Celta E As Duas Estrelas
2 Vaso Quebrado
Notas iniciais
A estação continuava cheia naquele dia. O feriado prolongado fez com que todos saíssem às ruas para aproveitar o dia extra no final de semana. Tinha sido estratégico. Sabia que o chefe pediria que ele chegasse antes no trabalho, enquanto ela não teria aulas. Achou que entregando a carta no dia anterior, sem que encontrasse aqueles olhos nos próximos três dias, tivessem uma maior chance de fazer com que ela pensasse naquela tentativa incomum de conseguir o encontro.
O dia passava rápido. O lugar cheio, sem pausas, sem celular. O tempo que tinha em certos momentos quando o lugar parecia esvaziar deixava sua mente pensar nas possibilidades das mensagens que poderiam ter chego até aquele momento. Dentre todas as ilusões, preferiu se agarrar a ideia de que ela ainda não havia decidido se mandaria mensagem e discutiria com alguns amigos sobre o que faria. Queria passar horas imaginando, porém o trabalho exigia que estivesse atento, principalmente em finais de semana e feriados.
O expediente acabou mais tarde como de costume naqueles dias de movimento. A grana extra sempre é bem-vinda. Não tinha muito com o que gastar, a vida morna o garantia um lugar seguro e distante de vícios e dos ataques consumistas. Tinha suas manias, seus tiques. Jogos, mangas, animes. Preferira uma vida mais reservada, após anos separado da família e dos amigos por causa dos estudos e aventuras, não tinha conseguido se adaptar muito bem ao convívio social.
O gato miou no apartamento. Os olhos observavam atentos, pupilas dilatadas. A chegada do dono significava comida e a possibilidade de carinho se desejasse. Seus dias também se repetiam um após o outro sem mudanças radicais. Não precisava desviar os olhos do pote para saber que o estranho que lhe mantinha naquela caixa grande estava se jogando na cama com aquela mistura de cheiros. Alguns lhe incomodavam o nariz, alguns lhe enjoavam, mas tinham aqueles que davam fome. Cheiro de coisa viva.
As patas pressionaram as costas suavemente. Andaram até alcançar o cheiro que queria. Partiu ao ataque. Precisava sentir o gosto.
— Eu sei, eu sei. Preciso de um banho – a virada repentina fez com que o felino disparasse pelo corredor e voltasse no tempo que o humano levantou para se sentar.
Os batimentos do pequeno coração aumentaram quando o celular apitou. Encarou desinteressado o companheiro jogar uma das peles num canto do cômodo e sair. A coceira em sua perna fez com que ele lembrasse que também precisava de uma banho.
— Eita porra – o humano voltou correndo sem parte das peles que usava. Ele revirava o casaco e a mochila procurando alguma coisa. – Que seja ela, que seja ela.
Os óculos se encontraram com os olhos verdes repetindo as mesmas palavras que havia lido. O miado soou em tom de repreensão por não ser algo interessante. Quanto escândalo por nada. Espera, aquilo é uma mosca?
— Ela disse que quer me conhecer – as mãos alcançaram o gato antes que ele pulasse na parede. Agora, os miados eram de nojo. O hálito do humano também tinha cheiros demais.
A pobre criatura foi amassada em meio a tantos cheiros e peles.
— Celta, ela quer me conhecer. Imagina só se isso dá certo. Ah, eu não posso deixar isso dar errado. Espera, o que eu vou fazer? Eu vou estragar tudo. Não, não. Eu não posso fazer isso. O que eu vou dizer? Como eu começo uma conversa? – de volta ao ataque, o gato se preparava para avançar. – Para de pular nesse ponto preto, é sujeira, já te disse.
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