Chá verde

7 VII. Adeus


A perda do meu pai me tirou todo o equilíbrio que me restava, tudo foi tão rápido, numa manhã ele se despedia para ir trabalhar e no outro instante recebemos um telefonema para comunicar seu acidente de carro. Um motorista bêbado havia atingido o carro dele, o acidente foi grave bem mais grave do que fora dito e quando chegamos ao hospital, ele já havia partido, eu não poderia dizer a ele o quanto eu o amava e o amaria para sempre. O meu coração sangrava sem defesas que pudessem estancar a ausência de Franz Dushkin e sem nenhum equilíbrio eu fiquei à deriva completamente anestesiado pela dor. A minha mãe me deu um abraço de conforto, ela queria me consolar, mas estava tão afetada quanto eu. Evelyn Dushkin sempre amou o seu marido, havia compartilhado 20 anos da sua vida ao lado de um companheiro que não estava mais aqui.

As Pessoas chegavam e saiam da minha casa sem eu me atentar a elas, o meu corpo estava presente e nada mais. As palavras direcionadas a mim não conseguiam acalmar o meu coração. Eu ainda não conseguia recolher os cacos em meu peito, a dor me consumia por inteiro.

Todo o processo de preparação do enterro, pois, não haveria velório ficou a cargo da minha mãe, ela era forte sempre foi.

No inverno na Rússia a temperatura está abaixo do agradável, manhã tenebrosa de neve. Um pequeno grupo de pessoas estava no cemitério, mas eu não conseguia me concentrar nos rostos à minha volta.

A morbidade do tecido negro trazia uma obscuridade para o enterro de Franz Dushkin. Eu me sentia tão revoltado, tão angustiado pela perda…

Eu não conseguia chorar, não conseguia sequer murmurar um obrigado diante das condolências recebidas. E lá estava ela com trajes de inverno, banhada em lágrimas pela perda do meu pai. O rosto pálido possuía vermelhidão.

Franz realmente gostava da Garota Stepanov, assim que ele pôs seus olhos verdes em Anna numa manhã de setembro em que ela insistia em me visitar, ele me disse “Essa garota tem uma alma linda”.

Muito mais de ter perdido quaisquer meios de ajuda do meu pai foi ter perdido a sua presença, a oportunidade de falar com ele e de abraçá-lo.

Se eu fechasse os olhos a presença do meu pai se revelava viva em minha cabeça e no meu coração. Eu só queria dizer o quanto o amava e o amaria para todo o sempre.

Anna se aproximou de mim para pôr um cachecol em volta do meu pescoço. Eu nem tinha me dado conta de ter saído sem ele, eu estava dormente, não sentia mais nada fisicamente.

Eu já sofri por muitas coisas, por amor, sonhos frustrados, e por fazer os outros sofrerem também, mas nunca doeu tanto como aquele momento amargo de despedida.

O falecimento do meu pai me fez experimentar uma das piores dores da minha vida, eu não conseguia sair do quarto, eu não conseguia manter uma conversa com ninguém. Era mais fácil ficar jogado na cama completamente imóvel, o simples fato de respirar exigia muito de mim.

Perdi as contas de quantas vezes a minha mãe bateu na minha porta para me dizer que Anna foi me visitar. Eu não queria ver ninguém. Fechei os olhos numa tentativa de cair na inconsciência, e gostaria que durasse mais do que um período de sono.

Seguir com a vida foi muito mais difícil do que eu poderia imaginar. Já não havia mais uma base sólida em quem eu pudesse me apoiar. Quanto mais Evelyn tentava uma aproximação, ocorria o efeito contrário, era como se ambos tivéssemos em uma frequência de rádio diferente enquanto ela funcionava em FM, eu só me conectava em AM.

Perdi as contas de quantas vezes a Stepanov foi até a minha casa e eu me recusei a vê-la. A vida não tinha sentido, eu era apenas um sobrevivente. O diálogo não existia quando eu apenas ouvia a minha mãe falar.

Cansado da minha falta de reação me levantei da cama e girei pelo quarto pegando o que eu havia levado ou usado na Polinésia Francesa, joguei tudo numa mala de alças, tirei da gaveta as fotografias que Anna me deu e fiquei encarando. Aquele genuíno rosto imortalizado naquela imagem já não existia, a perda de pessoas amadas nos faz endurecer de dor e de amargura. Primeiro foi Aurora, depois o meu pai.

Eu queria rasgar tudo o que me lembrava a ilha de Aurora, mas eu não conseguia me desfazer do presente de Anna.

Suspirei ao guardar as fotografias no mesmo lugar de antes.

