Chá verde

9 IX. Conversa séria


Sob os lençóis brancos da minha cama estava a mulher mais bonita que eu encontrei em toda a minha vida, Anna Stepanov. Deslizei as pontas dos dedos pelas laterais do seu rosto, um suspiro baixo saiu dos seus lábios, enquanto ela fechou os olhos.

Talvez fosse inevitável o nosso envolvimento, a gente tinha algo forte, e todos os pensamentos que eu não pensei relacionado a um possível passo vieram até mim, nós poderíamos tentar.

Ter a herdeira Stepanov em meus braços me fez perceber que toda a conquista profissional da Evelyn podia ser perdida. Ela continuava na Stepanov Group, numa nova função voltada para o ramo de ações e investimentos, após a morte do meu pai, ela foi promovida como um “gesto de solidariedade” vindo do homem que ela trabalha há mais de 16 anos.

O filho de uma subalterna visto ao lado de Anna seria chamado de golpe do baú. Evitei fazer uma careta. Todos veriam dessa maneira. A única filha do dono, rica, jovem e bonita. Não teria como não unir suas qualidades com a sua conta bancária e o pior de tudo era eu ter gostado de ficar com ela, de sentir a maciez da sua pele translúcida e beijar seus lábios.

Desci as mãos para o seu delicado pescoço.

Eu deveria estar louco por ousar tocar em algo tão delicado e nobre como Anna. Fiz um carinho tímido em sua clavícula.

Ela finalmente abriu os olhos.

— O que está pensando?

— Em como você é bonita.

Os olhos dela se aqueceram.

— É a primeira vez que você me diz isso.

Fiquei desacreditado.

— Eu não ter falado não significa que eu não tenha pensado.

— Mas eu não leio mentes e me faz feliz saber que você me acha bonita.

A minha opinião não devia ter muito peso nessa afirmação tão óbvia.

— Você tem espelho em casa, além de receber elogios todos os dias.

Eu já tinha notado como o sexo masculino a olhavam e reagiam a sua presença na universidade.

— Eu não me importo com esses elogios.

Beijei a lateral da sua testa, Anna cheirava agradavelmente a chá verde.

Eu era louco em chá verde. Como nunca notei?

Isso era novo. Uma pessoa que cheirava a minha bebida favorita.

Inspirei na sua pele.

— Algo errado? Inquiriu confusa.

— Gosto do seu cheiro.

Ela apertou a minha mão.

— Isso é bom.

Eu queria fazê-la minha outra vez. Mas as coisas foram rápidas demais entre nós, a primeira vez que ficamos terminou da pior maneira possível, pois eu entrei em parafuso, falei e fiz coisas que me arrependia, eu me sentia o pior dos homens.

Nós precisávamos resolver a nossa situação antes de tentar uma relação e seria agora.

Mesmo sem querer eu me sentei e a puxei para o meu peito.

Anna sorriu, entretanto quando viu a minha expressão séria, ela parou de sorrir.

— O que foi? Sempre preocupada...

Por sua culpa Alek! A minha mente me acusou. No

Dei um beijo cálido nos seus cabelos.

— Eu só quero conversar.

Essa conversa era necessária, se a gente pretendesse alimentar essa história e ver até onde ela ia, alguns esclarecimentos precisam ser ditos.

— Anna a gente se conhece há muito tempo, na verdade, a mais tempo do que eu imaginei. Franzi a testa com a lembrança de uma das nossas conversas em solo polinésio. — Você sempre foi uma boa amiga, enquanto eu fui o contrário.

— Alek...

— Se acalme, está tudo bem e ficará tudo bem. Sim?

Ela assentiu.

Envolvia sua cintura e a puxei para sentar em cima do meu quadril Anna ficou vermelha, porém, não disse nada.

— Eu sei que a nossa primeira vez não foi como você esperava, eu fui um cretino e me arrependo muito por isso. Se eu pudesse voltar atrás, acredite, eu o faria sem pensar. Você é a pessoa mais pura e doce que eu já encontrei na minha vida. Eu não poderia seguir sem pedir a você perdão. Perdão por eu ser uma pessoa difícil por ter machucado-a e ter feito você se sentir insuficiente ou até mesmo não bonita. Olhei-a com toda a sinceridade que eu trazia no meu coração.

Seus olhos se encheram de lágrimas. Aquele jeito de me olhar trazia mais significados do que eu poderia descrever tanta força e emoção. Realmente. O óbvio não gostava de mim, não o suficiente para eu enxergá-lo. Os olhos azuis como um dia de limpo sem nuvens estavam brilhantes.

Peguei em suas mãos e as beijei lentamente.

— Você está perdoado, eu nunca acreditei que meu coração errou ao escolher você.

Anna me deixou sem palavras, eu era o seu escolhido?

