— Nope. – Esquerda. – Esse também não. – Esquerda. – Esse até que é interessante... – O movimento dessa vez foi para a direita. Aceitável.

Suspirei, com o celular entre meus dedos. O fim de semana havia sido uma tremenda de uma merda. Após terminar um relacionamento conturbado de oito meses e me envolver neste período com um piá o qual, de certa forma, ajudou no processo de superação, não tinha menor intenção de entrar em qualquer aplicativo de relacionamento como usualmente fazia após ter o coração partido. Mas um remember com teu ex-namorado o qual começou bem, desenvolveu-se louco e terminou com “estamos todos sozinhos, lide com isso” quando você não conseguia parar de chorar por um dia inteiro e apenas queria um abraço, te obriga a querer dar a volta por cima, se lançando em busca de alguma boca com mãos e pernas a qual preencha o lado esquerdo da cama, nem que seja por uma noite.

Certa vez apresentei uma música para meu amigo:

— Se liga, Lucas. Você tem que aprender como não cair mais em cilada. — Mostrei a ele uma música Pop que dizia cinco regras para ser um heartbreaker com alguns passos básicos. – Ouve essa aqui também. Se seguir essas duas você tá feito, bicho. – Essa outra dizia como você não deveria atender a ligação do seu ex-namorado. Eu deveria ter seguido as regras antes.

Ele riu, mas como um péssimo apreciador da música Pop, ignorou. Eu já tinha sido assim por muito tempo, mas neste ano me permiti abrir os horizontes para novos ares musicais. E não é como se você fosse realmente seguir as regras daquelas músicas, mas havia algo ali que me inspirava. Talvez eu conseguisse ser uma filha da puta que não se importava com ninguém, apenas pegar sem se apegar e adeus. Depois de um tempo ri desse pensamento. Não creio que eu conseguiria, pois não é da minha natureza. Eu era uma romântica, e não tinha outra escolha senão aceitar esse fatídico destino...

Tomei o celular em minhas mãos e decidi atualizar meu perfil. Abaixo das fotos, constava meu nome e 22 anos. Encarei a tela com os olhos semicerrados pela exposição da iluminação, decidindo as palavras que iriam me definir da maneira mais profunda possível: “Gosto de memes e tenho um gato que tem só uma orelha (ganha um litrão quem acertar o nome)”.

Pode não soar, caro leitor, como algo de muita importância. Mas veja aí a sacada: o pretendente ao falar comigo estaria revelando sua inteligência, senso de humor e alcoolismo, qualidades que julgo ser importantes mais do que qualquer aparência – exceto por esse último, o qual não é de fato muito aconselhável.

Sorri, satisfeita. O celular vibrou, revelando notificações de match e até algumas conversas. Alguns acertavam o nome do meu gato, outros não faziam ideia mas gostariam de tomar um litrão. Tinha até mesmo um crush de ônibus. Respondi as mensagens sem muita atenção, nenhum realmente cativante. Continuei a deslizar os dedos pelo botão do aplicativo, alternando entre os sins e os nãos. Encontrei um perfil que dizia “Um grande fã de filmes, música, uns jogos aí e metido a fotógrafo. Tenho um grupo de RPG e você já está convidada. A procura de pessoas com algum distúrbio mental para formar um par muito doido”. Há tempos eu queria jogar RPG e tenho distúrbios mentais, gostei. Apertei em sim. Match. Lhe chamei para uma conversa.

Nesses aplicativos há uma regra intrínseca em que você, enquanto mulher, deve aguardar o homem vir puxar assunto. Puro machismo. Embora eu raramente iniciasse a conversa, quando havia algo ali que valia a pena — como uma partida de RPG – não tinha por que não mandar um ‘olá’ e assim o fiz:

— Rapaz, tu disse RPG? – Me empolguei com a perspectiva de jogar uma partida.

— RPG do bom, minha parceira. – Digitando... – Mentira, somos todos newbies mas vamos nos virando como podemos. Hahahaha. Você já jogou muito?

— Não realmente, joguei muito pouco. Mas sempre quis voltar. – Era verdade. Nunca encontrei uma galera que estivesse disposta a jogar. Uma vez, com meu amigo da música e meu ex-namorado citado ainda há pouco, combinamos de tentar aprender um RPG de Star Wars, porém estávamos sem mestre e a ideia nunca foi para frente...

