CelleXty Saga - Temporada I
15 O passado sempre volta
Arquivo Cronológico — Escola Brasil X
Período: Primavera de 1998
Status: Basco Khassan Markel e Gregory desaparecidos. Gangue Fantasma ativa. Projeto Prometheus neutralizado. Atividade de Althy intensificada.
A primavera de 1998 chegou a São Paulo carregando uma inquietação difícil de explicar. As árvores voltavam a florescer, o calor retornava gradualmente às ruas da cidade e a rotina parecia seguir seu curso natural, mas dentro da Escola Brasil X a sensação era outra. Meses haviam se passado desde o desaparecimento de Basco Khassan Markel e Gregory. Os registros das câmeras de segurança continuavam sendo revisados por técnicos e mutantes especializados, quadro a quadro, numa tentativa quase obsessiva de encontrar respostas que simplesmente não existiam. As imagens mostravam apenas o despertar repentino de Gregory, o avanço instintivo contra Basco e, logo depois, a abertura de uma fenda escarlate que rasgara a realidade diante de todos. Em questão de segundos, ambos desapareceram. Nenhuma trilha. Nenhum sinal. Nenhuma explicação.
Isabelle Hoffmann fora quem mais sofrera com a ausência de respostas. Utilizando suas capacidades telepáticas, tentou inúmeras vezes localizar a mente de Basco. Em condições normais, mesmo grandes distâncias não impediriam algum tipo de contato. Contudo, cada tentativa terminava da mesma maneira. Não havia barreiras mentais. Não havia bloqueios psíquicos. Existia apenas um vazio absoluto, como se o jovem mutante simplesmente tivesse sido removido da própria realidade. Aquela ausência perturbava Rosa Vermelha mais do que qualquer ataque inimigo. Era impossível saber se Basco estava morto, perdido ou aprisionado em algum lugar além de seu alcance.
A situação tornava-se ainda mais complicada pela ausência de Alex Aleff. O líder dos CelleXtys permanecia envolvido em uma missão internacional que se prolongava muito além do previsto, deixando a responsabilidade pela escola dividida entre Carcará, Folkhen e os demais veteranos. Enquanto isso, o mundo continuava mudando. O Brasil acompanhava a reeleição de Fernando Henrique Cardoso e discutia estabilidade econômica, privatizações e o futuro do Plano Real. Nos Estados Unidos, uma pequena empresa chamada Google começava a surgir discretamente entre universidades e centros tecnológicos, prometendo revolucionar a forma como a humanidade acessaria informação. O século XX aproximava-se do fim, trazendo consigo transformações sociais, políticas e tecnológicas que poucos conseguiam compreender em sua totalidade. Contudo, longe dos jornais e dos noticiários, outra mudança acontecia em silêncio.
Mutantes continuavam surgindo.
E alguns deles estavam prestes a mudar o rumo da história.
Enquanto a EBX tentava seguir em frente, a Gangue Fantasma movia-se nas sombras com objetivos muito mais ambiciosos do que simples ataques contra vampiros ou mutantes. Informações obtidas por Althy através de suas habilidades temporais haviam revelado a existência de um projeto que ameaçava alterar o equilíbrio de poder em escala global. Oculta nas profundezas do norte de Minas Gerais, uma instalação subterrânea operava sob sigilo absoluto nas proximidades do Vale do Rio Peruaçu. Oficialmente, tratava-se de um centro de pesquisas arqueológicas associado a estudos geológicos. Na prática, escondia um dos projetos científicos mais perigosos já concebidos.
O chamado Soro Prometheus aproximava-se da fase final de desenvolvimento.
Laboratórios inteiros trabalhavam dia e noite em busca daquilo que governos, militares e organizações secretas perseguiam havia décadas. Em enormes tanques criogênicos, substâncias azul-violetas pulsavam como organismos vivos. Computadores processavam sequências genéticas derivadas de pesquisas roubadas, arquivos clandestinos e teorias obtidas por meios ilegais. Entre os dados utilizados existiam fragmentos atribuídos ao Senhor Sinistro, relatórios desviados da S.H.I.E.L.D., referências indiretas aos estudos de Hank McKoy e até observações derivadas dos registros de Moira MacTaggert. O objetivo era tão simples quanto aterrador: compreender o Gene X, reproduzi-lo artificialmente e, eventualmente, controlá-lo.
