Chá de Hibisco

1 Floresça mais uma vez


Notas iniciais
Olha eu com minha primeira Jercy da vida, de presente pra @Unkn0w por ter passado na Federal, ai menina de ouro ela ♥ bate um orgulho danado!

Ai ela me pediu algo destruidor... Então olha, tem angst ruehurherhuer

Espero que gostem, vejo vocês nos comentários!

Boa leitura!

A Primavera ainda não terminou

❀ ❀ ❀ ❀

Jason despertou com o aroma do chá no ar, invadindo seu quarto junto da brisa marítima que o envolvia naquele manto acolhedor e tenro. Se virou na cama, um suspiro satisfeito escapando de seus lábios fartos, seus olhos fixos na janela aberta para o oceano vasto e resplandescente.

Estendeu sua mão para o lado vazio da cama de casal, para o lençol bagunçado, o travesseiro jogado desleixadamente no centro da cama; o cheiro cítrico de seu perfume ocupando toda a cama. Sorriu largo ao se sentar sobre o lençol, espreguiçando letargicamente.

Caminhou até o banheiro, passando por todo o processo diário de conseguir desviar a atenção da gata deitada em cima da tampa do vaso e voltar para a cozinha antes que Percy terminasse o chá.

Se arrastou pelos corredores da casa até a pequena cozinha, aberta e clara como toda a decoração feita por Percy Jackson. E, por conta disso, havia os toques de azul nos móveis, alguns sutis e outros mais fortes, espalhados pelos quadros nas paredes brancas e largas, nas cortinas em anil suave na transparência da seda leve.

Percy era formado em Decoração de Interiores, e seu maior orgulho era a casa de praia deles. O conforto o qual seu marido sempre prezou projetado nos mínimos detalhes dela, pontuando os exatos sentimentos que ela deveria lhes passar: paz, sossego e amor.

Jason parou um tempo para observar a sala, as fotos de seu casamento expostas em quadros nas paredes, seu sorriso largo e imenso no terno branco com Percy em suas costas, os braços ao redor de seu pescoço naquele sorriso estonteante e amplo em seu terno azul.

Acariciou o vidro da foto, percorrendo com seus dedos pelo restante das imagens, o calor em seu peito aumentando gradualmente ao chegar no final na parede, como um caminho que o guiasse ao homem na cozinha, cantarolante, terminando de coar as folhas de hibisco do bule, distraído na pia; a camiseta de Jason cobrindo até o começo de sua coxa nua e nada mais.

Às suas costas, na ilhota da cozinha, havia duas canecas dispostas na bancada: uma azul desgastada e a sua do Superman que Percy insistiu em comprar para ele. Não eram o tipo de xícaras que Jason escolheria para tomar chá, mas aquele ato caseiro de usar das canecas favoritas de cada um era outro toque sutil de Percy em sua vida.

Ele fazia cada pequeno momento terno e calmante, igual o mar em uma manhã calma e sem vento.

Como se se sentisse observado, Percy virou o rosto para Jason, a feição curiosa tornando-se suave, um sorriso irrompendo de seu rosto; uma supernova em explosão.

Jason retribuiu o gesto indo até o marido. O abraçou pelas costas, apoiando o rosto em seu ombro, depositando um beijo na área descoberta de sua pele. Percy soltou uma risada confortável, inclinando seu corpo contra o de Jason.

— Dormiu bem? — perguntou Percy ao jogar as folhas no lixo, fechando bule definitivamente.

Jason balançou a cabeça lentamente.

— Perfeitamente bem, mas seria bom acordar com você na cama pelo menos alguma vez na semana. — comentou divertido enquanto Percy se afastava dele, levando o bule para a ilhota.

— Se eu acordar com você quem vai preparar o chá? — comentou brincalhão, sentado na banqueta azul: — Além disso, eu gosto de observar o mar antes de começar o dia, e você me distrai da minha rotina.

Jason rolou os olhos, se sentando ao seu lado.

— Distraio com o que? Minha aparência perfeita? Minha companhia estonteante?

Sua chatice, Jason Grace! — Percy resmungou, empurrando-o com o ombro, naquela risada gostosa ao jogar a cabeça para o lado, bagunçando os cabelos fartos: — Agora cala a boca e bebe o chá!

— Insuportável.

— Irritante! — Percy lhe mostrou a língua enquanto enchia as xícaras com o chá escuro e aromático.

Aquele era um hobbie de Percy que havia surpreendido Jason no começo do relacionamento. Aquela rotina matinal dos chás de diversos tipos na calmaria da manhã; tão diferente do Jackson que conheceu na faculdade, energético e impossível de acompanhar em sua empolgação como ativista da vida marinha.

