A primavera havia chegou e as flores abriam lentamente, colorindo o horizonte.

De um lado havia um arco-íris de cores das copas das árvores ao longe, do outro a tonalidade bege e marrom tomava conta dos destroços causados pela guerra.

Há seis anos atrás toda a vila havia sido destruída e agora custava a se reerguer. Perderam-se famílias, animais, plantações, construções, casas e escolas, tudo tornou-se somente um amontoado de pedras e concreto e muita, muita areia.

Mais adiante, logo depois das construções que se erguiam, havia um longo terreno com enfileirados túmulos das vítimas da guerra. Incontáveis números de pedras se estendiam pelo vale, obrigados a serem enterrados longe de suas famílias pelo acúmulo de corpos no cemitério central.

Pensar naquilo fez meu coração tremer, as lembranças da guerra ainda me causavam pesadelos.

Passei as mãos sobre os braços na tentativa de espantar os fantasmas do passado, eu deveria deixar tudo aquilo para trás e seguir adiante. Mas como?

— Sakura!

A voz de Ino tornara-se inconfundível.

Depois da Guerra nós duas nos aproximamos, deixamos aquela rivalidade dos tempos de criança e ela se tornou minha colega de trabalho.

— Oi Ino! Entre — falei enquanto ia abraçá-la — Como você está?

— Estou bem — respondeu ela — Tenho uma coisa pra te contar.

Tentei pensar em todas os possíveis assuntos dos quais Ino gostaria de tratar comigo, mas nenhum deles pareceu tão importante.

— Estou grávida!

Aquilo atingiu-me como um soco. No bom sentido é claro. Eu estava muito feliz por minha amiga.

— Parabéns! — nos abraçamos e trocamos algumas lágrimas — Como o Sai está?

— Ele está encantadíssimo! Estamos muito felizes com tudo isso!

Não era segredo pra ninguém que Sai e Ino haviam se tornado um casal logo após a guerra. Todos sabiam que não éramos mais crianças.

Naquela hora combinamos de nos encontrarmos na casa de Ino mais tarde.

Sinceramente eu não queria ir, iria encontrar outros casais e eu não me sentia bem de vela no meio deles. Doía ver todos felizes enquanto eu vivia uma ilusão com Sasuke... Fazia seis anos desde que a Guerra havia acabado e ele prometido que voltaria, mas sequer deu um sinal de vida, alguns pensam até que está morto.

A noite chegou e com ela o calor da primavera.

Me vesti o máximo que consegui, estava cansada por conta do longo plantão e não tinha vontade nenhuma de sair de casa, mas por consideração à Ino eu me esforcei.

Coloquei um vestido azul claro floral que combinava muito com a estação, sandálias baixas e pouca maquiagem.

No caminho encontrei uma doceria aberta e decidi levar uma sobremesa para depois do jantar, ainda estava cedo mas eu sabia que quanto mais cedo eu chegasse, mais cedo iria embora.

Cheguei e Ino estava me esperando, nos abraçamos mais uma vez e repeti o gesto com Sai que mal conseguia conter a felicidade que estava estampado em seu rosto apático, exatamente do jeito que eu me lembrava. Fazia tempo que eu não o via.

— Gaara também vem.

Disse Ino.

Senti uma pontada de insinuação.

— Ah é? Que bom.

Respondi sem maiores interesses.

— Você sabe... Ele gostava de você no colégio.

Olhei-a fixamente naqueles olhos claros, respirei fundo e com firmeza retruquei.

— Não começa com isso Ino! Você tentou me empurrar o Chouji! Não estou procurando nenhum pretendente! Estou bem sozinha!

Aquilo não era totalmente verdade.

Eu tinha independência, o que era bom, morava sozinha e era responsável pelo pronto-socorro de Konoha, minha vida era lá dentro das salas dos enfermos. Estudando plantas medicinais, jutsus para melhorar minhas habilidades como médica. Mas as vezes sentia-me só, principalmente nas noites mais frias. Ainda não havia tido nenhuma noite com um homem, não daquela maneira. Eu estava esperando por alguém, não por Sasuke exatamente, mas alguém que fosse me abalar tanto quanto ele o fazia, mas nunca havia encontrado ninguém.

