Período: Julho de 2000 — Inverno brasileiro

Localizações: EBX (túneis subterrâneos de São Paulo), Cemitério da Saudade — Campo Belo, USP — Cidade Universitária

Personagens presentes: Basco Khassan, Alex Aleff, Raial Puri, La’Vern, Lucius, Málaca, Beatrice, Noah, Simeão, Venâncio, Cassiopéia, Gregory, Folkhen, Lycans da alcateia, Vampiros da Geração Vamp

Observações: Salto temporal de alguns meses. Intensificação da tensão entre vampiros e mutantes. Primeira confirmação de que “Os Sete” estão em São Paulo.


INVERNO DE 2000

Os dias passam. As semanas seguem. Uma onda de frio intenso se instalou em quase todos os estados do país no mês de julho, principalmente nas regiões Centro-Sul. O inverno daquele ano parecia mais severo do que o habitual, com madrugadas que faziam a cidade ranger sob o concreto gelado e uma neblina constante que abafava sons e intenções. Por algum motivo, o frio parecia retardar o avanço do Vírus Legado. Pesquisadores internacionais observavam o fenômeno com cautela, mas ainda sem comprovação científica definitiva.

Nos Estados Unidos, por exemplo, já se falava em possíveis tratamentos e até em uma cura com a ajuda de mutantes com poderes climáticos, visto que no país o vírus já ceifava a vida de mutantes há cerca de três anos. Relatórios vazados mencionavam experiências conjuntas entre agências governamentais e indivíduos capazes de manipular temperatura e pressão atmosférica. Ainda assim, nada era conclusivo. A esperança era frágil como o gelo que se formava nas bordas das janelas.

Em São Paulo, os treinamentos da equipe CelleXty se intensificavam. Cassiopéia e seus Lycans ainda estavam foragidos, e as ameaças vinham de todas as direções. Nas profundezas dos antigos túneis da cidade, a EBX possuía grandes espaços para treinamento, equipados com diversos materiais de combate, dos mais leves aos mais letais, preparados para capacitar os CelleXtys e deixá-los prontos para qualquer investida. A estrutura subterrânea, construída sobre antigos corredores ferroviários desativados e galerias técnicas esquecidas pelo poder público, tornara-se um verdadeiro quartel-general mutante.

Com o temor da contaminação pelo Vírus Legado, somado à perseguição de grupos humanos anti-mutantes, a quarentena fizera com que os treinos nesses espaços se tornassem quase diários. Havia disciplina, mas também urgência. Cada golpe desferido carregava o peso das perdas recentes.

Em uma das arenas, Málaca e Madalena — que agora assumira de vez o seu nome indígena, Raial Puri — treinavam as habilidades da novata. Málaca decidira seguir com a nova amiga e deixar a mata, pois acreditava que suas habilidades de controlar forças da natureza, ou seja, qualquer vida vegetal, também poderiam ser muito úteis além do âmbito florestal. Para ela, a cidade não era um inimigo, mas um organismo adormecido.

— A selva só muda de forma — dizia Málaca, enquanto pequenas fissuras no concreto deixavam brotar raízes finas e resistentes. — Aqui, as raízes aprendem a atravessar pedra.

Raial concentrava-se na energia lunar que a envolvia. O brilho branco-prateado expandia-se ao redor do seu corpo, criando uma aura que pulsava de maneira orgânica, como se respirasse junto com ela. O treinamento não era apenas físico; era espiritual. Ela precisava compreender que sua luz não era apenas ataque, mas proteção.

Não muito longe dali, Noah e La’Vern treinavam diretamente com Alex luta corporal e estratégias de combate. Para caminhar entre os vampiros sem ser incomodado, Noah os fizera acreditar que se tratava de um mago; porém, o rapaz era, na verdade, um mutante alquímico. A alquimia é a capacidade de criar, moldar e transmutar elementos naturais da Tabela Periódica. Tem princípios medievais em sua prática e é considerada um poder puro e nobre, exigindo disciplina mental e profundo conhecimento da matéria.

Noah conseguia manipular os elementos e transmutá-los com grande facilidade. Durante o treino, tocou uma barra de ferro e, em segundos, alterou sua densidade, transformando-a em uma lâmina flexível. Em outro movimento, converteu fragmentos metálicos em uma liga mais resistente do que aço comum. Sua postura, entretanto, ainda carregava resquícios da hierarquia vampírica sob a qual servira.

