CelleXty Saga - Temporada II
14 Os mortos também falam

Personagens em destaque: Alex, Folkhen, Raial, La’Vern, Malaca, Noah, Beatrice, Lucius, Basco, Gregory, Simeão, Tempestade, Acordador, Ivan, Isabelle, Gerson, Lídia, Carcará.
As noites na grande São Paulo, especialmente na cidade de Osasco, tornavam-se progressivamente mais frias e sombrias, como se o próprio inverno tivesse decidido permanecer além do que a natureza permitiria. Meteorologistas, universidades e institutos de pesquisa tentavam compreender o fenômeno que transformava o clima do estado em algo completamente fora dos padrões históricos. Desde o início das medições climáticas no século XIX jamais se registrara algo semelhante na região metropolitana paulista. A população, inicialmente fascinada com o espetáculo incomum, começava a perceber que havia algo profundamente errado naquele frio persistente, pois não se tratava apenas de temperaturas baixas, mas de uma sensação opressiva no ar — quase sobrenatural. No entanto, apenas alguns poucos grupos seletos conheciam a verdade por trás daquele inverno anômalo. Entre eles estavam os CelleXtys, que já compreendiam que forças antigas, vindas de outros tempos e lugares, estavam começando a agir novamente no Brasil.
Naquela noite, Alex e Folkhen — os atuais líderes operacionais dos CelleXtys — percorriam um dos setores mais profundos e esquecidos dos túneis do metrô paulista. O lugar não aparecia em nenhum mapa público e sequer era utilizado pela administração da companhia havia anos. A estrutura subterrânea havia sido originalmente construída durante a expansão da malha metroviária nos anos 1980, mas acabou abandonada após mudanças no planejamento urbano da capital. Com o tempo, os CelleXtys haviam adaptado algumas dessas estruturas para uso próprio, criando celas de contenção destinadas a indivíduos perigosos ou ameaças sobrenaturais que exigiam isolamento absoluto. Agora, contudo, uma dessas celas voltava a ser utilizada após muitos anos de abandono.
Raial caminhava logo atrás dos dois, com passos firmes e olhar atento. A mutante lunar parecia saber exatamente para onde estavam indo, como se pudesse sentir algo no ar. Quando finalmente chegaram ao corredor principal das antigas celas, uma luz azulada de campo de força iluminava o ambiente metálico e silencioso. Dentro da cela, sentado no chão com as costas apoiadas na parede, estava um jovem que Folkhen reconheceu imediatamente.
O líder gaúcho parou abruptamente.
— La’Vern? O que ele faz ali, Alex? — Perguntou com evidente surpresa.
Alex cruzou os braços e observou o rapaz através da barreira energética antes de responder.
— O rapaz foi atacado por um lycan em nosso último embate com a alcateia.
Folkhen franziu o cenho, assimilando lentamente a gravidade da situação.
— Quer dizer então que ele agora é um...
— Ainda não, mas em breve La’Vern será um novo lycan, respondeu Raial antes que Alex pudesse completar. Sua voz era calma, porém carregada de preocupação. — A energia lunar, mesmo estando a quilômetros acima da superfície, exerce influência direta sobre ele. Eu consigo sentir isso claramente, completou.
Alex, caminha lentamente diante da cela.
— Ele já apresenta todos os sintomas licantropos. Raiva involuntária, descontrole emocional, alterações físicas e comportamentais. Assim que percebeu o ferimento e começou a sentir as mudanças, ele mesmo pediu para ser colocado aqui. Preferiu se isolar antes que algo pior acontecesse.
Folkhen passou a mão pelo rosto, visivelmente tenso.
— Imagine um mutante com os poderes dele somados ao instinto animal de um lycan… descontrolado… andando pelas ruas da cidade.
Alex assentiu.
— Essa cela possui um dos campos de força mais potentes que já construímos. É o único lugar seguro para ele e para nós por enquanto.
O silêncio que se seguiu carregava o peso de muitas perdas recentes.
— O que podemos fazer? — Perguntou Folkhen.
Alex respirou fundo antes de responder.
— Ainda não sabemos. Em humanos a transformação costuma ser quase imediata. Em mutantes parece ser diferente. Talvez mais lenta… ou mais instável. Estamos lidando com algo completamente novo.
Raial acrescentou:
— Também não tínhamos registros de lobisomens ativos em São Paulo há séculos. E esses lycans que enfrentamos nem sequer pertencem ao nosso tempo. Foram trazidos para cá… arrancados de outro período da história.
Folkhen cerrou os dentes.
— Sphinx. Foi aquele maldito que trouxe esse bando de “guaipecas” para o nosso mundo.
