Cerejeira

7 7 - Verdades e Segredos




Eu não teria condições de trabalhar na minha sala durante alguns meses, e o pior de tudo foi responder as incessantes perguntas de Ino.

— Mas o que aconteceu Sakura? Será que foi mais um atentado contra você?

Eu sempre respondia as mesmas coisas: "Não sei," Espero que não," "Talvez sim" ou "Melhor esquecermos isso".

Eu confiava em minha amiga, mas ela estava grávida e eu não queria lhe causar mais preocupações.

— Como está Pakkun?

Questionei enquanto media a temperatura de um paciente.

— Recuperado. O Hokage está com ele na sala.

Senti meu coração bater mais rápido, minhas bochechas arderam e um sorriso leve formou-se em meu rosto.

— Ele está lá é?

Perguntei como quem não quer nada.

— Sim, acabou de chegar.

Tentei não parecer muito apressada, tirei pressões, aconselhei alguns pacientes e dei altas, fiz tudo o mais rápido e correto que pude, eu queria vê-lo, mas não podia tratar meus pacientes com irresponsabilidade.

Andei pelo longo corredor iluminado pelo Sol da manhã, havia o barulho do conserto de minha sala, martelos, furadeiras e vozes masculinas misturavam-se com os apitos dos aparelhos de algumas salas. Mas eu conseguia ouvir claramente a voz de Kakashi cada vez mais próxima de mim conforme eu caminhava em direção ao leito de Pakkun.

Ele estava parado do lado de fora vestido como Hokage, a casual máscara estava no rosto, um dos olhos tapados pela bandana e os cabelos rebeldes jogados levemente para o lado.

Senti meu estômago revirar-se um pouco. O que ele havia me dito na madrugada anterior havia feito um belo estrago na minha cabeça, eu podia sentir meus lábios formigando ao pensar naqueles beijos, dava pra ouvir o barulho de suas mãos apertando-me contra ele.

— Sakura.

A voz dele estava firme, séria. Acordou-me de meus devaneios.

— Hokage.

Respondi com uma pontada de ironia.

Mas Kakashi permanecia sério, senti seu chakra fora do comum.

— Podemos conversar?

Perguntou-me ele.

Balancei a cabeça concordando, imaginando o que havia acontecido.

Ambos entramos no leito de Pakkun, nosso amigo descansava serenamente, parecia confortável na longa cama reclinada.

— Conversei com ele — começou Kakashi — Ele disse que nunca havia visto um chakra tão poderoso. Disse que era o mesmo nível da Kyuubi.

— Da-Da Kyuubi?

Minha cabeça parecia girar, era quase impossível comparar o chakra de Naruto com outra pessoa.

— Sim. Pakkun sentiu o chakra desse homem e o seguiu, mas depois não lembra de mais nada, só de ser esmagado por algo grande na beira do riacho.

Meu coração apertou-se ao lembrar de quando o encontramos caído nas margens do rio.

— Temos que investigar isso! Vamos contar para o Naruto?

— Vamos, mas não agora. Por enquanto vamos deixar isso entre a gente.

— Não acha que já temos segredos demais?...

Questionei num tom provocativo alternando meu olhar entre seus olhos e seus lábios.

Kakashi endureceu a feição, pegou-me gentilmente pelo braço e saiu porta afora comigo.

Eu sabia que não deveria tê-lo provocado, estávamos num momento delicado e nosso "caso" não deveria ser o centro das atenções naquela hora.

Atravessamos o corredor com ele ainda me segurando gentilmente, seus dedos tocando delicadamente meu braço. Andamos até entrarmos de repente na sala do almoxarifado.

Sequer tive tempo de processar o que estava acontecendo, os lábios de Kakashi nos meus fizeram minha mente embaralhar e meu corpo explodir.

Seu corpo me prensou na parede enquanto ambas as mãos estavam dispostas igualmente ao meu lado, deixando-me sem escapatória. E sem ar é claro. O beijo não durou muito mais do que dois minutos, mas foi o suficiente para me deixar louca.