Pus os pés para fora de casa com a mala na mão, na dúvida se queimava as roupas ou as doava. Queimar me daria uma sensação de satisfação, mas doar seria diferente, seria ser mais humano e o meu pai gostaria disso, ele se importava com os outros.

A faculdade de administração que era algo que me interessava, não conseguia prender a minha atenção, e eu me esforçava para me envolver nas aulas.

Circular pelo campus estava fora de questão. Ocupar o tempo vago. Sim. Isso daria certo.

Por sorte ou azar eu ainda não tinha encontrado a Anna. Talvez, ela ainda estivesse irritada pelo meu comportamento recluso. Ela não era boba sabia que eu a evitava.

Não demorei a me perder no dia, no mês e sequer me importava com isso, eu só queria ser esquecido por todos e teria funcionado se a minha mãe não viesse até o meu quarto numa tentativa de diálogo, ou quando ela insistia para eu ir ao psicólogo. É claro que eu não iria. Mas tudo mudou no ano seguinte à morte do meu pai, Evelyn arrumou um namorado de nome Yakov que era alcoólatra, e o nosso relacionamento que já estava enfraquecido se rompeu como uma corda de linha.

Tranquei o recém iniciado curso de ensino superior e passei a trabalhar num posto de gasolina para ter dinheiro. Sem vida social, sem relações duradouras, encontrar uma mulher para fins sexuais não era difícil, muitas que saíam à noite para se divertir queriam apenas viver o momento como eu. No entanto, negar que o meu rosto atraía as mulheres seria o mesmo que dizer que eu não tinha espelho.

O meu rosto era simétrico, sobrancelha escura, olhar forte, cílios cheios, nariz com traços retos, lábios ligeiramente volumosos e a mandíbula marcada.

Sem esforço, elas vinham até mim. Um desleixado de rosto bonito.

Nessa fase da minha vida eu morava sozinho num flat de dois cômodos tão desarrumados que eu tinha o talento de perder os poucos sapatos que eu tinha. Por desleixo eu deixei o cabelo crescer e andava com roupas velhas, pois não gastava dinheiro com elas.

Perto do final do intervalo do meu expediente como flanelinha do posto, me afastei da área inflamável e acendi um cigarro quase no fim da extração da nicotina, a buzina de um jipe vermelho me obrigava a ir atendê-lo, havia cinco pessoas no carro.

O motorista loiro em um tom quase branco dos fios foi o primeiro a falar.

— Enche o tanque aí, põe sete litros.

Sem dizer uma palavra eu tirei a bomba de enchimento e iniciei.

— Aleksandr? Fui chamado por uma voz feminina e por instinto eu virei assim que ouvir o meu nome.

Os cabelos loiros e desfiados chegavam perto da omoplata sobre a cabeça repousava uns óculos de sol. O rosto genuíno esboçava surpresa, os olhos estavam maiores que o normal

Sem evitar eu olhei para o seu corpo, devido ao clima propício ela revelava sua pele numa camiseta rosa amarrada na frente e um jeans desfiado.

As belas curvas chamavam atenção para si, menos menina e mais mulher Anna Stepanov me questionava.

— Você é Aleksandr Dushkin, não é?

Será que eu havia mudado tanto assim?

— Alek– Sorri encabulado com a sensação de ‘Déjà vu’ que estava sentindo, Anna sabia muito bem que eu gostava que me chamasse apenas de Alek.

Ela sorriu provocativa.

Também se mostrou direta em saber sobre mim, como eu estava por onde eu andava.

Mas eu não estava ali para conversas...

Assim que o tanque encheu, devolvi a bomba para o suporte e recebi a grana do loiro de olhar superior.

Anna insistiu em pedir o meu número como eu não estava disposto a falar com a minha mãe e nem com a própria Anna, contei à verdade que já não tinha celular, ainda insistente pediu o meu endereço, escrevi no pedaço de uma folha de caderno e a entreguei.

Uma garota como ela jamais iria de fato à minha casa, então jamais esperaria por uma visita sua, sempre gentil estava sendo educada.

Ela ficou satisfeita, o que pareceu irritar o resto dos ocupantes do carro, ainda ouvir uma voz masculina perguntar.

— Por que você quis tanto o endereço daquele cara?

O carro deu a partida sem me revelar a sua resposta e não me interessava saber os seus motivos. Seria bom se ela me deixasse em paz, afinal, já fazia muito tempo que não tínhamos contato, então, seria natural não voltar a vê-la.

O encontro inusitado com Anna me deu o que pensar e pelo que eu conhecia da Stepanov ela estava preocupada, Anna era mais nobre do que eu em simplesmente se importar.

