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O Mosteiro de São Bento queimava lentamente sob a chuva fina que insistia em cair sobre o centro antigo de São Paulo. Não havia mais explosões. Nem gritos em massa. O caos inicial dera lugar ao tipo mais cruel de silêncio: aquele que surge depois das tragédias, quando sobreviventes começam a compreender o tamanho do que perderam. Parte do telhado havia cedido completamente, expondo vigas negras retorcidas pelo calor enquanto monges, bombeiros e policiais circulavam entre escombros iluminados por refletores improvisados. O odor de madeira carbonizada misturava-se ao incenso ainda impregnado nas pedras centenárias do Mosteiro, criando um perfume estranho entre sagrado e funeral. Lucius permanecia de pé próximo ao antigo púlpito destruído, sentindo a água escorrer pelos cabelos claros e pelo rosto coberto de poeira. O Livro das Origens continuava escondido sob o manto escuro, pressionado contra o peito como um segundo coração. À sua frente, parado entre bancos quebrados e vitrais reduzidos a fragmentos, o Montreal Raziel mantinha a mesma postura calma que o jovem recordava da França anos antes. Alto. Elegante. Os cabelos ruivos caindo até os ombros e o sobretudo branco contrastando violentamente com as ruínas ao redor. Não havia pressa em seus movimentos. Criaturas antigas raramente demonstravam urgência. Seus olhos percorriam o ambiente como alguém retornando a um lugar já visitado em sonhos antigos.

Quando falou, a voz saiu baixa, quase melancólica, e isso perturbou Lucius mais que qualquer ameaça. Raziel sorria ao ver que Lucius deduziu que ele era um Montreal milenar. Comentou que, na França, também observara homens tentando esconder verdades entre paredes religiosas. Disse aquilo como quem recorda uma paisagem antiga. Sem ódio. Sem ironia. Apenas constatação. Lucius sentiu o corpo endurecer imediatamente ao ouvir o nome de Angelique surgir entre frases posteriores. Raziel mencionou a filha morta com a mesma naturalidade usada para citar mudanças climáticas ou guerras esquecidas pela humanidade. Explicou que o amor frequentemente enfraquecia seres destinados a coisas maiores. Afirmou que Angelique escolhera a humanidade e pagara por isso. Raziel a chamara de Montreríade. Era o resultado da relação entre humanos e Montreais. Um híbrido com poderes sobre os elementos. Raziel lamentou, pois Angelique tinha, segundo ele, um grande potencial. O homem à frente de Lucius parabenizou o jovem por descobrir o livro da cigana Margot. Revelou que existiam poucos precognitivos no planeta que ainda sabiam sobre os Montreais, visto que a grande maioria foi expurgada por eles.

Raziel estava em uma missão: encontrar os três livros de Margot e destruí-los antes que as pessoas, especialmente os CelleXtys, descobrissem aquilo que não estavam prontos para divulgar. Lucius tentou responder, mas percebeu algo desconfortável: a raiva diminuía diante daquele homem porque Raziel não parecia acreditar ser cruel. Ele parecia acreditar estar certo. E isso tornava tudo infinitamente pior. Quando o jovem reuniu energia suficiente no braço direito e no olho esquerdo para atacar, sentiu apenas vazio. Não medo. Reconhecimento brutal da diferença entre ambos. Pela primeira vez desde tornar-se o CelleXty Inquisidor, Lucius compreendeu que estava diante de algo que não cabia em categorias conhecidas: nem vampiro, nem mutante, nem entidade fantástica. Raziel percebeu imediatamente. Apenas sorriu discretamente. Um sorriso cansado. Depois olhou para o peito do rapaz, exatamente onde o livro permanecia escondido. E disse numa voz quase paternal que ele ainda não estava preparado para compreender o que carregava.

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A quilômetros dali o Mascarade permanecia iluminado como uma catedral profana abandonada após o fim do mundo. As luzes vermelhas continuavam acesas nos salões principais, refletindo sobre o mármore negro enquanto corredores outrora preenchidos por música e corpos pulsantes agora exibiam apenas sangue recente. A vampira do clã Toreador, Verônica, caminhava alguns passos atrás do pai tentando controlar a própria respiração. O cheiro metálico impregnava tudo. Não era apenas morte. Vampiros reconheciam nuances. Aquilo carregava medo. Um medo tão intenso que permanecera preso aos corpos antes da execução. As cabeças empaladas alinhadas no corredor pareciam observar a dupla passar. Jovens vampiros da Geração Vamp reduzidos a aviso político. Venâncio reconhecia cada rosto. Alguns haviam sido transformados por ele próprio décadas antes. Outros chegaram ao Mascarade procurando abrigo, poder ou simples pertencimento. Agora decoravam o caminho até a antiga sala de reuniões como lanternas grotescas conduzindo peregrinos ao altar. Basarab permanecia sentado quando entraram.