Eu que tive mais erros do que acertos, eu que não soube valorizar de início o tão incrível que ela era?

Então, é assim? A mulher que eu nunca cogitei me envolver havia sido atraída até mim? Anna, a herdeira que eu erradamente associei a uma pessoa artificial e que eu queria distância. Finalmente foi notada pelos meus olhos e principalmente ela queria ser enxergada, queria estar perto, queria ficar comigo.

— Eu posso fazer uma pergunta?

— Claro.

Anna molhou os lábios ao olhar para cima, eu sorri reativo. Ela era linda.

— Quando a gente voltou da Polinésia Francesa, você deixou algo importante naquele país. O meu sorriso quase se fez, porém, eu tive todo o cuidado de não transparecer quão afetado aquela pergunta poderia me deixar. — Era como se você tivesse ido de um jeito e voltado totalmente diferente como se fosse outra pessoa. Anna possuía uma boa memória e era uma boa observadora também.

— Tive alguns problemas com a minha mãe e isso afetou muita coisa. Minimizei.

— Mas está tudo bem agora? Ela levou as duas mãos ao meu rosto. A situação com a minha mãe nunca mais foi a mesma, a ausência de relação foi maior com a perda do meu pai. Não sei se um dia voltará a ser como era antes.

— Entre mim e você as coisas estão perfeitamente bem.

A nossa porcentagem de acertos não era alta, tínhamos muitas diferenças principalmente sociais, mas quer saber? Eu já estava cansado. Eu ficaria com ela e tentaria ser a minha melhor versão. Preocupar-me-ia com os problemas mais tarde, de preferência bem mais tarde.

Um dia eu voltaria aquele assunto e diria a ela sobre todo o caos que eu vivi, inicialmente por causa da Aurora e depois por problemas que eu provoquei. Se eu tivesse olhado para Anna assim que pus os olhos nela, teria me poupado tanta decepção e dor de cabeça. Anna era como um dia limpo sem tormentas tropicais.

Éramos do mesmo país, tínhamos anos de amizade e agora estávamos sentimentalmente envolvidos, talvez o sentimento já estivesse sido plantado só não foi cultivado.

Eu nunca percebi um sentimento amoroso vindo de Anna, carinho e atenção sim, mas é isso que os amigos sentem, não é? E depois que eu decidi que a queria como amiga ela deixou seu lado gentil florescer, e o que me importava era a nossa vida dali em diante.

Levei a mão até o seu rosto e me aproximei o suficiente para beijá-la, o êxtase do desejo nos embriagou e fizemos bem mais do que só nos beijar, nos entregamos ao momento de conexão e tormenta deliciosa que acontece quando os corpos se atraem.

{...}

Nossos prédios estavam em direções opostas, então, quando Anna chegou acompanhada do loiro bola de neve, contive a minha irritação, eu não era ciumento, pelo menos pensava que não, mas não gostei daquela cena.

— Olá Aleksandr. Assim que me viu ela me cumprimentou genuína e eu a beijei sem me importar com a plateia. Gostei da sensação que o nosso roçar de lábios me provocou, um pouco embaraçada Anna se afastou sem graça.

— Aleksandr Dushkin, Nikolai Petrov.

— Nikolai Petrov, Aleksandr Dushkin.

O olhei de cima e acenei com a cabeça.

Os caminhos tortuosos que trilhei acentuaram o meu comportamento volátil, saído da minha até então “desconexão social” por ser antissocial. A roda de amigos que Anna participava, seguia o seu padrão financeiro, eles não me tratavam mal, no entanto, era nítido que a maioria apenas me tolerava por gostar de Anna que não escondia de ninguém a nossa confusa relação. A verdade é que ela demonstrou possuir muita paciência no começo do nosso “não” relacionamento, como canalha eu a submeti a incerteza.

Por mais que nós tivéssemos tido uma conversa esclarecedora sobre aquela noite, o perdão dado por Anna não conseguiu me livrar do sentimento de culpa que eu sentia ao pensar no meu comportamento.

A rotina na universidade teve uma mudança na atmosfera quando muitos alunos descobriram que eu estava tendo uma relação com Anna Stepanov, o desajustado com a princesinha, então, eu passei a ser notado. Algumas mulheres se aproximavam por curiosidade e outras por interesse velado. Anna se mostrava tranquila em me ver conversando com pessoas que ela não conhecia.

Quando a minha mãe soube que eu estava com Anna, ela apareceu no meu pequeno apartamento, nos lançou um olhar entusiasta. Ao vê-la tão feliz me passou pela cabeça que Anna sempre foi à escolha de Evelyn antes mesmo de ser a minha. A minha mãe sempre quis que eu ficasse com a sua favorita e por ironia do destino eu fiz exatamente o que ela queria.