Alex suspirou profundamente.
— E agora somos nós que precisamos lidar com a sujeira. A equipe já está fragilizada demais depois de tudo o que aconteceu… e ainda temos esses vampiros portugueses querendo brincar no nosso quintal.
Raial colocou a mão no ombro de Alex.
— Vamos dar um jeito, amigo. Eu fico aqui e cuido do La’Vern. Talvez meus poderes lunares possam ajudar a estabilizar a transformação. Vá falar com a equipe. Eles precisam saber a verdade.
Sexta-feira.
Uma nevasca sem precedentes cobria a região de Osasco. A cidade, fundada no final do século XIX a partir de um núcleo industrial ligado à expansão ferroviária paulista, jamais havia testemunhado algo semelhante em toda a sua história. Ruas, praças, avenidas e terminais de ônibus desapareciam lentamente sob um espesso manto branco. No início, moradores encaravam o fenômeno com entusiasmo quase infantil. Fotos, vídeos e brincadeiras na neve se espalhavam pelas redes de televisão e rádios locais. Porém, conforme as horas avançavam e o frio se tornava cada vez mais intenso, o cenário começou a mudar. Relatos de pessoas congeladas surgiam em hospitais e delegacias, e a Defesa Civil e o exército começavam a mobilizar equipes para lidar com uma situação que simplesmente não possuía precedentes no estado de São Paulo.
Foi nesse cenário que os CelleXtys chegaram à Avenida dos Autonomistas.
Alex liderava o grupo composto por Folkhen, Malaca, Noah, Beatrice, Lucius, Basco e Gregory. Ao mesmo tempo, ocultos nas sombras e telhados da cidade, membros da Geração Vamp seguiam cada passo da equipe, liderados por Simeão. O líder dos Caitiff sabia que aquela noite poderia decidir muito mais do que apenas um confronto isolado.
Conforme avançavam pela avenida, o vento aumentava brutalmente. Subitamente uma rajada colossal atingiu o grupo. Carros estacionados começaram a deslizar sobre o asfalto congelado e placas metálicas se desprendiam de postes e outdoors. Noah avançou imediatamente para a frente da equipe, assumindo postura defensiva. Unindo as mãos, ele tocou o asfalto com firmeza e ativou sua habilidade de transmutação molecular. Em poucos segundos, parte da própria avenida ergueu-se como uma gigantesca concha de concreto, formando uma barreira protetora ao redor dos CelleXtys.
Do outro lado da Autonomistas, um grande outdoor desprendia-se de sua estrutura e caía em direção a um grupo de civis aterrorizados.
Folkhen estende os braços em direção do grupo e com sua gravitocinese os faz levitar até um local seguro. Os corpos começaram a levitar lentamente até uma área segura, enquanto Lucius disparava uma rajada psiônica que despedaçou a estrutura metálica antes que atingisse o chão. Foi então que Alex percebeu. Eles não estavam mais sozinhos.
Duas figuras surgiam no meio da avenida, caminhando através da chuva e do vento como se os elementos obedecessem às suas vontades. Um homem negro de olhar feroz, envolto por relâmpagos e ventanias, e um vampiro de baixa estatura, com voz rouca e fúnebre que parecia sussurrar diretamente aos mortos.
Gregory foi o primeiro a reagir. Suas adagas de prata cruzaram o ar em direção ao vampiro negro.
— Oh gajo! Tu deverias estar ao nosso lado! — Gritou ele com forte sotaque lusitano ao desviar do ataque. - Sinto o cheiro da maldição vampiresca sobre ti!
— Já fui como vocês! Mas fui liberto dessa maldição! — Respondeu Gregory.
Alex avançou um passo.
— Vocês são os responsáveis por esse inverno demoníaco?
O vampiro sorriu.
— O frio? Não… eu sou Tempestade. E este é meu irmão… Acordador.
O que veio depois transformaria aquela avenida em um verdadeiro campo de guerra. Porque quando Acordador abriu os pulmões e falou…
Os mortos ouviram.
Lucius dispara suas rajadas psiônicas contra Acordador que consegue desviar com facilidade graças a sua velocidade vampírica. O vampiro de pequeno porte, trajava um longo sobretudo surrado e botas sujas de barro e neve! Tinha a pele pálida, mas com cabelos cacheados e barba farta. Na mão direita, alguns anéis.
Folkhen manipula o eixo gravitacional do vampiro português fazendo sofrer uma forte queda. Tempestade fica surpreso com a ação daqueles estranhos o qual chamou de “sanguebruxos”. Não imaginavam que alguns brasileiros poderiam ser, na sua visão de mundo, indivíduos com dons sobre a magia! Tempestade cria poderosas descargas elétricas para aniquilar os mutantes, mas é repelido por Folkhen que cria uma barreira antigravitacional.
