Celeridade

3 Salão, Atalho e Ficha


A tal surpresa é um lixão.

Estamos num lixão.

Ele faz um sinal para alguém que não vejo.

Luzes se acendem.

É uma festa...

Festa no lixão.

–Por que você me trouxe pra um lixão? – pergunto sem parecer ingrata. Difícil.

–Porque um ferro-velho não parece romântico o bastante. – ele responde sorrindo – É pra ser especial.

–Me bate com a raquete, vai. – digo abaixando a cabeça e esticando os braços como se estivesse numa cruz.

Ele levanta a minha cabeça e me dá um beijo na testa. Encara meus olhos por um tempo que imagino ter sido rápido, mas pode ter levado horas...

Segura minha mão e me conduz para o “salão”.

Está tocando uma melodia familiar. Acho que ouvi no rádio alguns anos atrás...

–Implosionatic. – Oscar me diz.

–Do Hot Hot Heat? – pergunto com certeza da resposta.

Ele confirma com a cabeça. Os executores são os garotos da mesa do refeitório. Na bateria sem comandante, consigo ler as palavras “Panda Desolado”.

Por que será que não estou surpresa?

Percebo que, ainda com o cheiro de todo o lixo, o cheiro de Oscar está muito forte.

Ele cambaleia até o centro e me convida.

Vou até lá.

Desta vez, nada vai me impedir de perguntar que raio de odor é esse.

–Oscar... – digo colocando meus braços em volta do pescoço dele.

Uma sirene e gritos masculinos me interrompem.

–Sujou! – ouço o Demônio gritar.

A banda pega o que consegue e sai correndo desesperada.

Grito para Oscar e ele responde que é a polícia.

Ilegalmente. Que divertido.

Ele me abraça e diz que nos encontramos no meu hotel. Joia...

Vejo-o disparar.

Dou conta que, se ficar parada aqui, a polícia não vai acreditar na minha inocência.

Vou ser presa, e minha mãe vai me matar quando souber.

E, quando eu morrer, eu vou ser carregada num caixão frouxo.

Aí eu vou cair do caixão e bater na cova.

Minha cabeça vai rolar, porque minha mãe vai adorar me enforcar com aquelas mãos masculinas dela.

Vão descobrir que a minha mãe me matou, e vão levá-la para a cadeia.

Na cadeia ela vai jurar vingança.

E quando sair vai ir ao meu túmulo e me enforcar de novo.

Ou me incendiar com a raquete elétrica e o spray que mata insetos de Oscar.

Ou me atropelar com uma retroescavadeira.

Talvez me fatiar e me colocar em forminhas de cupcakes e me vender pra estranhos canibais de uma tribo na Papua Nova Guiné.

Não quero isso pra minha vida.

Antes que possa terminar o pensamento de acelerar, estou no hotel.

Se alguém me viu estou frita.

Decido agir naturalmente, como se estivesse aqui nos últimos segundos.

Avisto Oscar correndo como um atleta vindo até mim.

Quando ele me vê, toma um susto e cai para trás.

“CAMINHE” digo a meu cérebro.

De fato, caminho até meu namorado caído.

Ajudo-o a se levantar.

Seu cheiro misturado com o aroma nota dez do suor me faz quase vomitar.

Quando ele recupera o fôlego, me pergunta como cheguei aqui tão rápido.

–Peguei um atalho. – minto.

–Que belo atalho... – ele diz e respira fundo.

Entramos, mas uma voz extraordinariamente familiar me faz atirar-me atrás de uma poltrona no hall do hotel.

Oscar olha confusamente para mim. Puxo a manga de seu casaco e ele vem para junto de mim.

–Alerta de mãe. – sussurro e aponto com o polegar para a recepção.

–Deixa comigo. – ele se levanta e eu engatinho tentando o parar. Inútil.

Ouço-o indo até minha mãe e dizendo lúgubre e pesadamente:

–A senhora é a mãe da Robin?

Santo Deus, não aguento isso.

Levanto e empurro Oscar.

–Filha! – minha mãe diz enquanto me enche de abraços e beijos – O que estava fazendo tão tarde da noite lá fora?

–Numa festinha. – digo sorrindo para que ela fique menos braba.

–Você está fedendo. – minha mãe fala, esbanjando sua sinceridade.

Apresento Oscar à minha mãe e vice e versa.

Quando finalmente consigo dizer que ele é o namorado que me fez de trouxa na escola, a cena seguinte é minha mãe tentando aplicar um golpe de krav maga nele.

–Foi por uma boa causa! – ele diz tentando não morrer.

–É, mãe! – digo puxando seu braço para que ela o solte.

Ela se acalma. Bom começo.

Ela sempre foi assim. Pavio-curto. Muito amor para dar, mas ainda assim... Pavio-curto.

Não tinha paciência suficiente para grande parte das coisas.

Cozinhou para duas penitenciárias e para o exército, onde aprendeu o tal do krav maga. Ela também escreveu Orgulho Além Do Rosa, um livro sobre poder feminino, que foi taxado como “Indecente” em quarenta e cinco países.

Pelo menos ela não usa drogas.

Essa é minha mãe.

Serena Spokojstvo.

Ironicamente, nosso sobrenome significa “tranquilidade” em sérvio...

Oscar me abraça e aperta a mão de homem da minha mãe e se despede.

Pego a chave e minha mãe e eu subimos.

Do jeito que a conheço, prevejo bronca.

–Robin-Marie Spokojstvo, eu estou muito desapontada. – ela senta na cama e me tortura usando meu nome completo.

–Por que, dessa vez? – pergunto.

–Sair com um garoto daqueles? – ela parece decepcionada.

–O que tem de ruim no Oscar. – digo, mas logo depois pisco e me dou a reposta. Refaço a pergunta – O que a senhora viu de ruim nele?

–Não é o que eu vi. É o que eu senti! – ela fala, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo – Maconha, Robin! Maconha! Conhece? – ela grita.

Então o cheiro engraçado do meu namorado... É maconha...

–Eu não sabia! – grito em resposta, tentando provar minha inocência.

–Você não viu minha fichinha que continha todos esses detalhes? – ela grita.

Lembro dessa ficha.

Era, na verdade, uma enciclopédia para garotas que estão entrando na fase de namorar.

–Vi, mas aquilo era tão idiota! Você não pode me proteger para sempre! – me defendo.

–Eu sou sua mãe! Meu dever é evitar você de fazer uma merda com a sua vida! – ela grita ainda mais alto – Como, por exemplo, virar a esposa do Senhor Maconha!

–Para de falar mal do Oscar! Se queria me impedir de fazer uma merda, devia ter me deixado com você! Não ia sair tendo lapsos na rua!

Ela entra em choque. Boquiaberta como um peixe morto.

–Você... V-v-você teve? – ela me puxa para sentar.

–Tive. Hoje mesmo. – abaixo o tom de voz. Isto é segredo.

–Alguém viu? – minha mãe pergunta desesperada.

–Talvez Oscar tenha visto. – ela afunda a cabeça nas mãos – Ele não é um problema, nós guardamos os segredos um do outro.

–Então você sabia que ele usa maconha? – minha mãe ressurge das cinzas como uma fênix e volta a me atacar.

–Eu não uso maconha, Robin. – Oscar me jura, no dia seguinte.