Após aquele encontro informal entre as duas mulheres, Evelyn se reaproximou de Anna, eu inocentemente não estranhei por saber que a minha mãe sempre havia gostado de Anna, tarde demais foi me dar conta do real motivo.

Como todo casal, nós tínhamos os nossos desentendimentos, seja pela insistência de Anna em querer me inserir no ciclo social do seu pai, ou pela sua intromissão nos meus assuntos com a minha mãe. Anna possuía uma personalidade insistente ao expressar mais uma vez o seu descontentamento por eu não ter um contato maior com a minha mãe. Ela insistia em falar sobre a falta que eu fazia e o desejo que Evelyn Dushkin tinha por uma reaproximação.

Sim. Anna havia conseguido me irritar, ela não entendia que as coisas deveriam seguir seu próprio percurso para funcionar.

— Será que você não ver que falar de Evelyn me faz mal? Eu não estou sendo legal o suficiente com você? Você quer me enlouquecer mulher!

Anna ficou estática diante da minha alteração, não falou uma palavra, de palmas erguidas ela deu um passo para trás, quando eu tentei me aproximar.

Suspirou cabisbaixa e fugiu para a casa dos pais como sempre acontecia quando ela queria me manter afastado.

Eu até tentei pedir para ficar, mas não adiantou as súplicas, fiquei ali a vendo escapar pelos meus dedos.

Dei-lhe o tempo de um dia para correr atrás da sua atenção, todavia eu não aguentei mais, cansado de ficar longe eu fui contra a minha vontade a casa dos Stepanov de arquitetura clássica com pilastras condizia até a arquitrave de tetos altos e rodapés.

A expressão chocada de Anna ao me ver parado em sua porta me dizia que valeria a pena ir até ali, mas ao olhar fixamente nos seus olhos vermelhos, eu o motivo das suas lágrimas.

A conexão magnética que havia em nossos olhares explicava silenciosamente a necessidade de ficar perto que tínhamos um pelo outro.

Eu a suspendi no ar e a beijei com volúpia, Anna me agarrou pelo pescoço me respondendo com a mesma intensidade.

A pedir desculpas por ter sido rude e mais uma vez ela aceitou. Anna não merecia ser vítima da minha estupidez, então, quando ela quis me mostrar o seu quarto eu ignorei toda a minha relutância em recusar. Nós havíamos acabado de fazer as pazes, eu segurei na sua mão estendida numa clara aceitação, na nossa passagem pela sala eu via a decoração clássica que possuía uma disposição simétrica dos móveis, propício ao conforto visual.

O quarto de Anna possuía cores ‘clean’ era um ambiente com feminilidade e personalidade. Em cima da penteadeira havia algumas fotografias que registravam os momentos de Anna quando criança a pedalar de bicicleta, acampando no quintal com as amigas, abraçada aos pais, ela na formatura do colegial. As fotos que eu a vi tirar na Polinésia Francesa também estavam lá. Olhei atentamente para a única fotografia que nós havíamos tirados extremamente próximos no carrinho de golfe, porém, a que mais me chamou atenção foi a do adolescente que se aventurava sobre as águas de Bora Bora.

Anna reservou um lugar íntimo para pôr um retrato meu, ela sempre teve afeição, sentimento esse que a minha mãe viu desde o princípio, enquanto eu estava completamente cego, não comentei o assunto, todavia, Anna interpretou muito bem o que se passava.

— Eu sempre gostei de você, só você não enxergava o óbvio. — Declarou ao me dar um beijo no canto da boca, puxei-a para um beijo demorado que terminou em um amasso na cama. Eu queria levá-la para a minha casa, mas ela se recusou, não seria educado fazer o que eu planejava sabendo que a qualquer momento o pai dela chegaria.

Sorridente ela me contou que os pais saíram numa pequena viagem e pela primeira vez eu atendi o seu pedido de ficar com ela naquela casa.

Eu estava com muita saudade.

[...]

Anna me apresentou o primo turista que havia voltado à cidade para fazer uma visita. Visualmente Ivan Stepanov parecia ser loiro, mas estava quase careca.

— Que bom ver você. Ela o abraçou. — Dessa vez ficará mais tempo conosco? Perguntou Anna ao recebê-lo na porta, eu observei por detrás dela.

— Eu pertenço ao mundo, Anna. Não tem como ficar muito tempo em um lugar.

— As suas visitas são sempre bem vindas, vamos entrar.

Dei espaço para os dois caminharem até o sofá.

— Você é o Alek. Apertou a minha mãe.

— E você o Ivan.

— Cara você é lindo!

Eu não consegui esconder o meu rosto chocado. Ivan não tinha o perfil tipicamente russo havia acabado de me conhecer e já me elogiava.

— Obrigado.

