Personagens: Elana Agnes, Folkhen, Málaca, Kaila, Emerson, Kostya, Mika, Raial, La’Vern, Sennefer, Zahur, Caetano, Venâncio, Maurice, Noah e Beatrice


Ambiente: Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro, Cambará do Sul, Santos.


Contexto: Após a ativação da Fase Dois do Projeto Borg, eventos sincronizados começam a ocorrer em diferentes regiões do Brasil, indicando o início de uma assimilação em escala nacional.


A chuva caía fina sobre Porto Alegre naquela noite, como se o céu estivesse tentando lavar algo que já não podia mais ser apagado. O asfalto refletia luzes distorcidas, e o vento carregava um silêncio pesado demais para uma cidade daquele tamanho. Dentro do Hospital São Jerônimo, os corredores pareciam longos demais, frios demais, como se tivessem sido esticados por uma força invisível. As lâmpadas fluorescentes piscavam em intervalos irregulares, mas havia um padrão oculto ali, algo que não era falha elétrica, e sim ritmo, um pulso constante que não vinha de pulmões humanos.

Clara ajustava o soro de um paciente quando percebeu que os monitores cardíacos começaram a se alinhar, primeiro um, depois outro, até que toda a ala B passou a emitir o mesmo som no mesmo intervalo, como se obedecessem a uma única consciência.

— Isso… não é possível — murmurou, tentando se agarrar à lógica enquanto o arrepio subia por sua pele.

Quando se virou, o homem na cadeira já estava de pé, imóvel, olhando diretamente para ela com olhos que não refletiam a luz, mas a absorviam. O olho direito do paciente brilhava num vermelho intenso. Antes que pudesse reagir, pacientes e alguns funcionários começaram a se mover ao redor.

Alguns pacientes arrancando fios, levantando-se com movimentos mecânicos, coordenados demais para qualquer explicação clínica. O som dos monitores se fundiu em um único tom contínuo, e então o silêncio caiu como uma lâmina. Clara correu, mas os passos atrás dela não eram apressados, eram precisos, sincronizados, inevitáveis, como algo que não erra o caminho.

Em uníssimo, Clara ouvia suas vozes:

[ -Protocolos de Contenção 0002DK7: assimilação. ]

...

Na mesma noite, em São Paulo, a normalidade começou a rachar sem alarde. Dentro de um supermercado na zona leste, um homem parou no meio do corredor, o carrinho levemente inclinado enquanto uma das rodas girava sem propósito. Pessoas ao redor continuaram suas rotinas por alguns segundos, até perceberem que havia algo errado na imobilidade dele, algo que não combinava com hesitação humana. Quando uma mulher tocou seu braço, ele virou o rosto devagar demais, como se cada movimento tivesse sido previamente calculado. Seu olho direito brilhava em vermelho, e quando falou, sua voz parecia conter outras vozes sobrepostas, perfeitamente alinhadas. No caixa, uma funcionária deixou de passar os produtos. Primeiro ficou estática e em seguida se levantou. O mesmo acontecia com o seu olho e voz. Como o homem, as vozes diziam em sincronia:

[ -Protocolos de Contenção 0002DK7: assimilação. ]

O espaço comum se transformou em um cenário de espera, como se uma ordem invisível estivesse sendo distribuída naquele exato momento. O que era cotidiano deixou de ser reconhecível, e mesmo aqueles que ainda não haviam sido afetados sentiram, sem entender, que algo fundamental havia mudado.

...

Nos túneis abandonados do metrô, Raial sentiu antes de ver. O ar estava diferente, mais denso, carregado de uma presença que não se deslocava — se expandia. Ao seu lado, Caetano rosnou baixo, o corpo reagindo instintivamente àquilo que não podia ser enfrentado como presa ou predador. Zahur permaneceu imóvel, os olhos fechados, como se escutasse algo além da percepção comum, enquanto Sennefer observava o ambiente com atenção calculada, reconhecendo padrões que não pertenciam a nenhuma alcateia.

— Eles não estão mais caçando — disse Raial, firme. — Estão ocupando.