Naquela madrugada, porém, o projeto encontrou seu fim.
Os sistemas de segurança registraram inicialmente apenas uma oscilação elétrica aparentemente insignificante. Alguns sensores desligaram por frações de segundo. Câmeras perderam sinal. Computadores reiniciaram sem explicação. Nenhum operador percebeu que aquilo não era uma falha técnica. Era o início de um ataque cuidadosamente planejado. Testament surgiu primeiro, movendo-se pelos corredores como uma sombra viva. Guardas armados tombaram antes mesmo de compreender a origem da ameaça. Alguns tiveram suas mentes esmagadas por impulsos psíquicos. Outros simplesmente perderam a consciência sob a influência de sugestões mentais devastadoras.
Ao mesmo tempo, Pappylon espalhava discretamente seu pólen pelos sistemas de ventilação. Cientistas, soldados e técnicos começaram a adormecer diante dos próprios equipamentos sem sequer perceber o que estava acontecendo. Em outros setores, Sphinx utilizava inscrições arcanas inspiradas em antigas tradições egípcias para confundir sistemas eletrônicos e sensores térmicos. Alarmes falhavam. Portas permaneciam abertas. Protocolos inteiros tornavam-se inúteis diante de uma combinação tão improvável entre mutação e magia.
No coração do complexo, Scariotis aguardava.
Quando finalmente alcançou a câmara principal do projeto, observou por alguns instantes os enormes reservatórios contendo o Soro Prometheus. A luz azul-violeta refletia em seus olhos enquanto os cientistas tentavam compreender o caos que se espalhava pelo laboratório. Então ele ergueu uma das mãos. Uma onda translúcida atravessou o ambiente como uma maré invisível. Vidros explodiram. Tanques se romperam. O líquido experimental evaporou-se quase instantaneamente, como se jamais tivesse existido. Alarmes começaram a soar, mas era tarde demais.

Althy foi a última a entrar.
Caminhou entre os destroços com a serenidade de quem visitava um lugar cujo destino já conhecia. Não demonstrava pressa. Não demonstrava raiva. Apenas certeza. Ao encontrar uma das poucas ampolas que sobreviveram à destruição inicial, tomou-a entre os dedos e murmurou palavras em um idioma que nenhum dos presentes seria capaz de reconhecer. A substância começou a escurecer imediatamente até transformar-se em um punhado de cinzas negras.
— O futuro não será decidido por deuses artificiais — declarou.
As chamas começaram a consumir o laboratório poucos minutos depois.
Quando as equipes militares finalmente chegaram ao local, encontraram apenas ruínas fumegantes, equipamentos destruídos e corpos espalhados pelos corredores. O Projeto Prometheus havia deixado de existir. Talvez para sempre.
E com uma das maiores ameaças ao futuro mutante neutralizada, os olhos da Gangue Fantasma voltaram-se novamente para São Paulo.
Voltaram-se para os CelleXtys.
E voltaram-se, inevitavelmente, para Basco Khassan Markel.
Parte 2 — O RetornoA destruição do Projeto Prometheus marcou uma vitória estratégica para a Gangue Fantasma, mas Althy não demonstrou qualquer satisfação visível após o ataque. Para ela, eliminar o laboratório era apenas uma etapa dentro de algo muito maior. Enquanto governos e organizações secretas contabilizavam prejuízos e tentavam compreender o que havia acontecido no norte de Minas Gerais, a vidente voltou sua atenção para aquilo que considerava a verdadeira prioridade: preparar Igon para o conflito inevitável que se aproximava. Os meses seguintes foram dedicados a um treinamento tão intenso quanto implacável, conduzido em diferentes esconderijos espalhados pelo estado de São Paulo.
Althy não se limitava a desenvolver os poderes de Scariotis. Ela moldava sua mente. Todas as manhãs começavam com exercícios físicos exaustivos, seguidos por sessões de combate corpo a corpo que podiam durar horas. Igon aprendeu novas técnicas marciais, aperfeiçoou sua resistência e expandiu o controle sobre suas habilidades telecinéticas. Contudo, era durante os treinamentos noturnos que os ensinamentos mais perigosos aconteciam. Sentados diante de símbolos desenhados com sal, sangue e cinzas, mestre e aprendiz mergulhavam em práticas arcanas que poucos mutantes ousariam estudar. Althy ensinava palavras capazes de romper barreiras energéticas, desmontar proteções telepáticas e enfraquecer manifestações elementares. Aos poucos, Scariotis tornava-se não apenas mais forte, mas também mais difícil de enfrentar.
