Cena Um
2 Minha vida está cheia de tarados.
Notas iniciais
Audrey
— O que disse?
— Minha querida, não há a menor possibilidade de perdermos o auditório para mongolóides como vocês.
Essa garota perdeu a noção do perigo.
. . .
James deu um pequeno surto, a qual já estou acostumada. Me ameaçou com coisas que sabia, mesmo que não devesse. Me xingou de hipócrita, pois "eu sabia o que aquilo poderia acarretar para ele", e eu ouvi resmungos o caminho inteiro sobre minha irresponsabilidade. Fiquei quieta, pois dizer algo era inútil.
Àquela altura Harold já tinha sido mandado de volta para o clube, e lá estava eu, sozinha com um idiota que fez questão de me acompanhar para ter certeza de que eu iria para o lugar certo.
Cheguei, e Sky, vulgo: secretária do diretor e amiga com benefício do loiro, tascou-lhe um beijão que me deu vontade de vomitar. Eu, irresponsável? Ele deveria se ver naquele momento.
Soltei um riso abafado.
Deixei-os se esfregando e bati na porta do Sr. Wayne, que murmurou um "pode entrar" e eu o fiz, dando de cara com o rosto tão orgulhoso quanto perturbador de Blair, presidente do clube de debate.
O velho, que aparentava muito mais do que dizia ter, me mandou sentar em uma poltrona desgastada, porém confortável, e eu o expliquei a situação de modo detalhado. Ele ouviu, aparentemente atento, meneando certa vez e coçando sua careca outra.
— Certo, certo. – concordou – Mas há um pequeno contratempo.
Ele encarou a mim e à menina, absurdamente morena para o clima da época, e afirmou que ambos os nossos clubes haviam escolhido o mesmo dia para o evento. E que não tinha outra data próxima disponível. Suspirei.
— Com minhas sinceras desculpas, senhor, mas este evento tem sido programado pelo departamento de direito nesta temporada há décadas. Já é quase uma tradição. – defendeu.
— E o James vai comer meu couro se eu não conseguir fazer essa reserva... – sussurrei sem querer.
Ele nos disse que as coisas se resolveriam facilmente. Cada clube teria de se reunir separadamente para fazer um projeto. O evento que se mostrasse mais apropriado para ele seria realizado no auditório. O outro, teria de ficar para o ano seguinte.
A menina concordou contrariada, e eu fiquei ponderando as possibilidades.
Ao sair da sala e chegar ao corredor, sua feição séria se transformou em um sorriso irônico, e ela, num movimento brusco, me encurralou nos armários.
Endireitou-se, mordeu seu dedo numa provocação, e deu uns estalos no pescoço, enquanto se aproximava para sussurrar próxima à meu rosto:
— Acho melhor sair do meu – pigarreou – digo, nosso, caminho.
Fiquei sem reação por um segundo, como nem mesmo James conseguia me deixar.
. . .
E essa belezinha de situação nos leva ao diálogo inicial.
— Veremos. – finalmente solto, respondendo sua provocação.
Se eu não estava animada para o projeto, agora estou pegando fogo.
E quando me viro, percebo metade do departamento mobilizado, nos observando. Vejo de relance James, recostado em uma parede de vidro, dedo no lábio e olhos assustados voltados para a multidão. Sky em sua companhia.
Abro a boca para começar a falar, mas me interrompem. E por um milésimo, acho que é ele.
— Vocês não tem nada melhor para fazer não?
Mas como tudo de bom que se relaciona àquela criatura dura pouco, desta vez menos ainda, era Duncan. Acompanhado de Apolo, vulgo: britânico fofo, barra: Sam.
— Não tem nada para ver aqui. – Sam completa.
Ergo a sobrancelha por um instante, mas no seguinte, relaxo e movimento os lábios num agradecimento sem som.
Nesta altura, Blair já saiu do recinto, emburrada, sem deixar de esbarrar em mim.
Os meninos se aproximam e dizem coisas como "está tudo bem?" ou "ela fez algum mal à você?"
E eu começo a negar com a cabeça, sem lembrar da última vez que alguém se preocupou comigo assim. Uma lágrima teimosa escorre, e antes que eu possa secá-la, um dedão o faz. Quando levanto o rosto, dou de cara com um gigante sorrindo docemente.
— Pode contar conosco a partir de agora, senhora encrenca.
— Com certeza, hobbit. – e Duncan bagunça meu cabelo de forma fraternal, me dando um abraço em seguida.
O sinal bate, e ele me pergunta a aula que tenho neste horário. Digo que é inglês e Sam dá um sorrisinho, complementado por um "eu também".
— Sem graça. Eu perguntei, nossas aulas deveriam bater. – dá ênfase nos pronomes, cruza os braços e faz biquinho, numa cena tão cômica que solto uma risada.
