Cem Anos Depois
5 V – A Caçada do Lobisomem
Notas iniciais
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Ambrósia 1:1
No começo, quando não existia nem branco nem preto, um sussurro vindo de todo canto e de lugar nenhum ecoou por toda a vastidão inexistente do universo: Eswar, Einmal. Estas palavras que nenhum homem ou mulher conseguiu decifrar durante séculos ficaram conhecidas como o Sopro da Vida, uma dádiva do Criador para com tudo o que ele desejava criar.
Ambrósia 1:26
Então os Sopros se espalharam pelo universo como pequenos dentes-de-leão ao vento, atingindo os cantos mais escuros e os picos mais claros, dando vida a duas criaturas que lhe assemelhavam ao Criador: Eswar, o Mestre da Luz e detentor de toda a magia branca e Einmal, a Senhora das Noite e manipuladora de toda as trevas no universo. E foi assim que eles souberam que os Sopros ouvidos por ninguém não eram sussurros da criação, mas sim um chamado.
Eliseu 20:11
O Criador durante longos anos esteve presente para controlar Eswar e Einmal, os dois irmãos que ameaçavam destruir toda a divina criação do Big Boo, porém, ao passar de seis milênios, Eswar finalmente conseguiu destruir sua irmã Einmal e pode assim dar continuidade ao trabalho de seu amo que agora descansava fora de vista no Reino do Criador.
Ambrósia 2:7
E de seu poder, o senhor das luzes subiu ilhas do infinito mar que espelhava as estrelas e nelas soprou a vida. Moldou o homem e a mulher à sua imagem e semelhança e deu-os à vida e o dom de prosperar. Alguns outros dons foram atribuídos aos dois filhos de Eswar, e com o passar das gerações estes foram adormecendo.
Gregos 21:1
Então, após a segunda mulher provar do fruto venenoso do dragão Lamnie, novos oceanos, céus e terras foram criados das lágrimas de Eswar, e para lá foram mandados os primeiros humanos da criação. Um grande muro de gelo foi erguido em torno do novo mundo, um gelo espelhado e mágico, de onde seria possível o acesso ao Reino do Criador, mas que ninguém nunca poderia aproximar-se.
Cataclismo 8:19-21
1A nova terra aguarda ansiosamente a nova chegada dos humanos primordiais, estes os quais serão revelados em uma grande provação. A terra esta sedenta pelo novo trio reencarnado e isso irá libertar-lhe do amargor do sangue derramado sobre si ao receber toda glória dos filhos de Eswar.
2As paredes de gelo irão se aproximar da terra e desmoronar sobre o mar, refletindo a imensidão das estrelas e todos se depararão com as primeiras terras, e lá encontrarão o descanso final. Aquele mundo deixará de existir e tudo que nele estiver presente será levado com ele.
3O reino por detrás dos espelhos estará mais inalcançável do que jamais fora um dia, e as barreiras entre este mundo e o Reino do Criador serão erguidas para nunca mais serem derrubadas. Será este o fim.
A princesa fechou o livro com a sensação de ter sua cabeça quase implodida. Já havia lido e relido aqueles trechos do livro várias vezes e, fora as lendas contadas nele, aquelas passagens pareciam querer transmitir algum tipo de mensagem, como um acontecimento que estivesse prestes à ocorrer.
Se isso que eu acabei de ler está certo, pensou, tenho que garantir que esse Criador fique do nosso lado. Do meu lado.
E assim se pôs a caminhar para fora da grandiosa biblioteca, indo em direção ao local que desde a morte de seu amor verdadeiro nunca mais havia visitado: a Ala Oeste.
— Eu não acredito! – Ella esperneava sobre uma pedra. – Passei tanto tempo procurando por aquele maldito coração para agora vê-lo ser esmagado por um homem tão grotesco quanto aquele caçador na minha frente! – A garota passava as mãos na face quase que de segundo em segundo tentando disfarçar as lágrimas.
— O que não podes é perder a esperança – disse Aurora observando a casa dos anões em chamas – Não sei qual foi a sua intenção em atear fogo a esta moradia, mas pelo visto não funciona.
— Fácil para você falar, princesa.— Rebateu a mais velha. – Você nasceu em berço de ouro, tem sangue real correndo pelas veias. Pode não ter vivido com seus pais, mas sempre teve quem cuidasse de você. Sua vida não foi de uma escrava forçada a limpar a casa onde deveria ser seu lar, mas que se tornou sua prisão.
Aurora encarou a garota sentada na rocha com frieza, seus olhos lilases nunca estiveram tão parecidos com o de uma tempestade e podia perceber que os azuis da loira a sua frente também não demonstravam muita pacificidade. A garota começou a aproximar-se devagar, de cara fechada, da outra.
— Eu fiquei em coma por cem longos e malditos anos... – sua voz era tão baixa que podia ser apenas o soprar de uma brisa daquelas que você sente refrescar seu rosto por milissegundos, mas que logo se esvai – Minhas tias mentiram sobre meu nascimento e sobre quem eram na realidade, sobre seus poderes como fadas. Se opuseram quando insinuei começar uma relação com Phillip com a desculpa que eu já era prometida à outro que, veja só, era o próprio Phillip! E adivinha? Agora ele está desaparecido! – Agarrou o capuz vermelho da outra com uma agilidade fora do comum e mirou no fundo dos olhos dela – Então se você acha que essa é a vida fácil de uma princesa, está completamente enganada! – Soltou o capuz.