Acordador é cercado agora por Noah e Beatrice. Enquanto o jovem transmuta um portão de um sobrado em uma espada, Beatrice com extrema agilidade e rapidez desenha uma serpente de fogo que ganha vida e ataca o vampiro. Acordador consegue se desviar da criatura, mas é golpeado no braço pela espada de Noah! O vampiro sorri quando Tempestade grita, — “São sanguebruxos” esses gajos! — Em seguida, Acordador esbraveja com todo o ar dos seus pulmões. Era um timbre rouco e fúnebre.
— Vocês não deveriam tê-lo enraivecido! — Diz Tempestade enquanto sorria! Imediatamente, com apenas um pequeno gesto, Tempestade diminui a intensidade da chuva e senta-se no meio da avenida, próximo ao restaurante do Habib’s de onde funcionários e clientes observavam horrorizados, o embate do lado de fora! Málaca e Basco finalmente conseguem se mover. Os CelleXtys não entendiam o porquê da passividade de Tempestade e do sorriso traiçoeiro de Acordador até ouvirem os rosnados e grunhidos aumentarem. Horas antes ele havia caminhado por necrotérios e cemitérios de Osasco, despertando cadáveres recentes com sua voz ancestral.
"Ouçam a minha voz brasileiros póstumos! Quando eu chamar, estejam prontos a servir! Devorem! Estraçalhem as carnes dos meus inimigos! Alimentem-se de seus órgãos." Com estômagos fartos, tens a minha benção para vigar-tes daqueles que lhes fizeram mal. Agora, a horda corria em direção dos CelleXtys!
Os Cellextys se dividem. Málaca invoca o poder da natureza presente nas praças ao derredor do grupo. Em questão de minutos, um exército de árvores se colocava ao seu lado para atacar os zumbis! Lucius disparava seus raios psiônicos sem pensar duas vezes, mas cada vez que acertava um dos mortos, o mesmo não demorava a se levantar! Folkhen alça voo e Beatrice rabisca um desenho de si mesma com grandes asas dragonesas e em segundos as mesmas surgem em suas costas. Ela junta-se ao mutante gaúcho. Alex e Noah protegiam a retaguarda e tentavam conter o avanço dos mortos que tentavam invadir um restaurante e devorar os clientes! Gregory cria uma espada de prata, enquanto Basco tenta se aproximar de Acordador, assumindo a sua versão de Nevoeiro, porém, o vampiro saltava com extrema agilidade se agarrando em postes e sacadas de pequenos edifícios. Basco, por conta da forte tempestade não conseguia emanar seus poderes sobre o nevoeiro com grande concentração, mas isso não era problema. Khassan abre diversos portais do Limbo como possíveis armadilhas para enviar o vampiro através de um deles. Noah transmuta um pedaço de madeira em uma lança de ferro afiada e entrega para Basco!
Os treinos na gruta do perigo da EBX agora seriam postos à prova. Folkhen e Beatrice atacam outra remessa de mortos que se aproximavam na tentativa de se aproximar de Tempestade. As árvores de Málaca “varrem” os mortos da avenida! A jovem indígena também manipula os galhos das árvores como lanças e as dispara contra os crânios dos cadáveres. – Mirem nas cabeças ou arranquem os membros!— Grita a jovem! Lucius optou pela segunda opção e com os disparos psiônicos de seu braço e do seu globo ocular, transforma parte dos mortos e pedaços. Com a ameaça contida, Lucius decide auxiliar Basco e Gregory! Málaca parte para ajudar Alex, Noah e civis no restaurante! Não muito longe dali, Beatrice em pleno ar, desenha uma rede de pesca que ao tomar forma é agarrada por Folkhen. Juntos “pescam” diversos zumbis em voos rasantes os prendendo em seguida! Alguns mortos conseguem invadir o restaurante, mas Noah entra pelos fundos e protege funcionários e clientes. O rapaz bate a palma das mãos e transmuta as mesas, cadeiras e tudo o mais que que fosse inorgânico em uma grande jaula de metal. Alex serve de isca e consegue encarcerar as criaturas. Málaca cria um círculo de árvores ao redor dos civis trançando galhos e cipós, os protegendo dos mortos que ainda atacavam de fora do estabelecimento.
