Certas coisas
3 Ato III
Desta vez, foi o garoto quem deu um soco no metidinho de nariz empinado. O rival cobriu o rosto com as mãos, proferiu blasfêmias e se afastou, deixando algumas gotas de sangue no caminho. Ainda estremecendo, o treinador jogou a mochila sobre os ombros e seguiu seu caminho pela trilha da floresta. Que cara imbecil! Como se atrevia a falar mal de sua amiga? Só porque a derrotara no ginásio, isso não lhe dava o direito de humilhá-la!
Mas não era só isso que o incomodava. O rival fizera outro comentário, um muito mais nojento. Dissera que a ruiva até era bem bonita. Proferiu palavras indizíveis. No segundo seguinte, seu nariz estava quebrado. Talvez, assim, ele deixasse de ser metido.
Quando chegou à nova cidade, o garoto logo procurou um hospital para seus monstrinhos. Estava triste e cansado, sem vontade de fazer nada. Passou o dia deitado na cama, ouvindo música. E se perguntando se fizera a coisa certa.
O verão o levou de volta ao ginásio. Ele abriu as portas com calma e seguiu devagar pelos corredores. Procurou pela sala de batalhas e anunciou sua presença como desafiante. Seu queixo caiu quando a ruiva entrou no cômodo. Ela vestia apenas um maiô azul-marinho com um jaleco branco por cima. Estava ainda mais linda do que se lembrava.
Ela também ficou surpresa ao vê-lo. Não, não queria enfrentá-lo! Mas ele não desistia fácil. Insistiu em batalhar. Disse que, sem a oitava insígnia, jamais se classificaria para a Liga. O discurso não a convenceu. Havia muitas outras cidades com ginásios, caramba! Ele que procurasse sua oitava insígnia em outro lugar! Mas ele jurou que só iria embora se ela o enfrentasse.
E eles lutaram.
Ambos eram muito fortes. As batalhas foram acirradas. No último round, apenas a tartaruga e o rato sobraram. Foi difícil para os monstrinhos lutarem um contra o outro, mas havia tanto em jogo. Eles não podiam simplesmente ignorar as ordens de seus mestres.
Após vários minutos intensos, ele venceu. A garota passou a mão pelos cabelos, suspirando. Caminhou até o desafiante pela borda da piscina e lhe estendeu a insígnia. Mas ele a puxou pelo braço e lhe deu um beijo longo e apaixonado que apenas o desespero poderia provocar. Ela se afastou com o rosto em chamas, exclamando o nome dele.
O garoto tentou puxá-la de novo, mas ela resistiu, e tanto lutaram os velhos amigos que caíram na piscina, gritando. O bandeirinha correu com uma barra de ferro nas mãos, pronto para dar uma porrada no tarado que ousou atacar minha líder! Mas a garota estava rindo e disse que estava tudo bem. Ela jogou os braços ao redor do pescoço do treinador e lhe deu um beijo.
Os dois ficaram abraçados durante um longo tempo. Constrangido, o bandeirinha retirou-se do cômodo, fechando a porta ao sair. Os amantes não perceberam. Estavam concentrados demais um no outro. Quando finalmente saíram da água, estavam sem fôlego, mas felizes.
Sentaram-se na arquibancada e conversaram longamente. Ela ainda não podia deixar o ginásio. Ele assentiu. Apesar de não gostar nada daquilo, compreendia. Prometeu não insistir mais em seus pedidos. Ela pediu para ele ficar, mas isso significaria perder a Liga. Não. Ele queria seguir seus sonhos. Quem sabe encontrar o pai que há muito o abandonara. Ela assentiu. Apesar de não aprovar aqueles desejos, compreendia. Prometeu não insistir em seu pedido.
Eles estavam no fim da linha agora. Trocaram um último olhar cúmplice. E disseram adeus.