Foi em meio à crise provocada pelo Vírus Legado, que sua trajetória mudou. O convite para deixar a liderança de Venâncio partira de Lucius, com o aval estratégico de Alex. O argumento era simples e direto: se o vírus não distinguia mutantes de vampiros, a sobrevivência exigia alianças inéditas. Noah hesitou, pois devia lealdade ao Mascarade, mas foi o próprio Simeão quem o aconselhou a aceitar. “Às vezes”, dissera o vampiro, “a neutralidade é a maior forma de traição.” Noah compreendeu que poderia servir melhor como ponte do que como peça fixa no tabuleiro.

Já Beatrice, a artista de traços impossíveis, também integrava agora os CelleXtys. Seu convite fora feito pessoalmente por Lucius após a batalha que revelara o potencial extraordinário de seus avatares vivos. Beatrice tinha o dom de criar e moldar traços artísticos e, mais do que isso, insuflar energia vital nas figuras que desenhava, controlando-as como extensões de si mesma. Venâncio permitira sua saída não sem relutância, entendendo que sua presença entre os mutantes poderia fortalecer uma aliança estratégica. Para Beatrice, no entanto, a decisão fora mais íntima: ela desejava usar sua arte para proteger vidas, não apenas ornamentar salões noturnos.

Em outra câmara, a bela Beatrice recebia treinamento de Lucius. Não no combate corpo a corpo, mas no aprimoramento de suas habilidades artísticas. Ele a orientava a expandir o alcance dos avatares, a torná-los mais autônomos e resistentes.

— Arte é intenção — dizia Lucius, enquanto observava uma criatura esculpida em carvão ganhar movimento. — Se você hesita, eles hesitam. Se você acredita, eles vivem.

Enquanto isso, Alex mantinha-se firme na condução dos treinos. Lamentava a morte dos companheiros de equipe, mas sabia que havia novos integrantes que agora também precisavam estar prontos para os perigos que espreitavam a cidade. Treinava os novatos utilizando estratégias de guerra, combate e sua experiência de anos à frente da equipe. Apesar do questionamento de alguns membros, mantinha-se misterioso sobre o motivo de ter ficado longe da equipe durante três anos e sobre sua viagem a Lima, no Peru. Essa omissão levara até mesmo Lucius e Basco a questionarem sua liderança abertamente, mas, em respeito aos colegas mortos, evitaram aprofundar contendas no momento de luto.


CEMITÉRIO DA SAUDADE — CAMPO BELO

Longe dali, no Cemitério da Saudade, localizado no bairro do Campo Belo, Basco Khassan prestava suas condolências em frente aos túmulos dos cinco amigos vitimados pelo Vírus Legado. Fundado nas primeiras décadas do século XX para atender à expansão urbana da zona sul paulistana, o Cemitério da Saudade tornara-se um espaço de memória silenciosa, com jazigos familiares que guardavam histórias de imigração, ascensão social e tragédias anônimas. Suas alamedas arborizadas, mesmo no inverno, mantinham um ar de recolhimento solene.

Alex decidira enterrá-los em um jazigo particular após as famílias se recusarem a receber os corpos, temendo contaminação e estigmatização. A pandemia não matara apenas vidas; matara vínculos.

Basco estava em silêncio. Homenagear os amigos representava prestar tributo a todos que perderam a vida por conta do vírus. O jovem ajoelhou-se diante do túmulo de Carcará e deixou uma flor próxima à lápide.

— Ele sempre foi um cabeça dura. Nunca perdeu a esperança de reencontrar Cassiopéia — disse Folkhen, aproximando-se com Gregory.

— Como você “tá”, mano? — perguntou Gregory, abraçando-o.

— Uma sensação de impotência, Gregory. Perder tantos colegas assim… e eu estava tão perto de conseguir aquele bendito shofar…

O vento atravessava as lápides como um lamento antigo.

— Mesmo que conseguisse trazer o artefato mágico, não haveria garantias — ponderou Folkhen. — Magos pelo mundo têm buscado cura através da magia e nada obtiveram de concreto.

— Devemos lembrar deles como heróis — acrescentou Gregory. — Se ao menos o nosso “amado líder” estivesse aqui antes…

— Nem mesmo o poder curativo do Alex adiantou. Eu sei… ele tentou — retrucou Folkhen. Lembrem-se que Carcará ela da “velha guarda”. Alex deve estar em pedaços, mas jamais irá demonstrar perto de vocês.