O gigante romeno segurava uma taça de cristal entre dedos longos demais enquanto observava discretamente o fogo da lareira consumir lenha. A criatura parecia antiga além da compreensão comum. Não apenas velha. Antiga. Como construções erguidas antes da linguagem moderna. Verônica foi a primeira a romper o silêncio perguntando quem era aquele homem. O erro tornou-se perceptível imediatamente pela mudança quase imperceptível no olhar do pai. Venâncio abaixou discretamente a cabeça ao chamá-lo de milorde. Basarab reagiu apenas com curiosidade, como um professor diante de criança indisciplinada. Explicou o próprio nome sem orgulho. Basarab da Romênia e com forte sotaque do Sudoeste da Europa. Disse aquilo como se estivesse apresentando uma cidade ou estação ferroviária. Depois comentou que lembrava dos tempos em que vampiros compreendiam o significado da palavra discrição. Falou sobre Portugal, perseguições religiosas e sobre o prazer estranho que mortais desenvolvem quando começam a acreditar controlar monstros antigos. Em nenhum momento elevou a voz. Isso deixava tudo pior. Porque Verônica compreendeu lentamente aquilo que jamais imaginou testemunhar: seu pai, senhor do Mascarade e um dos vampiros mais influentes de São Paulo, estava assustado. Verdadeiramente assustado.

Quando Basarab finalmente se levantou, o ambiente pareceu diminuir ao redor. O casaco pesado de couro e pele de animal arrastou discretamente pelo chão enquanto o medalhão secular em seu pescoço refletia o fogo. O Montreal-vampiro aproximou-se da janela e observou a cidade. Comentou quase para si mesmo que o Brasil se tornara um país interessante. Muitos mutantes. Muito sangue. Pouca vigilância. O vampiro milenar revelou a Venâncio que veio ao país com um objetivo específico: precisava encontrar três livros antigos e destruí-los, pois, continham segredos seculares que ninguém ainda estava pronto para descobrir. Disse que uma velha cigana vinda com a família da Alemanha no século XIX tinha sido a autora de tais obras, uma “mutante Sinti” que podia vislumbrar o passado, alertar sobre o presente e prever eventos futuros. Enquanto Basarab falava, a mente de Venâncio recordava sua recente aventura no Rio de Janeiro, no Complexo de Marambaia. Ao invadir o local, além de encontrar Verônica que há meses estava cativa no Complexo, descobriu um velho manuscrito de um livro antigo. Dentre tantos nomes, contidos, Basarab e os Montreais eram citados*. Ao mencionar os Montreais para Basarab, o vampiro milenar ficou surpreso, mas sabia que eram apenas palavras vazias nos lábios de Venâncio e que não possuía conhecimento suficiente sobre quem ou o que eram.

*Capítulos 14 e 17 de CelleXty Saga Temporada 3


Basarab revelou que os Montreais estavam despertando novamente. A frase caiu no ambiente como sentença. Venâncio não perguntou quem eram. Porque no fundo já sabia que determinadas respostas modificavam para sempre quem as escutava.

No Hospital São Dimas, a madrugada seguia calma pela primeira vez em semanas. Calma demais. Raial começava a desconfiar de períodos prolongados sem tragédias. Sentada próxima à janela do antigo setor administrativo transformado em sala comum, observava a chuva atingir lentamente os prédios do centro paulistano enquanto revisava anotações deixadas por Noah sobre fenômenos registrados após os eventos paranormais envolvendo Antônio e Raul. O hospital parecia finalmente aceitar seus novos moradores. Não houve sirenes antigas naquela semana. Nenhuma manifestação no subsolo. Até mesmo Beatrice desenhava novamente sem preencher folhas inteiras com corredores escuros ou figuras mutiladas. Gregory passava mais tempo dormindo. La’Vern tornara-se estranhamente silencioso. Noah mergulhava nos arquivos do São Dimas tentando compreender “pacientes aberracionais” registrados décadas antes. Tudo parecia caminhar para normalidade improvável. O problema era exatamente esse.

Lucius deveria ter retornado fazia tempo. Inicialmente ninguém questionou sua ausência. O Mosteiro representava refúgio. Um lugar onde o amigo da equipe reorganizava os seus pensamentos após determinados confrontos. Porém semanas transformaram-se em meses. Mensagens deixaram de chegar. Gregory foi o primeiro a mencionar durante o café da manhã que aquilo não parecia natural. Disse num tom baixo que pessoas acostumadas ao sobrenatural aprendiam cedo a reconhecer diferença entre ausência voluntária e desaparecimento. O comentário permaneceu pairando sobre o grupo. Raial tentou racionalizar. Noah permaneceu quieto tempo demais. Beatrice interrompeu o desenho. Naquela manhã, sem motivo aparente, ela havia desenhado um homem muito alto usando roupas brancas diante de uma igreja destruída. Ninguém comentou. Porque no São Dimas certas coincidências deixavam de parecer coincidências rapidamente. Do lado de fora, o ano 2001 começava discretamente. Carros enchiam avenidas. Pessoas trabalhavam. Crianças voltavam às escolas. O mundo seguia igual. Era exatamente isso que tornava tudo mais perigoso. Porque os Montreais voltavam a caminhar entre humanos. E ninguém além de poucos sobreviventes percebia.

