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7 Natasha, Estela e Natasha - Último capítulo.
Notas iniciais
São Paulo, Parque do Ibirapuera.
O sol brilhava timidamente no céu de um dos mais famosos parques de São Paulo e várias famílias aproveitavam esse tempo agradável para piqueniques e corridas. Além de famílias havia grupos de amigos e fã clubes nos arredores do parque, mas apesar de todo esse estardalhaço de pessoas, o único som dominante não vinha de vozes humanas interagindo, e sim do canto de pássaros nas árvores.
Em uma das árvores havia um ninho grande e largo, parecia ser habitado mas não dava para enxergar os moradores dali. Perto dessa árvore, uma jovem passava segurando uma garotinha pela mão, a garotinha não aparentava ter mais que cinco anos de idade e a jovem parecia estar na faixa dos vinte.
— Mana, olha que legal essa casa de passarinho! — Gritou a garotinha, com brilho nos olhos.
— Sim, mas não se chama casa, se chama ninho. — Explicou a mais velha.
Ambas continuaram seguindo conversando, até que a pequena avistou bem longe algo e se afastou correndo.
— NATASHA, ESPERA AÍ! TU NÃO PODE CORRER ASSIM!!!
A garotinha corria sem olhar para trás, passava por várias pessoas, desviando de todas e deixando sua companhia aflita por perdê-la de vista. Até que parou em frente a um ambulante vendendo sorvete e perguntou:
— Moço, tem sorvete de morango?
— Tem sim. — Respondeu já pegando o sorvete e lhe entregando.
— Obrigada! — A garotinha abriu o sorvete rasgando toda a embalagem.
— Custa dois reais.
A pequena olhou para trás esperando encontrar sua tutora mais velha que a pouco lhe acompanhava mas só então percebeu que tinha se afastado demais e não podia vê-la. Sua expressão de felicidade pelo sorvete foi então substituída por medo e profundo desespero. Começou a chorar soluçando.
— O que foi? Onde estão seus pais? — perguntou o sorveteiro.
A menina tentava explicar em meio a soluços mas não conseguia se expressar direito. No mesmo instante apareceu uma jovem atrás dela com semblante curioso.
— Oi, por que está chorando? — perguntou se referindo a pequena.
— Acho que ela se perdeu dos pais. — disse o sorveteiro.
— Não chore, eu te ajudo a encontrar sua família. — falou esboçando um sorriso tranquilizante.
A jovem carregava uma mochila amarela de personagem e aparentava gostar de crianças. Talvez seja por isso que a garotinha se acalmou tão rapidamente. E antes que as duas saíssem dali o sorveteiro pigarreou chamando atenção e repetiu:
— O sorvete, custa dois reais.
— Claro — a jovem tirou uma nota do bolso e entregou a ele.
As duas seguiram devagar, a mais velha interrogando a pequena que aquela altura já tinha parado de chorar.
— Qual é seu nome? Como foi que se perdeu dos seus pais?
— Natasha. Eu não me perdi dos meus pais, perdi minha mana.
— Que coincidência, eu também me chamo Natasha. Não fica triste, vamos achar sua mana, duas Natashas pensam mais que uma.
— A minha mana deve estar preocupada. — comentou baixinho com ar de tristeza.
— Tudo bem, vamos encontrá-la logo.
As duas andaram poucos metros até ouvirem gritos de alguém chamando:
— NATASHA! NATASHAAA!
A garotinha então deixou o sorvete cair e num ar de felicidade olhou para a jovem ao seu lado dizendo confiante:
— É a voz da minha mana, é a Teté!
Parecia aquelas sensações estranhas de dejavu, aquela voz soava conhecida, um sotaque gaúcho disfarçado, talvez fosse imaginação, ou talvez não.
— MANAAA! — A menina pulou no colo da irmã que chegara correndo ao reconhecer de longe sua figura infantil de um metro e vinte.
— Tu tá maluca guria? Sumir desse jeito. — Começou a brigar com a caçula, parando quando notou a presença da outra jovem.
