Personagens centrais: Margot, Rosália, Lindalva, Wladimir, Artemio, Sandro, Selina

Ambiente: Sabará e arredores — década de 1950; deslocamentos pelo interior do Brasil (1950–1984)

Contexto: Pós-Estado Novo, tensões políticas pré-ditadura, presença cigana (calon e sinti), tradição religiosa e práticas populares, emergência silenciosa de indivíduos mutantes

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Entre as décadas de 1950 e 1959, Sabará, na região metropolitana de Belo Horizonte, vivia um tempo de transição silenciosa. A antiga cidade do ouro, já distante de seu auge colonial, mantinha um ritmo próprio, sustentado pela convivência entre tradição e mudança. Suas ruas de pedra, igrejas barrocas e casarões antigos preservavam uma identidade histórica profunda, enquanto a proximidade com a capital começava a redesenhar, de forma lenta, suas dinâmicas sociais e econômicas, como se o passado ainda resistisse a ceder completamente espaço ao presente.

Politicamente, o período refletia uma estabilidade apenas aparente, inserida nas tensões maiores do Brasil pós-Estado Novo. As lideranças locais orbitavam entre práticas tradicionais de poder, sustentadas por famílias influentes e redes de favores, e uma modernização administrativa ainda incipiente. A política raramente se manifestava de forma direta no cotidiano popular; ela existia nos bastidores, moldando decisões silenciosamente, como uma força que organiza sem se mostrar.

Culturalmente, Sabará permanecia profundamente ligada às suas raízes. Festas religiosas, procissões e celebrações comunitárias organizavam o calendário social, enquanto a religiosidade católica moldava comportamentos e hierarquias. As igrejas não eram apenas espaços de fé, mas centros de encontro e pertencimento. Ao lado disso, práticas populares — benzimentos, rezas, curas informais — coexistiam com naturalidade, compondo um universo simbólico onde o visível e o invisível nunca estiveram completamente separados.

Foi nesse cenário que, em meados da década de 1950, um pequeno grupo cigano calon chegou à cidade.

Instalaram-se em uma área periférica, às margens de uma estrada de terra que ligava Sabará a povoados vizinhos, organizando cerca de nove grandes barracas em semicírculo, com uma fogueira central que, à noite, iluminava o espaço e estruturava a convivência. O grupo era composto por oito mulheres entre 18 e 70 anos, quinze homens de 18 a 56, doze crianças pequenas e seis adolescentes. Sua presença rapidamente se tornou impossível de ignorar.

Vieram, como tantos outros grupos calon daquele período, em busca de sustento por meio do comércio ambulante, da negociação de animais e da prestação de pequenos serviços. Os homens percorriam a cidade oferecendo utensílios, consertos e barganhas; as mulheres praticavam a buena dicha, além de vender objetos e estabelecer contatos com moradores. A recepção foi ambígua desde o início: curiosidade e desconfiança caminharam juntas. As crianças observavam de longe, fascinadas, enquanto os adultos mantinham uma cautela silenciosa, alimentada por comentários que oscilavam entre o medo e o fascínio.

Não houve confronto direto, mas também não houve integração. Como em tantas outras cidades brasileiras, os ciganos ocupavam um espaço liminar: tolerados, observados, mas nunca plenamente aceitos.

Nesse mesmo período, destacava-se em Sabará uma figura envolta em aura quase lendária: dona Margot.

Ninguém sabia ao certo sua idade, mas estimava-se que tivesse por volta de oitenta anos. Para os moradores, era uma benzedeira — amável, sempre disponível, conhecida por suas palavras suaves e olhar atento. Muitos recorriam a ela em busca de cura, conselho ou alívio espiritual. Alguns lembravam vagamente de sua chegada à cidade ainda criança, por volta de 1882, acompanhada dos pais, trazendo consigo um forte sotaque alemão.

O que ninguém imaginava — ou sequer suspeitava — era que sua família era de origem cigana, pertencente ao grupo Sinti.

Na Alemanha do século XIX, especialmente durante a formação do Império Alemão sob Otto von Bismarck, populações ciganas como Sinti e Roma eram alvo de vigilância e estigmatização. Rotulados como “vadios” ou “antissociais”, eram considerados indesejáveis à ordem social, mesmo em um contexto político mais amplo. Foi nesse cenário que a família de Margot decidiu fugir, assumindo identidades alemãs e embarcando para o Brasil junto a outros imigrantes.