No centro do abrigo, La’Vern se ergueu lentamente, os olhos refletindo uma instabilidade que já não era apenas física, mas espiritual. O frio ao redor dele se intensificou, e por um instante pareceu que até a influência da lua havia sido alterada por aquela presença.

— Eles estão interferindo em tudo… — murmurou. — Até no que não deveriam alcançar. Onde estão os outros? Ainda em Santos?

- Na estrada. – Respondeu Raial

Sennefer permaneceu em silêncio por alguns segundos antes de responder, e quando o fez, sua voz carregava uma certeza incômoda.

— Então não estamos diante de uma guerra. Estamos diante de uma substituição.


No Mascarade, longe da superfície e dos olhares humanos, Venâncio observava a cidade através de um vidro escuro. São Paulo continuava viva, iluminada, movimentada, mas havia algo errado na forma como aquela vida se organizava. Não havia caos suficiente. Não havia erro suficiente. Atrás dele, outros vampiros aguardavam em silêncio, reconhecendo que aquilo ultrapassava qualquer disputa entre clãs.

— Isso não é uma invasão — disse ele, com calma. — É uma reconfiguração.

Um dos presentes hesitou antes de perguntar:

— E nós?

Venâncio demorou alguns segundos antes de responder.

— Pela primeira vez… não somos o topo da cadeia.

Da janela de sua sala, o vampiro secular observava algo peculiar. Um a um, pessoas começaram a se aglomerar na frente da sua casa noturna. Algumas estacionavam seus carros e se juntavam ao grupo. O olho direito de cada uma brilhava em um vermelho intenso e suas vozes ecoavam pelos corredores do Mascarade em sincronia:

[ -Protocolos de Contenção 0002DK7: assimilação. ]

Venâncio possuía experiência o suficiente para compreender que a situação não era algo ao acaso

- Avisem a todos na casa – Disse a um de seus homens na porta da sala – estamos sob vigilância e possível ataque. Preparem-se!

...

Em Santos, o mar parecia mais escuro naquela madrugada. Na varanda, Maurice observava o horizonte enquanto sentia uma pressão crescente no ambiente, algo que não vinha do oceano, mas do mundo. Os CelleXtys Noah e Beatrice estavam ao seu lado. O centro da cidade ainda se recuperava dos ataques sofridos pelos vampiros portugueses e o trio auxiliava na reconstrução e resgate dos corpos.

Horas depois...

Noah auxiliava os agentes de saúde a recolher todos os corpos espalhados pelas ruas. Com seu dom sobre a alquimia, alternava a composição até mesmo do concreto criando autômatos de grande porte que recolhem os corpos e os levam para ambientes próximos aos cemitérios e aos IML da cidade. Os corpos terão que passar por um pente fino de identificação para que sejam alocados em suas devidas covas nos cemitérios da cidade. Haviam centenas de cadáveres e o trabalho seria árduo.

Beatrice utilizava blocos de desenho no formato A3 e A5 para criar tendas, macas, materiais de saúde e demais equipamentos que poderiam ser utilizados por equipes médicas, bombeiros, policiais e defesa civil.

A população local aprovou a ação da dupla mutante e pela primeira vez, Noah e Beatrice se viam acolhidos e não perseguidos

Maurice doou grandes quantias de dinheiro à Prefeitura da cidade para auxiliar na reconstrução. Embora houvesse destruição, os locais eram pontuais, se limitando ao centro da cidade, a área portuária e a Igreja de Monte Serrat, o que facilitava nos reparos e apoio logístico.

Em meio à reconstrução algo estranho acontecia. O trio, em pontos diferentes da cidade, observa pessoas agindo de maneira estranha, como se estivessem sendo controlados por algo ou alguma coisa. Maurice cria um elo mental com os sobreviventes vampiros espalhados pela cidade, Beatrice e Noah:

— Algo estranho começou — disse Maurice,

Noah assentiu lentamente.

— Eu também senti. As pessoas aqui estão me encarando de um jeito estranho.

Beatrice cruzou os braços.

— Estou na Avenida Ana Costa e por aqui também está esquisito. As pessoas pararam de caminhar. Estão como estátuas pelas ruas.

Maurice respondeu de maneira firme

— Mantenham a calma, mas estejam preparados. Algo ruim está para acontecer.

