Certas coisas
1 Ato I
O menino ergueu seus olhos tímidos, buscando os cabelos ruivos que tanto adorava. Eles estavam logo ali, balançando livres enquanto a menina fazia alongamentos antes de entrar na água. O professor soou o apito, e ela se posicionou na borda da piscina. Mais um som estridente, e ela mergulhou.
Não existiria som
se não houvesse o silêncio.
Ele cerrou os punhos com força, contendo seus tremores. Era noite de Halloween, e sua turma fazia uma excursão pela floresta assombrada. Um monstro abóbora saltou de um arbusto, assustando um grupo de colegas e uma professora distraída. Ele esteve a ponto de gritar, mas uma mão gentil segurou a sua. Quando o menino virou o rosto, encontrou os olhos verdes de sua melhor amiga. E, de repente, não havia mais medo.
Não haveria luz
se não fosse a escuridão.
Que soco maravilhoso! Aquele metidinho de nariz empinado saiu correndo, gritando para todos que quisessem ouvir que a menina era mesmo braba. Ela pôs as mãos na cintura, soberba. Sua nova mascote, uma tartaruguinha azul, imitou-a, cheia de graça. A alguns metros de distância, caído no chão, o menino observava tudo boquiaberto.
Seu rival abordara-o sem qualquer aviso prévio, importunando-o com assuntos que não lhe interessavam. Sua amiga surgiu quase tão de repente quanto ele e desferiu-lhe um lindo soco no nariz empinado. Normalmente, ela era anjo. Mas, quando mexiam com seu melhor amigo... Ah! Ela ficava danada!
A vida é mesmo assim,
dia e noite, não e sim.
Ela sempre cantava nas vésperas de Natal. Ele gostava de escutar. Não perdia uma só música. Sentado entre as irmãs mais velhas dela, ficava quietinho, imóvel, absorvendo aquelas letras cheias de amor e esperança. Naquela noite, porém, havia algo diferente. O coração dele começou a bater forte. Não havia mais saída. Ele estava apaixonado.
Cada voz que canta o amor
não diz tudo o que quer dizer.
Era a primeira vez que ele a via chorando. Que coisa mais horrível de se ver! O rosto que tanto adorava estava escondido nas mãos delicadas. Os ombros eram sacudidos pelos soluços. O garoto aproximou-se e tocou os cabelos ruivos da amiga. Ele, de pé. Ela, sentada na poltrona da sala que eles tantas vezes compartilharam quando jogavam videogame juntos.
Havia tantas coisas que queria dizer. Mas os pais dela haviam ido embora. Para sempre. E o pai dele sumira há muito mais tempo. Não precisava dizer nada, no fim das contas. Eles se entendiam no silêncio.
Tudo o que cala
fala mais alto ao coração.
Ele fitava a fogueira, nervoso. Ao seu lado, o ratinho amarelo, seu mais novo amigo, devorava uma frutinha azul. O garoto estava longe de casa há quase uma semana e sentia muita falta de sua mãe. Mas sentia mais falta ainda da ruiva. O que ela estaria fazendo a essa hora? Como estariam ela e sua fiel tartaruguinha, que, afinal, já não era mais tão filhote assim? Ele se decidiu. Ligaria para ela assim que chegasse à próxima cidade.
Acordou cedo no dia seguinte, colocou a mochila nas costas e assobiou para o ratinho amarelo. Juntos, eles atravessaram a floresta, enfrentando diversos monstros. Ser treinador não era nada fácil! Mas ele estava determinado a seguir os passos do pai. Aquele sempre fora seu sonho. Certo? No entanto, sentia-se tão vazio sem sua amiga de infância.
A cada passo, uma lembrança diferente o invadia, e ele ria com momentos que ficaram no passado. Depois de horas, chegou a seu destino, e qual não foi sua surpresa quando, apenas três segundos após entrar no hospital, foi recebido por um abraço forte e cheiroso. A garota afastou-se, sorrindo, e em um só fôlego soltou as palavras. Ela fugira do ginásio. Fugira das irmãs detestáveis. Iria acompanhá-lo. Para sempre.
O garoto entrou em choque. Porque a promessa foi selada com um beijo. Era para ser um selinho rápido, mas foi o suficiente para quebrar sua sanidade. Agora até as bochechas de sua amiga estavam ruivas. Ela passou as mãos pelos cabelos, sempre sorrindo, e dirigiu-se ao roedor, para disfarçar.
Eles não falaram do beijo pelo resto daquele dia. Nem no dia seguinte. Nem no dia depois. Viajavam juntos, almoçavam juntos e, por vezes, dormiam juntos, costas contra costas. O rato e a tartaruga brincavam um com o outro, disparando faíscas e bolhas por todos os lados. Era divertido vê-los juntos, mas também perigoso. Bastava um olhar do garoto, um suspiro da garota... E pronto! Lá estavam os dois de mãos dadas sem querer! Disfarça! Disfarça!
Mas logo depois, seus olhares se encontravam. Cúmplices. Eram apenas dois adolescentes, mas isso não importava. Eles simplesmente se amavam. Nas noites mais conturbadas, ele ficava acordado enquanto ela dormia. Observava-a sem emitir qualquer som. Perdia-se em seu rosto calmo. Como ele podia gostar tanto assim de alguém? Como?
Silenciosamente eu te falo com paixão.
O sonho acabou em uma tarde tranquila de outono. Eles estavam sentados no refeitório do hospital, tomando o café da manhã. Ela fez uma piadinha implicante, e ele beliscou sua perna por baixo da mesa. Isso a deixou furiosa! Logo os dois estavam correndo pelo cômodo quase vazio, incomodando as outras pessoas. Ele disparou para o hall de entrada. Ela foi atrás. Ele se virou, rindo. Ela estancou em seu lugar, assustada.
Mas o que era agora? Com o cenho franzido, ele olhou na mesma direção que ela e quase deu um salto mortal para trás. Parada em frente a porta, a jovem loira fitava a irmã caçula com um olhar severo. Não adiantava discutir, mas a ruiva era teimosa. Elas gritaram blasfêmias uma para a outra. Choraram. Chamaram a atenção da enfermeira, que veio apartar a briga com várias broncas em seus lábios. Por favor! Aquilo era um hospital! Havia monstrinhos doentes ali!
Depois de algumas horas perturbadoras, a garota foi até o quarto em que estava hospedada e, entre soluços, começou a arrumar sua mala. O garoto aproximou-se e tocou seu braço, mas ela se desvencilhou e foi até o armário pegar as poucas roupas que trazia consigo. Guardou-as junto com os outros pertences.
Estava prestes a colocar a mala no chão quando ele a abraçou por trás, encostando seu rosto no dela. Isso foi o suficiente para fazê-la estremecer sem controle, imersa na desolação. Ela queria ficar. Queria muito ficar. Mas precisava ir.
E ela se foi.
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