Central De Atendimento
3 Lágrimas de um dragão
Notas iniciais
Porto Alegre, tempo chuvoso, 11º.
O fim de semana se aproximava junto com uma porção de nuvens escuras carregadas de chuva, para muitos isso significaria ficar em casa até o tempo dar sinais de melhora, mas a pequena Estela não tinha medo de se molhar e precisava fugir da tempestade dentro de casa.
– Eu não quero saber, tua filha devia me tratar melhor. — era a voz grave e amarga do tão detestável padrasto.
– Ela ainda não se acostumou com essa cidade, tenha paciência querido.
– Paciência eu tenho de sobra, só não tenho obrigação de aguentar grosseria de adolescente.
– É melhor começar a ter, nosso filho um dia vai ser como ela. — disse acariciando a barriga enorme de 7 meses.
Estela ouvia os dois brigarem todo o fim de semana pela manhã, imaginava que também brigassem durante a semana enquanto estava na escola, se escondia no banheiro para chorar e pensar, queria escapar daquela sensação horrível de ser uma estranha. Desde o ano retrasado ocupava um dos cinco quartos naquela casa enorme, e com o decorrer dos dias, sentia que estava ficando cada vez pior sua relação com o padrasto, a casa diminuíra para os dois. A gravidez da mãe fez com que ignorasse boa parte das coisas na esperança de tentar se adequar aquela família, mas havia coisas que não podiam ser ignoradas e a sua única alternativa era se manter forte, distraindo-se com outras coisas.
“Hora de sair do ninho, Estelita”. — pensou, enxugando as lágrimas e observando a linda chuva pela janela do banheiro.
Foi até o quarto, pegou sua guitarra encapada e saiu dali. Ouviu ainda a mãe reclamando da sua saída, apenas acenou e disse:
– Vou no Piter, talvez durmo por lá.
– Quem é Piter?
– É o Pedro, que sempre vem aqui, a senhora conhece. — respondeu saindo apressada.
– Mas... Tá chovendo.
Antes de responder ela já tinha saído.
Demorou alguns minutos caminhando na chuva, até chegar na casa do amigo, tocou a campainha com o dedo molhado sentindo um leve choque, estava gelada e com frio. O amigo abriu a porta arregalando os olhos ao ver a situação da garota.
– Entre logo, sua louca.
Estela entrou com uma expressão natural, disfarçava bem a hipotermia causada pela chuva, retirou a guitarra das costas um pouco trêmula e perguntou pelo único motivo de ter ido até lá.
– Eaí, alguém chegou? Vamos ensaiar?
– Tá louca? Olhe como tá molhada, e ainda quer ensaiar?
– Eu vim aqui pra isso, tô louca mesmo, pra ensaiar a música nova que combinamos semana passada.
– Olhe teu estado, tome um banho, depois a gente conversa.
Ela tocou em suas roupas concluindo que realmente estava ensopada, apertou algumas partes deixando escorrer água em cima do carpete do amigo. Pedro olhou-a com desconfiança e apontou para o quarto.
– Vem cá.
A menina acompanhou-o até o cômodo e lá se despiu para tomar um justo banho no banheiro da suíte. Pedro encarava a amiga enquanto ela tirava peça por peça, não era a primeira vez que via aquela garota nua, também não era a primeira vez que sentia aquele desejo incontrolável de agarrá-la. Para Estela eram dois anos de amizade e irmandade, para Pedro eram dois anos de tortura e incitação sexual, ele a desejava, mas sabia que não tinha chances com a garota que não gostava de garotos.
Enquanto ela tomava banho, ele pensava frustrado o que poderia fazer para ser uma exceção, dividiam segredos, músicas, banheiro, roupas, por que não podiam dividir os corpos essa noite?
– Terminei, agora vamos ensaiar. — disse com sua voz rouca e resfriada.
– Estela, eu não tô no clima de tocar hoje.
– Ah, tudo bem, então tu me ajuda no solo?
– Beleza.
Solo, como ele adoraria se rolassem naquele tapete do quarto ouvindo o solo de angry chair, do Alice in Chains.
– Acha que tá bom o dedilhado nessa parte? — perguntou dedilhando nas sextas e sétimas casas da guitarra.