Naquela noite de brisa, eu estava largado na cama, sem querer sair ou ver alguém, eu só esperava cair no sono quando a minha campainha tocou, quem em si consciência estaria na porta de alguém àquela hora?

Desconfiado eu abri a porta.

Era Anna Stepanov.

Admirei a sua coragem.

Afinal eu poderia não a receber ou mandá-la embora.

Diante do seu olhar acanhado, eu a incentivei a entrar.

O contraste da silhueta da garota rica sentada em um sofá surrado de dois lugares tornava a cena quase cômica.

Quando eu pensaria que a filha de um bem-sucedido empresário estaria no meu apartamento de baixo custo?

— Você aceita beber alguma coisa?

— Não. Obrigada.

Incerto sobre o que deveria ser feito, eu fiquei encarando-a.

— Você está surpreso por me ver aqui. Afirmou.

Na altura dos joelhos puxei as calças ao me sentar na cadeira de frente.

— Você simplesmente sumiu, depois que o seu pai... Ela não completou a frase.

Eu não queria ser visto e isso incluía Anna também, mas ainda com um cavalheiro adormecido em algum lugar, contaria sobre o que ela queria saber.

— Eu estava preocupada.

A melhor maneira era começar a tranquilizar.

— Anna, eu estou bem, só saí de casa, arrumei um emprego e isso já faz 1 ano. Tentei não ser rude.

— Os seus estudos?

— Não dei continuidade.

Anna ouvia com atenção, às vezes transparecia querer dizer bem mais do que realmente dizia.

Ela avaliou o meu rosto até se concentrar em meus olhos.

— Você mudou.

Sustentei o seu olhar.

— Nós mudamos.

O movimento das mãos, a cruzada de pernas, nossas respirações, tudo parecia demasiadamente lento.

— Posso perguntar mais uma coisa?

— Claro.

— Você não pensa em voltar para a universidade?

Uma pergunta fácil de responder.

— Quem sabe um dia.

Com o olhar compreensivo no rosto ela me disse.

— Eu vejo um futuro brilhante em você.

Afinal alguém ainda acreditava em mim, depois da última conversa com a minha mãe em que ela jogou na minha cara eu ser uma decepção, já não esperava mais nada da vida.

As pupilas negras de íris azul transbordavam sentimento.

Anna me olhava de um jeito tão...

Eu não lembrava se já havia sido mirado daquele jeito alguma vez.

Num movimento insensato eu me levantei e toquei seu maxilar numa carícia até unir as nossas bocas em um profundo beijo, não foi um ato pensado, as palavras não vieram como aviso. Eu sentia vontade de beijá-la e simplesmente fiz o que queria.

Depois do susto inicial Anna retribuía o beijo com avidez, posicionou a mão no meu rosto e com a outra me puxou.

Ela queria tanto quanto eu pensei satisfeito.

O estado febril dos nossos lábios se tornou crescente, se tornou desesperado. O meu corpo reagia à sua entrega, apertei-a contra mim, na necessidade de fôlego eu seguia uma trilha de beijos em seu pescoço macio.

Tão atraente...

Ela estava mexendo com a minha essência.

Eu estava fervendo por ela, eu queria mais... Queria tocar o seu bonito corpo.

Anna sorriu pequeno ao se afastar ofegante, eu aceitei, não forçaria nada.

Como autocontrole eu virei de costas, Anna não merecia ser tratada como qualquer.

— Aleksandr...

Virei para olhá-la.

O laço do seu vestido foi desfeito e caiu aos pés dela.

Um corpo de curvas sinuosas se revelou Anna não estava me ajudando a pensar direito...

Justo quando eu estava voltando a raciocinar, ela me faz isso?

O toque de seus dedos nos meus braços me induziu a beijá-la com volúpia.

As carícias aumentam e pouco a pouco as nossas mãos foram ficando mais exploratórias...

As minhas mãos atrevidas procuraram suas curvas, o seu rosto denota o calor que lhe invadia.

Beijei seu corpo lentamente, ela estava se entregando a mim.

O desejo tomou conta, eu não conseguia mais me controlar, aquilo poderia estar errado, mas eu realmente estava louco.

Procurei não pensar no que eu estava prestes a fazer, fazia muito tempo que eu não sabia o que era se sentir amado. Eu só queria me envolver cada vez mais naquela sensação ao ponto de me esquecer quem eu era.

As doses homeopáticas não me eram suficientes e eu queria tudo! Fui me perdendo entre suas pernas e a abracei mais forte.