Celestial
1 Capítulo 1
Às vezes quando estou sozinha em minha cama minhas mãos procuram a palma das suas. Nesse momento eu lembro todos os detalhes do nosso amor feito de detalhes. Meus dedos que costumavam traçar as linhas de tua mão de artista. Seus dedos leves e quentes passavam feito pluma por minhas sardas nos ombros. Dizias que em espanhol as pintinhas são chamadas de lunares e que ao me ver ele entendeu finalmente o porquê, sussurrando que eu era filha da lua com todo o corpo salpicado de lunares. Deitávamos por horas na grama da casa de teus pais, fingindo que estávamos em outro século, outro lugar. O sol nos teus cabelos os deixava com a cor de ouro, teus olhos que me faziam a música Caravana. Um mar de água clara. Cor de chuva. Eras um anjo de Rafael, eu era tua Selene. Éramos o encontro do sol com a lua. Sagrados demais para sequer falar isso para qualquer outro alguém. Não existíamos quando separados, éramos o sonho etéro e sublime, não pertencíamos ao mundo rude do lado de fora. Não precisamos de palavras além das poesias, escritas ou só sentidas. Ah os poemas que sussurravas em meus ouvidos, tua voz grave que ainda ouço quando o mundo está quieto e todos dormem. Sempre fostes mais artista que eu sou. Costumava em fazer-me tua musa, desenhava meus olhos, minha boca, meus seios. Via-me mais bela do que eu jamais me vi. Contigo que eu realmente conheci o significado do trecho “te amando devagar e urgentemente”. O desejo era desesperador, nos queríamos com tal ardor que chegava a dor como a perda um membro. Nossos corpos estavam ligados um no outro, nunca podendo ser separados. Mas ao nos vermos, a paixão era consumida com calma e com risadas, como se tivéssemos o tempo em nossas mãos e ele nunca iria passar. Seriamos sempre os mesmos, eternamente jovens e cheios de sonhos e de amor. Éramos puros em nossa paixão, poetas no nosso amar. Nunca houve mentes e corações que encaixassem como se fossem uma só como a nossa, liamos e escrevíamos cartas um para o outro com trechos que achávamos belos em músicas e livros. Tu escrevias músicas e poemas, era um artista em todas as maneiras possíveis de ser. Meus versos sempre foram falhos, sempre tive a vocação eterna de ser a tua musa. Éramos pessoas diferentes fora do nosso mundo de fantasia. Ele é tão rico e eu tão pobre. Eu sou plebeia e ele nobre. Ah Nelson Gonçalves, eu o entendo. Isso nunca serviu para que nossos corações batessem menos. Ele me ensinou coisas que eu nunca poderia saber se fosse diferente e eu também o ensinei. Ainda sei falar algumas coisas de italiano. Ele é menos dependente da opinião de seu pai e dos outros. Ambos nós viramos mais fortes
Ele foi embora sem aviso, sem estardalhaço. O telefone deixou de tocar, as mensagens não chegavam ao destinatário, em seu apartamento nunca mais vi uma luz acesa. Não fui atrás, pois eu soube após dois meses sem nenhum contato, que eu tinha morrido. Ele tinha me matado com o coração e nada eu poderia fazer. Mas algo no fundo do minha alma, eu sei que foi verdadeiro e que sempre vai ser eterno. Nosso amor era muito puro para ser vivido por muito tempo, era para ser aquela memória que nunca vai embora e que guardaríamos nossas cartas no nosso armário e nossas lembranças no coração. Vamos casar com outras pessoas e contar ao nossos netos sobre o grande amor que a gente compartilhou e quão difícil é encontra-lo nesse mundo gigante. Somos celestiais, carino mio, estávamos destinados a nos encontrarmos. Meu amor dessa vida e de todas as outras. Ainda te sinto e ainda dói. E eu sei que ainda dói em ti também. Às vezes o certo para todo mundo ao nosso redor tem que nos fazer ceder. E muito obrigado que tu tiveste a coragem em ir embora mesmo que isso seja a coisa mais difícil que já fizestes. Eu espero reconhecer teus olhos azuis quando estivermos em uma outra encarnação, que Deus nos dê a vida que merecíamos ter.
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