Enquanto isso, ela continuava alimentando um veneno muito específico.
Sempre que surgia oportunidade, retomava histórias sobre Thamine, Edher e Basco. Algumas informações eram verdadeiras. Outras eram distorções cuidadosamente construídas. Althy jamais mentia de forma direta quando podia manipular percepções. Insinuava que sua mãe escondera segredos. Sugerira inúmeras vezes que Basco recebera privilégios que nunca lhe foram oferecidos. Fazia parecer que o destino favorecera um irmão enquanto condenara o outro ao abandono. O ressentimento transformava-se lentamente em combustível. E Althy sabia exatamente como utilizá-lo.
Foi ela quem propôs o próximo movimento.
Não desejava permanecer escondida.
Queria ser encontrada.
Ataques coordenados começaram a ocorrer em diferentes regiões da capital. Armazéns ligados a grupos criminosos desapareceram em incêndios inexplicáveis. Depósitos clandestinos foram saqueados. Pequenas células vampíricas sofreram ataques cirúrgicos. Em todos os casos, testemunhas relatavam fenômenos impossíveis e figuras envoltas por sombras. As ações não possuíam apenas valor estratégico. Funcionavam como mensagens. Um convite. Uma provocação direcionada aos CelleXtys.
A resposta veio mais rápido do que Althy esperava.
O encontro foi marcado em um antigo galpão industrial abandonado no Brás.
Sem autorização formal de Carcará ou Folkhen, Tornado, Rosa Vermelha, Inquisidor e Madalenna decidiram agir por conta própria. A juventude ainda carregava uma confiança que os veteranos aprenderam a moderar com os anos. Acreditavam que poderiam surpreender a Gangue Fantasma antes que novos ataques acontecessem. Quando chegaram ao galpão, encontraram apenas estruturas enferrujadas, colunas antigas e um silêncio desconfortável. Do lado de fora, nuvens carregadas começavam a cobrir o céu paulistano, anunciando a chegada de uma tempestade.
O cheiro de chuva misturava-se ao odor de ferrugem e poeira acumulados durante décadas.
Isabelle mantinha uma camuflagem psíquica ativa enquanto o grupo avançava pelo interior do prédio. A estratégia era simples: localizar os adversários antes que eles percebessem sua presença. Durante alguns minutos, tudo pareceu funcionar. Então uma gargalhada ecoou pelo galpão.
Não surgiu de uma direção específica.
Parecia vir de todos os lugares ao mesmo tempo.
Os quatro mutantes reagiram imediatamente.
Correntes psiônicas começaram a brilhar nas mãos de Tornado. Lucius ergueu o braço envolvido por energia branca. Madalenna desembainhou o espadim lunar que carregava desde sua chegada à escola. Isabelle tentou localizar mentalmente a origem daquela presença.
Foi tarde demais.
As sombras concentraram-se próximo ao centro do galpão e assumiram forma humana. Althy surgiu diante deles como se sempre estivesse ali. Sua expressão permanecia serena. Seus cabelos prateados moviam-se lentamente apesar da ausência de vento. Antes que qualquer ataque pudesse ser lançado, ela ergueu uma das mãos e desenhou um círculo escuro no ar.
Uma esfera negra nasceu diante de seus dedos.
O objeto cresceu rapidamente.
Então se rompeu.
O rugido que se seguiu fez o galpão inteiro estremecer.
Uma criatura colossal emergiu da abertura dimensional, forçando passagem para dentro do mundo físico. O dragão possuía mais de três metros de altura, escamas negras refletindo tons avermelhados e olhos dourados que brilhavam como metal incandescente. Quando suas patas atingiram o chão, o concreto rachou sob o impacto. O calor produzido por sua respiração espalhou-se pelo ambiente em questão de segundos.
Lucius atacou primeiro.