— Saquei. O nome do seu gato por acaso é Victor? – De onde ele tirou isso? – Perai, Vicent. Vicent Van Gogh? De onde tirei Victor, Jesus. – Achei fofo. E de fato ele acertou. – É o sono. Oi, meu nome é Darry.

Com a desculpa que seu celular não estava muito bom – que tempos depois se provou ser verdade – pediu meu número para lhe adicionar num aplicativo de mensagens diretas e demos boa noite. Continuei minha conversa com outros rapazes, que não se mostraram tão produtivas. A verdade é que eu andava cansada das pessoas, e o normal nunca me agradou. Decidi por fim ir dormir, já passava das duas.

No dia seguinte eu acordei estranhamente animada. Coloquei um bom e velho Rolling Stones para tocar no máximo – para a felicidade dos meus vizinhos – e comecei uma faxina. Talvez tivesse aula essa tarde, mas não estava muito empolgada de ir. A faculdade estava acabando, e isso me assustava. A perspectiva de um futuro incerto, formar, ser alguém, mudar de cidade – sim, eu teria que retornar à cidade em que cresci maior parte de minha vida e voltar morar com minha mãe. Quem disse que crescer era legal, certamente mentiu.

Por volta das dez meu celular vibrou, tinha uma mensagem do Darry:

— Bom dia! Como você tá? Não pude conversar contigo, eu estava só o caco. Mas vamos ‘si coniecer’ agora. Eu sou o Darry, tenho um gato, moro numa casa dividida com um amigo e o primo dele. Eu toco ukelele e não deixo eles dormirem a noite porque fico tocando e cantando Raul Seixas alto. – Confesso que gostei do papo. – Ah! Estou sempre assistindo animações, as séries estou dando uma pausa e eu escuto muita música, sério. E você? Me conta de você!

— Qual o nome do seu gato? Quero imagens! – Eu era completamente apaixonada por gatos. – Ah, eu também gosto muito de séries e animações. Filmes com fotografia genial me encantam, daqueles que você fica tentando descobrir o que há por trás das nuances. Quando a história nunca é uma história. Mas tenho sérios problemas, pois se eu não maratonar uma série, acabo abandonando pois sou desleixada. E eu amo música, divido a casa com um amigo também, mas que sempre traz mais amigos e a casa está sempre cheia de alegria.

Desde que fui morar sozinha, passei altos e baixos. Sempre me considerei uma pessoa solitária, sem me dar conta que a causa do meu isolamento tinha culpa um culpado: eu mesma. Me sentia sem amigos, então meus namorados sempre receberam uma enorme carga de carência afetiva: “você precisa ser meu amigo, pois não tenho mais nenhum.” Dividir o apartamento com Mariso me ajudou a conhecer novas pessoas e descobrir que não, eu não estava sozinha; eu poderia ter amigos excelentes, era só eu sair da caixinha...

Darry me enviou a foto de um gato de pelos branquinhos e focinho rosado. Era a coisa mais lindinha, quase um recém-nascido. Ainda não tinha nome, segundo ele, mas estava pensando em chamar de “San”. Eu revelei a ele que gostei. No decorrer da conversa, descobrimos muitas coisas em comum, desde música à jogos. Achei incrível como o meu acervo pessoal de games era extremamente semelhante ao seu. Até mesmo o MOBA online que descobrimos os dois jogar.

Passamos o dia conversando. A conversa fluiu de tal forma que sempre havia um assunto. Até mesmo eu, que não gostava e sequer tinha paciência para conversar com as pessoas por telefone, me vi digitando sem parar – depois descobri ser reciproco tanto a fluidez quanto a falta de paciência para o virtual. Conforme íamos nos conhecemos, descobrimos cada vez mais gostos em comum: ele fazia física e eu engenharia; ele estava cursando disciplinas de teatro e eu revelei ter um sonho de fazer filosofia. Ambos concordamos que psicologia era uma ótima opção de curso.

— Você já foi no Serene? – Perguntei à ele.

