Celestial
3 A Bruxa do Sul
Notas iniciais
Havia invadido o território inimigo pertencente àqueles que outrora declararam guerra contra os vampiros, que através de um acordo de paz com seu povo, decidiram que vampiros não poderiam pisar nas terras de domínio dos bruxos e vice-versa.
E lá estava ele, quebrando as regras. Não estava ali porque queria, praticamente fora obrigado por aquela que mais amava. Ficou surpreso quando recebeu a proposta de ir atrás de algo incerto e teve receio de estar sendo enganado por estar negociando com uma bruxa, mas se estivesse, seu sangue frio não o impediria de ir atrás da mulher no inferno para matá-la, se necessário.
Para sua surpresa descobrira que a bruxa estava certa e que não fora até ali em vão.
A ameaça estava cada vez mais próxima. Se quisesse enfrenta-los, poderia. Era forte, talvez um dos mais fortes de sua raça, temido pelos inimigos e respeitado pelos seus.
As mãos sedentas por sangue desejavam acabar com o inimigo um a um, mas precisava se conter, não estava sozinho e sua função era levar o ser peculiar em seus braços para longe dali. Além do mais não seria sensato iniciar uma briga em território proibido, pois a cada segundo que passava mais presenças pareciam aproximar deles.
Mas Uchiha Sasuke não era sensato.
Contrariando seus desejos insanos aumentou a velocidade ao perceber que o portal que precisava cruzar estava próximo e não tardaria a fechar.
Teria sérios problemas se isso acontecesse.
A fada amoleceu sobre si indicando a perda de consciência. O corpo em seus braços parecia tão frágil que tinha medo de esmaga-lo e teve de se controlar para não a apertar muito a fim de impedi-la de chocar-se contra o chão.
Sentiu a terra levantar ao seu lado esquerdo em um estrondo. Estavam tentando atrasá-lo com magia e por ter a audição aguçada conseguiu desviar sem sofrer dano algum. Sasuke deu um sorriso cínico de canto, concentrando no portal à frente que fechava gradativamente indicando que seu tempo para o alcançar, estava próximo ao fim.
Desviou com destreza de mais um golpe. Ouviu um resmungo irritado antes de pular agilmente para dentro do portal que cerrou por completo após tê-lo ultrapassado.
Protegeu a fada enquanto rolava na grama molhada batendo o corpo contra o chão. Praguejou irritado.
Pôs se de pé e jogou a jogou nos ombros. A mulher que esperava não estava ali como combinado e isso o irritou profundamente. Esperou por um tempo até que finalmente sentiu a presença atrás e si.
— Está atrasada. — Sasuke franziu o cenho devido ao incomodo de terem o feito esperar. Para ele isto era inadmissível
— Não se atreva moleque! Esqueceu da minha condição? – A mulher pareceu ignorar o descontentamento do vampiro à sua frente assim que enfim notou o que ele trazia nos braços. Seus lábios separaram por um momento e os olhos aumentaram de tamanho. Aproximou do vampiro tocando o rosto adormecido que jazia em seus braços e maravilhou com a beleza, tão distinta de tudo que já conhecera, da jovem à sua frente.
— Pelo visto sua cabeça continuará presa em seu pescoço. — Sasuke fez uma pausa e, ignorando por completo a mão da loira sobre os cabelos rosados da garota, virou de costas e pôs-se a andar em direção à uma cabana que não estava distante dos dois – Você estava certa, Tsunade.
— Vejo que aprendeu a falar mais que três sílabas. – A mulher suspirou e passou a acompanha-lo. – É tão linda! – após uma longa pausa os dois cessaram os passos e se encontraram de frente à porta da cabana de madeira onde a mulher pôs se a admirar a fada mais uma vez, sendo dispersa de seus pensamentos pela voz grave e irritadiça de Sasuke.
— Não vai abrir? – A cabana estava protegida com magia. Apenas o bruxo que selou o feitiço poderia desfazê-lo.
A mulher suspirou com a falta de diálogo do moreno. Embora o conhecesse, jamais se acostumaria com o jeito frio da criatura ao seu lado. Sibilou algumas palavras incompreensíveis para Sasuke e por fim anunciou que poderiam entrar.
— Tenho que ser breve Uchiha. Estou arriscando muitas coisas para estar aqui agora – andou pela casa em direção ao quarto sendo seguida por Sasuke – Coloque-a na cama e a cubra, sua pele está gelada.