Rajadas psicocinéticas disparadas por seu olho esquerdo e braço direito atingiram a criatura em cheio, provocando explosões de energia branca contra as escamas. O dragão recuou alguns passos, mas permaneceu de pé. Madalenna avançou logo em seguida. O espadim lunar descreveu um arco luminoso no ar e abriu um corte profundo em uma das patas do monstro. O sangue que escorreu da ferida parecia fogo líquido.
O combate explodiu em múltiplas direções ao mesmo tempo.
Testament surgiu atrás de Tornado, tentando invadir sua mente antes que pudesse reagir. Ivan respondeu instintivamente. Correntes azuis envolveram o ambiente e explodiram em uma onda de energia que lançou a mutante para trás. Pappylon aproveitou a distração. Seu pólen espalhou-se rapidamente pelo ar e atingiu Tornado antes que ele pudesse criar uma barreira defensiva. O líder dos CelleXtys cambaleou, sentindo músculos e pensamentos desacelerarem.
Em outro setor do galpão, Sphinx enfrentava Rosa Vermelha.
À primeira vista, parecia um confronto comum.
Na realidade, fazia parte de algo muito maior.
Quando Isabelle mergulhou na mente do adversário, encontrou exatamente aquilo que ele desejava mostrar. Memórias fragmentadas, símbolos egípcios, corredores de pedra iluminados por tochas e entidades antigas escondidas atrás de véus de escuridão. Sphinx permitiu deliberadamente aquela invasão. Precisava que certas imagens alcançassem a mente dos CelleXtys. Precisava que algumas portas fossem abertas.
O combate atingiu seu ápice quando uma explosão mágica percorreu o teto do galpão.
Colunas estremeceram.
Vigas metálicas começaram a ceder.
E foi nesse momento que Scariotis finalmente apareceu.
A energia translúcida que o acompanhava atravessou o ambiente como uma onda de choque invisível. Tornado, Lucius, Isabelle e Madalenna foram lançados contra paredes e estruturas metálicas antes mesmo de conseguirem reagir. O impacto fez o ar desaparecer de seus pulmões. Durante alguns segundos, pareceu que a batalha terminaria ali.
Então lasers cortaram a fumaça.
E duas novas figuras surgiram através dos escombros.
Folkhen.
Carcará.
Os veteranos finalmente haviam chegado.
Mas mesmo eles perceberam imediatamente que algo estava errado.
Porque, naquele exato instante, um portal começou a se abrir em uma das paredes parcialmente destruídas do galpão.
E o que saiu dele mudaria completamente os rumos da guerra.
Parte 3 — O Passado Nunca MorreDurante um breve instante, o tempo pareceu desacelerar dentro do galpão. O rugido do dragão, o estalar das vigas metálicas e o som da chuva atingindo o telhado enferrujado tornaram-se ruídos distantes diante da anomalia que surgia no centro da estrutura. O portal expandia-se lentamente, rasgando o espaço com a mesma tonalidade escarlate que alguns membros da EBX ainda se lembravam de ter visto meses antes nas gravações de segurança. Correntes de energia percorriam suas bordas enquanto uma névoa densa escapava pela abertura, espalhando-se pelo concreto como se estivesse viva. Até mesmo Althy permaneceu imóvel por alguns segundos. Era a primeira vez, em muito tempo, que algo surgia diante dela sem que tivesse previsto cada detalhe.
As duas figuras atravessaram o portal lado a lado.
A primeira era imediatamente reconhecível.
Basco Khassan Markel.
Mas não exatamente o mesmo Basco que desaparecera da enfermaria da EBX.
Sua postura havia mudado. Seus movimentos eram mais precisos. Seu olhar carregava uma serenidade que não existia meses antes. A névoa ao seu redor não parecia apenas uma manifestação mutante. Parecia uma extensão natural de sua presença. O jovem que um dia buscara respostas sobre si mesmo retornava com a confiança de alguém que passara anos enfrentando perigos muito além da compreensão da maioria dos mutantes brasileiros.
A segunda figura provocou ainda mais espanto.
Gregory.
Ou pelo menos quem um dia fora Gregory.
O garoto de treze anos desaparecera.
No lugar dele surgia um adolescente de dezesseis, mais alto, mais forte e visivelmente transformado pela experiência. Os traços infantis haviam sido substituídos por uma expressão firme e concentrada. Seus movimentos exibiam disciplina. Seus olhos já não carregavam a confusão constante de alguém dividido entre mutação e vampirismo. Havia segurança neles. Havia propósito.