Ah, o dedilhado, aqueles dedos irresistíveis dela, era o que mais lhe provocava, saber que eles já tinham adentrado o íntimo de tantas garotas, deixava-o excitado.
– Hey Piter, tá me ouvindo?
Estela largou a guitarra de lado irritada, se aproximou do amigo e cutucou seu braço, o jovem pulou ouriçado sentindo o toque da garota, seus impulsos finalmente o venceram, empurrou a amiga para o sofá deitando em cima dela, roçou a mão direita puxando seus cabelos e a beijou agressivamente.
– NÃAO.. — gritou, na evasiva.
– Eu te quero Estela, há tempos.
– Já te disse que sou lésbica.
Pedro soltou-a com raiva, já desconfiava que ouviria isso, essa estúpida justificativa.
– Sei que já ficou com homens antes, não tem o menor problema ficar comigo.
– Pedro... — Ela começou séria, raramente o chamava pelo nome. — Eu não quero mais ficar com homens, não te vejo de outra forma que não seja como um ami...
Antes que ela terminasse, o garoto já estava com lágrimas no olhos, o rosto ruborizado queimava de raiva, num ímpeto estourou toda a revolta pelos dois anos de ilusão.
– VÁ EMBORA, NÃO QUERO MAIS TE VER. — saltou do sofá e abriu a porta com violência.
– Pedro... — Estela estava horrorizada com aquele comportamento.
– SOME DAQUI, PORRA! — gritou a plenos pulmões.
A garota desconectou a guitarra do amplificador em prantos, sentiu quando o amigo lhe jogou a capa pesada do instrumento nos ombros e saiu dali soluçando, soterrada de tristeza e agonia.
Pedro trancou a porta, como se temesse que a amiga voltasse para assistir sua humilhação, foi para o quarto chorando, sentia raiva da amiga e de si mesmo por ter forçado aquele beijo. Ia em direção ao banheiro assoar o nariz quando enroscou a perna numa peça de roupa jogado no chão do quarto, era a jaqueta de couro de Estela, como ela ficava sexy com aquilo. Revistou os bolsos e em um deles encontrou um celular molhado, mas ainda funcionando, nele um sms recebido.
“Comecei a trabalhar hoje e já detesto o que faço, preferia ficar oito horas seguidas ouvindo sua voz em vez de reclamações, não vejo a hora de receber logo e ir aí te ver. Eu te amo Estela, minha cretina.” 'Natasha Namorada' era quem enviara.
Alguns pensamentos percorreram a cabeça de Pedro, sentia pena da namorada da amiga, uma pena semelhante a que sentia de si mesmo por ter se declarado àquela hipócrita. Desde a primeira vez que conheceu Estela, sempre mostrou-se gentil e leal a seus segredos, sabia que a amiga não tinha um bom convívio em casa e isso talvez justificasse o fato dela ficar com várias garotas, sabia também o quanto Natasha importava, apesar de ter dezenas de garotas em seus 'dedos', aquela garota de São Paulo parecia especial, era maçante ouvir Estela falando horas de como amava a voz da namorada, o quanto eram patéticas suas conversas quando estavam com sono, e também mostrou uma vez, um desenho que Natasha enviou por carta, os olhos dela brilhavam falando sobre esse desenho.
Agora eram os olhos de Pedro que brilhavam com as possibilidades que aquele aparelho oferecia, podia contar a verdade para a pobre garota paulista, evitar que ela se iludisse como ele se iludiu, mas ao mesmo tempo pensava no quanto poderia ferir Estela com aquilo, sentia seu peito queimando por dentro e desejava que alguém também sentisse aquilo.
Sem pensar duas vezes, discou para a remetente do sms.
************************************************************
A caminho de qualquer lugar, Estela cambaleava pelas ruas arrastando consigo a guitarra molhada, a temperatura estava congelante e ainda chovia, os pingos gelados fundiam-se com suas lágrimas quentes. Não queria voltar para casa, nem tinha para onde ir, já passava das 21hrs e a maioria dos comércios estavam fechados, exceto um boteco emporcalhado na rua detrás da casa de Pedro, entrou ali para se proteger da chuva mas logo se arrependeu depois de perceber os velhos depravados observando-a.