— Já sim, gosto muito de lá! Faz tempo que não vou. – Outra coisa em comum.

— Eu fui lá sexta-feira passada e cantei Shooting Star no karaokê. Realizei o sonho da minha vida! Já cantou no karaokê de lá? – Tinha sido um dia muito divertido.

— EU SEMPRE QUIS CANTAR EM KARAKÊ. – Às vezes Darry usava capslock para dar intensidade a nossa conversa, e eu achava isso legal. Comecei a aderir também. Mas apenas com ele... – POR FAVOR. Me chama. SÉRIO!

— NA MORAL? Vamos MESMO? Eu só preciso de companhia para meter o louco, porque coragem eu tenho. – Apesar de eu ter feito amizades neste último ano, as sintonias eram diferentes. Eu sentia falta de ter uma companhia para fazer coisas sórdidas como cantar uma música ruim em um ambiente público.

— VOCÊ ME RESUMIU. Eu gosto muito de tacar o louco mas meus amigos nunca aceitam. Aí eu fico acuado. – Bom, éramos dois.

Continuamos a conversar até a hora de ir dormir, com raras pausas a qual o assunto era continuado assim que retornávamos. Deixamos no ar uma proposta de nos encontrarmos para sair, apenas para meter o louco e se divertir.

O último mês na cidade estava sendo conturbado. Passava o dia escrevendo meu TCC enquanto o prazo se esgotava. Não estava com medo da apresentação. Eu tinha uma arrogância que escondia de todos no que se tratava das coisas que eu era boa, o que me permitia ter um certo controle das situações que eu dominava, e falar em público era uma delas.

O papo entre eu e Darry estava fluindo de forma absurda. Parecíamos velhos amigos. Nos falávamos diariamente, ao acordar até a hora de dormir. Estranho, pois nenhum de nós tínhamos paciência para responder mensagens, porém o papo era sempre legal. A gente sempre ria como dois bobocas por coisas mais variadas possíveis. Logo no segundo dia já estávamos nos xingando de forma carinhosa – ou talvez nem tanto. Darry então me revelou seu apreço por fotografia.

— Queria saber tirar fotinhas porque a vezes eu vejo as pessoas se achando feias, mas tem uns ângulos tão bonitinhos e únicos que dá vontade de tirar foto e esfregar na fuça: VOCÊ É LINDA SIM, OLHA ESSA NO CANTO DIREITO DA TUA TESTA, NINGUÉM TEM, SÓ VOCÊ. – Lhe revelei como achava lindo as peculiaridades de uma pessoa e tantas vezes tive vontade de fotografá-las apenas para dizer que são únicas. Infelizmente, não tinha o dom de manusear uma câmera com esmero. Pra ser honesta, observar pintas, marcas e cicatrizes de uma pessoa era meu hobbie ao estar com alguém. É como observar um universo único de um ser, com peculiaridades e padrões que não se repetem em outras peles.

— Nossa, eu já te amo demais! Foi uma das coisas que me fez querer pular de vez na área: a ideia de mostrar o mundo da maneira que eu vejo, porque as veze eu sinto muita dificuldade de me expressar e explicar que ela é maravilhosa, ai eu fico “então... er.. você é bonita.. FODA-SE, deixa eu pegar minha câmera pra eu te mostrar”. – Encarei essa conversa em particular com um sorriso no rosto. Me peguei lembrando dos meus sonhos secretos onde alguém me achava bonita o suficiente para tirar fotos aleatórias, como se dissesse "aos meus olhos, você é linda". Às vezes, eu deitava cabeça no travesseiro e me imaginava sendo amada assim.

Mudamos de assunto, com a promessa de que ele me mostraria algumas fotos de seu trabalho. Continuei meus afazeres diários, fui para a faculdade, sempre com uma mensagem do Darry me esperando. Recebi uma em particular:

— Será que algum dia a gente vai deixar de denigrir o outro de alguma maneira? Espero que esse dia nunca chegue! – Darrys brincou e meu coração sorriu. É verdade, a gente chamava um ao outro das formas mais variadas possíveis, sempre com respeito e brincadeira. Era engraçado porque com ele eu poderia ser eu mesma, inclusive a parte da minha personalidade onde eu podia desacatar a pessoa com um nível de afeto. Não do tipo de desaforo que deixa a outra pessoa chateada, mas do tipo "você é o idiota mais lindo do mundo, sabia?". Inventamos até apelido um para o outro. Eu era a Shereka porque parecia o Shrek, já que era uma ogra; ele era o Fiofó, derivado de Fiona. Invertemos os papeis e inventamos nomes ruins, mas ainda era algo só nosso.