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RS / PASSO FUNDO*


*Acompanhe as aventuras completas dos mutantes no Sul do país em

“CelleXty Saga – Nova Geração”



A chuva retornara ao norte do Rio Grande do Sul pouco depois da meia-noite, descendo sobre a cidade de Passo Fundo num ritmo contínuo e silencioso que transformava telhados, fios elétricos e árvores antigas em vultos borrados pela escuridão. Diferente das tempestades violentas do verão gaúcho, aquela parecia paciente. Caía devagar, persistente, como se pretendesse permanecer durante dias inteiros sobre a cidade. A antiga mansão próxima ao Bosque Lucas Araújo permanecia parcialmente iluminada. Algumas janelas do segundo andar ainda exibiam luz amarelada atravessando cortinas grossas enquanto o restante da residência mergulhava numa penumbra confortável, quase doméstica. Pela primeira vez desde Cambará do Sul, os jovens mutantes dormiam sob um teto relativamente seguro. Emerson roncava no quarto com a mesma intensidade que demonstrava em combate. Francisco alternava entre pesadelos e despertares bruscos, ainda revivendo os sons da BierSite desmoronando. Kaila lia à luz fraca de um abajur enquanto treinava discretamente exercícios respiratórios para controlar a própria voz. Mika permanecia acordada diante de um computador antigo tentando encontrar notícias sobre Carazinho e sobre a estranha mulher que aparecera em seus sonhos dias antes. Kostya fingia dormir, mas continuava observando a chuva pela janela do quarto, incapaz de abandonar completamente a ideia de que Melissa ainda pudesse ser salva.

A mansão respirava pela primeira vez como um lar improvisado. Apenas Basco permanecia do lado de fora. Sentado sozinho na sacada do segundo andar, segurava uma cuia de chimarrão já fria enquanto observava as luzes distantes da cidade. O peso da liderança tornara-se algo diferente desde a partida de Folkhen para o Rio de Janeiro. Antes ele sobrevivia. Agora precisava decidir. Precisava proteger. Precisava voltar com todos vivos. E naquele momento o pensamento retornava repetidamente ao mesmo nome: Málaca. Três dias sem pistas. Três dias sem vestígios. O silêncio em torno do desaparecimento da jovem indígena começava a parecer errado, porque homens como Arleqquin raramente sequestravam alguém apenas para desaparecer depois. Havia propósito naquilo. Sempre havia.

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O vento mudou subitamente de direção trazendo cheiro de terra molhada misturado com algo mais antigo, difícil de reconhecer. Couro queimado. Fumaça. Sangue seco. Basco franziu o cenho antes mesmo de compreender o motivo do desconforto, e então aconteceu. Não houve clarão. Nem figura surgindo diante dele. Apenas uma alteração discreta no reflexo da janela atrás de si. Como se o vidro, por um segundo, tivesse deixado de refletir o presente. O mutante virou o rosto imediatamente. O quarto estava vazio. Ainda assim uma voz surgiu. Baixa demais. Distante demais. Uma voz atravessando camadas de água profunda e chegando deformada até seus ouvidos. Irmão… A cuia escapou involuntariamente dos dedos de Basco e atingiu o assoalho espalhando erva e água quente. O corpo inteiro endureceu. Conheceria aquela voz em qualquer lugar. Mesmo depois do Limbo. Mesmo após anos. Mesmo depois da morte. Igon.

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O nome surgiu antes do pensamento racional. A respiração tornou-se pesada quando o sussurro retornou, agora acompanhado de algo pior que palavras. Imagens. Raízes negras atravessando pedra. Uma mulher inconsciente envolta em névoa. Longos cabelos espalhados sobre o chão como serpentes adormecidas. Althy. O olho esquerdo dela abrindo lentamente depois anos. Um símbolo circular cortado por três linhas verticais surgindo repetidamente sobre paredes antigas, árvores e corpos. O mesmo símbolo. Do Véu. Do São Dimas. Dos livros. Do Mosteiro que Basco sequer imaginava ter sido destruído semanas antes. As imagens cessaram tão abruptamente quanto surgiram deixando apenas frio. Um frio absurdo para janeiro. O vento morreu. A chuva continuou. E foi então que ele percebeu algo parado entre as árvores do bosque atrás da mansão. Uma coruja. Grande demais. Imóvel demais. Os olhos refletiam luz amarelada da varanda como brasas vivas observando diretamente em sua direção. O animal não piscava. Não inclinava a cabeça. Apenas permanecia ali, consciente, quase humana. Basco sustentou o olhar durante alguns segundos antes de sentir algo raro, algo que evitava admitir até para si mesmo desde os tempos das lutas contra a Gangue Fantasma: medo verdadeiro. Porque compreendeu naquele instante que o desaparecimento de Málaca talvez não tivesse relação apenas com Arleqquin, Melissa ou a bruxa Nicácia. Talvez houvesse forças muito mais antigas começando a mover peças no sul do país. E pela primeira vez desde que assumiu a guarda dos jovens mutantes gaúchos, Basco teve certeza de outra coisa: o ano de 2001 começara errado.


Continua...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.