Celle, o retorno
30 Na alegria e na tristeza
O despertador tocou às 6h de uma segunda-feira nublada. Isabelle preferia estar morta a se levantar. Nunca gostou de acordar cedo, mas, isso lhe parecia ainda mais difícil a cada dia. Cris já havia percebido e indagado a ela se o trabalho a estava desagradando, porém, ela simplesmente se esquivava, afirmando que não poderia reclamar de nada, afinal, tinha sorte de, com pouca idade, já estar bem colocada profissionalmente, com o salário que garantia uma boa moradia e uma condição econômica que poderia custear do bom e do melhor para o bebê que esperava, sem contar a independência desejada desde sempre.
Por outro lado, sentia-se pressionada cada vez mais dentro da empresa, com muitos prazos de projetos a cumprir, mesmo estando enjoada, sonolenta ou com os hormônios a flor da pele. No seu meio, cercada de homens, suas questões femininas deveriam ser abafadas para que seu profissionalismo pudesse se destacar. Ainda temia revelar a gravidez para o chefe e colegas, o trauma de Nova York fazia-se presente como um fantasma a assombrar. Temia que alguém suspeitasse de algo, planejava cada passo e cada gesto.
Sabia que eram homens e talvez nem tivessem um instinto para perceber esse tipo de coisa, mas, tinha a moça do café, a Secretária do chefe e a recepcionista e se uma delas percebesse e comentasse com um deles? As teorias da conspiração na sua cabeça eram muitas.
Toda essa pressão estava gerando nela um nível de estresse acima do tolerável. Demorava a dormir à noite, com os assuntos de trabalho na cabeça, mas, via Cris profundamente adormecido ao seu lado e preferia simplesmente colocar os fones de ouvido e ouvir músicas fazendo poucos movimentos na cama, a fim de não acordá-lo. Porém, sua paciência parecia mais curta a cada dia.
Ela respondia mal para Cris, ralhava com Ellie e até mesmo era grosseira com os pais. Todos estavam percebendo a mudança de comportamento, mas, atribuindo apenas aos hormônios da gestação.
Certo dia, com a família reunida num almoço de domingo na casa dos Shay Gibson, todos comentavam sobre os preparativos das bodas de prata de Sam e Freddie, quando ao se levantar da mesa, Isabelle simplesmente tonteou, viu tudo escuro e apagou.
Cris foi rápido para não permitir que ela chegasse ao chão, mas Isabelle nem poderia se lembrar disso, já estava desacordada. A família entrou em desespero e correu com ela para o hospital mais próximo.
Todos temiam pela saúde dela e do bebê. O médico veio com as informações. Cris foi o primeiro a perguntar:
— O que houve com a minha mulher? Como ela está? E o meu filho?
— Aparentemente não há nada de errado com ela e com o bebê. Eu pedi mais alguns exames para ter certeza. Ela já acordou e afirma não sentir mais nada. Ao que tudo indica foi uma reação ao estresse não relacionada diretamente à gravidez. Ela está passando por algum momento difícil?
— Não que eu saiba – respondeu Cris.
Sam falou:
— Mas, eu tenho a percebido mais nervosa, já tem umas semanas. Pensei que pudessem ser os hormônios da gestação.
— Sem dúvida há uma atuação hormonal, mas, talvez, também exista uma questão de fundo não explorada. Vou prescrever uns calmantes naturais e indicar sessões de terapia.
Freddie se manifestou:
— Minha filha sempre foi muito equilibrada psicologicamente.
— Não estou afirmando o contrário, apenas dizendo que ela pode estar vivenciando uma situação de estresse não observada por ela mesma, o que pode ter desencadeado esse desmaio. No estado dela, uma queda pode significar um aborto. É importante que isso não se repita. Todos nós passamos por fases difíceis na vida, por mais bem resolvidos que sejamos e uma mulher grávida costuma ficar mais sensível às situações.
O resultado dos demais exames saiu e confirmou a suspeita do médico de que não havia nada de errado organicamente. Isabelle foi liberada logo em seguida.
No apartamento do casal, Cris acomodou a moça na cama do casal e perguntou se ela queria comer algo, ao que ela negou.

Então, resolveu sentar-se ao lado dela para uma conversa franca, aproveitando que estavam a sós, já que Ellie estava com Carly.
— Belinha, o médico afirmou que você está estressada...
— Devo estar mesmo, como muitas grávidas.
— O médico cogitou uma questão de fundo, além da gravidez...
— Não faço ideia do que seja.
— Belinha, você sempre foi muito forte e eu te admiro por isso, sempre foi a minha companheira, o meu porto seguro, o lado forte da relação, mas, me deixa cuidar um pouco de você, divide comigo o que está te incomodando, o que te faz mal, faz mal pra mim também.
— Se eu falar já sei qual vai ser o seu conselho e eu não vou seguir.
— Você está no seu direito de não seguir. Conselhos não são obrigatórios de serem atendidos. Mesmo assim, eu gostaria de saber, afinal, somos um casal, unimos as nossas vidas. É na alegria e na tristeza.
— Ainda não juramos nada disso no altar.
— O que importa o altar? Juramos isso o tempo todo a cada batida de nossos corações enamorados um pelo outro. Você não confia em mim?