Afastei-o um pouco para recobrar a consciência.

— Kakashi... Estamos no hospital... E tem o Pakkun...

— Pakkun está bem, graças à você.

Senti meu rosto arder.

— Não só a mim, eu tenho toda uma equipe comigo...

— Eu sei, mas só posso agradecer dessa forma à você.

Um sorriso maroto brotou no rosto de Kakashi deixando-me sem chão.

Ele se afastou com uma piscadela, não parecia tão ofegante quanto eu.

— Te dou notícias.

Disse ele sumindo numa cortina fina de fumaça.

Saí da sala do almoxarifado e dei de cara com Ino.

— O que estava fazendo ai?

Perguntou.

— E-Eu estava... Checando se tinha mais pranchetas...

Não sabia se essa desculpa havia colado, mas era a que eu tinha em mente.

— Ah que bom! — respondeu ela com certo alívio — Já estávamos ficando sem.

— Ainda bem que eu vim então não é?

Seguimos para rumos opostos e meu coração ainda batia forte no peito, a adrenalina correndo pelas minhas veias.

Passei pela minha sala totalmente detonada, os nós de meus dedos ainda doíam e os olhos de Sasuke não saíam da minha memória.

Era fim de tarde, o céu alaranjado mostrava que o Sol estava começando a desaparecer. Estava indo para casa quando senti alguém me seguir, um chakra desconhecido e nada ameaçador, mas estava atrás de mim.

Entrei no supermercado tentando despistá-lo, mas a presença me seguiu e não havia nenhum tipo de suspeitos ao meu redor, pois olhei muito bem para cada rosto conhecido ali. Uma sensação incomum tomou conta de mim, um sentimento de impotência e vulnerabilidade, era como se eu não conseguisse me proteger contra quem quer que estivesse me perseguindo.

Escolhi alguns itens dentro do mercado tentando disfarçar, ainda assim continuava atenta à minha volta.

— Sakura?

A voz de alguém me chamando fez com que eu derrubasse minhas coisas no chão.

— Kakashi? Você está me seguindo?

Perguntei enquanto jurava poder sentir meu coração palpitando forte na garganta.

Ele me encarou com seus olhos curiosos, depois sorriu. Colocando algumas coisas de volta na prateleira.



— Eu não. Por que? Tem alguém seguindo você?

— Não! Claro que não! Por que alguém me seguiria? Que ideia boba!

Ele ficou me encarando como se acreditasse no meu tom de voz alarmante e desesperado.

— Certo... — respondeu pouco convencido — Quer uma carona pra casa?

Fingi estar pensando enquanto tentava captar o chakra estranho do perseguidor, mas ele havia desaparecido. Antes mesmo que pudesse responder ouvi meu nome ser chamado mais uma vez, por uma voz tão irritante e conhecida.

— Sakura! Kakashi Sensei!

Naruto corria pelo corredor enquanto segurava ao menos quatro pacotes grandes de macarrão instantâneo.

— Oi Naruto.

Dissemos juntos.

— O que estão fazendo hoje? Eu disse à Hinata para fazermos uma sopa em casa, querem ir?

— Hoje eu não posso Naruto — disse Kakashi passando as mãos nos cabelos — Estou um pouco ocupado.

— E você Sakura? Você não vai na minha casa há um tempão!

Senti as bochechas arderem, realmente fazia muito tempo que eu não visitava Naruto.

— Tudo bem, por que não?

Nos despedimos de Kakashi e eu o vi ficar para trás olhando-me de um jeito que me fez querer correr ali mesmo para ele.

— Sakura — o tom de voz de Naruto mudou no momento em que saímos do mercado — O que está acontecendo entre você e o Kakashi Sensei?

Aquela pergunta fez com que eu quase perdesse o equilíbrio ao descer a calçada.

— Como assim?

Perguntei fingindo não entender o que ele estava dizendo.