O silêncio espalhou-se pelo galpão.
Mesmo os integrantes da Gangue Fantasma pareceram surpresos.
Igon foi o primeiro a recuperar a voz.
— Basco...
O nome escapou quase involuntariamente.
Basco avançou alguns passos.
A névoa movia-se lentamente ao seu redor.
— Não vim lutar com você, Igon.
A declaração provocou reações imediatas. Testament soltou uma risada breve. Pappylon arqueou uma sobrancelha. Althy observou tudo sem interferir. Apenas Scariotis manteve os olhos fixos no irmão.
— Então veio fazer o quê?
— Entender.
A resposta produziu algo próximo de dor na expressão de Igon.
Por um segundo.
Apenas um segundo.
Mas foi suficiente.
Althy percebeu.
Basco também.
Infelizmente, aquele instante de vulnerabilidade terminou rápido demais.
Scariotis ergueu uma das mãos e pronunciou palavras em um idioma antigo. A energia mística espalhou-se pelo ambiente como uma onda invisível. A névoa que envolvia Basco começou a se desfazer imediatamente, dissipando-se antes mesmo de conseguir condensar qualquer ataque ou defesa.
Os olhos de Basco estreitaram-se.
Aquilo era novo.
A magia ensinada por Althy estava funcionando.
— Ela realmente o treinou bem — murmurou.
— Melhor do que você imagina.
A batalha recomeçou.
Gregory foi o primeiro a se mover.
Diferente do garoto impulsivo que um dia atacara Basco por fome, seu avanço agora possuía técnica. O corpo transformou-se parcialmente em prata líquida antes de endurecer novamente. Em poucos segundos, alcançou Sphinx e o atingiu com uma sequência de golpes que o obrigou a recuar. Pappylon tentou intervir, mas uma rajada metálica atravessou o espaço e o lançou contra uma pilha de contêineres enferrujados.
Lucius observou aquilo com atenção.
Até poucos segundos antes, ainda não sabia exatamente o que esperar do retorno de Gregory.
Agora percebia algo inquietante.
O garoto não era apenas mais forte.
Era disciplinado.
Muito disciplinado.
Enquanto isso, Folkhen enfrentava Testament utilizando ondas gravitacionais que deformavam o ar ao redor da mutante. Carcará assumira sua forma colossal, transformando-se na gigantesca ave lendária que inspirava seu codinome. As asas abriram-se dentro do galpão como velas negras, espalhando rajadas de vento capazes de derrubar estruturas inteiras. O dragão conjurado por Althy respondeu imediatamente, lançando chamas contra a criatura.
O impacto fez o teto estremecer.
Uma coluna cedeu.
Depois outra.
O prédio inteiro começou a desabar.
No centro daquele caos, Basco e Igon finalmente se encontraram.
O choque entre névoa e energia telecinética produziu uma onda de pressão que atravessou o galpão. Durante alguns segundos, ambos permaneceram imóveis, concentrando poder suficiente para destruir boa parte da estrutura ao redor. Basco tentava alcançar o irmão. Não fisicamente. Emocionalmente. Procurava alguma brecha sob anos de manipulação e ressentimento.
Igon tentava convencê-lo do contrário.
Porque cada vez que olhava para Basco, as certezas construídas por Althy pareciam vacilar.
Foi justamente por perceber isso que a vidente tomou sua decisão.
— Retirada.
A ordem ecoou pelo galpão.
Imediatamente.
Sem discussão.
Sem resistência.
A Gangue Fantasma começou a recuar.
Basco reagiu primeiro.
Condensou a névoa ao redor do braço e lançou uma massa compactada diretamente contra Igon. O golpe atingiu o adversário em cheio, lançando-o contra uma das estruturas de sustentação já comprometidas. O impacto foi suficiente para provocar o colapso de parte do teto.
Toneladas de concreto despencaram.
Quando a poeira começou a subir, a Gangue Fantasma já desaparecia entre sombras, portais e corredores destruídos.
Nem todos.
Sphinx permaneceu.
Preso sob destroços.
Sorrindo.
Aquilo preocupou Basco mais do que qualquer outra coisa.
Dias depois, os corredores da Escola Brasil X voltaram a experimentar algo que parecia esperança.