— Precisa sair dessa maré! — tentou Ino mais uma vez — Não custa dar uma chance!

— Não quero Ino, e esse assunto encerra aqui!

Salva pelo gongo ouvi a campainha tocar.

Naruto e Hinata estavam parados na porta, ambos me abraçaram com muito carinho.

Olhei para Naruto mais uma vez, era impressionante o modo como ele havia se tornado um homem maduro e poderoso. Não sabia se era por conta da Kurama ou pelo reconhecimento do povo, por ter salvado a todos nós, mas ele já não era o mesmo garoto irritante e petulante de antes.

— Como você está?

Ele me deu um beijo na testa e me abraçou mais uma vez.

— Estou bem — disse com um sorriso bobo — E você? Está cada vez mais alto do que eu!

Ele sorriu e eu entendi que aquele tipo de comentário fazia bem para ele, quando éramos crianças Naruto sempre quis me conquistar, sempre achou que seria meu namorado, mas o rumo de nossas vidas foram bem diferentes daquilo que imaginávamos.

— Dá uma boa impressão quando eu me tornar Hokage.

Todos nós nos orgulhávamos do companheiro que tínhamos. Já não havia dúvidas em relação ao sonho de Naruto.

Logo depois de se acomodarem Shikamaru e Temari chegaram, trocamos amenidades e todos pareciam felizes por estarmos reunidos em nome de Ino e Sai.

— Será que o Kakashi-sensei e o Yamato-sensei virão?

Quis saber Sai.

— Você os convidou?

Questionou Naruto evidentemente feliz.

— Sim, mas acho que eles não vem.

— Também acho que não — falei — Kakashi depois que virou Hokage tem seus afazeres e suas responsabilidades, e Yamato o está auxiliando, também não tem tempo para isso.

Ficamos em silêncio, sentíamos falta de ambos.

Não demorou muito e campainha tocou mais uma vez.

— Deve ser o Gaara, Sakura! Vá abrir a porta.

Revirei os olhos e os pousei em Ino, minha expressão era de pura irritação. Mas não contestei, eu era a que estava mais próxima da porta e por isso fui até ela.

Ao abrir deparei-me com Kakashi olhando-me fixamente.

Meu rosto corou por algum momento e então o abracei.

— Sensei! — eu não conseguia acreditar que Kakashi estava ali, fazia quase dois anos desde que não nos víamos por conta das responsabilidades que nos foram incumbidas — Que bom que veio!

Kakashi me abraçou com força, seus braços demoraram-se em volta de mim por mais tempo do que eu imaginei, eu já não me lembrava de como ele era forte.

Yamato estava logo atrás segurando uma cesta nas mãos.

Nos abraçamos e ele me recebeu com um sorriso endurecido, mas amigável.

Foram abraços e sorrisos por todos os lados, os dois pareciam estar felizes pela notícia da gravidez, sentaram-se conosco à mesa.

— Gaara não vem.

Disse Temari olhando para a tela no celular.

— Que pena! — Ino olhou-me irônica — Por que?

— Ele precisa resolver algumas coisas na aldeia e não pode vir. Pediu desculpas e mandou felicitações pra vocês.

Suspirei aliviada, não teria que aguentar Ino jogando-me em cima do cara, ou forçando momentos a sós com ele.

— Uma pena não é Sakura?

Cutucou ela.

— Por que? Ele ia fazer companhia pra Sakura?

Hinata era sempre a mais atrasada de nós, queria explicação para tudo.

— Claro Hinata! — explicou Naruto como se tudo fosse muito óbvio — Ela não quer ficar de vela!

— Na verdade não me importo! — me entrevi sem pensar — Por mim tudo bem.