Naruto olhou-me com aqueles olhos firmes, azuis e intensos. Havia dobrado de tamanho e seu chakra era extremamente poderoso. Estava muito diferente desde que o conheci quando ainda estávamos na academia.

— Podemos conversar na minha casa, acho melhor. As paredes tem ouvidos.

Naruto olhou ao redor parecendo procurar alguém, por um momento tive a impressão que ele podia sentir o mesmo chakra que me perseguia.

Chegamos ambos em silêncio à casa de Naruto, percorremos todo o caminho como dois estranhos lado a lado.

Hinata me abraçou quando me viu, trocamos amenidades, mas ela parecia preocupada.

— Naruto perturbou você não foi?

Perguntou ela parecendo adivinhar.

— Não, não foi bem isso...

Tentei amenizar as coisas com um sorriso, mas não adiantou.

— Eu só queria saber a verdade, Hinata.

Disse Naruto cruzando os braços enquanto olhava-me atento.

— Não tem nenhuma verdade Naruto, você está imaginando coisas.

— Você não mente pra mim Sakura, consigo sentir o receio no seu chakra. Vamos, diga a verdade pra mim.

— O que quer que eu diga? — perguntei sentindo a coragem me invadir — Que eu estou me encontrando com o Kakashi? Quer que eu diga que eu estou apaixonada?

— Não! Não é isso o que eu quero ouvir!

Gritou Naruto severamente.

— E o que quer ouvir Naruto? Me chamou pra escutar a verdade ou o que te convém somente? Eu estou com o Kakashi, quer saber, estou apaixonada por ele! E daí? Você tem alguma objeção, droga!?

— Claro que não Sakura — falou Hinata prontamente tentando abaixar os ânimos — A vida é sua, você já é crescida e sabe o que faz.

— Não sabe não! — retrucou Naruto — Com o Kakashi? Sakura, isso é ridículo!

— Não Naruto! Ridículo é ficar por seis anos esperando alguém que nunca voltou, que nunca esteve aqui pra mim como Hinata esteve pra você! É fácil falar com tudo aos seus pés agora que é o herói não é mesmo? Todos só falam sobre você ser o salvador e quando o assunto é sobre a minha pessoa, todos pensam logo em Sasuke! Não somos grudados, não somos namorados droga! Quer que eu seja infeliz pelo resto da minha vida?

Naruto e Hinata me olhavam, ambos em silêncio naquele momento tão difícil e confuso.

— O fato é que eu estou cansada de esperar. Sasuke não é nem de longe o homem que eu gostaria pra minha vida. Eu vivo com as mãos dos cidadãos da vila sob minha responsabilidade, faço o impossível para que todos vivam em paz quando eu mesma não consigo fazer isso. Eu ainda sonho com a guerra... ainda sonho com as pessoas que perdemos... Eu mereço ser feliz Naruto, e você como meu melhor amigo deveria entender isso mais do que ninguém.

Ficamos quietos enquanto eu sentia as lágrimas começarem a se amontoar em meus olhos, eu estava farta de toda aquela loucura, da pressão sob meus ombros, de todos me lembrando que Sasuke não voltaria por mim. Farta de ver meus amigos casando, tendo filhos e criando famílias enquanto eu mesma começava a me perguntar se não haveria ninguém no mundo que me fizesse feliz também.

— Eu preciso ir.

Eu disse por fim pegando as sacolas do mercado.

— Sakura, fique mais um pouco.

Insistiu Hinata.

— Não, preciso ir Hinata, acho que já fiquei tempo o suficiente aqui.

Dei uma última olhada nos olhos severos de Naruto, seu rosto estava vermelho e seus braços cruzados sobre o peito. Mas eu não podia sair daquela forma.

— Naruto, se você contar pra alguém sobre Kakashi e eu... Eu acabo com você, não me interessa se você tem Kyuubi ou não, mas você não vai perder só o seu chakra, mas a mim também.

Bati a porta atrás de mim sentindo o peso de minhas próprias palavras, eu nem imaginava que diante disso algo muito maior estava para acontecer.