Celeridade
1 Barata, Demônio e Essex
O táxi para, mas sinto que ele ainda se move. Pago os setenta e três dólares e vinte e cinco centavos, desço minhas malas e o observo partir para o horizonte.
O hotel no qual vou morar pelos próximos dois anos.
Aqui. Na minha frente.
O cheiro de mofo me dá ânsia de vômito, mas nada posso fazer.
Entro e digo meu nome. A recepcionista sai por um momento e observo o aquário majestoso que está num móvel polido.
Os peixes se agitam e se chocam contra a parede de vidro. “Não bata no vidro”, penso comigo mesma. Um deles chama minha atenção.
Não está circundando as bolhas ou seus amigos. Está quase imóvel. Como que comendo as pedrinhas. Parado.
Assim como quero estar. Estática. Não dinâmica.
A recepcionista volta com um de seus sorrisos e uma chave na mão. “3810”
Agradeço e arrasto minhas malas escada acima. Abro o quarto, que é o último do terceiro andar, e o cheiro de velas aromáticas invade minhas narinas despreparadas.
Corrigindo minha respiração, empurro as malas e checo o quarto. É modesto, mas parece aconchegante. Tem um guarda-roupa, uma cama de casal, uma escrivaninha e um sofá virado para uma janela grande.
Sento na cama. Confortável. Dois travesseiros e um lençol enorme.
Vejo a escrivaninha. É charmosa, parece feita de madeira. É perfeita.
Confiro meu relógio. São dez da noite.
Tomo banho e ponho meu pijama de pato. Enfio meu corpo entre as cobertas e respiro fundo.
“Não há lugar como o lar.”
Acordo. Seis da manhã.
Uma barata no banheiro tenta me impedir, mas a esmago com o vidro de xampu. Faço um lembrete mental para limpar aquilo depois.
Entrego a chave para a recepcionista e caminho até minha nova escola. Primeiro dia de aula.
Pelo menos não imagino que serei a única diferente.
Antes de entrar na sala, esbarro em um garoto com um cheiro engraçado. Meus livros caem e ele se apronta a pegar todos eles.
-Desculpe. – ele diz num tom tão baixo que quase não ouço.
-Tudo bem. – digo, mas sei que ele não me ouviu. Passou por mim ao entregar os livros.
Será que já tenho um amigo?
A aula passa rápido, mas sei que foi minha mente. Posso desligar meu corpo de sua superceleridade, mas minha mente não, pelo visto. Isso é um problema.
Não prestei atenção, ou seja, não aprendi nada.
Todas as aulas acabam e estou cansada dessa velocidade. Passo para o refeitório e o som de garfos rasgando pratos e pessoas gritando me dá dor de cabeça.
Compro meu almoço que inclui um bife malcheiroso e um iogurte.
Lotado. É a palavra certa.
Não vejo um único espaço vazio.
O menino que esbarrou em mim mais cedo me convida com a mão para sentar na mesa dele.
Olho por cima, mas não há lugar para mim.
Ele parece perceber a mesma coisa. Empurra um garoto ao chão e grita alguma coisa que eu não consigo entender.
Provavelmente, com todo esse barulho, não entenderia nem se ele o gritasse no meu ouvido.
Ele acena mais uma vez e aponta para o lugar vazio que acabou de brotar.
Chego à mesa e me sento. Alguns garotos estão olhando boquiabertos para mim.
Aperto o cachecol, por segurança.
-Oscar. – o garoto grita e aponta para o próprio peito.
-Robin! – respondo, apontando para o meu.
Seu cheiro está mais forte agora que no começo do dia. Penso em perguntar sobre isso, mas meus pensamentos são interrompidos pelos meninos que gargalham com alguma coisa que veem num celular de última geração.
Oscar pega o celular e me mostra.
É um vídeo amador que mostra um rapaz com uma raquete elétrica, aplicando um spray de matar insetos nela. Chamas vivas saem pelo outro lado.
Meu susto o faz rir. Ele cora e para de rir.
Um garoto gordo da nossa mesa arrota e, por algum motivo hilariante, todos os outros riem.
Oscar segura o riso para tentar ser maduro.
-Por favor, estamos com uma garota à mesa. – ele diz entre risadas e gesticula para mim.
-Não tem problema. – digo, me defendendo – Somos humanos. Todos nós podemos arrotar.
