Chá verde
14 XIV. Apresentações
Os Stepanov nos convidaram para uma reunião social no casarão, seria uma pequena celebração pela saúde de Gerard Stepanov que estava melhor do que nunca, eu não queria ir pelos motivos óbvios, mas Anna insistiu tanto.
Quando o assunto era o relacionamento a dois era necessário saber ceder algumas vezes.
Escolhi um corte slim propositalmente eu deixei o primeiro botão da minha camisa social aberta, sair do conjunto combinatório usado no escritório pela cor azul do blazer, calças cinza e sapato marrom.
Anna veio até mim com um pequeno tecido em mãos, ao mesmo tempo em que eu colocava o relógio dourado em meu pulso.
— Você está lindo, mas um lenço cairá muito bem. Ela o guardou no bolso do meu blazer e puxou as pontas para fora.
Notei que Anna havia feito algo diferente no cabelo, trançado apenas uma lateral dos fios e os alinhou com os que permaneciam soltos em ondas.
— Gostei do jeito que arrumou o cabelo.
Ela sorriu.
Também havia realçado os olhos com cílios postiços, tons de dourado esfumaçados, pele iluminada e um batom cor de boca.
Estava delicada e muito atraente.
Anna já havia contratado uma babá de reputação impecável para ficar com a nossa filha durante a noite, a jovem deveria manter-se atenta a Abigail a todo instante.
Algumas recomendações mais tarde, nós chegávamos à casa dos Stepanov.
O manobrista estava a posto para se encarregar do estacionamento do carro.
Segurei uma das mãos de Anna e com a outra mão posicionei na costa nua do vestido de paetês, ela estava deslumbrante.
A impotente e grandiosa construção europeia abria as portas para nós.
A decoração de luxo não era ostensiva, todavia, rica em detalhes havia objetos atemporais espalhados pela sala, prataria e flores brancas.
A pequena reunião contava com a presença de alguns amigos de Gerard, sendo a maioria deles desconhecidos para mim.
Os petiscos e o champanhe estavam tão bons que eu poderia jantar aqueles petiscos. Anna se afastou para ir falar com a mãe, eu dei um gole no meu champanhe e relaxei ao som de um jazz ao fundo.
Avistei Ivan a todos os sorrisos ao lado de uma mulher de cabelos negros, de relance eu também vi àquele amigo loiro de Anna da época da universidade.
O pai de Anna veio até mim, numa clara intenção de socialização, perguntou sobre a neta e me desejou uma ótima social, eu educadamente o agradeci.
Quando a minha mulher voltou para perto de mim, posicionou os braços no meu quadril, ficou nas pontas dos pés para sussurrar no meu ouvido.
— Vamos cumprimentar o Ivan e a namorada dele?
Concordo.
Na nossa passagem recebemos muitos olhares curiosos, Anna era a única herdeira do Império Stepanov e o seu desconhecido marido seria notado ao estar do lado dela.
O tempo em que eu me sentia desconfortável pelos olhares críticos ficou para trás, anos de relacionamento me fizeram trabalhar esse lado. Segurei com firmeza na cintura da minha mulher.
Ivan viu a nossa aproximação e sorriu educado, enquanto a sua namorada ainda de lado não viu a nossa chegada, ele lhe falou algo que a fez finalmente se virar para ver provavelmente de quem ele falava.
Ao olhar para o rosto da mulher que eu até então acreditava ser desconhecida, o meu coração bateu mais forte em reconhecimento acelerou numa velocidade ansiosa.
O corte de cabelo havia mudado ela usava uma franja curta jogada para o lado, a pele aveludada de pálpebra metálica trazia leveza ao olhar.
Ela estava diferente, os traços do rosto se tornaram mais fortes, no entanto, era visível sua jovialidade, usava um conjunto de blusa cigana que combinava perfeitamente com a saia transparente e longa de renda com o forro curto.
Aurora estava bem ali na casa dos pais da minha mulher, a emoção em seus olhos revelava reconhecimento, surpresa e mágoa.
Revê-la mexeu com algumas emoções que estavam adormecidas irem além de lembranças, me traziam alguns questionamentos e elucubrações inevitáveis a qualquer reencontro principalmente a um inesperado.
Repentinamente eu senti a minha boca seca, a adrenalina na minha pulsação.
O que Aurora estava fazendo ali?
Como isso poderia acontecer?
Depois de quase 10 anos…
Eu pensava nisso, enquanto nos aproximávamos até pararmos na frente deles.
— Alek, Anna como estão? Perguntou Ivan ao cumprimentar.
— Nós estamos muito bem. Anna respondeu.