Jason ainda se questionava se Percy não teria se dado melhor como Biólogo do que decorador, mas nunca ouviu uma única reclamação do marido sobre o assunto e manteve por isso.

Tomou um gole generoso do chá puro, sentindo-se esquentar agradavelmente. Percy encostou seu joelho no dele por baixo da bancada, um sorriso incriminador em seus lábios.

— Ouvi dizer que brigou com a Piper noite passada. — comentou Percy de forma leviana, como se fosse uma conversa comum.

Jason apertou o olhar para o marido.

— Briguei? A noite passada foi bem confusa. — admitiu esfregando a testa, tentando recapitular as últimas horas, mas havia bebido o suficiente para se desligar de suas memórias.

De certa forma agradecia pela ressaca não ter batido como todas as manhãs após bebedeiras e conversas despretensiosas entre seus amigos.

— Sempre são. — garantiu Percy, divertido: — Mas vocês tiveram uma discussão feita! Eu não estava na hora, mas o Nico me contou tudinho. Sinceramente, aquele garoto não tem defeitos.

Jason gargalhou:

— Não confie no Nico. Ele distorce tudo de acordo com seu humor. — zombou Jason enquanto Percy sacudia sua mão, sem dar créditos à sua afirmativa.

— Mas não devia brigar com ela. — Percy apoiou o rosto em sua mão, seus olhos semi-abertos em sua calmaria matutina: — Sabe, todos entendem pelo que está passando, mas não é bom ser tão explosivo.

Jason suspirou, descendo seu olhar para o pulso exposto de Percy, seu nome escrito em letras adornadas na pele bronzeada do marido. Estendeu sua mão até a marca, o símbolo de sua alma gêmea repetido em seu próprio pulso direito com o nome de Percy nele.

Percy suavizou o olhar enquanto Jason beijava sua pele morna, tracejando seus lábios pelas letras belas e finas. Percy inspirou profundamente, controlando sua respiração pesada, seus olhos mais escuros do que antes.

— Como eu disse, você sempre me distrai, Jason Grace. — resmungou Percy se inclinando em direção à Jason, beijando seus lábios adocicados.

Jason sorriu no beijo, o sorriso faceiro tirando uma risada de Percy que sentou em seu colo, tomando o controle do beijo; uma tempestade em oceano aberto. Percy desceu suas mãos de seu pescoço até seu abdômen, adentrando com suas mãos quentes na pele em chamas de Jason.

Arfou contra a boca de Percy em deleite pelos toques, pelo ardor formigante em seu corpo.

Percy se afastou, ofegante, o sorriso lascivo e ignóbil.

— Você sabe que eu te amo, não sabe? — comentou contra seus lábios molestados, enviando arrepios pelo corpo de Jason.

— E eu você. — devolveu Jason, subindo suas mãos pelas coxas fartas do marido vagarosamente, provocante.

Percy suspirou.

— Eu sei, você sempre para em frente às nossas fotos de casamento antes de entrar na cozinha. — Percy provocou em beijos pontuais em sua pele no pescoço, enfatizando.

— Amo aquelas fotos.

Ah, eu adoro elas. — garantiu Jackson, jogando a cabeça para trás ao sentir o toque de Jason em sua lombar, arrepiando-o deliciosamente: — Mas não gosto quando as observa por muito tempo, sempre sorri triste. Odeio isso.

Jason o encarou com breve confusão antes de Percy o distrair outra vez com suas mãos e beijos. O morno de seus toques tornando-se vorazes. Por algum motivo Jason não sabia mais como respirar. Sentia-se sufocado, o peito comprimido em agonia e pesar.

— Percy…?

Teve seu rosto envolto pelas mãos ásperas do Jackson, sorvendo de suas palavras vazias, sugando-o até o fim de seus pensamentos; deixando-o vazio, oco. Um peso naquela banqueta fria.

Percy continuou com suas investidas, roubando cada partícula de oxigênio de seu corpo.

— Todas as manhãs você acorda sozinho na cama e reclama por eu não estar nela. — Percy continuou, seu tom rouco e grave, perfurando o peito de Jason como agulhas finas e mortais: — E ao me encontrar na cozinha você paralisa no batente, me encarando sem realmente me ver.

Jason queria afastá-lo.

Aquilo doía, como uma ferida sendo exposta e rasgada; suas mãos adentrando na carne quente e pungente. Não havia mais ar em seus pulmões, só água e dor.

— Você tem brigado com nossos amigos todos os dias, mesmo quando eles tentam te ajudar, quando não consegue mais separar a verdade da mentira. — Percy o beijou nos lábios outra vez, impiedoso.

Espasmos elétricos percorreram seu corpo, como se Percy os criasse em sua própria pele naquela tempestade com raios e luzes e perigo. O som do mar aumentou, o vento entrando pela sala derrubou as canecas na bancada, derramando o chá escuro e opaco.