O retorno de Basco e Gregory transformou completamente o ambiente. Reuniões foram convocadas. Relatórios precisaram ser refeitos. Perguntas acumuladas durante meses exigiam respostas. Foi durante uma dessas conversas que veio a revelação mais surpreendente.
Para a Terra, haviam se passado poucos meses.
Para eles, três anos.
O silêncio que se seguiu à explicação foi absoluto.
Basco descreveu o Limbo.
As regiões que exploraram.
Os treinamentos.
As criaturas.
As batalhas.
As lições.
Gregory complementou diversas informações, explicando como aprendera a controlar sua fome, estabilizar sua mutação e superar a influência vampírica que antes dominava sua existência.
Foi nesse momento que Lucius manifestou sua oposição.
Embora reconhecesse a utilidade do treinamento, não se sentia confortável com a presença de alguém que, até pouco tempo antes, fora parte da Geração Vamp.
Tornado discordava.
Veementemente.
As discussões tornaram-se frequentes.
Em mais de uma ocasião, Basco precisou intervir para evitar que debates ideológicos se transformassem em confrontos pessoais. Gregory raramente participava dessas discussões. Preferia observar. Aprendera no Limbo que nem toda batalha precisava ser travada imediatamente.
Mas foi justamente Gregory quem trouxe a informação mais importante.
Durante os três anos passados no Limbo, tivera acesso a antigos registros preservados no Mascarade e estudados antes de seu desaparecimento. Cruzando informações, descobriu referências a uma mulher chamada Althy em documentos que remontavam ao século XVIII.
A revelação levou Basco diretamente ao Mascarade.
Verônica já o aguardava.
Como se soubesse que aquela visita aconteceria.
No interior do camarote privado, cercado por luzes vermelhas e música distante, a vampira retirou de um compartimento oculto um manuscrito datado de 1732. As páginas amareladas continham registros de encontros, pactos e negociações envolvendo os Treze Clãs da Geração Vamp.
E em todos eles aparecia o mesmo nome.
Althy.
— Ela não serve aos vampiros — concluiu Basco após horas de leitura.
Verônica fechou lentamente o livro.
— Nem aos mutantes.
— Então a quem?
A vampira sustentou seu olhar durante alguns segundos.
— Apenas a si mesma.
A resposta permaneceu ecoando em sua mente durante dias.
Até Sorocaba.
Até a emboscada.
Até Isabelle ser capturada.
Quando Rosa Vermelha mergulhou involuntariamente nas memórias de Althy, testemunhou algo impossível. Viu a mulher utilizando roupas típicas do período colonial português. Viu um jovem fugindo ao seu lado. Viu um monge carregando manuscritos protegidos por símbolos arcanos. Viu uma criatura marinha colossal destruindo embarcações. E viu, acima de tudo, o porto da Vila de Santos no ano de 1732.
Mais de duzentos e sessenta anos antes.
A conexão foi interrompida violentamente.
O resgate aconteceu graças ao elo mental que Isabelle conseguiu estabelecer com Folkhen antes de perder a consciência.
A batalha que se seguiu foi rápida e brutal.
Gregory atingiu Igon com um dardo de prata.
Carcará assumiu novamente sua forma colossal.
Folkhen lançou Testament e Pappylon através de ondas gravitacionais.
Althy feriu Carcará utilizando magia concentrada.
E, como tantas vezes antes, a Gangue Fantasma desapareceu antes que pudesse ser capturada.
Quando tudo terminou, Isabelle permanecia sentada entre os destroços, tentando organizar aquilo que havia visto.
Basco aproximou-se.
— O que aconteceu?
Rosa Vermelha demorou alguns segundos para responder.
Seu rosto ainda estava pálido.
Os olhos permaneciam fixos em algum ponto distante.
— O passado dela...
A voz saiu quase como um sussurro.
— Ele não morreu.
O silêncio instalou-se ao redor dos dois.
Então Isabelle ergueu os olhos.
— Ele atravessa séculos.
Basco não respondeu.
Porque, pela primeira vez, começava a acreditar que a verdadeira história de Althy talvez tivesse começado muito antes do nascimento de qualquer um deles.
E que todas as respostas que procuravam estavam escondidas em um passado que jamais permanecera enterrado.
Porque o passado sempre volta.
E, desta vez, voltava carregando verdades capazes de mudar o futuro.
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