Em Sabará, reconstruíram a vida com discrição. O pai abriu uma sapataria; a mãe tornou-se lavadeira. Integraram-se à comunidade ocultando suas origens. Mas o segredo mais difícil de esconder não era a identidade.

Era Margot.

Aos treze anos, começaram as visões. Fragmentos de acontecimentos futuros surgiam sem aviso, intensos o suficiente para alterar sua percepção do mundo. A família, incapaz de compreender plenamente, escolheu proteger o dom com silêncio. Com o tempo, tornou-se mais fácil esconder a origem cigana do que explicar aquilo que Margot era capaz de ver.

Ao longo das décadas, ela transformou esse dom em prática. Suas visões passaram a ser interpretadas como sensibilidade espiritual, consolidando sua imagem como benzedeira. Assim, Margot permaneceu integrada à cidade — visível em sua função, invisível em sua verdade.

Quando completou sessenta anos, no entanto, suas visões mudaram.

Tornaram-se densas, sombrias e recorrentes. Passou a relatar imagens relacionadas a indivíduos como ela — ainda sem nome, ainda sem linguagem — mas que, no futuro, seriam reconhecidos como mutantes. Diante disso, decidiu registrar tudo, organizando seus escritos em três conjuntos: o Livro das Origens, o Livro dos Caminhos e o Livro das Virtudes Finais.

Enquanto Sabará seguia o seu destino como uma cidade relativamente pacata, uma velha benzedeira registrava, em silêncio, fragmentos de um futuro que ninguém mais podia ver.

Dois mundos coexistiam ali.

E nenhum deles estava preparado para o outro.

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O encontro entre a cigana Sinti e os Calon ocorreu através de Rosália e Lindalva.

Rosália, de presença firme, vivia com seu marido Wladimir e o pequeno Sandro, ainda dando seus primeiros passos no acampamento. Lindalva, mais jovem, aguardava o nascimento de seu primeiro filho ao lado de Artemio, carregando consigo uma ansiedade que só se revelava nos momentos de silêncio.

A aproximação com Margot começou de forma tímida, motivada por rumores. A primeira visita foi breve. As seguintes, inevitáveis.

Margot as recebeu com hospitalidade e um olhar que parecia atravessar o tempo. O vínculo se formou rapidamente. Rosália e Lindalva passaram a frequentar sua casa com regularidade, levando inquietações e histórias. Margot encontrou nelas algo raro: reconhecimento.

Entre os calon, sua presença não causava estranhamento. Era compreendida.

Foi em uma dessas visitas que Margot falou sobre o futuro.

Que aquela menina e Sandro, o filho de Rosália, estavam ligados por um destino que ultrapassava o presente. Seriam, segundo suas palavras, um casal abençoado. Mas a visão não terminava ali. Margot hesitou — algo raro — antes de completar: de sua linhagem nasceria alguém marcado por uma jornada difícil, atravessada por escolhas profundas, capaz de conduzi-lo àquilo que há de mais luminoso… ou de mais sombrio.

As palavras permaneceram no ar.

E, com o tempo, passaram a inquietar.

Um acidente fatal na cidade — repentino e brutal — foi associado às suas previsões. A admiração deu lugar à desconfiança. A proximidade com os ciganos reforçou antigos preconceitos. A revelação de sua origem tornou-se o estopim.

Margot foi denunciada como charlatã.

O contexto político do período, já tensionado e caminhando para o endurecimento que marcaria os anos seguintes da Ditadura Militar no Brasil, favorecia esse tipo de ação. Figuras consideradas “desviantes”, “suspeitas” ou simplesmente incompreendidas tornavam-se alvos fáceis de vigilância e repressão, mesmo antes do regime se consolidar plenamente.

Margot compreendeu rapidamente o que estava por vir. Mais do que por si mesma, temeu por seus escritos. Os locais e muito menos a polícia estavam preparados para ler aquelas linhas, por vezes, amargas.

Reuniu Wladimir e Artemio em sua casa, em um encontro marcado por urgência e silêncio. Entregou a eles suas crônicas — fruto de décadas de visões e registros — e pediu que fossem divididas em três partes. Indicou, com precisão, onde cada uma deveria ser escondida.