Jason queria chorar, mas não conseguia.

Pelos Deuses, pare!

— Eu te amo tanto, Jason, tanto que não suporto essa situação. Não suporto ter que consertá-lo todas as noites enquanto você se destrói durante o dia. — havia tristeza e amargura no tom de Percy, as lágrimas descendo por seu rosto, maculando a pele bronzeada.

Havia tanta dor em seus olhos verdes, tanta aflição debulhada em água e sal e angústia.

— Eu amei você, Jason Grace. Quando isso será o bastante para você? — sua voz o rasgou ao meio, invadindo seus sentidos no ciclone ao redor deles, na casa se desfazendo sob seus pés.

Jason chorava copiosamente, a angústia daquela verdade velada de todas as noites pelos últimos meses, talvez anos. Percy tremia em seu colo, seu rosto desfigurado na aflição de vê-lo destruir-se a cada dia que passava.

— Eu sempre vou estar aqui, sempre vou fazer com que entenda que eu te amei, que te amo. Irei preparar todo tipo de chá que quiser, no conforto desse sonho que a gente compartilha todas as noites. Mas não viva aqui. Você não pode viver aqui, Jason. — implorou Percy, o subir e descer de seu peito comprimido.

Jason negou ávido, desesperado. Percy o segurou pelo rosto.

— Somos almas gêmeas, fomos feitos em par e estarei sempre com você, mas não lá. Eu não pertenço àquele lado, não posso continuar cuidando e zelando por você. Preciso que faça o que eu não posso, que ande para frente, não em minha direção. Nunca na minha! — sua voz ecoou no interior de Jason, um sopro desesperado.

Jason conseguiu tocá-lo no rosto, assustando Percy.

— Não me peça isso… Por favor.

Percy negou com a cabeça, desolado.

— O mundo não acabou Jason, ele ainda gira e torna noites em dia. — Percy inclinou seu rosto em direção a palma de Jason, fria como a morte: — Ele ainda gira mesmo sem que eu esteja nele.

— Pare…

— Vá… E enquanto não souber como viver de novo não volte mais, por favor.

Jason queria ter implorado, gritado seu nome, mas a água do mar invadiu seus pulmões ao despencar no oceano sob a casa. Percy se soltou dele, desaparecendo no redemoinho de água opaca e pesada. Esticou sua mão na direção do marido, mas o viu desaparecer para longe, para o fundo gélido do mar impiedoso que rouba e saqueia.

A correnteza o jogou para baixo e para cima, colidindo em escombros e rochas, implorando para que aquilo acabasse.

Sem ar, sem calor, afundou na tempestade de raios e vento; levado pela crueldade de deuses gananciosos e egoístas.


❀ ❀ ❀ ❀

Jason despertou de seu sono, deitado em sua cama na casa de praia. Ainda estava escuro, a água da chuva invadia seu quarto pela janela aberta, molhando o chão de madeira e as roupas espalhadas por ele.

Ofegou sôfrego, o ar gélido entrando em seus pulmões dilacerados ao meio, afogados naquele mar soturno e cruel. Se virou para o lado da cama, no lado sempre frio e vazio, ocupado apenas com garrafas vazias de vodka e whisky, tão ocas quanto seu peito naquela noite tempestuosa.

Escondeu seu rosto no travesseiro dele, seu cheiro há muito inexistente naquela cama; só o vazio de uma memória ruim, uma casa que não mais lhe pertencia por completo.

As lágrimas ainda desciam sem controle, frias e sem vida em seu rosto endurecido por meses. Poderia dizer que estava melhor, mas se lembrava da noite anterior, de Piper pedido para que procurasse ajuda, que deixasse a casa de praia.

Recordou-se de empurrá-la para longe, gritar com ela, sobre como ela não fazia ideia. Ninguém ali fazia, nenhum de seus amigos que corriam até sua casa acreditando que Jason iria ruir compreendiam.

A crença tola de pessoas que pensam que há alguma parte de Jason intacta o suficiente para se partir.

Seu corpo era uma casca de ecos, ruídos do passado amargo e desprezível, pútrido do restante de sua alma desgraçada e pungente. Ergueu-se da cama, recordando das palavras de Percy, do pedido egoísta para que deixasse de sonhar com ele, de clamar por sua alma quando esta deveria descansar.

Andou a passos pesados para o corredor, para o mural de fotos de casamento nas molduras tortas e empoeiradas. Num movimento brutal, jogou cada um deles ao chão, vociferando sua dor em vogais largas, misturadas aos trovões do lado de fora da casa.