— Relaxa, tem Audrey pra todo mundo. – digo, dando um beijo na bochecha do dramático.
O que foi? ELE GOSTA DE GREEN DAY!
— Mas escuta, Sam, por que nunca te vi por lá? – me xingo mentalmente quando lembro da resposta.
Ele estava na Inglaterra, jegue.
— Eu me transferi há pouco tempo – diz, com seu sotaque habitual – Duncan me matriculou nesta aula quando eu disse que lancharia "chips".
Sorrio, e digo que tenho de fazer algo antes de ir para sala. Não pois tive uma vontade momentânea de beijá-lo, não, imagina, só me lembrei que deveria comunicar James sobre as condições do projeto. Isso, projeto.
Ando até o clube de música e encontro James batendo um monte de papéis na mesa, deitado e em pé, de maneira a alinhá-lo. Pigarreio para que me note, e ele solta um "ah, oi" meio irritado, meio distraído. Explico tudo.
— É nisso que dá ficar de conversinha quando tem de fazer algo. – solta, dando uma batida mais forte num papel teimoso.
Desgraçado.
— Para de cu doce que daria no mesmo. – troco minha irritação por um linguajar irônico – Você está é com ciúmes.
E saio, ouvindo-o sussurrar um "nunca" para si.
"Sempre", e mexo no cabelo, rebolando, com um convencimento falso e debochado.
Afinal, aquele "nunca" já havia acontecido antes, certo?
. . .
Quando chego em frente à porta, Duncan está andando de um lado para o outro, parecendo preocupado. Quando me vê, esbugalha os olhos, põe as mãos em meus ombros e me abraça rapidamente, dizendo que eu o estou devendo uma.
— Como assim, idiota? – solto um "tssh" esquisito.
— Vamos, vem, rápido.
E me puxa pelo pulso. Sua mão é magra e grande; possui algumas veias de quem já fez exercício braçal, e me aperta de um jeito caloroso. Solto alguns palavrões e insultos.
. . .
Me dou por consciente. Estou em um terraço, onde já estive diversas vezes. Só não sou frequentante assídua pois não suporto cheiro de fumaça, e isso é de uma predominância assustadora.
— Não curte muito a atmosfera daqui, não é? – Duncan quebra o gelo, puxando um isqueiro para acender seu cigarro, que já repousa em sua boca, mexendo enquanto fala.
Esse menino lê pensamentos ou realmente está tão na cara?
— É só... muita fumaça.
"E esse cigarro na sua boca não vai melhorar muito a situação". Completo, mentalmente. E sorrio, cínica.
Então me lembro do "motivo" de estar ali, e o encho de perguntas.
— Bom – começa, em meio a tragadas (dele) e tosses (minhas) – Eu só queria te poupar de mais uma aula chata com o Sr. Lefebvre sobre mais uma matéria que, acredite, você não vai utilizar na sua vida. Experiência própria.
O encaro meio confusa, meio intrigada.
— Então o avisei que você estava passando mal, portanto faltaria a aula.
— QUAL O SEU PROBLEMA? – começo a bater nele, e ele ri da minha fraqueza. Idiota – Só não te mato pois esse foi o último tempo do dia. E porque nunca ouvi ninguém dizendo "portanto" numa conversa casual.
Ele dá um sorrisão de culpado, porém orgulhoso e passamos algum tempo nessa posição. Então se levanta, batendo em suas pernas por uma razão desconhecida, e se despede, dizendo que tem aulas extras nos próximos minutos.
— Espera. – seguro seu braço com as mãos, o impedindo de sair.
Penso em agradecê-lo por mais cedo, em abraçá-lo e perguntar qual o seu álbum preferido – sua blusa é do Nimrod, mas uma afirmação não custa – ou até em sugar informações privilegiadas sobre Sam.
Mas a única coisa que sai de minha boca é:
— Como você sabia a matéria que Lefebvre daria hoje?
Ele sorri inocente, como se não fosse o que esperava ouvir.
— Eu já estou no terceiro ano. – o que quer dizer que ele já passou pelo bendito primeiro semestre das matérias adicionais da Academia Cheshire – Mais um ano e eu ralo.
— Então o rebelde que me fez faltar aula é na verdade um velhote? – pergunto, irônica
Rimos e eu continuo.
— Pra mim faltam três anos e meio.
Duncan me deseja uma boa sorte e completa com:
— Mas você sabe não precisa enfrentar isto sozinha, certo? Tem o velhote aqui para te ajudar.
— Só se for a fumar, gemer e burlar aulas, não é?
Sorri e diz "na parte do gemer posso te ajudar agora mesmo", saindo pela enorme porta de ferro.
Minha vida está realmente cheia de tarados.
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