Após longo silêncio, Folkhen revelou:

— As notícias do Rio Grande do Sul não são boas. Há uma nova ameaça… na verdade, sete.

Basco ergueu o olhar, e algo em sua expressão indicava que aquele número não era mera coincidência.


USP — CIDADE UNIVERSITÁRIA

A Universidade de São Paulo, na Cidade Universitária, era quase uma cidade dentro da cidade. Criada na década de 1930 e expandida ao longo do século XX, abrigava faculdades históricas, institutos de pesquisa e vastas áreas arborizadas. À noite, no inverno, seus prédios assumiam contornos espectrais. A Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, com seus galpões e depósitos antigos, oferecia esconderijos perfeitos para quem desejasse passar despercebido.

Simeão informara aos CelleXtys que Cassiopéia e os Lycans estavam escondidos nas dependências de um dos prédios da USP. Naquela fria noite de julho, Alex, Raial e La’Vern seguiram para lá, enquanto Lucius ficava responsável por continuar os treinamentos de Málaca, Noah e Beatrice.

O trio seguiu os rastros dos inimigos até um antigo depósito de cereais. O espaço era imenso, semelhante a um grande silo, repleto de caixas de madeira, móveis e equipamentos lacrados. Não havia luz, mas isso não era problema para Raial, que manifestou o brilho lunar e iluminou o ambiente, revelando a alcateia feroz nas sombras.

— Vocês não aprendem mesmo, não é? — Alex! Achei que estivesse morto!— Indaga Cassiopéia demonstrando surpresa e um certo temor ao rever o ex-colega de equipe.

— Eu poderia dizer o mesmo de você, mas eu não estou aqui para matá-la ou relembrar os velhos tempos.

— Sempre o chefão arrogante! Tem coisas que nunca mudam. Onde está aquele urubu do Carcará? Ficou com medo de me ver?

— Carcará e mais quatro CelleXtys estão mortos, graças a versão do Vírus Legado que você trouxe até nós! — Respondeu Raial

— Oh...que pena! Irei sentir falta do nosso colega! Ele era o coração de nossa antiga equipe. — Debocha Cassiopéia

— Você e seus pulguentos vão vir conosco! — Ordena Alex

— Quero ver você ousar! — Responde Cassiopéia que desfere uma poderosa explosão de luz contra o trio, mas que é rapidamente repelido pela barreira luminosa de Raial!

O confronto que se seguiu foi brutal e coordenado. La’Vern alternava fogo e gelo com precisão crescente, ainda que sentisse o corpo exigir mais do que podia oferecer. Alex utilizava sua absorção ergocinética para devolver ataques com força redobrada.


Quando Simeão e a Geração Vamp surgiram, o cenário transformou-se. A USP estava tomada por vampiros. Nas copas das árvores, nos telhados, atrás de muros e até entre carros no estacionamento, figuras observavam em silêncio. Uma redoma psíquica entorpecia a percepção humana, garantindo que funcionários e estudantes nada percebessem.

Venâncio, líder do Mascarade e do Clã Toreador, emergiu entre os caixotes sob uma luz avermelhada intensa. O desaparecimento de sua filha, Verônica, fora o estopim definitivo.

Alex ordenou retirada. Aquela batalha ultrapassara a esfera mutante. Ele deixou os Lycans por conta dos vampiros de Venâncio.

Horas depois, na EBX, Simeão surgiu nas sombras do quarto de Alex.

— Relaxa, amigo…sou eu…Simeão!

— Vou ter que me preocupar com vampiros entrando na EBX a hora que querem? Achei que vocês não podiam entrar em um local sem serem convidados. – Questionava Alex enquanto enchia uma xícara de café na pequena escrivaninha no quanto do quarto

— Não acredite em tudo o que os filmes mostram...a maioria é propaganda enganosa! Mas prometo que na próxima vez eu baterei na porta! – Responde Simeão enquanto se aproxima do líder da equipe mutante

— Já que está aqui...o que quer?

— Nos últimos meses temos recebidos relatos de clãs vampíricos no Rio Grande do Sul, que coisas estranhas estão acontecendo por lá. Sete aparições fantasmagóricas têm matado tudo o que encontram pelo caminho. Humanos, animais e até membros dos nossos clãs!

— Nós já sabemos. Folkhen juntamente com Basco e Gregory estão investigando esses sujeitos!

— Alex, você não entendeu. Os Sete já estão aqui, em São Paulo!


Continua...