Sentou na calçada do boteco desejando que o dia tivesse sido um pesadelo, ela não era a mesma de dois anos atrás, sentiu-se uma estranha, mais ainda depois de notar que não era apenas em casa que se sentia assim, lembrou de momentos que passou com Pedro e outros amigos, não conseguia imaginar que aquilo nunca mais voltaria, seu melhor amigo a odiava.
Ficou imaginando o que sua avó lhe diria se contasse o ocorrido, sentia muita falta de ouvir seus conselhos, ouvir sua voz, ah, como sentia falta dela, era a pessoa que mais lhe importava no mundo, mas agora não podia contar nada, sua avó não podia mais ouvi-la, não confiava em mais ninguém como confiou, pelo menos ninguém que estivesse perto. Natasha era uma boa confidente, ela dizia coisas que Estela precisava ouvir, só que de uma forma agradável, seus piores problemas sempre tinham um desfecho engraçado ou exagerado, o que aliviava todas as suas preocupações.
Pensar em Natasha fez com que se sentisse melhor, era seu ponto de paz, nunca se enjoaria de ouvir sua voz suave, amava-a de uma maneira original, de modo que nunca havia amado ninguém, nesses últimos dias um sentimento de culpa a incomodava pelas coisas que fizera com a namorada, as brigas em casa é o que a impulsionava para sair com outras garotas, esse sentimento de ter alguém que aprecia sua companhia era o que faltava, e a fazia buscar fora de casa. Voltou a chorar, agora mais intensamente arrependida por tudo o que fez com Natasha, ela era como um anjo, não merecia ser traída pelas costas.
Olhou para o céu e viu poucas estrelas, a maioria estava escondida, fechou os olhos e fez uma promessa, seria fiel à seus sentimentos e nunca mais trairia a namorada.
Enxugou o rosto de lágrimas na camiseta úmida, a noite estava fria demais para passar fora de casa sem agasalho, foi então que lembrou da jaqueta que esquecera na casa de Pedro, dentro da jaqueta estava o que ia garantir os sorrisos da noite, seu celular.
Foi até lá devagar, ainda andava cambaleante pelo frio e peso da guitarra nas costas, em alguns minutos chegou. Apertou a campainha e Pedro atendeu, estava sereno quando atendeu, ao ver a amiga lançou um olhar cansado e bateu a porta na sua cara.
Estela suspirou com raiva e virou as costas para ir embora, até que ouviu:
– Pegue suas coisas.
Ele entregou a jaqueta seca com tudo que havia dentro e uma barra de chocolate, fechou a porta deixando-a sozinha ali.
– Obrigada. — disse mesmo sabendo que ninguém ouviria.
Foi até o abrigo de antes, o boteco já estava fechado, sentou-se na calçada e discou o número da salvação.
– “Você ligou para Natasha, no momento não estou, deixe sua mensagem após o sinal”
Na primeira tentativa foi direto para a caixa postal, discou novamente.
– “Você ligou para..” — desligou antes de ouvir o final.
– “Você ligou...” — começou a se desesperar.
Não conseguia imaginar porquê isso estava acontecendo, procurou na agenda o telefone de casa da namorada e fez mais uma tentativa.
Chamou, chamou, até que Natasha atendeu, com a voz embargada e rouca:
– “Alô”.
– Oi amor, finalmente consegui te ligar.
– “O que você quer comigo, hein?”
– Eu.. Por que está assim?
– “Descobri tudo, sei que me traiu com todas as garotas daí. Já pode parar com seu joguinho idiota”.
– O quê? — sentiu seu coração acelerar absurdamente.
– “Não quero mais falar com você, é uma mentirosa”.
– Por favor, me ouça..
– “NÂO QUERO, EU TE ODEIO ESTELA!” — Natasha gritou chorando.
– Natasha, por favor... — agora Estela também chorava desesperada.
– “VOCÊ É UMA..”
E antes que terminasse Estela ouviu um baque como se o aparelho tivesse caído no chão, em seguida gritos.
– “Natasha? O que tá aconte... Minha filha, você tá bem? Acorda, acorda.” — a voz perdida da mãe era o que mais lhe apertava.
– O que tá acontecendo? Natasha? Alguém?
– “Ela devia ter se cuidado depois que descobriu o aneurisma...” — Foi a última coisa que ouviu em meio a soluços.
Fale com o autor