Celta E As Duas Estrelas

5 Castelo De Caixas


Notas iniciais
Aproveitem a leitura :)

A conversa foi boa. Os pais logo simpatizaram com Antares. As tatuagens e os cabelos os assustaram no começo, pensaram que poderia ser uma má influência para a filha. Ele se desculpou já sabendo das possíveis consequências de sua aparência. Disse que, como tinha se acomodado no trabalho e na vida de artista, quis eternizar alguns momentos em sua pele. Os pobres e cansados professores acabaram por tomar gosto pelo rapaz extrovertido e por achar graça das tatuagens com histórias. Acabaram cogitando, secretamente, a ideia de fazer uma.

A amizade que ali se formou só favoreceu a aceitação do pedido que ele fez para que deixassem que a filha passasse uma semana em sua casa. O argumento que fez com que ganhasse a permissão foi a promessa de que faria com que ela trabalhasse no bar durante o sábado com ele e de que a levaria para conhecer alguns lugares que poderiam ajudá-la na futura carreira. O casal logo aceitou e agradeceu tanta gentileza com a tímida e única filha deles.

Como a conversa se arrastou pelo tempo que Alhena demorou para fazer as malas, o pai decidiu levar os dois até o apartamento, meio afastado, onde Antares morava. Subiram, com o magro menino carregando a mochila dele e mais três dela. Como não havia elevador, a pequena ficou sentada nos primeiros degraus enquanto ele subia e descia os quatros lances de escada para colocar as coisas no apartamento.

Celta já estava a mil. Haviam caixas e mais caixas fechadas que chegavam e chegavam. Cheiros estranhos pareciam saltar delas. O que será que estaria por vir? O humano era bom, ele sempre trazia surpresas para ele. Poderia ser um amigo? Um novo brinquedo grande? Seria aquelas torres de caixas em que Celta poderia saltar, se esconder e passar o dia com elas?

Enquanto eles subiram os degraus, lentamente já que Antares mal conseguia sentir as pernas, conversaram sobre as rotinas dos dois e como iriam combinar tudo no dia seguinte. Antares, na verdade, tinha planejado levar Alhena no bar de manhã e apesentar ela para o irmão e mostrar a vida dele para ela. Era meio perigoso e nem de perto tanto interessante de dia, mas ainda assim, a Augusta tinha seu charme.

Quando os olhos verdes se encontraram e Antares passou a ser uma personagem secundária, Celta comemorou. A outra humana era bonita. Ela lhe fez carinho e lhe falou coisas com uma voz engraçada. Ele rolou de barriga para cima e tentou agarrar a mão dela para morder e arranhar. Antares rapidamente o pegou e o levou para o pequeno escritório – o típico apelido para o que era na verdade o quarto de bagunças – para deixa-lo lá. Nem o escândalo que ele fez no caminho fez com que o humano mudasse de ideia.

— Desculpa, ele se anima e quer morder e arranhar – ele tirava o sapato e deixava ao lado da cômoda na sala, que pela falta de espaço era junto com a cozinha.

— Tudo bem, é coisa de gato. Aposto que não teria machucado tanto de qualquer jeito.

— Você quer comer ou tomar alguma coisa? A gente não tem nada programado para ter que acordar cedo, então podemos ver um filme ou jogar alguma coisa – ele se aproximou dela na bancada, ficando perto de novo.

— Não, por enquanto eu não quero nada não – ela olhou para ele na esperança de que ele avançasse. Porém ele deu dois passos para trás, passou a mão no cabelo e suspirou. Olhou para ela de longe, ainda com a mão na cabeça e sorriu.

— Seus olhos são... sufocantes. Eu não consigo pensar em nada quando eu estou perto de você. Mas daqui de longe, você com essa carinha de tímida, me dá um vontade louca de ir ai e morder suas bochechas e beijar elas depois – ele deu um passo lento e depois outro, até estar na mesma posição de antes – e ir beijando até sua boca.

Ela cobriu o rosto com as mãos. Sentiu o corpo aquecer, não sabia se pela presença dele ou pela simples vergonha. Baixou os dedos para poder espiar com os olhos e ver o rosto dele quase colado no dela. Ele estava levemente agachado para poder olhar diretamente nos olhos dela. As mãos dele seguraram as dela e as colocaram no pescoço dele, de modo que ele pudesse levantar. As mãos dele pararam na cintura dela, como se já conhecessem o caminho e ali pertencessem.

O beijo foi profundo e mais intenso que o primeiro. Durou mais tempo, assim como os seguintes. No final das contas, decidiram por dormir na mesma cama, assim Antares não teria que arrumar o sofá. Ele só teve que levantar da cama durante a noite porque Celta precisava usar a caixinha de areia e não parava de miar. O gato ficara trancado por horas. Tinha dormido a maior parte do tempo, mas também deixara registrado que não havia gostado daquilo.

Antares voltou a se aquecer ao lado do corpo da “amiga”. A madrugada dele começava agora e ele poderia aproveitar a falta de compromissos para passar mais algum tempo descansando. O movimento das pessoas saindo de suas casas não pareceu incomodar os habitantes dorminhocos daquele apartamento. Despreocupados, estavam respirando ritmados até que as batidas sincronizadas do telefone de Alhena tocasse. Celta, que ocupava um pedaço roubado de travesseiro, não se importou em continuar ali enquanto os humanos trocavam as peles e usavam a gigante caixa de areia deles.

O café da manhã, quase no horário de almoço, foi musical. Eles se revezaram para mostrar seus gostos e as músicas que os faziam cantarolar no metrô. Eles divertiram-se sem culpa. Como bons amantes se provocaram e como bons amigos riram. Decidiram o roteiro e o que fazer antes de sair para aproveitar o final de tarde antes do trabalho e da aula. E assim partiram, sem saber o que eram naquela história sem mestre.

Notas finais
Hey! O trocadilho final é porque o jogador de RPG que controla a história é chamado de mestre pelos outros. Eu sei que nem todo mundo joga ou sabe, e mesmo quem joga usa outros nomes, achei melhor deixar claro. Estou conseguindo equilibrar meu tempo então as postagens vão ser mais regulares por enquanto. Te vejo no próximo capítulo, não morra até lá.