar algumas coisas que estão faltando também.
– Hm, bem...quanto a isso....- interrompeu Jae-ha com um sorriso sem graça.
– Quanto a isso o que? – perguntou Yoon visivelmente zangado
– Você realmente acha que aquela mulher me envenenou a troco de nada? Claro, existia uma grande possibilidade de que ela estivesse querendo se aproveitar do meu corpo escultural, mas nesse caso, acho que ela estava mais a fim era do nosso dinheiro mesmo – completou ele
– O QUE? VOCÊ PERDEU TODO NOSSO DINHEIRO? – gritava Yoon mais do que irritado.
– Eu não perdi...fui roubado! Não prestou atenção na história? – falou Jae-ha mexendo uma das mãos.
– Eu certamente estaria rindo se não fosse algo tão importante – acrescentou Hak segurando Yoon que tentava voar em cima de Jae-ha
– Eu não disse! Por conta da sua irresponsabilidade agora estamos sem nenhuma reserva. Se acontecer algo com a princesa será tudo culpa sua! – acusava Kija com o dedo apontado para o dragão verde
– O que uma coisa tem a ver com a outra afinal? – devolveu ele.
Logo uma discussão foi instaurada. Yoon e Kija despejavam pragas em cima de Jae-ha. Yona tentava conversar com os dois para que se acalmassem. Hak ficou de prontidão caso alguém tentasse matar o companheiro, mesmo todos sabendo que ele não impediria ninguém de tentar acertar o dragão verde. Zeno olhava tudo com grande diversão, e Shin-ah...
– Estou vendo...- sussurrou o dragão azul
Mesmo falando baixo, todos pararam na hora o que estavam dizendo, transformando o local em um silencio total. Afinal, Shin-ah só se pronunciava quando se tratava de algo importante.
– O que disse, Shin-ah? – perguntou Yona, encorajando-o a repetir.
– Estou vendo algumas aldeias perto da cidade. As pessoas parecem...amigáveis – respondeu ele.
– Hm, talvez seja uma boa idéia ir até alguma delas ao invés de voltar a cidade logo de cara então. As pessoas dos vilarejos menores são sempre mais receptivas. – comentou Yoon considerando a possibilidade
– Sim, talvez eles nos dêem alguns suprimentos – completou Yona batendo palma contente.
– Zeno acha uma boa idéia também! – falou jogando as mãos para o ar.
Uma vez decidido, todos se retiraram para o merecido descanso do dia. Apesar de ter sido um dia relativamente tranquilo para a maioria do grupo, o fato de estarem ao relento sempre trazia uma certa tensão. Não que já não estivessem acostumados, mas estar em um local fechado proporcionava um relaxamento maior, uma vez que a preocupação com perturbações externas era bem menor.
.....
–VOCÊ NUNCA VAI SAIR – ele gritava com os olhos brilhando de raiva – NUNCA, ENTENDEU?
Parte de mim sabia que tentar era inútil, mas mesmo assim eu continuava insistindo no erro. Talvez aquele ditado de que sempre aprendemos com nossos erros não se aplicasse a mim. Talvez fosse algo para pessoas normais, e bem, eu não era normal afinal.
Não demorou muito até que ele me deixasse sozinho. Eu estava estirado novamente no chão gelado do meu “quarto”. Na verdade, não poderia chamar isso de quarto, parecia mais uma prisão. Acho que crianças normais não tem seus pés amarrados na parede de seus quartos. Parte de mim dizia para que eu me mexesse, enquanto a outra considerava ficar parado a alternativa mais confortável. Até que meu corpo começou a sentir os efeitos do contato com o chão gelado.
– Está com frio?
......
Jae-ha acordou suando.
Eles estão muito mais frequentes...por que será? – pensava ele enquanto limpava o suor de seu rosto.
Pouco a pouco todos foram se levantando preguiçosamente. Yoon decidiu preparar uma rápida refeição antes de partirem, uma vez que não havia mais muito suprimento para utilizar. Todos comeram e conversaram normalmente, parecendo esquecer completamente a situação do dia anterior. Isso era comum. Discussões ocorriam diariamente, afinal, conviver em grupo e com pessoas tão diferentes não era tarefa fácil. Mas, como toda família que se ama, os mal entendidos eram rapidamente esquecidos.
– Certo. Shin-ah, nos guie em direção ao vilarejo mais próximo – pediu Yoon assim que todos os preparativos estavam terminados.
– Sim – respondeu ele timidamente.