Obter a décima sexta colocação em sua primeira tentativa não era nada mal. Sentado em sua escrivaninha, ele admirava a insígnia conquistada na Liga. Não trouxera o troféu para casa, infelizmente, mais adquirira uma experiência valiosa e conhecera muitos treinadores interessantes. Depois de conversar com sua mãe e permitir que ela o mimasse mais um pouco, seguiu viagem na companhia de seu fiel monstrinho.
Ficou decepcionado quando chegou ao ginásio e não encontrou sua amiga. O bandeirinha, o mesmo do último encontro, disse-lhe que havia uma nova líder no local, uma prima distante que batalhava tão bem quanto as três irmãs sensacionais dançavam. Não sabia informar onde estaria a ruiva. Surpreso, o treinador agradeceu e se retirou.
Agora ele caminhava sem rumo pelas ruas da cidade. Não fazia ideia de onde procurar. Quando a noite caiu, entrou em um restaurante qualquer e pediu um lanche. Mordiscou duas batatinhas e entregou o prato ao ratinho amarelo, que devorou tudo com gosto. Estava a ponto de deixar o local quando ouviu uma voz familiar.
Com o coração batendo forte no peito, correu até a seção de karaokê. A mulher terminou de cantar, agradeceu os aplausos e se virou para ele, surpresa. Uma professora sempre reconhece seus ex-alunos, e ela se lembrava muito bem daquele menino tímido que vivia grudado na menina ruiva.
O treinador não fez rodeios. Perguntou o que a professora fazia ali. Ela respondeu que estava de férias e decidira visitar o aquário da cidade azul. Encontrara sua ex-aluna, mas ela estava de saída. As duas trocaram pouquíssimas palavras. O garoto quase engasgou diante dessa informação. Para onde ela foi?!
Bem... Havia um lugar...
Certas coisas são tão curiosas! Foi só ele sair de casa para visitar sua amiga de infância, que ela decidiu sair do ginásio para visitá-lo! Os dois se desencontraram por um mero acaso do destino. Agora ele caminhava pela antiga floresta assombrada, que, no final das contas, não era tão assombrada assim. Era uma floresta normal e tranquila, mas que ficava infestada de monstros abóbora quando chegava o outono. No verão, ela se enchia de flores.
Ele não precisou de muito tempo para encontrá-la. Foi muito simples localizar seus cabelos ruivos em meio ao verde vivo. Aproximou-se de mansinho e chamou seu nome. Ela se virou, arregalando os olhos. Estava vestindo a jaqueta azul apesar de o dia estar bastante quente. Eles se encararam.
Nós somos medo e desejo, somos
Ela foi a primeira a se mover. Parou diante dele, enamorando seus olhos castanhos. Ele se moveu em seguida, erguendo uma das mãos para tocar seu rosto. Os dois sorriram. Não precisavam de palavras. Nunca precisaram.
feitos de silêncio e som.
O beijo era ainda melhor do que eles se lembravam. A saudade, o medo, o desejo, tudo dentro deles parecia fervilhar. Depois de tanto tempo, sentiam que finalmente poderiam ficar juntos. Quem sabe até para sempre. Ele, um treinador ambicioso e empenhado. Ela, uma coordenadora elegante e dedicada. Não demorou muito para que fizessem sucesso por aí, um casal que encanta a todos com seu amor pelos monstrinhos, com seu amor um pelo outro.
Passaram-se dois anos. Logo chegou o segundo Natal que passavam juntos, como namorados. Bom, pelo menos por enquanto. Sentado no sofá, ele sorria para a jovem que cantava a toda voz para as irmãs e a sogrinha. Nenhuma delas sabia, mas, dentro no bolso do casaco, ele segurava uma pequena caixinha de veludo.
Durante dias, ele se perguntara o que iria dizer à mulher que tanto amava, mas agora sentia que só precisava se ajoelhar diante dela, dizer seu nome e mostrar o anel. E sentia que ela não precisava dizer sim. Seu sorriso deslumbrante seria mais do que suficiente. Palavras não era necessárias para eles. Nunca foram.
Tem certas coisas que eu não sei dizer...
Fale com o autor