Ceifadora
1 Prólogo
18 de julho de 1900
Fugir não era a única alternativa, mas agora, novas propostas estavam fora de cogitação. Enquanto as cenas de seus pais a proibindo de ver seu namorado ecoavam em sua mente, Elizabeth Collins segurava a mão direita de Steffan. A ventania e tempestade derrubavam várias arvores ao longo da barrenta estrada escura, o que deixava a garota pensativa sobre seu rebelde ato. Fugir de seus pais para morar com Steffan. Abandonara seus pais, seus irmão e amigos para ter uma vida, determinada, feliz bem longe de sua casa em Paris.
Os relâmpagos que surgiam em meio a escuridão da chuva destacavam os traços marcantes de Elizabeth. Pele branca como a neve se destacava em maças do rosto rosadas e veludosas, se contrastando com lábios carnudos e avermelhados. O cabelo Castanho claro deixava que sua pele parecesse mais pálida, e que seus olhos azuis, escondidos entre a grande franja em sua testa ficassem tão claros quanto o amanhecer do dia. Steffan não fugia da exótica beleza da garota. Sua pele morena de sol se contrastava com os brancos dela, e seus braços fortes com as suas curvas delicadas. O garoto não era magro, mas não era exageradamente gordo. Seus olhos eram tão azuis quantos os dela e seus cabelos morenos. O menino ainda se encontrava sujo de fuligem, já que fugira com a garota assim que saiu de seu trabalho como ferreiro.
Os seus braços puxavam com força as rédeas dos cavalos que se assustavam com os raios e com as arvores e, infelizmente, não eram somente ele que estava com medo, mas também Elizabeth.
- Há esta hora, seus pais já devem estar loucos atrás de você;
- Eles chamarão a guarda militar, não podemos correr o risco de ser pegos.
- Nunca deixaria que eles encostassem-se a você, Lisa.
- Então você seria preso — os pensamentos eram dolorosos para a garota, a fazendo suspirar intensamente. Ver Steffan preso seria tão ruim quanto morrer.
Não importava como, mas qualquer uma das opções já fazia o coração de Elizabeth doer, o silêncio começou a tomar conta do local, nenhuma conversa era propícia para o momento o que eles queriam mesmo era estar um do lado do outro apenas sentindo sua presença. Os dois pararam então em um posto que houvesse na estrada para comprar algo, por mais perigoso que parecesse. O local era um lugar simples e bem esquecido no meio da imensa estrada, Liza pôs os cavalos ao lado da venda do posto e foi junto a Steffan buscar alimentos. O clima estava estranho, muito silêncio, poucas pessoas, medo e confusão, Elizabeth sentia que algo estava pra acontecer mas contar a Steffan não parecia uma boa ideia.
- Uma jovem de 18 anos desapareceu de casa, no começo deste dia 18 – dizia a estação de radio – os pais contam que a garota Elizabeth Collins desapareceu com seu amigo Steffan Finnick a uma hora da manhã. Por favor, a família pede que – de repente o recado da jornalista foi interrompido, o som ficou mais forte e o eco parecia até maligno. Uma voz familiar de Elizabeth apareceu – Não adianta fugir Elizabeth, nós acharemos você aonde quer que esteja, no céu ou – ele riu – no inferno – o som parou por um segundo e o noticiário voltou a sua programação normal novamente
- Deixei-me entender – Steffan sussurrou acabando com o silêncio – Seu pai vai te procurar até o inferno? Aquele era seu pai, não era?
- Isso – Elizabeth dizia parecendo ainda não entender – temos que ir logo
- Mas com essa carroça é bem óbvio que vamos ser pegos rápido
- Não podemos ir voando
- Você podia ser uma bruxa
- Podia, mas não sou, usou a palavra certa. Steffan olhe aquele carro.
- Ta pensando – ele observava o carro como um predador com sua presa – na mesma coisa que eu? – ele sorriu disfarçadamente
- Vá, vou pagar as coisas por aqui.
Era arriscado Elizabeth continuar ali, a foto dos dois agora estava espalhada por todo o lado e estavam dando recompensa para quem os achasse mas ela não sentia medo disso tinha que estar completamente segura de seus atos para poder não transparecer medos ou dúvidas. Elizabeth pegou as coisas que mais necessitava no momento pagou com tranquilidade sem demonstrar nada (principalmente o medo que no fundo sentia) e foi calma embora. Steffan estava na estrada um pouco mais a frente do posto já com o carro roubado.