— Ah! Quem você quer enganar Sakura? Você é boba! Ainda fica esperando o Sasuke... Ele não vai voltar!

Ino havia passado dos limites.

Todos ficamos em silêncio, era evidente na expressão de Ino que ela havia entendido que aquele assunto ainda era muito delicado.

Olhei-a furiosa e todos me encaravam, pareciam esperar alguma reação como choro e revolta. Mas eu apenas me mantive educada.

— Com licença.

Falei enquanto saía da cozinha e ia em direção à sacada.

O vento estava quente e balançava um pouco os meus cabelos curtos. Algumas pétalas de cerejeira dançavam com a brisa à minha frente quando escapavam dos galhos. A Lua de primavera estava linda e preenchia o céu aberto.

Eu não me importava mais com Sasuke, por muitos anos chorei desconsoladamente sozinha enquanto ele se fazia ausente. Implorei aos deuses que o trouxessem de volta, tentei todos os jutsus de comunicação possível, mas ele parecia ter se bloqueado para aquilo, ele havia realmente desaparecido ou não queria ser encontrado. Por fim dei-me por vencida.

— Não ligue pra eles.

A voz de Kakashi era acolhedora, eu sentia falta de seus conselhos.

— Não ligo — falei sinceramente — Eu não espero mais por Sasuke.

Kakashi me olhou com olhos curiosos, talvez estivesse surpreso com a minha resposta.

— E o que você espera?

Perguntou-me ele.

Pensei por algum momento, até então eu não sabia o que aguardar da minha vida, apenas vivia um dia após o outro sem nenhuma perspectiva.

— Não espero nada Sensei, só estou caminhando devagar. Eu ainda tenho muitos pesadelos com a guerra. Hora com Madara, hora com Kaguya... O rosto deles... Chiyo... Não sai da minha cabeça. E eu tento compensar isso com os enfermos no hospital, tento mostrar minha gratidão à Tsunade com isso.

Ele ficou em silêncio, talvez fosse coisa demais para despejar num primeiro momento.

— É! Realmente você já não é mais a garota birrenta que corria atrás do Sasuke. — ele me olhava — Se tornou uma mulher Sakura, independente e correta. Fico feliz por isso.

Nos entreolhamos com certa empatia entre nós. Aquilo ia além de uma amizade entre aluna e mestre, nos tornamos amigos de verdade e naquela noite pude perceber isso.

— Obrigada Kakashi-Sensei.

Ficamos em silêncio por alguns segundos contemplando o céu estrelado.

— É difícil ser Hokage.

Disse ele simplesmente quebrando o silêncio.

— Eu imagino, não tem muito tempo pra nada.

— Isso não é o pior, pior é a responsabilidade sob todo o povo. Entende?

Eu entendia, havia recaído sob mim a responsabilidade sobre os cidadãos de Konoha.

— Entendo sim.

Kakashi não pareceu surpreso e sorriu.

— Quer sair no fim de semana?

Aquela pergunta fez meu cérebro girar um pouco.

— Sair? Pra onde? Naruto gosta de poucos tipos de comid...

— Sem Naruto — falou ele agora mais sério, parecia pensar muito antes de prosseguir — Só nós dois.

Aquilo acertou-me com força, meu coração disparou e por um momento duvidei do que aquilo significava, mas provavelmente não seria nada demais, afinal Kakashi era o meu sensei e muito mais velho do que eu.

— Claro — aceitei — Vamos onde?

Kakashi não respondeu e eu entendi que aquilo seria uma "surpresa", ficaria à critério dele onde iríamos.

— Tudo bem — falei com um sorriso bobo — Sexta às 21h? É quando acaba meu plantão.

— Claro. Te busco.

Não precisou de mais nada, o silêncio novamente havia se instalado entre nós.

Além disso havia também uma sensação estranha, um "Q" pairado no ar, uma mistura de confusão e alegria, nostalgia e curiosidade. Talvez fosse loucura da minha cabeça, mas não queria pensar que eu estava prestes a ter um encontro com meu Sensei.