Cegueira de carne
2 Capítulo 2: Mãe
Notas iniciais
4 de maio de 2015: Mãe
Desde o último pesadelo mais notório, Júlia está enfrentando noites insones. A privação de sono tem suas consequências, e isso tem afetado seu trabalho no escritório, principalmente sua capacidade de foco e concentração. Sua caixa de entrada está lotada de contratos esperando verificação. Nos momentos livres, quando seus pensamentos não estavam fixados em nenhum objeto, ela via o quarto branco em sua tela mental.
Após o incidente da foto, houve um acordo entre Júlia, seu chefe e Gabor para manter em sigilo o ocorrido. As medidas de segurança foram aumentadas na empresa e nos computadores dos funcionários. Gabor instalou rastreadores de IP, nenhuma atividade suspeita passará sem ser percebida pelos olhos atentos do cão galgo.
Júlia marcou uma consulta com o Dr.Andreas Mészáros para a próxima terça-feira. Sabia que não poderia mais empurrar com a barriga e precisaria vê-lo, sua sanidade estava sendo corroída. Saiu mais cedo do trabalho e foi direto para casa, com redobrada atenção no trajeto de volta, pois estava bastante cansada e sua capacidade de prontidão estava prejudicada.
Ao chegar em casa, dependurou seu casaco e colocou água para esquentar na chaleira da cozinha. Deparou-se com a janela da cozinha entreaberta, com sinais de ter sido forçada. Seu coração disparou e a adrenalina tomou conta de seus sentidos. Sem fazer qualquer barulho, empunhou a faca de cozinha mais afiada à disposição e verificou cômodo por cômodo da casa à procura de algum invasor. Ela estava com medo, mas também excitada e aquela excitação que a adrenalina causava a fazia pensar que poderia ser capaz de qualquer coisa.
Após procurar em todos os cômodos, finalmente foi à lavanderia. Seu apartamento não tem muitos metros quadrados. Caso se tratasse de um arrombamento, já teria encontrado mais sinais de invasão, ou algum objeto de valor faltando ou danificado, mas se deparou com algo surpreendente, vários invasores: uma gata fêmea cinzenta estava deitada sob as roupas sujas do cesto da lavanderia, com quatro filhotes malhados dormindo aconchegados em seu corpo. Ela levantou a cabeça, exausta, com uma expressão de ternura no olhar.
Júlia baixou a faca e a guarda. Respirou profundamente, aliviada, e reassumiu o controle racional de suas ações. Sentiu que precisava ajudar aquela mãe felina a ter forças para amamentar os filhotes, e também limpar a bagunça que ela fez. Havia sangue e restos de placenta.
Desligou a chaleira do fogo, que a esta altura tinha evaporado toda a água, colocou seu casaco e saiu em busca de comida para a nova família que veio hospedar-se no seu apartamento. Trancou todas as janelas da casa, certificou-se de que estavam seguros e saiu.
Fale com o autor