As coisas estavam indo tão bem, que decidi perguntar ao Darry se não gostaria de meter o louco comigo. Ele concordou em nos encontrarmos e depois de rodeios para decidir o lugar, optamos pelo Serene. Seria feriado no dia seguinte, então descobrimos não estar aberto. A opções que surgiu foi nos encontrarmos em um bar underground com mesas de sinuca e litrões a preço justo.

— O que você acha se a gente se encontrar no Iceberg? – Ele propôs. Achei tão genial, pois embora eu não conseguisse pensar em nenhum lugar para irmos já que as opções aqui eram limitadas, ele sugeriu locais em que eu adorava frequentar, mas por razões adversas, há um bom tempo não ia.

— Eu amo esse lugar e não vou lá há séculos! – Estava empolgada. Se o papo fluía tão bem por mensagens, como seria pessoalmente? Marcamos então na terça-feira.

Queria encontra-lo e testar como seria aos nos vermos. Ficaríamos em silêncio, sem ter o que dizer? As vezes acontece; você se dá muito bem com alguém por mensagens, mas pessoalmente você não consegue pensar em nada de interessante para conversar.

E se ele me achasse feia? Ou... muito gorda? Esses pensamentos me surpreenderam. A verdade é que eu tinha ganhado bons kilos esse ano, justamente pelo período de depressão. Eu sempre fui gordinha, perdi peso, então engordei tudo de novo depois de 5 anos ao passar por um período conturbado. A verdade é que ao longo desses 22 anos estive trabalhando minha autoestima e aceitação, ao ponto de me achar bonita seja usando 38 ou 44. Aprendi a não deixar ninguém me diminuir, a me achar linda como era, independente de tudo. Então foi estranho voltar a me indagar se ele iria sair correndo ao me ver. Eu tinha consciência o suficiente para pensar “Ora, se o cara me acha feia ou gorda demais, problema dele. Eu me amo desse jeitinho, e querido, há quem goste!”

No inicio da semana decidi ir ao centro pagar algumas compras. Não tinha aula e estava um ótimo dia para se caminhar. Na rua, avistei uma loja de chocolates e entrei para comprar alguns bonbons. Escolhi Petit Gateau e Bolo de Chocolate, sabores engraçados para um doce redondo de cacau.

— Deu R$5,00. – Disse a moça do caixa.

— Obrigada. – Lhe dei a nota, paguei e sai.

Os chocolates não eram para mim, comprei para levar no encontro amanhã. O restante do dia transcorreu normalmente, embora quanto mais se aproximasse do dia seguinte, mais empolgada eu ficava.

Na terça-feira, fui para a aula. Estudaria o dia todo e não tinha como faltar a aula da noite pois mais um dia e eu reprovava por falta. Inventei uma desculpa qualquer para o professor, e fui liberada. Tinha pouco mais de uma hora para me arrumar e encontrar com o Darry. Estava empolgada. Não no nível de “quero ficar com ele”, mas do tipo de sentimento de que seria tão legal se fossemos tao amigos pessoalmente como eramos no virtual.

— Ow Shereka, to quase pronto. A gente se encontra lá? Me manda mensagem quando sair. – Era por volta das nove e meia quando ele me mandou mensagem.

— Oi, tô saindo. – Morava em uma região contra-mão então compensava mais eu pedir um Uber do que ele me buscar.

— Ok, procure um rapaz muito boa pinta na frente do local.

Puts, então não vai ser você!

O Uber chegou. Estava chovendo. Peguei minha sombrinha azul de bolinhas e caminhei até o carro. Finalmente íamos nos encontrar, depois de pouco mais de uma semana de conversas diárias que me tirava o tédio e me fazia rir. Já o considerava meu amigo, e por enquanto, apenas isso.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.