— Alek preparou chá verde para nós. Ela apontou para a mesa.

— É bom para aquecer um pouco. Ele pegou uma xícara.

— Por onde você andava? Ivan se inclinou para sentar.

— Nova Zelândia. Bebeu o chá.

— O mais perto que eu estive desse país foi a Polinésia Francesa.

— Eu nunca fui.

— Deveria, você iria gostar muito, tem tudo a haver com a natureza do jeitinho que você curte.

— Anotado.

Anna pegou uma xícara de chá que já estava fria.

Ian olhava em volta de maneira contida numa tentativa de não ser notado.

— Ao ir até a casa dos meus tios, fiquei surpreso em não te encontrar.

— Você é imprevisível, só tinha como avisar você.

— Eu sei. Mas agora sei onde te procurar. — Vocês estão morando juntos?

Anna olhou para mim.

— Não.

— Pode ser um engano meu, mas eu tenho a impressão que já vi o Alek em outra ocasião.

Eu não me lembrava ele deve está me confundindo com outra pessoa.

— E viu.

O primo dela olhou-a de testa franzida.

— Há três anos na festa dos funcionários da empresa.

— Você é o Aleksandr Dushkin!

Anna olhou-o desconfiada como se quisesse dizer “Fica quieto”.

— Ah. Ele disse simplesmente.

Desde os meus sete anos a minha mãe trabalhava para os Stepanov, e por um tempo ela não me levou para as confraternizações, no entanto depois que eu fiz 12 anos ela passou a me arrastar para esses eventos.

Lembrei-me da festa que Anna mencionou, eu tinha 16 anos e tinha sido obrigado a acompanhar a minha mãe. O meu rosto indiferente deixava transparecer que eu não queria estar naquela festa. Fiquei parado igual uma estátua com as mãos no bolso se alguém falasse comigo eu responderia se não falassem melhor ainda.

Flashback

“Anna recebia muita atenção, os adultos a cumprimentavam juntamente com os seus filhos, eu não sabia se tratava de uma apresentação ou se já se conheciam. A garota ainda tinha rosto de criança, e, no entanto, o corpo já estava se desenvolvendo. Por debaixo da camisa de manga comprida de botões abertos ela usava um vestido bege curto, os quadris femininos se tornaram mais arredondados e a cintura mais fina. Olhei para as suas pernas, ela usava meia calça preta e nos pés que se moviam botas marrons.

Ela caminhava em minha direção? Ao me dar conta disso, levantei a cabeça.

A garota estava séria e ainda assim conseguia ficar corada. Anna notou que eu a estava olhando.

— Oi. Falou com a voz baixa.

Apenas acenei com a cabeça.

— Gostando da festa?

Estou gostando tanto que quero ir embora.

— O meu pai montou uma sala de cinema para os adolescentes, você quer ir?

— Prefiro ficar aqui.

— Ok.

Um garoto loiro e magro chegou até nós.

— Vamos Anna, o filme já vai começar.

— Seja educado Ivan, não vê que eu estou conversando com ele. Apontou para mim com a cabeça.

— Desculpe. Oi.

Sem problema eu não me importava.

— Aleksandr. Falei sem rodeios.

— Ivan.

Ele ficou alguns segundos olhando de Anna para mim, incerto sobre o que fazer.

— Eu vou assistir ao filme, você vem?

— Sim.

Numa rápida despedida eles seguiram até a sala de filmes. Somente minutos depois que fui notar que eu era o único adolescente naquele salão de adultos.

Fim do flashback

— Você pretende passar quanto tempo em Moscou?

Inclinei a cabeça ao mesmo tempo em que tentava processar a informação de que Anna perguntava ao primo.

— O tempo é incerto, pode ser dias ou semanas.

— Você não está pensando em cair no mundo outra vez sem avisar ninguém, não?

O primo de Anna apenas levantou uma sobrancelha de maneira desafiadora.

Achei melhor continuar quieto e deixar eles se resolverem. A minha xícara de chá estava gelada, mesmo assim tomei um gole.

— Eu sei me cuidar, Anna não se preocupe. Ivan ficou de pé. — Essa deve ser a minha deixa eu preciso ir prometi aos seus pais que iria jantar com eles hoje.

— Tudo bem. Mas você sabe que o tenho como irmão.

— Eu me sinto igual. Ele virou até mim.

— A gente vê Aleksandr.

— Claro.

Dei outro gole no meu chá os vendo andar até a porta, trocaram mais algumas palavras e ele foi embora.

Anna veio para perto de mim com as mãos no bolso.

— Não foi tão ruim como eu pensei que fosse.

— Porque seria?

— Ivan não é nada reservado.

De fato ele não era mesmo.

— Ele tem personalidade.

— Ele é um querido. Ela falou.