Assim ele fez. Retirou o cobertor grosso que cobria a cama para colocá-la sob o lençol, cobrindo seu corpo em seguida. Parou alguns minutos e analisou o rosto fino da jovem sendo disperso pelas mãos de Tsunade que acariciaram o rosto da fada.
— Vamos deixa-la descansar – com magia a bruxa acendeu a lareira singela do quarto pequeno e caminhou para fora do cômodo sendo seguida pelo vampiro.
A cabana era pequena: quarto, cozinha, sala e banheiro, todos ornados em madeira. Não possuía muitos móveis e a casa exalava simplicidade. Chegaram até a cozinha onde o vampiro retirou uma garrafa de vidro de uma das prateleiras destampando e sorvendo do líquido enquanto assentava em uma, das duas cadeiras de madeira corroídas que compunham a cozinha.
A loira fechou a porta afim de abafar qualquer barulho que pudesse acordar a moça. Abaixou, em um armário próximo a pia, retirou uma chaleira de ferro dali colocando água para ferver logo em seguida.
— Como ela desmaiou?
— Provavelmente pela velocidade. – A mulher suspirou. Seria complicado manter um diálogo com aquele ser e ela estava ciente disso. Embora não quisesse precisava se esforçar, pois havia muito em jogo.
— Preciso que não me esconda os detalhes, que me conte tudo! Sabe que nos metemos em algo grande e se quisermos ter sucesso você precisa colaborar! – sua cabeça doía e ela não gostaria de iniciar uma discussão. Seu temperamento era forte, mas precisava se controlar para que não perdesse a razão com o vampiro e assustasse a garota adormecida com os berros que era acostumada a soltar quando estava descontente.
— Fomos perseguidos. Não pude distinguir com clareza, mas havia um vampiro e um metamorfo em meio aos bruxos. – Ingeriu despreocupado a bebida alcoólica que possuía em mãos. Enquanto isso Tsunade precisou escorar na bancada devido à queda de pressão repentina. Sasuke levou os olhos na direção da mulher e podia jurar que não havia cor no rosto pálido que agora ela sustentava.
— Pelos deuses! eles descobriram sobre ela?! – Não pode impedir que a voz soasse mais alta do que gostaria. Levou a mão até a boca e resolveu assentar na cadeira de frente à Sasuke, apreensiva.
— Acho que não – Sasuke bufou – Eu dei sangue à ela, consegui confundir seu cheiro. – explicou despreocupado – Nunca um Celestial pisou por aqui, não acho que eles tenham a imaginação tão fértil quanto a sua para acharem que em meus braços tinha uma fada.
— Mas alguém pode tê-la visto antes?! Como a achou?
— Exatamente como disse que eu acharia. — Virou mais uma vez a garrafa, limpando em seguida a gota que escorreu pela boca — Matei quem a viu, não se preocupe.
— Merda! – O golpe contra a mesa fez um barulho alto e foi forte o suficiente para sangrar sua mão. Sasuke travou o maxilar ao sentir cheiro de sangue, mas se controlou.
— Você disse que sentiu a presença de um vampiro os perseguindo – A bruxa falava enquanto com o auxílio de magia curava o ferimento em sua mão direita – Mas o que faria um vampiro em território das Bruxas do Norte?
— Discutirei isso com meu pai – suspirou. Sasuke não era homem de muitas palavras e se irritava quando precisava soltar mais que três silabas, mas sabia que as circunstâncias eram complicadas e tudo estaria prestes a mudar dali pra frente: de um jeito ou de outro. – Desconfio de traição.
— Também pensei nisso... Porque não observou melhor? Estaríamos dois passos a frente do que quer que possa acontecer. Algo grande está por vir, Sasuke.
— O portal estava fechando. – Cerrou os olhos tentando controlar a raiva que sentiu ao ouvi-la. Apertou a mandíbula e respirou fundo antes de continuar, não podia perder o controle — A culpa é sua por não ter me dado mais tempo, não questione minhas decisões – Tsunade paralisou por um momento pelo olhar gélido que fora lançado a ela e resolveu que não atiçaria o vampiro. Precisava muito dele e poderia sair morta dali, mesmo sendo considerada uma das bruxas mais fortes de seu povo – sabia com quem estava lidando.