Não era apenas um pedido. Era uma última tentativa de garantir que aquilo que vira não fosse perdido — ou pior, deturpado. O momento daquelas páginas serem reveladas chegaria, mas não naquele momento.

Poucos dias depois, o acampamento deixou Sabará.

A partida foi discreta, como havia sido sua chegada. Nove barracas desmontadas, rastros apagados, vozes que se afastavam lentamente pela estrada.

Margot permaneceu. Sozinha.

Antes do fim, escreveu uma última página — uma que jamais integrou os três livros. Nela, não falava de outros. Falava de si.

Descreveu, com a mesma clareza de suas visões, o próprio fim que ocorreria 3 dias depois: em sua casa, cercada por gritos, por medo transformado em fúria. Vizinhos que antes buscavam suas mãos agora empunhavam paus em chamas.

O fogo consumia tudo ao redor. Mas não seus livros. Porque, como ela mesma registrou, havia coisas que nem o medo, nem o ódio, nem o tempo poderiam alcançar.

E assim, em silêncio e em chamas, Margot desapareceu — deixando para trás não apenas uma memória fragmentada, mas vestígios de um futuro que ainda insistiria em acontecer.

A partida do acampamento calon de Sabará não foi marcada por despedidas, mas por silêncio. Como se todos soubessem, ainda que sem dizer, que algo havia sido deixado para trás — não apenas um lugar, mas um fragmento de destino.

Wladimir e Artemio não demoraram a cumprir a promessa feita a Margot.

Seguindo com precisão as orientações da velha benzedeira, dividiram os escritos em três partes. Cada conjunto foi escondido em um local distinto, escolhido não ao acaso, mas segundo critérios que eles próprios não compreendiam totalmente. Havia ali uma lógica que escapava ao presente — uma geografia do futuro, talvez.

Enterraram, ocultaram, selaram.

E seguiram.

No fundo, ambos compartilhavam o mesmo desejo silencioso: que aqueles papéis jamais fossem encontrados. Que permanecessem esquecidos, como se nunca tivessem existido.

Mas o tempo, como Margot bem sabia, não obedece aos desejos humanos.

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Meses depois, já distantes de Sabará, a vida seguiu seu curso entre estradas, paradas e recomeços. Foi nesse movimento constante que Lindalva deu à luz.

A criança nasceu saudável, forte — uma menina.

Deram-lhe o nome de Selina.

Havia nela algo que chamava atenção desde cedo. Não apenas pela beleza, mas por uma presença difícil de explicar. Como se carregasse, ainda que inconscientemente, ecos de algo maior.

O grupo celebrou.

E, entre eles, o líder do acampamento tomou uma decisão que não causou estranhamento. Selou, ainda na infância, a união entre Selina e Sandro — o filho de Rosália e Wladimir.

Para os de fora, aquilo poderia parecer incompreensível. Para eles, era tradição, continuidade, destino.

As palavras de Margot, mesmo não repetidas, ainda habitavam a memória de alguns.

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Os anos passaram.

A infância deu lugar à juventude, e a juventude à vida adulta. Sandro e Selina cresceram juntos, como duas linhas que nunca se afastaram completamente. O vínculo, antes simbólico, tornou-se real.

Casaram-se. E, com o tempo, tiveram filhos. Cada um deles carregava algo da história de seus pais — da estrada, da resistência, daquilo que não se diz, mas se transmite. Mas foi o primeiro que trouxe consigo algo diferente.

Nascido em 1984. Emerson. Desde cedo, havia sinais.

Pequenos, quase imperceptíveis no início. Sensações fora de lugar. Intuições que não pertenciam à sua idade. Momentos em que parecia ver — ou sentir — além do que estava diante de si. Com o tempo, os sinais deixaram de ser sutis.

E aquilo que Margot um dia previra, sem jamais conhecer o menino, começava a se manifestar. Emerson não era apenas herdeiro de uma linhagem. Ele era o ponto de encontro entre caminhos antigos — entre o que foi escondido, o que foi temido e o que ainda estava por vir.

Emerson era mutante.

E, como nas palavras da velha benzedeira, carregava dentro de si a possibilidade de dois destinos. Tornar-se aquilo que enfrentaria a escuridão.

Ou aquilo que a conduziria ainda mais longe.