Cinderela ponderou sobre o que a garota havia dito. É claro que nenhuma das duas teve uma vida fácil e linda para se recordar e não era justo uma julgar a outra pelo seu passado. Também não era justo Aurora ter três fadas madrinhas ao invés de uma como o de Ella, ou que seu vestido não tivesse sumido após a meia-noite como o da mais velha, ou então que a casa ao qual ela tinha que limpar não passasse de um chalé enquanto o de Cinderela era uma mansão... Quer saber? A vida da loira mais velha foi muito mais árdua que a da outra e não era justo ser tratado com desprezo!
— Sabe – Ella começou a falar tentando desanuviar sua mente – eu realmente não sou a Chapeuzinho Vermelho, isso foi apenas um disfarce que minha fada madrinha me arranjou para que eu pudesse entrar na floresta sem que ninguém me reconhecesse.
— Um disfarce bem ruim por sinal – Cinderela inflou as bochechas de raiva. Tão ruim que você não percebeu que eu não era ela de início.— Já que existe uma Chapéu verdadeira, você devia ter arranjado algum nome mais original – Aurora virou-se de frente – Ou pelo menos escolher outra cor para capa.
— Não obrigada, adoro vermelho – revirou os olhos – Mas o problema é que o príncipe da Cinderela – franziu um pouco a testa, talvez nunca fosse se acostumar a falar de si mesma em terceira pessoa – Ele também sumiu durante seu passeio matinal pelo jardim, e as únicas coisas encontradas foram um par de botas e um selo.
— Que ironia não? – constatou a mais nova – Primeiro a Gata Borralheira some e deixa os sapatos, e agora o Príncipe Encantado? – deu uma risada maliciosa.
Tentando manter o controle para não atacar a garota com a varinha, Cinderela disse:
— O selo vinha do seu reino.
Aurora parou de rir e encarou a mais velha a sua frente. Franziu a testa pensando não ter escutado direito e depois arregalou os olhos vendo a seriedade nas palavras da outra.
— O que? Isso não é possível! Meu pai jamais sequestraria o filho de outro! A menos... Não! Ele nunca faria isso!
— A menos que quisessem uma farta recompensa para retirar seu reino da miséria – disse a falsa Chapeuzinho Vermelho se aproximando da princesa – Diga a verdade Aurora, seu pai seria capaz de tudo para equilibrar a economia do Morndämm de novo, e isso inclui sequestro de monarcas – colou a varinha sob o queixo da outra.
Num ato de se esquivar do veneno alheio, Aurora deu um tapa na mão da outra, lançando o objeto magico da outra longe — Não convivi suficiente com minha família para lhe dizer isso.
— Então também não podes negar do que eles seriam capazes ou não de fazer. – Rebateu indo pegar a seu condão que havia ido parar perto do fogo.
Aurora revirou os olhos e pôs-se a pensar em quão linda ficaria aquela mulher com o rosto deformado pelas chamas, mas logo sacudiu a cabeça. O que diabos estou pensando?
Olhou para cima e viu flutuar sobre elas uma sombra de pássaro, grande demais para ser um canário e pequeno demais para ser uma coruja. A luz da Lua tornava aquele ser ainda mais sinistro, e um pensamento veio à mente de Aurora: E se a Floresta estiver alterando nossa mente para algo pior de nós?
Afinal a Floresta dos Reinos não era mais a mesma desde... Bem, ela não se lembrava desde quando, mas tinha aquele pressentimento de que sua teoria estava certa. Algo muito mal estava manipulando os pensamentos das garotas para se autodestruírem, por isso as constantes brigas em menos de meia hora e a casa em chamas.
— Ella – chamou a atenção da outra que já voltava com a varinha em mãos – Você não anda tendo pensamentos estranhos?
A outra franziu uma sobrancelha e concordou — Desde que você chegou, só consegui imaginar cenas horríveis contigo sendo a protagonista – olhou em volta preocupada e logo sussurrou – Você acha que esse bosque está nos influenciado?
Com um gesto de cabeça, Aurora concordou, pensando que não deviam se deixar levar pela magia negra aplicada sobre si, mas antes que pudesse abrir a boca algo foi ouvido ao longe.
Um longo uivo sinistro, que parecia cantar de alegria e tocar o terror em qualquer ser vivo consciente naquele local. As duas se entreolharam com medo e demonstrando preocupação – Vamos por ali – murmurou Cinderela correndo na frente, iluminando o caminho com a sua magia e Aurora logo atrás de si.
As princesas correram até o local mais próximo onde o mato se fechava, e quando a garota Mongestern olhou para trás se arrependeu amargamente.
O Lobo estava parado agora na clareira, exatamente onde ela estava de pé observando as árvores há segundos atrás.
— Aurora, vem! – murmurou Ella, e as duas correram floresta adentro.
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