— Conversamos depois sobre isso. – levantou e foi em direção à chaleira de ferro. Constatou que a água já fervia e despejou algumas ervas dentro tampando em seguida. – A garota ficará aqui esta noite e amanhã você precisará leva-la consigo.
— O que?! Isso é insano! Você só pode estar louca! – urrou o vampiro desgostoso com a situação. Nada disso fora comunicado a ele.
— Tenho idade para ser sua avó, não altere a voz comigo, garoto – As palavras dela fizeram Sasuke apenas sentir mais raiva da mulher a sua frente. Não recebia ordens, não acatava ordens. Havia entrado nessa a pedido de sua mãe, uma das únicas pessoas que ele respeitava — São ordens de sua mãe.
— O que minha mãe tem na cabeça?! Ela estará morta em três tempos quando descobrirem o que ela é, é isso que vocês desejam?
— Sasuke, é exatamente o contrário disso! Sua mãe planejou tudo – enxugou as mãos no vestido verde e assentou novamente clamando aos céus por paciência. Queria deferir um golpe certeiro no rosto estupidamente bonito daquele moleque insolente – Ela será apresentada como sua, sabe melhor que ninguém o quão proibido é alguém tocar na companheira de um vampiro. Você cederá sangue a ela todos os dias para camuflar o perfume doce e agiremos por debaixo dos panos da melhor maneira possível enquanto isso. As únicas pessoas que tem conhecimento sobre ela são a sua mãe e minha pupila.
— Porra! Porque minha mãe não falou nada? – Ele levantou bufando e jogou a cadeira contra a porta de madeira.
— Moleque estúpido, veja como fala comigo! Que se dane toda a educação que eu não tenho! – gritou levantando e jogando a cadeira que assentava no chão — Sua mãe é um anjo em pele de vampiro. Se ela contasse os planos dela você jamais aceitaria! – respirou fundo tentando controlar a vontade de lançar um feitiço contra o homem a sua frente e acalmar a ira que crescia em si – Ela é a nossa única chance de esperança Uchiha é a única capaz de nos salvar dessa miséria que consideramos vida!
— Que você se vire com essa garota, eu não vou me meter nisso! — abriu porta com brusquidão e caminhou até a sala, seguido por Tsunade.
— Sabe que eu estou aqui clandestinamente! Quer que eu a leve para território bruxo? Nosso plano iria por água abaixo. Bruxos são criaturas espertas e possuem a magia em seu auxílio, descobririam em dois tempos o que mantemos escondido – a mulher suspirou cansada tentando não alterar a voz novamente – No seu território pode mantê-la como sua caçada. Fingir que ela é sua propriedade, seu saco de sangue. – ironizou a última frase.
Sasuke estava parado na sala, de costas par a loira, com os punhos cerrados ao lado de seu corpo. Ele controlava a vontade de pegar a mulher insolente a sua frente e sugar todo o sangue dela da pior maneira possível até que ela desfalecesse e caísse no chão.
Ele era o tipo de homem considerado impiedoso, mas não podia negar pedido algum à sua família, principalmente a sua amada mãe. Ele se odiava por isso.
Não queria estar preso a uma garota estúpida por falsas esperanças da paz que ele sabia que jamais seria conquistada. Passou as mãos pelos cabelos rebeldes na tentativa falha de controlar a raiva que sentia por não ter sido informado que o serviço não estaria concluído apenas em buscar a fada em território inimigo, mas que agora teria que ser seu cão de guarda e pior: fazer todos acreditarem que ela era exclusivamente sua.
Ele estava com a cabeça cheia, precisava sair dali.
Tsunade não viu nada além de um vulto desaparecendo noite adentro e suspirou esgotada. Pedia aos deuses que Mikoto estivesse certa de que o filho iria colaborar quando dissesse que o pedido partia dela.
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A cabeça doía e estava mais pesada que de costume. Abriu os olhos lentamente e se assustou com o ambiente desconhecido. A única iluminação no local era de uma pequena lareira que a possibilitava de enxergar o cômodo pequeno em que estava. Rapidamente buscou a capanga como se sua vida dependesse dela. Respirou aliviada ao constar que ainda estava presa ao vestido.
Encolheu-se na cama agarrando-se a única coisa capaz de mantê-la em paz. Estava feliz em saber que seu companheiro não estava nas mãos de pessoas más que poderiam fazer atrocidades a seu tão precioso amigo, o qual deveria estar odiando estar preso em um corpo de lagartixa.