As duas garotas se olharam pela primeira vez, desconsertadas e assustadas, não conseguiam encontrar uma explicação para o que era aquela sensação. A recém chegada tentou dizer alguma coisa mas acabou se embaralhando nas palavras, foi então cortada pela Natasha mais velha.
— Você tem uma irmãzinha muito fofa, Estela.
A pequena Natasha olhou confusa as duas, mas logo se distraiu com um palhaço brincando com meia dúzia de crianças no parque.
— Mana, posso ver o palhaço?
— Pode, mas não se distancie. — recomendou.
Agora as duas garotas encontraram um banco ali perto e se sentaram, estavam sozinhas depois de vários anos sem se falar, com grande dificuldade de proferir qualquer palavra. Não era assim que imaginavam seu primeiro encontro.
— E aí? O que fez nesses cinco anos?
— Mudei de curso, comecei artes visuais e encontrei um estágio legal com um cartunista, o mesmo que ilustrou aquela parede ali. — Disse apontando um desenho gigante na parede do salão onde estava o palhaço e as crianças. — É uma representação da diversidade cultural que tem em São Paulo, várias etnias, diferentes formas de viver.
Era o desenho de uma garota com um olho grande e outro pequeno meio oriental, cabelo metade rastafári, metade penteado para trás, bochechas pintadas de um lado com pintura indígena e outro lado árabe. Remetia claramente a mensagem que precisava passar, diversidade.
— Tri legal!
— E você? Como veio parar em São Paulo?
— Então... Minha mãe morreu durante o parto da minha irmã, aí fiquei um tempo morando com meu padrasto até fazer 18 anos. Depois disso fiz vestibular várias vezes até passar na fuvest e mudei para cá ano passado. Agora trouxe minha irmãzinha para passar as férias comigo, moro em uma república de estudantes aqui perto.
— Música, muito bom! É isso que você sempre quis né?
— Sim, agora faço solo e composições. — Estela tirou do bolso uma folha de sulfite dobrada em oito e entregou à garota.
Natasha abriu e vários pensamentos se passaram quando viu o desenho que havia lá, abaixo a assinatura antiga que usava alguns anos atrás "Natasha Colleman".
— Fala sério. Você guardou isso? — perguntou rindo.
— Sim, faz tempo que ando com esse desenho, sabia que um dia ia te encontrar por aqui, na verdade eu não sabia como te procurar, nem queria forçar nada, como tu me disse da última vez que nos falamos, se for para ficarmos juntas, um dia a gente se encontra. Quando esse dia chegasse, eu queria te mostrar isso. — virou a folha mostrando algo escrito.
" Quando eu te vi, não acreditei e ri.
Chorei desde, o dia que perdi.
Meu coração, não cansa de esperar.
Eu sei que vou, um dia te encontrar.
Só seu bom dia já me valia o dia.
As suas cartas, eu sempre guardaria.
Mesmo que já tenha se esquecido.
Lembro de cada eu te amo lido.
Quero te ver qualquer dia desses.
Pode demorar décadas, anos ou meses.
Mas enquanto isso vou me preparar.
Para ser uma pessoa que possa amar.
Eu te amo ainda, um amor antigo.
Obrigada por ter sido tão boa comigo.
Espero um dia te reencontrar.
Te pedir desculpas e talvez chorar.
De qualquer forma, só quero seu bem
Se não for comigo, quero também.
Que seja feliz, se apaixone de verdade.
Só peço um abraço, para essa saudade."
A garota terminou de ler um tanto emocionada e sem graça, não sabia como agir depois dessa.
— Que fofo, acho que não é uma compositora tão ruim afinal.
— Obrigada. Escrevi isso para ti.
Natasha corou e ficou cabisbaixa por um tempo. Por trás dos óculos era notável algumas lágrimas teimando a descer pelo rosto pálido. Tentou disfarçar puxando assunto.
— E a Natasha, por que deram esse nome?
— Minha mãe deixou que eu escolhesse e como amo uma Natasha, pensei que seria fácil amar duas.
As duas se olharam com ternura e se abraçaram. O primeiro abraço.
O futuro é algo difícil de prever, mas quando vira presente, temos que aproveitar como um verdadeiro presente.
— FIM
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