— Tá bom... Eu ando meio de saco cheio do meu trabalho, me sentindo muito pressionada com os prazos dos projetos que devo entregar enquanto me sinto mal e ainda tenho medo que o meu mal-estar seja percebido e descubram a minha gravidez. Já sei o que vai dizer: Larga o emprego que eu ganho o suficiente. Mas, não vou fazer isso.
— Eu jamais diria isso, meu amor. Sabe por que?
— Não faço nem ideia, dessa vez você me surpreendeu.
— Porque eu te conheço desde os 6 anos de idade e sei o quanto você ama a sua independência. Você é como um belo pássaro solto, que eu não me canso de admirar, se eu te trancar numa gaiola, você vai se entristecer e perder as suas belas penas, então, eu também ficarei triste por te ver assim.
— Então o que sugere?
— Que você abra o jogo no seu trabalho, isso já vai aliviar parte de todo esse peso que sente. Conte ao seu chefe que está grávida. Ele precisa saber, até porque você vai sair em licença-maternidade dentro de alguns meses.
— E se ele não gostar e forçar a minha demissão como fez o meu chefe de Nova York?
— Belinha, as pessoas não são iguais. Eu entendo que a conduta absurda e preconceituosa do seu ex-chefe te desencadeou um trauma nas relações de trabalho, mas, você tem que conseguir confiar de novo para que essa pressão no trabalho não seja tão grande. Se a situação já é difícil de fato, torna-se ainda pior com o seu medo, com a sua desconfiança.
— Eu simplesmente não consigo mais confiar.
— É compreensível, mas, você mesma me disse que quando trabalhou com o seu atual chefe em Nova York, mesmo que ele ainda não fosse teu chefe na época, ele era uma pessoa legal.
— Falou bem, ele era legal, porque não era meu chefe na época.
— Sempre vai haver uma certa tensão nas relações de hierarquia, mas, você precisa confiar naquele que está guiando o “barco”, se não, você não se permite sair do lugar com medo de se afogar. Veja o meu caso, vivo num regime rígido de regras e patentes, devendo uma obediência praticamente cega aos meus superiores hierárquicos, nem sempre eu concordo, mas não discuto, eu me adapto ao regime imposto, porque foi uma escolha minha, simplesmente faço o meu melhor no posto que ocupo, acreditando que aqueles que estão acima de mim chegaram lá por mérito. No dia que eu parar de acreditar na disciplina e na hierarquia militar, vou entender que é hora de me retirar, porque não fará mais sentido pra mim.
— Então devo me retirar por não fazer sentido pra mim?
— Talvez ainda faça sentido para você, tanto que não cogitou ir embora. Você só está com medo de que uma situação muito desagradável repita-se novamente. Dê um voto de confiança ao seu chefe, abrindo o jogo com ele.
— E se ele agir como o outro?
— Aí significa que ele é tão babaca quanto o outro e que não te merece como funcionária. Você é inteligente, brilhante e tem um bom currículo, com experiências profissionais, poderá tentar novamente em outro lugar, só está iniciando a vida, pode se reinventar quantas vezes forem necessárias.
Isabelle abraçou Cris e não conteve mais as lágrimas, dizendo:
— Muito obrigada, meu amor. Eu estava precisando de alguém que me ouvisse e que me compreendesse.
— Eu sempre estarei aqui para você, pode acreditar e confiar em mim?
— É claro que sim.
— Fale com o seu chefe amanhã. Vá sem medo. Independentemente da resposta dele, lembre-se que eu sempre estarei aqui, na nossa casa, te esperando, e nos sempre daremos um jeito para qualquer coisa.
A moça conseguiu abrir um sorriso em meio às lágrimas e o beijou nos lábios.
Na manhã seguinte, o toque do despertador não foi tão sofrido para ela. Sentia-se forte e decidida para resolver a vida. Iria abrir o jogo com chefe e estava feliz por se livrar desse peso.
Tão logo chegou ao trabalho, ela se dirigiu à sala do chefe. Após o anúncio da Secretária, entrou, confiante:
— Senhor Mendel, eu preciso comunicar-lhe um fato.
— Desde que não seja o seu pedido de demissão, pode falar – disse o homem mulato, beirando os 40 anos, com um sorriso.
Ela foi direta:
— Estou grávida!
— Meus parabéns!
— O Senhor não se incomoda com isso?
— Eu me incomodaria se eu fosse o pai – falou ele, rindo ainda mais.
Isabelle também riu, sem graça, e depois falou:
— Alguns chefes poderiam pensar que a gravidez poderia comprometer o meu rendimento e ainda por cima irei me afastar por meses, por causa da licença-maternidade.
— Eu estou muito satisfeito com o seu rendimento.
— Mesmo?
— É claro. Eu vejo o quanto dá o seu melhor pela empresa. Vamos sentir a sua falta na equipe durante a licença-maternidade, mas, iremos sobreviver e estaremos te esperando ansiosamente.
— O Senhor é demais! Nem sei como agradecer!
— Eu que agradeço pelo seu excelente trabalho prestado.
Os dois apertaram as mãos e Isabelle saiu da sala do chefe com uma leveza que não sentia há semanas.
Naquela noite, o foco da moça mudou: da preocupação com o trabalho para os preparativos para as bodas de prata de seus pais. Foi ajudar Sam com os preparativos finais, embalando as lembrancinhas.
A semana passou voando e o grande dia da comemoração das bodas de prata chegou, num sábado ensolarado e quente, como não poderia deixar de ser, exprimindo o próprio jeito Seddie intenso de ser.
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