Ela podia conversar com os animais e era o que iria fazer se não se assustasse com os gritos que pareciam vir do outro cômodo. Engoliu em seco. Estava assustada e não conseguiu assimilar as palavras, mas pôde distinguir uma das vozes como sendo a do vampiro que a sequestrara. Não sabia se estava aliviada por não terem sido capturados pelos seres cujas auras eram as mais pesadas que ela já presenciou ou se por medo do que o sangue suga pudesse fazer com ela.
Escutou o ranger da madeira aproximar de seu quarto e concentrou suas energias nas mãos. Sem pensar em consequências, neste momento estava disposta a usar magia para proteger o seu amigo se necessário.
Os olhos verdes, agora esbugalhados estavam atentos a porta de madeira que foi aberta com cuidado, revelando uma mulher de cabelos loiros. Sakura imediatamente segurou com mais força a capanga com o braço esquerdo e com o direito preparava para lançar algo que atrasasse a mulher à sua frente que julgava querer lhe fazer mal, apesar de não sentir nada ruim vindo dela, estava receosa. Estava longe de casa.
— Se acalme querida – a mulher ergueu um dos braços acima da cabeça ao ver que a fada parecia querer ataca-la, o outro segurava um copo. Podia sentir o medo emanando do ser de aparência tão frágil a a sua frente. – Sei que está assustada, mas não vou lhe fazer mal — parou de andar para observá-la. Precisava ganhar sua confiança — Posso me aproximar?
Sakura estava hesitante, assustada. Ponderou por alguns segundos e meneou com a cabeça para que a outra se aproximasse. Depositou na mesinha de madeira ao seu lado um copo de barro.
— Deve estar confusa... e com fome. – Seguiu para os pés da cama e assentou com cuidado. Os olhos de Sakura a seguindo por onde fosse. — Eu lhe trouxe um chá.
A garota não se moveu, ainda estava assustada não sabia se podia confiar na mulher à sua frente embora sentisse algo acolhedor vindo dela.
— Querida, qual o seu nome?
— Sakura...
— É um lindo nome! Eu sou Tsunade – estendeu a mão para ela que a aceitou relutante. – Deve estar se perguntando o que faz aqui. – Respirou fundo tentando escolher com cuidado as palavras que soltaria a seguir. – Eu sou bruxa... – a moça pareceu se assustar e afastou o quanto pôde da mulher — Mas não se assuste, não somos todas malvadas como as que você teve o desprazer de conhecer. Sasuke me contou tudo – Tsunade percebeu que ela estava prestando atenção e resolveu continuar – Como disse, sou bruxa e recentemente tive uma visão. É raro de acontecer, mas quando as tenho elas nunca são falhas – sorriu orgulhosa de si – Bem, vi que um ser alado chegaria ao Submundo e que seria responsável por trazer a paz que muitos de nós almejam a vários séculos.
— Trazer a paz...? – Tsunade ficou empolgada por te-la instigado e se apressou em continuar.
— Sim! Contarei os detalhes se você permitir..., mas você é a chave para a mudança Sakura e é por isso que está aqui.
— Eu não entendo... – Tsunade atreveu-se a pegar a mão direita da rosada, depositada sobre o cobertor, a outra apertava uma capanga que ela não parecia disposta a soltar. A fada se assustou, mas permitiu. O toque da mulher a sua frente parecia tão certo e maternal que lhe trouxe conforto em meio a toda a confusão e dor que ela sentia agora.
— Eu preciso que confie em mim Sakura, mesmo não me conhecendo completamente. Sei que deve estar querendo voltar para casa e eu lhe ajudarei nisso, juntas nós podemos manda-la de volta.
— Podemos mesmo? – Tsunade viu os olhos dela marejarem e apertou sua mão em sinal de conforto. Imaginava como deveria estar assustada em um lugar tão desconhecido e tão sombrio como as Terras Escuras, ainda mais alguém com a aura tão pura como quem estava à sua frente.
Mesmo sem conhece-la, a loira já parecia possuir um carinho grande pela moça. A protegeria de tudo, se fosse necessário, para leva-la em segurança para casa, mas antes precisava da ajuda dela. O curso das coisas estava nas mãos de Sakura – a fada, que para Tsunade, milagrosamente, aparecera no Submundo como um fio de esperança em meio à escuridão.
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