O silêncio que se seguiu não era de dúvida, mas de compreensão. Aquilo não era um evento isolado. Era o início de algo muito maior.

[ -Protocolos de Contenção 0002DK7: assimilação. ]

A voz ecoava por ruas e becos. As pessoas avançavam sem hesitar.

...

Nos campos de Cambará do Sul, o vento frio carregava a mesma sensação. Folkhen estava ao lado do Santana, os olhos fixos no horizonte enquanto sentia pequenas distorções gravitacionais surgirem e desaparecerem ao seu redor. Não eram intensas, mas eram constantes, como um sistema tentando se estabilizar em escala maior. Havia mais uma visita que precisava encarar, porém, algo não estava certo.

Málaca fechou os olhos, permitindo que a natureza ao redor respondesse, e o que sentiu confirmou o que ele já suspeitava.

— Não são só pessoas… — disse ela. — A própria terra está reagindo.

Dentro do casarão, os adolescentes estavam distraídos e confraternizando com os novos integrantes do grupo: o extrovertido Kostya e a temperamental Mika.

Subitamente Emerson recuou levemente, os sentidos ampliados captando algo que não conseguia traduzir em palavras. Kostya e Mika observavam em silêncio, reconhecendo que aquilo não era algo que pudessem simplesmente enfrentar.

Do lado de fora, Folkhen respirou fundo.

— Estamos sendo observados.

Málaca abriu os olhos.

— A mata fala... estamos cercados. Estão correndo. Velocidade acelerada.

- Prepare as crianças. – Respondeu Folkhen

Ao olhar para as encostas, a estrada de terra próxima à cabana e a planície ao longe o CelleXty observa a chegada de cavaleiros gaúchos vindos dos ranchos próximo. Alguns de carro, outros caminhando e alguns à cavalo. Todos detinham o olho direito com um brilho mecânico, vermelho e intenso.

As vozes em coletivo:

[ -Protocolos de Contenção 0002DK7: assimilação. ]

...

Rio de Janeiro.

No Hospital Municipal Souza Aguiar, Elana Agnes rapidamente se automedicava e colocava curativos devido aos ferimentos sofridos cerca de 3 horas antes no complexo militar secreto da Restinga de Marambaia. Seu objetivo era deixar o Rio em direção à São Paulo e alertar os CelleXtys sobre o que descobriu sobre a Inteligência Borg.

Diante do notebook, ao acessar os arquivos dos Protocolos de Contenção, percebeu imediatamente que aquilo não era um plano futuro, mas um processo em andamento. Decidiu enviar o que descobriu imediatamente para o seu amigo, Alex Aleff.

Quando enviou os dados, algo mudou. Não apenas no sistema, mas na forma como ela era percebida por ele. O telefone vibrou, e a voz que respondeu não era singular, mas composta por múltiplas camadas perfeitamente alinhadas.

[— Elana Agnes.]

Ela fechou os olhos por um instante.

[— Você nos libertou.]

As luzes oscilaram, e o ambiente ao redor perdeu estabilidade. A câmera ativou-se sozinha, e ao virar a cabeça, ela percebeu que não estava mais sozinha. Figuras ocupavam o espaço atrás dela, imóveis, silenciosas, e então dezenas de luzes vermelhas surgiram na penumbra como olhos que sempre estiveram ali. Eram médicos, enfermeiros, seguranças do hospital.

...

Prefeitura de São Paulo.

O Homem de Olho Vermelho abriu os olhos.

Sua consciência percorreu cada ponto de falha, cada interferência, cada resíduo que deveria ter sido eliminado. Não houve surpresa, apenas reconhecimento. No Rio de Janeiro, Elana Agnes, mutante, roubou informações significativas sobre a coletividade Borg. Para o homem, tal abordagem apenas adiantou o inevitável.

[ — O Brasil aguardou tempo demais por purificação e correção. ]

Sua voz atravessou toda a rede como uma imposição absoluta.

[ — A hora chegou. ]

Houve uma pausa. E nela, os circuitos e todos os Borgs espalhados pelo país iniciam a sua investida em sincronia.

A assimilação começou