Fazia um ano que uma tragédia aconteceu em minha vida. Lembro que começou a chover muito, eu e minha mulher estávamos na casa de um amigo, era uma festa com muita bebida. Eu “enchi a cara”. Estava na hora de voltar pra casa e Natane, minha esposa, alegou que eu estava bêbado e ela quem iria dirigir. Eu não me conformei com isso e nós brigamos, mas ela acabou; contra sua vontade, me deixando dirigir. O resto dessa tragédia já devem imaginar. Uma batida violenta contra uma caminhonete. Eu sobrevivi. Natane ainda estava viva quando acordei, havia muito sangue; o qual se misturava a água da chuva. Ela olhou para mim com desapontamento e então seu olhar ficou fixo, me encarando com aquela expressão mesmo depois de morta.

Todos os dias eu me culpo por sua morte. Mesmo estando bêbado me lembro de cada detalhe. Ultimamente, meus sonhos estão convencendo-me a cometer suicídio. Toda noite eu vejo uma mulher, bonita, ruiva e de olhos verdes. Ela sempre diz que eu sou culpado, que devia me matar. Me faz ver aquela cena repetidas vezes, aquele olhar de Natane que me perturba não importa onde eu esteja.

Resolvi fazer o que a mulher ruiva me aconselhou em meus sonhos. Fui até o terraço do prédio onde trabalho, me posicionei a um passo da queda, fechei os olhos, abri os braços e me joguei. Mas algo me segurou. Olhei para trás, era o novo colega de trabalho, chegou hoje. Não sabia se agradecia por ter salvo minha vida ou se o xingava por ter me interrompido.

— Olá, meu nome é Gabriel. Vejo que precisa de ajuda! – Disse com um sorriso no rosto enquanto me puxava amigavelmente para longe da beira do prédio – Como se chama?

— … Maike. – Após pronunciar meu nome; fiquei em silêncio.

— Quer contar para mim o porquê de tentar cometer tal erro?

Fiquei relutante a principio, mas as poucos fui me abrindo com Gabriel, falei até dos sonhos perturbadores. O via todos os dias, ele se tornou um bom amigo que me dizia coisas as quais não deixavam minha vontade de viver sumir completamente. Um certo dia, ele me fitou sorrindo e disse em um tom calmo:

— Existem coisas que são erradas e coisas que são certas. Atos errôneos geralmente são muito mais fáceis de se cometer, mas vivemos numa sociedade que nos exige perfeição. A culpa é autodestrutiva, ela não ajuda em nada, apenas tem objetivo de causar sofrimento desnecessário. É uma doença, e deve ser tratada, porém você insisti em fugir acabando com a própria vida! Natane não iria querer isso, afinal, como poderia prever que esta tragédia aconteceria?

— Eu estava consciente do perigo, a mulher dos sonhos está certa, foi um erro idiota, e a minha vida já está acabada mesmo.

— Maike... escute o que eu digo, porque... essa mulher é um demônio, e eu; seu anjo da guarda.