Chá verde

12 XII. Nossa Abbie


Notas iniciais
Pois estão? me deixem saber se estão curtindo? Ao menos um pouquinho? :)

Deixei o prédio 15 minutos antes do horário do almoço, antes de ligar o motor, desliguei o celular para dirigir tranquilamente. Eu tinha muitos motivos para viver e o principal deles me esperava em casa, obedecendo às regras de trânsito. Eu seguia a diminuição do fluxo de movimento que me servia como um alerta de estar cada vez mais perto, logo eu estacionava a Peugeot na vaga em frente à minha casa de espaço campestre.

Assim que desci do carro fui recebido por uma criança loira com os pequeninos pés descalços, logo os bracinhos enlaçaram as minhas pernas, como de costume a minha Abigail de três anos estava em estado eufórico na ação de Boas-vindas para o papai.

Os meus olhos castanhos e tão brilhantes estavam ali fixos em meu rosto.

Um bálsamo para o meu coração saudoso, mas do que depressa eu a peguei no colo, o seu corpinho robusto se encaixava perfeitamente em meus braços. A minha filha era o amor da minha vida, dos meus sorrisos e da minha motivação.

Beijei suas gorduchas maçãs do rosto de maneira divertida, Abbie gargalhava.

— Como está o meu sorriso hoje?

Ela sorriu mais ainda os dentes pequenos e quadrados eram graciosos.

— Super bem, papai.

— Isso sim! Faz o meu dia feliz.

Com seus pés balançando devido à caminhada, nós passamos pelo jardim e seguimos até a entrada.

A sala de estar possuía uma parede revestida de pedras, que combinada com a parede de vidro trazia um ambiente bucólico vindo do jardim.

— Como foi seu dia hoje, minha ternurinha?

— “Acoldei” me “alumei” tomei café com a mamãe, depois ela me levou pla casa do vovô, pulei com ele na cama elástica até cansar, mamãe me deu um banho e um lanche, e só depois, voltamos pla casa.

Abbie fez um resumo da sua manhã de maneira orgulhosa.

Eu sorri ao aconchegá-la mais meu lindo e inteligente bebê.

Caminhei até a cozinha que reinterpreta os mesmos ambientes de campo do resto da casa, mas assumia elementos mais contemporâneos e funcionais.

Ainda na porta eu via a figura de avental da minha mulher que segurava uma colher de pau, enquanto mexia algo na panela sobre o fogão, um cheiro delicioso de carboidrato exalava no espaço. A parte de trás do pescoço aparecia parcialmente por conta do rabo de cavalo que lhe escapava alguns fios postos estrategicamente atrás da orelha. Ela virou em minha direção, a pele que um dia esteve bronzeada voltou ao tom original, o azul oceânico dos olhos expressava carinho, porém os lábios se franziu levemente. O tempo foi generoso com Anna, pois a beleza de outrora só fez aumentar.

Anna se mostrou diferente do que um dia pensei as suas características de princesa ainda estavam lá e sempre estaria sua benevolência, resiliência e equidade faziam parte da sua essência. Ela era dessas pessoas que possuía brilho próprio, a amizade que começou na ilha foi breve, após a morte do meu pai tive um surto de revolta e me afastei de tudo e de todos.

Houve um tempo em que acreditei que nós não daríamos certos como um casal, uma patricinha com um desajustado só combinava em filmes, água com açúcar.

Vendo-a olhar com tanta ternura para a nossa Abbie, eu sabia o quanto faltou fé em nós, por culpa minha, todavia Anna teve fé por nós dois.

A bela jovem loira de olhos azuis ainda possuía toda a emoção do princípio e todo o caminho que percorremos nos levou a essa vida tranquila de marido e mulher.

Trocamos um beijo que não passou de um tocar de lábios.

Longe o suficiente, ela me disse.

— Desculpe meu bem, o almoço sairá atrasado. — Anna estava chateada.

Seguir até ela de maneira lenta a beijei na testa, ouvir o seu suspiro baixo, Abbie permanecia quieta no meu colo.

Quase sorri ao lhe dizer. — Imprevistos acontecem Anna. — O semblante irritado se atenuou, porém, os lábios se apertaram.

— Em menos de cinco minutos a refeição sairá.

— Sim. Senhora. — Amenizei.

Fui me sentar perto do armário com Abbie que demonstrava confusão ao olhar para a mãe concentrada na panela.

— Papai, a mamãe está “blava”? Perguntou baixinho.

Abbie não sabia decifrar as emoções mais básicas de irritação, nós como pais tentávamos não manifestar sentimentos ruins na presença dela, enquanto pudéssemos evitar assim o faríamos.