- Fez um bom trabalho – ela sorriu – vamos agora, acho que o cara desconfiou de alguma coisa.
Os minutos passados dentro da pequena vendinha não haviam resultado em nada. A chuva somente tinha piorado e o céu se tornava uma cor drástica de cinza escuro, esbranquiçado com
Elizabeth abriu os olhos, achando que depois do choque fosse encontrar dor, mas se sentia muito bem. Era como se nenhum acidente tivesse acontecido. Seu corpo estava sem dor nenhuma, sentia-se viva, nova, mas assim que seus olhos passaram para baixo, percebeu a qual realidade que estava vivenciando. Não era seu corpo que estava sem dor e sim sua alma. Abaixo dela, a sua carne imóvel e ensangüentada. Ela sabia muito bem o que estava vendo. Não havia o leve respirar, nenhum batimento cardíaco, Elizabeth via seu corpo ali, estirado em baixo de algumas madeiras cerradas da pequena carroça que antes era o meio de fuga dos dois. “Eu morri” as palavras ecoavam em sua mente, até que viu o corpo de Steffan também estirado no chão. Ao contrário dela, a Alma dele não havia se levantado, mas ainda assim, dava para ver aquele ser esbranquiçado fora de seu corpo, assim como o dela, morto. A Alma da garota chorava. Ela não queria ver Steffan ali. Era tudo culpa dela.
Seu choro e desespero eram tantos que não viu a garota se aproximar. Uma menina loira, olhos vermelhos, por mais bela que fosse expressava uma dor terrível e tão consumida a ela que ninguém conseguiria fazer um sorriso brotar no rosto da menina. Vestia uma capa preta longa e com capuz, sua boca expressou um sorriso sarcástico.
- Muito empolgante – a garota de capa preta falou monotonamente – Um casal que morreu fugindo juntos.
- Quem é você? – Liza se assustou com a menina, afastando-se longamente – Você é a morte.
- Morte, ceifadora, espectro de luz. Tanto faz, garota, você vai passar pouco tempo comigo até ir ao seu destino.
Liza ficou quieta, esta pronta para morrer, mas assim que a Ceifadora encostou em sua alma, se afastou repentinamente. Seu olhar se encontrou ao garoto e então pegou a alma dele, como se a aprisionasse em suas mãos. Agora o menino havia acordado, e parecia assustado, com lagrimas escorrendo de sua alma também. Steffan não parecia entender nada, e ficava o tempo todo olhando para seu corpo. Liza não podia deixar aquilo acontecer, mas quando tentou encostar em Steffan, o corpo dela foi afastado por uma grande rede de força, que não a deixava se aproximar;
- Boas noticias para você, Elizabeth Collins. Não é sua hora. Logo sua alma retornará ao seu corpo e você não se lembrará disso. Até Breve, Elizabeth. Nos vemos daqui um ano e vinte e sete dias.
A ceifadora começou a se afastar, mas Elizabeth pulou na frente dela com rapidez.
- Me leve no lugar dele.
- Isso é um desejo um tanto tolo, garota.
- Me leve no lugar dele.
- Eu tenho permissão para te levar, mas está consciente de que ele irá morrer em um ano certo? No mesmo dia que você iria morrer.
- Eu só estou pedindo para que me leve! – Elizabeth gritou, fazendo uma arvore cair.
- A suas ordens.
A Alma de Steffan foi liberta e colocada em seu corpo, que no mesmo instante começou a se mover. A ceifadora fez questão de que Elizabeth visse a cena. E foi realmente uma das piores coisas que ela já viu. Steffan abriu os olhos, tirando com suas mãos o sangue de sua testa e gritando de dor quando tentou mover sua perna, vendo que uma das madeiras havia perfurado-o. Depois que percebeu o que havia ocorrido, Steffan olhou para o corpo sem vida de Elizabeth. O garoto começou a cutucá-la e colocou a sua mão em seu pescoço tentando achar os batimentos cardíacos. De assustado e de dor, sua expressão passou para lágrimas misturadas com sangue, que escorriam sem parar de seu rosto.
- Liza, por favor, volta – dizia entre soluços. — Liza, por favor!
Elizabeth não agüentou a cena, saindo de perto da ceifadora para Steffan e colocando as mãos em seu rosto. Assim que ela o fez, o garoto parou de chorar.
- Liza..
- Stef, estou aqui! – chorava junto com o menino – me perdoe.
