Cenoura e Chocolate
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Quando Cenoura chegou no quintal da Mãe Preta, Chocolate estava sentado em posição de lótus meditando debaixo das roupas molhadas do varal. Os pingos d'água com cheiro acertando em cheio o cocoruto crespo, mas ele parecia não se importar com isso. O ruivo sentiu uma pontada de satisfação ao ver o amigo levar a sério uma das práticas da sua religião que ele mesmo tinha ensinado; o negro era agitado demais para o budismo, mas se esforçava. Ou talvez ele estivesse meditando para entrar no Modo Sábio... Desanimou ao perceber que a influência de Naruto naquela cabeça oca podia ser maior que a sua.
Como o amigo não percebeu a aproximação, Cenoura espremeu a camiseta acima da cabeça dele, fazendo mais água descer e despertá-lo.
— Ei! Cenoura, eaí? — antes que pudesse responder ele emendou — Caramba, o que houve com o seu cabelo?
O ruivo avermelhou antes de sentar no terreiro de terra batida.
— Rapei...
Esperou que o amigo falasse algo, mas sentia Chocolate apenas o encarar enquanto fingia estar prestando atenção na vegetação próxima que balançava com o vento.
— Ficou muito feio?
O moreno sorriu reparando que o ruivo levantava o lábio esquerdo quando falava, expondo o dente da frente que era tortinho e estufado. Cenoura era fofo com os olhos marrons no meio da pele branca demais que ficava rosada por qualquer coisa e tinha sardas, muitas, no corpo todo, e o rosto magrelo e quadrado, anguloso meio infantil. Lhe dava a alusão dum coelho.
— Por que está rindo?
— Você continua sendo um branquelo cenoura, besta. Não precisava ter cortado o cabelo, eu sei que você gostava dele daquele jeito.
— É, mas...
Não precisou completar. Chocolate sabia. Na escola os meninos sabiam ser maus. Tratavam o novato como se fosse uma praga ser ruivo, como se desse azar. Engraçado que há pouco tempo Chocolate que era considerado o gato preto... Mas o humor do negro não deixava que a zueira virasse maldade e também estudava na escola há muitos anos. Quando Cenoura chegou foi diferente, e sem perceber eles se viram amigos, mas ainda assim figuras exóticas como ying e yang numa imagem. Tão diferentes e tão iguais, eles chamavam a atenção. E secretamente Chocolate tinha orgulho disso. Mas Cenoura não. Como fazer ele entender?
— Vamos jogar Bioshock? A gente reveza, eu to louco para saber o final daquilo — o ruivo se auto convidou e Chocolate prontamente atendeu.
Quando eles passaram, Tio Sanuca estava na sombra da varanda cortando fumo e pitando. Tia Dina na cozinha, brigando com um dos pirralhos que tinha comido algum ingrediente da receita que ela ia fazer e Mãe Preta ralhando com a filha por brigar com os netos.
A Mãe olhou os meninos indo para o quarto e perguntou do cabelo ruivo. Cenoura sorriu sem graça contando uma meia verdade; seu pai não gostava do cabelo grande. A velha olhou para o neto pouco atrás que só lhe fez uma careta e deu de ombros explicando.
♦
O cheiro de bolo perfumava a casa pequena e se os dois meninos não estivessem tão entretidos no jogo já teriam ido abusar da sorte para roubar um pedaço de bolo quente da Mãe. Quando eles chegaram na cozinha o bolo retinto de chocolate estava frio e milagrosamente intacto — a velha como um espantalho na frente da mesa afugentando cada um que tentasse comer antes da hora.
Se serviram de leite frio e esperaram a vó cortar o bolo em pequenos quadradinhos perfeitos. Foi uma surpresa quando por dentro a massa era de um amarelo alaranjado forte e bonito. Os meninos riram percebendo pela primeira vez que eram como aquele bolo tão gostoso, uma combinação perfeita.
Cenoura corou feliz sorrindo um tanto envergonhado para o amigo pela constatação. E Chocolate piscou um olho para a vó, agradecendo.
O ruivo comeu devagar saboreando e pensando... Eles eram Cenoura e Chocolate; símbolos de azar para os outros, mas infinitamente sortudos por ter um ao outro.
Fale com o autor