-É o quê? – o garoto que arrotou grita.
-Desculpa, Robin, é que o Demônio não escuta muito bem. Com esse barulho, só piora. – Oscar grita.
Então o nome do arrotador é “Demônio”. Tranquilizador.
Olho em volta e vejo uma mesa com outras meninas e decido me juntar a elas.
-Duvido o Demônio arrotar por um minuto inteiro depois de comer isso. – passo minha bandeja para ele e me levanto.
Vou até a mesa que estava observando e está repleta de garotas loiras com blazers cor-de-rosa.
-Oi... – aceno para a que tem um celular brilhante.
Ela digita freneticamente e acho que faria o mesmo se tivesse um celular.
-Como assim, tem uma garota em pé na nossa frente? – ela diz e levanta a cabeça – O que você quer?
-Eu queria saber se posso me sentar com vocês. – digo e vou sentando, mas ela me interrompe.
-Tem que cumprir três exigências pra sentar com as Cintia-lantes. – ela diz sem nem olhar pra mim – Tem que ter roupas de grife, um celular muito bom e um namorado que não seja pançudo.
-Sorte que eu tenho tudo isso... – minto sorrindo.
-Tem é? – ela olha pra mim de cima a baixo – Não parece.
-Claro. Este cachecol mesmo... Só existem quatro no mundo todo, e um é meu. Foi feito em Essex, no Reino Unido. – ela está boquiaberta, continuo com as mentiras – E as botas, são neozelandesas da coleção Be-wild de Serv Welles. – incremento com o único nome de estilista que conheço.
-Para tudo. – ela diz e as outras param de digitar – Essas botas foram feitas pelo Serv Welles? Tipo assim, O Serv Welles?
-Tipo assim, total, cara! – imito o vocabulário dela.
-Tipo, primeira exigência super cumprida. – ela diz tateando meu cachecol – Seu celular?
-Perdi hoje. Vou comprar outro quando chegar na minha casa. Mansão! Na minha mansão. – corrijo com uma mentira ainda maior.
-Adoro, você também faz isso? Amiga! – ela cutuca outra garota e cochicha algo em seu ouvido – E seu namorado?
As outras atiçam repetindo a vogal “u”. Maldição.
-Ele estuda aqui. – elas parecem que viram um fantasma. Empalidecem velozmente – Eu não sei por que ele não veio. Acho que virá amanhã.
-Per-fei-to! – ela diz e se levanta – Mande ele trazer presentes para suas novas amigas.
-Presentes? – pergunto tentando não parecer desesperada.
-É tipo um ritual de iniciação. Assim, pra todas as Cintia-lantes. – ela bate palmas e seus cachorrinhos louros a seguem pelo refeitório.
Penso em como sustentar essas mentiras.
Uma de cada vez.
As roupas vão se sustentar com outras mentiras iguais as de hoje.
Os presentes... Ela não especificou, acho que um vidro de xampu “importado direto de Bali” vai satisfazê-las.
O celular e o namorado são meu muro...
Me viro e vejo Oscar jogando Clash of The Titans em seu...
Corro de volta para a minha mesa original.
-Perdeu, Robin, ele conseguiu arrotar por um minuto e treze segundos. – ele ri e aponta para o Demônio com o nariz.
-O que tem dentro de você? – pergunto arregalando os olhos.
Ele apenas sorri.
-Oscar presta atenção. – ele olha pra mim – Quer namorar comigo?
Os outros meninos se surpreendem. Demônio passa mal e cai com o rosto no sujo prato que eu dei a ele. Oscar, por outro lado, parece bem tranquilo quanto a isto.
-Por mim tá ótimo. – ele sorri e volta a jogar.
“Oi, mãe!
Estou fazendo tudo direitinho, como você mandou. Estudando, fazendo amigos e não quebrei nada ainda.
Hoje eu matei uma barata, fiz amigas e comecei a namorar.
Ninguém sabe de nada, não se preocupe.
Como estão as coisas aí, já sinto saudades!
De sua melhor filha, Robin.”
Coloco o envelope na caixa do correio e volto para o hotel. Pego alguns vidros de xampu.
Esse aqui é de Bali... Esse é da China...
Acho que essa pasta de dentes pode ter pertencido à família real inglesa...
Coloco dez cosméticos numa sacola da Gucci, que sempre esteve vazia, e vou dormir. Amanhã será um longo dia.
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