Anna ouviu a pergunta da nossa filha e de maneira calma veio até nós, ela se inclinou para perto de Abbie.

— Não meu bebê sorriso, a mamãe só estava um pouquinho… (Ela fez o diminutivo com os dedos) nervosa, mas já passou a mamãe não está mais. — Sorriu genuína ao acariciar os cabelos loiros da nossa filha.

Eu poderia ter feito muita besteira nessa vida, mas de uma coisa eu não me arrependia, por mais que Abbie não tivesse sido planejada, seu nascimento me trouxe paz com o sentimento da descoberta paternal, eu não saberia me imaginar sem a presença dela.

Infelizmente o meu pequeno anjo não teve a oportunidade de ter conhecido o homem incrível que foi o seu avô Franz Dushkin que havia adorado Anna e com Abigail não diferiria, ele ficaria encantado assim que olhasse aqueles olhos profundos e tão familiares.

Apaixonar-se é uma ação que surge de muitas maneiras, formas e trajetos, e eu acredito que não acontece duas vezes do mesmo jeito. Há casais que vivem numa paixão ardente e há outros que assim como Anna e eu se encontram nas pequenas coisas, na simplicidade dos momentos, de um olhar cúmplice trocado silenciosamente. Foram tantos degraus que até chegamos àquela sintonia e equilíbrio.

Anna havia percebido que eu a olhava com demasiada atenção e sorriu afetuosamente, ela afagou o rosto do nosso pequeno anjo e seguiu até o fogão.

— Papai, eu posso descer?

Olhei para o rosto enfadado de Abbie, imperativa como era o seu pedido demorou a chegar.

— Claro meu amor. — A pus no chão e ajeitei suas roupas.

— “Obligada”, papai.

A pequena acelerou o passo, enquanto os seus cabelos balançavam no processo.

— Abbie não fique longe das nossas vistas— Falei antes que ela chegasse à porta.

Ela parou cabisbaixa e quando virou em minha direção com o rosto triste.

— Mas eu “quelia assilti a Balbie.” — Fez um bico.

Como resistir aquele olhar doce de criança? Aquele bico infantil?

Eu não negava a minha vocação nata de ser um pai babão.

— Tudo bem, pode ir assistir na sala e não no quarto, certo?

Ela concordou feliz e voltou a caminhar para fora da cozinha.

Minha Abbie era uma criança adorável de similar conduta comportamental da sua mãe, como eu gostaria que as boas características de Anna sempre seguissem com a nossa filha, pois fui um jovem muito revoltado e não queria que Abbie tivesse os mesmos problemas que eu tive.

Ao olhar para Anna a encontrava com uma expressão pensativa o seu corpo estava presente mais a sua mente não, e isso me frustrava, a nossa falta de diálogo às vezes parecia criar forma e peso.

Já havíamos conversado sobre isso, e ambos entramos no consenso de que iríamos sentar para conversar sempre que precisávamos.

A via levar a mão ao pescoço como se ela precisasse relaxar os olhos baixos de lábios entreabertos, não me encarava mais um sinal de que algo precisava ser exposto.

Suspirei calmamente ao virar o corpo em sua direção.

— Tudo bem, o que está acontecendo, Anna? Perguntei pacientemente.

Anna trocou o peso do corpo nos pés e desligou o fogo, girou nos calcanhares e ficou de frente para mim.

O rosto estava vacilante.

— Eu acho melhor nós conversarmos depois do almoço.

— Melhor falar agora o que a está incomodando do que depois, não acha?

Silêncio.

— Vamos, conte-me Anna.

Uma mirada cautelosa depois ela disse. — Eu sei que você não quer conversar sobre isso, Alek, mas o meu pai veio falar comigo sobre a saída financeira dele da Dushkin& Stepanov...

Fiz um gesto com a mão para ela parar e me levantei.

— Sou grato ao seu pai pela ajuda que ele me ofereceu ainda na fundação, mas eu sinto que já estava na hora da Empresa ter independência.

— O meu pai só está preocupado com a nossa instabilidade financeira.

E mais uma vez o fantasma social queria nos separar.

Andei até ficar próximo a ela, sem desviar os olhos dos seus.

— Falta algo a você e a Abbie?

A expressão temerosa retornou.

— Não. Não é isso, Alek.

Aquele assunto era delicado, Anna dava muita importância ao que o pai dela falava a única vez que a vi ir contra o pai foi quando ele tentou impedir o nosso namoro, com todas as letras ela lhe disse que não faria isso, não deixaria de ficar ao meu lado porque me amava... Gerard finalmente entendeu e respeitou o desejo da filha, é claro que ele não pensou que Anna casará comigo.