Os cacos de vidro se espalharam pelo piso de madeira, perfurando sua pele ao passar por eles, destruindo cada pedaço daquilo que lhe foi tomado; cada pequeno sopro de felicidade que um dia foi seu e nada mais.

As canecas na bancada abandonadas há tanto tempo se encontraram com as paredes e móveis, as cortinas azuis arrancadas dos trilhos, rasgando-se como papel em seus dedos.

Não aguentava mais, não respirava mais. Precisava ir embora, precisava sair de dentro de si mesmo, da tempestade que habitava seu peito, zombando de sua perda, de sua frieza amarga.

Abriu a porta para a sacada, encharcando-se na água gelada e raivosa da chuva, nos respingos do mar em seu rosto, das memórias traumáticas de seu último verão desgraçado.

Caiu de joelhos ao chão do deck, seu peito implorando por ar ao invés de água; sua mente se partindo entre a realidade e o real.

O cheiro do chá de hibisco;

A maresia do mar em fúria;

Os toques cálidos de mãos calejadas;

O ardor das gotas de chuva em sua pele machucada;

Seus beijos sufocantes...

Respire!

Jason despertou do torpor em sua mente, como se conseguisse perceber onde estava pela primeira vez em meses.

Arfou pesado, o cansaço de seus músculos ganhando força; a dor de cabeça de sua ressaca martelando impiedosa; o formigar na sola de seus pés agredidas pelos cacos de vidros incomodando-o.

Ergueu o rosto para o céu, para a exibição de luzes e trovões, a raiva de deuses decepcionados com sua derrota hasteada.

Deitou as costas no deck, sentindo ar fresco entrar em seus pulmões enquanto vertia lágrimas quentes — pela primeira vez em meses — por seus olhos inchados e dolorosos.

Ele não estava mais ali e nunca mais estaria, e Jason sempre temeu o dia em que perceberia este fato.

Perseu Jackson havia morrido no verão passado, e por meses Jason se considerava igualmente afogado.

Esticou a mão para o céu, num silêncio reverencial, imaginando o que seria dele dali por diante, se o mar o clamaria como havia o feito com Percy. Seu pulso direito queimava onde o nome dele havia desbotado, o último resquício de sua presença sumindo diante de seus olhos, tornando a palavra em uma cicatriz branca e esquecida.

Eu amei você, Jason Grace. Quando isso será o bastante para você?

Um sorriso triste irrompeu seu rosto, lastimado naquela frase egoísta e dolorosa.

Ande para frente, não em minha direção. Nunca na minha!

Escondeu seu rosto na dobra de seu braço, se permitindo aceitar aquelas frases de dor de seu marido, tão ferido quanto Jason na posição injusta que o colocou.

Me diga como… — suplicou em agonia, sem saber como sair daquela aflição a qual se submeteu.

A chuva enfraqueceu. Os raios de sol irromperam por entre as nuvens escuras agora distantes na brisa fresca ao final da tempestade. Jason observou o nascer do sol, a vista pacífica que Percy tanto admirava do deck, sentado numa devoção abismal do que era aquele mundo tão vasto e tão inexplorado.

O aroma doce de hibisco invadiu seus sentidos, forçando-o a erguer seu rosto em direção à cozinha. Ambas canecas estavam intactas no balcão, o vapor saindo delas com o doce das folhas levando Jason às lágrimas suaves e gentis; invadindo seu peito com saudade e não destruição e ruína.

Caminhou até elas, erguendo a sua até seus lábios, no gosto doce e nostálgico, do sentimento de calmaria e devoção. As lágrimas pingaram no escuro do chá, tornando-o ligeiramente amargo.

— O que acha de ver o nascer do sol comigo? — questionou em baixo tom, a voz rouca e quase inaudível na sala silenciosa.

Se sentou no deck molhado, tomando do chá quente e doce enquanto observava o céu tornar-se calmo e abrasivo, seu peito recebendo o calor e se enchendo com ele.

A caneca azul de Percy ficou apoiada na amurada de madeira, solitária em sua admiração solene e cândida. Jason observou o vapor se dissipar no ar gélido, como tudo de cálido sobre seu marido sendo carregado pelo vento.

Sorriu entristecido, na saudade que o destruiu até aquele dia, sob o sol de um novo dia.

Um novo amanhecer após uma noite sem estrelas.



Notas finais
E foi isso! ruehurhrheur foi amargurante os suficiente, deb?

Ai, pra quem não entendeu o plot: Jason e Percy são Almas gêmeas, mas Percy acaba morrendo e Jason chama sua alma todas as noites, como se ele nunca tivesse desaparecido, mas isso só o quebra por dentro e Percy decide dar um basta nas visitas.

Bom, um angstzinho básico, né? rueruerhue

Obrigada por lerem!

Até meu próximo Jercy!

Beijinhos~
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!