Enquanto isso, Basco percebe que Acordador e Tempestade era muito velozes e não conseguiria detê-los, porém, consegue enviar dezenas de mortos para o Limbo! Em seguida, juntamente com Gregory e Lucius, chama a atenção da dupla vampírica que os segue por uma das ruas em direção ao calçadão em frente do Shopping Osasco Plaza. A intenção era tirar a dupla de perto de civis e levá-los o mais distante possível. Ao chegarem em frente ao Shopping se deparam com Tempestade à frente! Lucius emana um forte clarão de calor de seu punho direito e olho esquerdo. Alguns metros às suas costas, Acordador se aproximava com uma estranha expressão de satisfação no semblante! Em segundos o vampiro estava a apenas dois palmos de frente com Basco. Acordador desfere um potente golpe contra o estômago de Khassan que só não é atravessado pelo punho por conseguir se transformar em nevoeiro! Em segundos o restante da equipe junta-se ao trio. Folkhen os trouxe em uma esfera antigravitacional!
— Rendam-se agora mesmo! A tua garoa de verão não mete medo em ninguém, piá!— Disse Folkhen.
— E já demos cabo de toda a “zumbizada”, baixinho então é melhor se entregar!— Completou Beatrice
Vocês brasileiros...são muito otimistas! — Disse Tempestade, com certo deboche enquanto erguia os braços para recomeçar uma nova corrente de ventos e fortes chuvas. O céu ao redor do centro de Osasco ficou completamente coberto por nuvens escuras e carregadas. O vento cada vez mais forte percorria por ruas, avenidas, becos e vielas, todos em direção ao calçadão principal. Os CelleXtys se reúnem e preparavam-se para um novo embate quando alguém fala direto à mente de Basco: — São apenas dois, mas creio que vocês não se importarão se entrarmos no jogo não é mesmo, Basco!
Subitamente diversas sombras acompanhavam os ventos de Tempestade. Uma das sombras consegue se aproximar o suficiente para lhe desferir um golpe certeiro no rosto que lança o português com violência contra as grandes portas de ferro sanfonadas da entrada do Osasco Plaza! O ataque faz os ventos pararem e a chuva não ter a chance de recomeçar. Num piscar de olhos, os membros do Clã Caitiff juntamente com o seu líder, Simeão se misturavam aos CelleXtys no meio do calçadão.
— Temos algumas contas a acertar, cavalheiros! — Exclamou Simeão
Tempestade se levanta do meio do que antes era uma porta de ferro. O vampiro secular cuspia um pouco de sangue enquanto retornava ao encontro do irmão. Acordador se aproxima do irmão de lutas segurando uma gargalhada
— Estás a ficar fraco por conta desta terra, irmão? — Pergunta Acordador
— Faça melhor então opá! Eles são “sanguebruxos” ora raios! — Responde irritado, Tempestade
— E desde quando essas imitações dos Bentos nos fazem recuar? – E quanto a vós— Disse Acordador virando o rosto para Simeão e os Caitiff – Como ousas ficarem contra nós? Então os vampiros destas terras se tornaram os novos cães de guarda de “sanguebruxos” e da “comida”? Vocês envergonham a todos nós! Terão o mesmo fim dos que vossos dentes agora protegem!
Acordador se posiciona de frente aos CelleXtys e aos Caitiff. — A diferença é que cá estamos há um tempo e conhecemos vocês, Bentos ou CelleXtys como agora são chamados. Nos preparamos para recebe-los, inclusive, trouxemos presentes. VENHAM MEUS FILHOS....APROXIMAI-VOS DE SEU PAI!
— Com quem ele está falando?— Pergunta Gregory
— Não sei....não tem mais zumbis por aqui!— Responde Lucius
— Melhor contar de novo! — Interrompeu Alex apontando para uma das ruas em frente ao shopping!
Nas sombras, era possível ver uma figura cambaleante que ostentava um chicote eletrificado. Em cada movimento com o objeto, parte da rua perdia energia e as lâmpadas dos postes estouravam. De outra rua, uma segunda sombra vinha em direção ao calçadão. De suas mãos, emanavam gases de tonalidade esverdeada. Málaca aponta para os colegas para mais duas sombras que vinham de outra rua lateral ao shopping e Folkhen ainda flutuando, observa uma grande ave parecendo um cadáver alado sobrevoando o grupo para em seguida pousar junto aos “novos mortos” e tomar uma forma humana e cadavérica. Os CelleXtys ficam perplexos ao perceberem que se tratavam dos seus amigos recentemente mortos:
Ivan.
Isabelle.
Gerson.
Lídia.
Carcará.
Os CelleXtys ficaram paralisados. Gregory foi o primeiro a falar.
— Agora fu@#$% de vez.
No topo do Shopping Osasco Plaza, Tempestade e Acordador observavam tudo com satisfação.
A batalha que estava prestes a começar seria muito pior.
Porque às vezes…
os mortos também falam.
Continua…
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