— Seu pai desde o começo do nosso relacionamento se mete na nossa relação, mas desde o nascimento de Abigail, ele está se superando. Eu até aceitei essa casa como presente de casamento, mesmo tendo uma ideia contrária a tudo, eu sou devidamente capaz de proporcionar a minha família uma estabilidade financeira à altura.

Os lábios dela tremeram ao correr até mim.

— Aleksandr, por favor...

As mãos delicadas vieram para as laterais do meu rosto, numa troca direta de olhares.

— Por favor, o quê? Falei com a voz baixa, porém firme.

Ela me enlaçou pela cintura.

Fechei os olhos por um curto intervalo de tempo, numa tentativa de controle.

— Não vamos discutir. — Pediu baixinho nas pontas dos pés.

Todo o corpo dela se colou ao meu, a lateral do rosto apoiada em meu peitoral, suas mãos pequenas em minhas costas.

Expirei longamente, eu e o meu gênio...

— Nós não estamos. — Respondi de maneira mansa ao envolvê-la.

Eu não queria e nem iria discutir pelo bem do nosso casamento, o calor do seu corpo foi me acalmando como um antídoto eu levantei seu queixo, enquanto olhava em seus olhos.

Brilhantes olhos azuis fitavam-me com intensidade cheia de sentimentos nítidos do amor ao desejo, toda vez que eu tocava-a suas reações eram exageradas.

Circulei com as pontas dos dedos os lábios desenhados de Anna pressionando-os suavemente, vendo-a entreabrir-se. Tantas batalhas ela havia vencido por mim, tantos sacrifícios para estar perto. Os meus sentimentos eram como uma bola de neve o que me impulsionava a querer fazê-la feliz, a ser melhor a cada dia, mas eu era alguém limitado, alguém que queria lhe dar tudo e não está fazendo o bastante naquele casamento.

A nossa atual fase era delicada Anna estava na 20.ª semana, quando infelizmente teve um aborto espontâneo e perdeu o nosso filho, o que provocou um afastamento entre nós, todavia o companheirismo dos amantes sempre estava presente, afinal quando casei foi por estar decidido a constituir uma família ao lado dela. — Beijei-lhe a testa antes de delicadamente me afastar, vendo-a suspirar.

— Vamos ao almoço. — Sorriu minimamente.

Fui atrás de Abbie com a intenção de sentá-la na cadeirinha, a encontrei devidamente comportada assistindo o desenho da boneca loira.

— Hora do almoço, filha.

Ela ficou confusa.

— Eu já comi. Papai.

Iniciei com paciência. — Não mocinha você lanchou, agora é a vez da sustância. — Fiz pose de forte, e em seguida me inclinei para pegá-la e suspendê-la no ar.

— Para você ficar super forte.

Toquei os nossos narizes em um beijo de esquimó.

Ela riu.

— Sério?

— Sério.

Na sala de jantar Anna já pusera na mesa o Borscht com o Pelmeni, pratos típicos da nossa gastronomia.

Posicionei Abbie na sua cadeirinha e me sentei perto dela, como sempre eu me deliciava a cada colherada. Anna era uma excelente cozinheira o que de certa forma me surpreendeu, vinda de uma família conceituada, não pensei que ela se daria ao trabalho de aprender a cozinhar e mais uma vez eu estava errado.

Não me orgulho em dizer que entre nós dois o mais volátil era eu, a paciência não era o meu forte, mas a cada dia eu acordava disposto a ser melhor que o dia anterior, por Anna e por Abigail.

O nosso tempo em casa é tranquilo, passou algum tempo no escritório respondendo endereços eletrônicos, avaliando meus relatórios, eu leio algumas documentações e tudo que esteja interligado a esse meio de trabalho, às vezes a minha esposa apareceria com uma xícara de chá.

Anna era uma companheira amorosa mesmo nos nossos momentos de pouquíssimo diálogo, ela se mostrava amável e gentil.

Cansado pelo dia agitado que eu tive na construtora, guardei meus relatórios na gaveta, apaguei as luzes, passei pelo quarto de Abbie, dei outro beijo de boa noite, somente depois disso que eu fui para o quarto de casal.

A luz do quarto ainda estava aberta, estranhei Ana dormia cedo, me move no espaço para guardar o relógio de pulso na gaveta da cômoda.

Tirei minhas calças e camisa de algodão para vestir meu pijama de tiozão.

Ana acompanhou tudo calada, na verdade, nós quase não conversávamos, outras vezes trocamos meias-palavras sobre o nosso dia, o silêncio não nos incomodava.