- Liza, volte! – o menino se virou novamente para o corpo morto – LIZA!
- Steffan! Por favor, me olhe.
- Ele não vai te ver – a ceifadora riu – e ele não vai te ouvir.
- Steffan! Aqui, meu amor! Eu estou aqui!
- ELE NÃO VAI TE OUVIR ELIZABETH! – A ceifadora a pegou pelo braço, a afastando do garoto.
- Me deixe!
- Você já fez sua troca, agora vamos.
- Stef..
- Vamos, estamos atrasadas.
Liza caminhou ao lado da garota de capuz chorando. Não sabia que almas poderiam chorar tanto, mas acabou se lembrando de que as almas faziam parte do sentimento de alguém. Ela queria ser forte. Não queria chorar. Mas não dava. A cada momento, suas lágrimas escorriam do rosto a fazendo se sentir mais triste. Mal percebeu o caminho, mas quando se deu conta, não estava em nenhum lugar da França, mas sim em um porto. Literalmente. Havia dois barcos a sua frente. Um deles era o barco mais lindo que ela havia visto. Totalmente branco, com detalhes em ouro. A sua entrada, um anjo enorme estava parado, conversando com umas pessoas de uma enorme fila. A maioria delas chorava e dizia não saber o que estavam fazendo ali.
O outro barco era um lugar que ela nunca iria querer entrar. Havia vários seres estranhos. Negros, avermelhados, com chifres enormes, línguas bifurcadas, olhares malignos, não havia fila ali, na verdade, Elizabeth se assustou só de olhar para lá. Negro e em chamas. Podia jurar que sentia o calor das chamas mesmo de longe.
- Bom, já fiz meu trabalho, agora pode escolher para que barco queira ir.
- Serve o dos anjos?
- Todos querem o céu. – ela revirou os olhos sumindo logo em seguida.
- Garota estranha.
Elizabeth entrou na fila enorme. Na frente dela, uma alma de uma mulher. Na verdade, mal dava para perceber o seu rosto, mas as características da vida dela eram marcantes. Várias cicatrizes, talvez dores, e manchas espalhadas pelo corpo. Assim que Elizabeth reparou, percebeu que suas próprias dores e manchas ela não podia ver.
O tempo foi rápido, e ela já estava na frente do Anjo que a encarava de forma amigável e sorridente, mas não perdia o foco.
- Elizabeth Collins.
- Sim senhor – limpou a garganta sem jeito.
- Dezoito anos.
- Isso.
- Boa filha, boa amiga, nunca matou alguém, nem roubou.
- Sim senhor – ela se sentia feliz, talvez fosse para o céu.
- Entretanto, fugiu de casa, desobedeceu a seus pais, fez toda sua família sofrer – ele olhou com piedade para ela – sua vida fora boa, mas suas ultimas atitudes fizeram sua condena..– seus olhos estavam fixados na região do coração dela – espere. Você deu sua vida no lugar de outro. Isso tem um grande peso em seu julgamento.
Elizabeth achou que iria ouvir as ultimas palavras do anjo quando sua visão ficou turva até escurecer. Só podia ver uma breve iluminação de sua alma, mas estava em um lugar totalmente diferente. Não havia mais os barcos para o céu ou o inferno. Somente o vazio.
- Suas atitudes foram nobres Liza – era uma voz forte, e que ecoava dentro da mente de Liza.
- Quem é você.
- Não importa quem sou, importa o que você é.
- E o que eu sou.
- Por enquanto, uma alma perdida, sem rumo por suas atitudes. O que você será que é a questão.
- E o que eu posso ser?
- Você pode ser uma alma vaga até o juízo final, ou pode ser uma de minhas servas;
- O que eu ganho com isso? – A voz de Liza agora era mais confiante;
- Você viverá jovem fazendo seu trabalho até que queira morrer e entrar em um dos barcos. Poderá controlar a mente de alguns humanos para cuidar de você como filha, e terá que ceifar almas que tem sua hora chegada.
- Quer dizer que eu vou ser a morte?
- É, esse é um dos nomes.
- Tenho tempo para decidir?
- Creio que um minuto. Seu corpo está entrando na sala de necropsia neste minuto. E Seu querido Steffan vai se matar.
- Ok, eu vou ser sua ceifadora.
Notas finais
Caso eu escreva um novo capítulo, postarei aqui também, mas prefiro esperar os comentários de vocês
Sem leitores fantasmas, por favor!
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