Celle, o retorno
38 A visita ao ex
— O que você quer para parar de castigar o Cris?
— O que está dizendo?
— Não se faça de desentendida! O que ganha tirando os direitos de pai dele? Seria melhor para todo mundo a guarda compartilhada, inclusive para Ellie, se é que se importa com a sua filha! Se ela não virou um simples joguete nas suas mãos!
— O melhor lugar para uma criança é ao lado da mãe. Cris não é o pai dela e ele sempre soube disso.
— Você também não era a filha dos meus pais, mas, isso nunca fez diferença!
— Ah, não fez? Corta essa, Isabelle! Você mal me tolerava na sua casa e sempre conseguia o que queria: a atenção deles toda para você, a filha biológica!
— O problema sou eu, não é mesmo?
— Se você tá dizendo...
— Eu saío da vida do Cris. Isso vai me causar muita dor, ainda mais esperando dois filhos dele. Você conseguirá se vingar de mim e poupará ele de mais sofrimento. Ele não suportaria ficar sem a Ellie. O seu problema é comigo, então, castigue a mim.
Mabel bateu palmas:
— Que lindo, prima! Um sacrifício pelo seu amor! Desculpe-me não verter lágrimas – gargalhando em seguida.
— Vai entrar em acordo ou não vai?
— Ai, prima! Eu já desejei de verdade isso, mas, hoje, tanto faz. Estou feliz com o seu ex, você ensinou ele direitinho – rindo – Pode ficar com o meu. Acho a troca justa – piscando com ironia.
— Então o que quer, Mabel?
— Quero criar a minha filha com Richard, bem longe de vocês! Quero me esquecer que vocês existem. Quando eu ganhar a guarda e o poder familiar exclusivo sobre a Elena, vou-me embora com a minha nova família para Los Angeles.
— Richard colocou essas ideias na sua cabeça, para se vingar de mim, não vê? Seria melhor para todo mundo se Ellie crescesse com você e Cris por perto...
— Você acha que é o centro do mundo, né Isabelle? Nem tudo é sobre você. Richard me ama e quer construir uma família comigo!
— Tome cuidado, Richard tá demonstrado ser uma pessoa diferente do que imaginávamos.
— Já veio aqui, já fez o seu discurso, já fingiu preocupação comigo e com a minha filha, mais alguma coisa? – levantando-se e abrindo a porta.
— Gostaria de conseguir te abrir os olhos, mas, vejo que é impossível e lamento – levantando-se e saindo.
Quando Cris chegou em casa à noite, percebeu Isabelle triste e questionou:
— Como foi seu dia, meu amor? Algo a incomodou? Ellie deu muito trabalho?
— Sua filha é um amor, não me incomoda nem um pouco. Só estou cansada, vai passar. Estou entrando no sétimo mês, meus pés estão inchados...
Cris se levantou e impediu Isabelle de prosseguir a esquentar a comida dela, fez a moça se sentar na cadeira da mesa da cozinha e terminou o que ela estava fazendo, colocando o prato no microondas:
— Não quero que faça o menor esforço até o final da gestação.
— Estou bem, não se preocupe. Amanhã estarei mais descansada.
— Então, vá se deitar. Eu me viro por aqui.
Isabelle aceitou a oferta dele. Beijando-o nos lábios e se dirigindo à suíte do casal. Ellie já dormia no quarto ao lado.
Na manhã seguinte, Cris saiu cedo, fora convocado na Marinha. Ellie acordou cheia de disposição e pulou na cama de Isabelle, que ainda dormia:
— Belinha, acorde! Vamos! – pulando e chamando-a alto.
Isabelle abriu os olhos que lhe pareciam pesados e viu o sorriso da menina, esboçando um fraco sorriso, seguido de um bocejo:
— Que horas são? – perguntou com voz sonolenta.
— Eu ainda não sei ver as horas, lembra?
— No meu celular você sabe.
— Posso mesmo pegar o seu celular?
— Claro.
A menina correu para o criado-mudo ao lado da cama e pegou o celular, anunciando:
— São 9h.
— Nossa, como dormi!
— Posso jogar?
— Vá em frente.
Ellie ficou entretida com o celular e Isabelle foi ao banheiro, saindo de lá de banho tomado. Serviu leite e cereal para Ellie, que não parava de fazer perguntas:
— Você acha que meus irmãozinhos vão ser loiros como eu e você ou morenos como o papai?
— Eu não sei, não dá pra ver isso no ultrassom. Pode ser um loiro e outro moreno, talvez.
— Ia ser legal! Será que vão me chamar de mana logo?
— Bebês demoram a aprender a falar, meu amor.
— Mas, eu vou ensiná-los e eles vão aprender bem rápido.
— Então tá bom.
— Sabia que quando eles nascerem eu já vou ter 4 anos? Meu aniversário é no mês que vem.
— É verdade! – constatou Isabelle, pensando que seria muito triste para Cris passar o aniversário da filha longe dela, sentindo um aperto no peito.
— Advinha do que vai ser a minha festa...
— Da Barbie?
— Não! Da Frozen!
— Claro. Tem tudo a ver com você.
— Também acho.
— Ellie, depois que você terminar o seu cereal, vou te dar banho, está bem?
— Mas, ainda falta muito para o almoço. Você sempre me dá banho antes de almoçar.
— Eu sei, querida. Mas, vou ter que te deixar com a minha mãe, um pouquinho.
— Por que? Aonde você vai? Não posso ir junto?
— Infelizmente não pode, tenho que ter uma conversa de adulto com uma pessoa. Vai ser chato. Se eu pudesse, nem eu iria.
— Se é assim, fico com a tia Sam. Ela faz tacos gostosos.
— Você não é boba nem nada.
Isabelle observou a suntuosa casa da avó de Richard antes de se atrever a tocar a campainha. Todos ali deveriam odiá-la depois do fiasco à beira do altar, certamente. Ficariam ainda mais furiosos ao vê-la procurar Richard com uma grande barriga carregando os filhos do “amante”.
Tocou a campainha e, para sua surpresa, não foi um empregado que atendeu a porta, mas, a própria avó de Richard, a princípio com um olhar de surpresa, fitando-a de cima abaixo, depois abriu um sorriso fraco e perguntou:

— No que posso lhe ajudar?
— Seu neto está?
— Está, mas, não creio que seja apropriado vê-lo.
— Claro, eu sou a traidora que o abandonou. Eu compreendo a senhora, mas, tenho algo realmente sério para falar com ele.
— Não é isso. Não a considero uma traidora.
— Não?
— Não. Pior seria se você levasse o casamento adiante amando a outro. Isso sim seria a sua eterna ruína e a de meu neto. Viriam os filhos num casamento sem um profundo amor, surgiriam as dificuldades, a família não se sustentaria, o sofrimento aos filhos seria inevitável. Infelizmente, conheço essa história. Ao menos, o bebê que carrega na barriga virá de pais que muito se amam e que juntos conseguirão superar as tormentas – acariciando a barriga dela.
— Na verdade, são gêmeos.
— Que bênção! Meus parabéns!
— Obrigada. Mas, se não me acha uma traidora, por que não quer que eu converse com o seu neto?
— Você mexe demais com o frágil psicológico do meu neto. Ele anda atormentado, falando em vingança e isso muito me assusta – falou num tom baixo.
Richard apareceu por trás da avó, perguntando, num tom áspero:
— O que faz aqui Senhorita Benson? Ou já devo chamá-la de Senhora Shay?
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