Caminharam por pouco mais de 20 minutos antes de chegarem ao vilarejo mais próximo. Havia pessoas trabalhando em plantações ao redor e crianças correndo por entre as casas. Não era um local muito grande, porém também não era dos menores. Talvez algumas dezenas de casas preenchiam toda a extensão. Não demorou até que uma das aldeãs avistassem o grupo pouco peculiar de Yona. Ela aparentava ter seus 30 e poucos anos. Com uma enxada na mão, caminhou a passos rápidos em direção a eles.
– Posso ajudar? – perguntou ela cautelosamente
– Ah bem, nós somos um grupo de apresentações itinerantes. Soubemos de uma cidade próxima e pensamos em fazer algumas apresentações por lá, porém quando chegamos no portão os guardas não nos deixaram passar. – falou Yona, que havia sido encarregada de estabelecer o primeiro contato.
– Bem, não me surpreende. O pessoal está bem cauteloso com a segurança depois dos atentados. Não vão deixar qualquer um entrar, muito menos pessoas tão exóticas como vocês – respondeu a mulher apontando para o grupo que sorria sem graça.
– Atentados? – questionou Jae-ha curioso
– Sim, a oposição agiu com peso dessa vez . Mas não é algo com o qual vocês devam se preocupar. – deu uma pausa antes de continuar. – De qualquer forma, vocês parecem cansados. Podem dar uma parada aqui antes de continuar o caminho de vocês, se quiserem. – completou ela sorrindo para o grupo
– Sério? Não queremos ser um incomodo – perguntou Yona
– Não é incomodo. Considerem isso como um pedido de desculpas pela maneira como trataram vocês na cidade. Além do mais, adoramos receber visitas – acrescentou ela piscando – A propósito, me chamo Kaara.
– Muito prazer, me chamo Yona. E esses são Hak, Yoon, Kija, Shin-ah, Jae-ha e Zeno. – respondeu ela apontando para cada um dos companheiros.
– É um prazer conhecê-los. Venham, me sigam. Vou apresentar vocês para os outros – falou ela sorrindo.
Kaara conduziu o grupo pela pequena estrada que cortava as plantações. A cada pessoa que encontravam pelo caminho, Kaara era cumprimentada com entusiasmo. Ao que parece, as pessoas desse vilarejo eram muito unidas e calorosas.
– Gostei daqui. Parecem ser boas pessoas – comentou Yona com Hak.
– Sim, parecem – concordou ele observando um senhor vir saudar Kaara entusiasmadamente.
Após atravessarem a região das plantações, finalmente chegaram ao local onde se localizavam as residências. Eram construções simples, a maioria feita de palha, madeira e barro. Kaara fazia questão de apresentar os recém chegados a todos que cruzavam seu caminho, explicando a situação e dizendo que ficariam na aldeia para descansarem da longa viagem.
– Ei Riku. Riku querida, venha até aqui! – gritava Kaara para uma garota que estava um pouco distante do grupo.
A garota sorriu assim que avistou Kaara acenar para ela freneticamente. Ela estava carregando uma caixa com frutas e não hesitou em mudar a direção de onde estava indo para cumprimentar a amiga. A medida que ia se aproximando, seus olhos começaram a focalizar no grupo de pessoas desconhecidas atrás de Kaara. Foi então que ela parou, boquiaberta. Kaara se apressou para encontrá-la.
–Ai está você! Achei que nunca mais ia voltar – falava Kaara com entusiasmo – Olha só, essas pessoas são um grupo itinerante que fazem apresentações! Não é legal? Agora pouco estava convencendo eles a tocar e dançar a noite pra gente
Riku continuava a olhar perplexa para o grupo, sem pronunciar qualquer palavra.
– Ei Riku, você está bem? – perguntou Kaara agora preocupada.
– Sabe o que é – interrompeu Jae-ha dando um passo em direção a garota – Riku está um pouco emocionada com nosso reencontro, não é Riku? – perguntou ele sorrindo largamente antes de chegar a seu lado.
– Nossa, vocês se conhecem? – perguntou Kaara visivelmente surpresa
– Er, bem...- começou a responder Riku
– Mas é claro – interrompeu Jae-ha novamente – Somos namorados! – acrescentou ele passando a mãos lateralmente por seus ombros e puxando-a mais para perto, até estarem encostados.
– O QUE? – gritaram todos ao mesmo tempo enquanto observavam a garota ficando branca e o homem ampliando seu sorriso.
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