— Que maravilha. Virou para falar com Aurora— Meu amor, essa é a minha prima Anna Stepanov... Não. Ele corrigiu. Anna Dushkin e Aleksandr Dushkin.
— Essa é a minha namorada Aurora Perrin.
Até aquele momento eu não sabia o seu sobrenome.
Anna sorria com gentileza e permanecia simpática, provavelmente alheia ao meu estado de espírito.
— Muito prazer Aurora.
Eu permanecia calado e acompanhava aquela cena como um mero expectador, aquilo parecia tão irreal, sorrisos compartilhados, elogios proferidos e finalmente se voltaram em minha direção.
— Aurora, não estranhe o comportamento do Alek, ele faz o gênero quieto e observador.
Retirei a mão do bolso e me movi para mais perto de Anna, toda aquela interação por mais comum que fosse me parecia bizarra.
Aurora sorriu de maneira divertida quase como se lembrasse de alguma coisa.
— Muito prazer Aurora. Falei de maneira formal.
Numa expressão puramente educada Aurora uniu as nossas mãos num aperto, seu toque era gelado, mas não tímido.
— O prazer é meu em conhecer a família do Ivan.
O olhar de Aurora fitava-me reservados já não revelava expressões fáceis de identificar.
Anna sorriu fraco.
— Estamos felizes em conhecer a mulher que conquistou o coração do meu primo.
Aurora abraçou de maneira lateral o corpo de Ivan.
— Espero que ele tenha falado bem, na verdade, muito bem de mim. Piscou divertida.
— Não mais do que isso, meu amor.
Uma conversa casual foi iniciada quando as duas encontraram um assunto em comum para desenvolver um diálogo. Aurora se fascinou ao saber que Anna era uma bióloga.
Ivan me olhava de relance meio confuso, talvez por ter sido deixado de lado assim como eu...
Dei de ombros como se dissesse “deixa-as conversarem.”.
Para preencher o tempo Ivan me perguntou como iam os meus negócios na empresa, eu lhe disse que estava indo bem. A cada dia eu conseguia melhorar o meu desempenho como administrador.
Ele me contou que sondava a compra de algumas ações de uma empresa localizada no país da namorada.
Admirei-me com a informação, porém não comentei o assunto.
Por mais tranquilo que eu parecesse estar, eu não me sentia confortável naquela situação, mesmo depois que Anna e eu seguimos para falar com outras pessoas, diante do discurso de Gerard e até mesmo o de Anna, aquela sensação desconfortável me perseguia.
Grudei como uma sombra em Anna, sem dar brechas para uma possível aproximação da parte de Aurora.
Anna já tinha percebido que eu a seguia por todos os lados.
—Eu vou ao banheiro, você quer ir comigo também? Ela estava sendo zombadora.
Puxei-a pela mão em direção às escadas.
— Alek tem banheiro aqui embaixo.
Parei nos primeiros degraus para dizer sedutoramente a ela.
— Eu sei.
Induzia até o seu antigo quarto e esperei pacientemente ela terminar de usar o banheiro encostado na porta assim que ela saiu. Eu fiz contato visual com um sorrisinho de canto numa indicação do que eu iria fazer, inclinei gentilmente a minha testa contra a dela, coloquei a mão no seu rosto e iniciei um beijo curto antes de partir para os beijos mais sérios.
Nós trocamos um beijo lento e com o braço que estava enlaçado nela, eu comecei a acariciar seus seios por cima da blusa, enquanto continuava a invadir sua boca. Empurrei os nossos corpos unidos em direção a cama até ficarmos numa posição mais confortável.
Ela entendeu o que eu queria e passou sua coxa entre as minhas, beijei seu pescoço, sorvendo o cheiro dela, passei as minhas mãos pelas suas coxas livres do vestido, no maior amasso. A minha mulher me beijava com sua língua voraz procurando cada cantinho da minha boca.
Apertei suas coxas com força, Anna gemeu.
Eu a queria por inteira queria apor na cama e matar a minha saudade, mas já tínhamos ido longe demais, não estávamos em casa, e principalmente não estávamos sozinhos.
Aos arquejos fui diminuindo a velocidade do beijo até se tornarem um simples roçar de lábios. Anna se deitou em cima de mim.
— Adorei a surpresa.
Beijei seus cabelos cheirosos.
— Eu também.
Controlei a minha vontade de continuar numa respiração pesada.
— Agora nós temos que voltar para a festa, o seu pai deve está te procurando.
Ela fungou no meu pescoço.
— Aqui está tão bom.
— Não tem como discordar.
Por mais que eu tenha consciência de não ter feito nada errado, éramos casados, ainda me sentia culpado pelo gesto impulsivo.
A minha mulher realmente merecia ser tocada por um marido com a mente caótica? Abalo pelos pensamentos embaralhados.
Nós teríamos que conversar, mas antes disso eu teria que encontrar coragem para contar sobre o meu passado.
Como eu havia mencionado o pai de Anna a procurava para iniciar a sessão de fotografias, a família exemplar perfeitamente alinhada em frente à lente do fotógrafo, no segundo clique, eu fui puxado por ela. Ivan e Aurora se juntaram, eu estremeci ao ter que ficar ao lado dela. Eu ainda sentia medo do que ela poderia fazer naquela festa.
Enfiei as mãos nos bolsos observando a interação de Anna com os amigos empresários de Gerard e me senti completamente aliviado quando Anna anunciou a nossa partida.
O percurso de retorno foi feito em silêncio, rever o rosto das minhas lembranças trazia uma sensação nostálgica. Tantas coisas se perderam no tempo, novos recomeços, vidas que seguiram em frente e por mais que houvesse um tempo em que eu desejei com toda a minha alma reencontrar Aurora, esse desejo tinha se dissolvido há muitos anos, no entanto. O que parecia ter sido um pedido perdido havia acabado de atravessar o tempo e se realizado com uma década de atraso.
Eu me sentia atacado pelo destino por ter trazido à tona uma parte do meu passado que eu já não queria mais reencontrar.
A babá temporária de Abbie foi remunerada por uma agradecida Anna, eu fui até o quarto do meu pequeno sol para vê-la adormecida em seu sono tranquilo.
O meu coração se preenche de amor ao ver a sua feição angelical, beijei-lhe suavemente a testa.
Adentrei no meu quarto com o blazer em mãos, eu precisava de uma ducha e não dispensei a água gelada. Voltei para o quarto e vesti a parte de baixo do pijama, Anna correu para o banheiro, entrei nas cobertas, e quando ela retornou, eu ainda não dormira.
— O que você achou da social? Perguntou Anna recém-saída do banho sem quaisquer resquícios de maquiagem, os cabelos soltos caíam em ondas em seu rosto.
Apoiei o braço em cima do meu travesseiro.
— Foi uma bela social. — Falei sem olhar.
Ela poderia interpretar alguma coisa em meus olhos, o melhor seria não pensar na festa já havia acontecido e o importante era o agora.
Anna usava uma camisola branca fininha, eu podia ver a calcinha sob o tecido na sua caminhada até a cama, ela veio para o meu peito como de costume abraçou-me, distribuiu beijos no meu tórax, fungou no meu pescoço, buscou a minha boca para um beijo. Seus dedos começaram a acariciar a pele do meu abdômen numa trilha de sobe e desce. Ela jogou as pernas em meu quadril e sentou no meu colo, a sua camisola subiu com o movimento. Anna se inclinou sobre mim, seus cabelos criaram uma cortina entre nós, prendi os fios com a minha mão, dei uma mordidinha em seu pescoço para em seguida beijá-la, a sua pequena mão acariciou o meu rosto e desceu até está perto do cós das minhas calças. Eu amava o seu corpo, nós tínhamos tanta química envolvida.
Seria natural tocá-la éramos casados e havíamos compartilhado muita coisa ao longo dos anos, eu amava sentir, seu cheiro, seu corpo, nós conhecíamos o que agradava um ao outro, eu havia esperado aquele momento há dias, no entanto, o tsunami Aurora tinha me nocauteado com sua aparição repentina.
A minha cabeça estava a mil, a neblina sexual trazia à tona todo o meu desejo por ela, mas eu não poderia, eu não funcionava assim e não faria isso com a minha mulher.
Suspirei reprimido, segurei nas mãos dela impedindo-a de continuar.
— Achei que quisesse...
Os sinais do meu corpo estavam nitidamente claros.
— E quero, mas...
Mais uma vez me envolvi com seus beijos, eu me sentia um cretino por ter que recusar sua investida.
Apertei sua cintura ainda com o espírito inquieto, usei a típica desculpa de ter tido um dia cheio na empresa e a festa havia acabado comigo.
— Eu já entendi Aleksandr, não vou mais insistir.
Anna saiu de cima do meu quadril, puxou as cobertas do seu lado da cama e se deitou, inegavelmente chateada.
Ah! Meu bem se você soubesse como estava a minha cabeça.
Eu só precisava organizar meus pensamentos e emoções, não poderia... Com a mente longe, muito menos sem sentir a nossa conexão. Tentei tocá-la, porém, ela se encolheu de costas para mim, ouvir sua fungada baixa, fitei o teto do quarto me odiava por magoá-la, entretanto era melhor assim não aumentaria a minha culpa pela manhã.
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