Cegueira Momentânea

1 O Primeiro Dia


Conhecer Tomás na sua totalidade é como estar ao lado de um objeto constantemente em combustão. Naquele momento ele estava parado, dormindo. Sua silhueta nua era destacada pela luz do luar, e o seu corpo pálido de alguma forma brilhava.

Antônio sabia o que implicava aquela noite, mas não queria ser negativo, estava apenas apreciando o corpo de Tomás. Sua pele macia, seus cabelos escuros e lisos e todos aqueles anos de natação estampados num conjunto perfeito. Ele era bonito, não tinha mais o que argumentar.

Era uma noite de vitória, quem imaginaria que ele conseguiu o que queria depois de tantos fracassos? Bem, ninguém poderia saber, isso foi o que Tomás o fez prometer, ainda mais depois de um término de namoro recente.

– Eu sei que você tá olhando pra porra do meu pau, viado.

Antônio tentou desviar, ele realmente estava.

– Tá certo, pode olhar.

Tomás estava completamente de frente, e Antônio ficou constrangido, então tentou olhar para os seus olhos, que o encaravam fixamente. Notou que ele voltara a usar os alargadores falsos que Juliana, a outra, odiava.

– Eu não tava olhando, tava só pensando.

– Pensando no quê?

– Tava pensando em como a gente passou dois anos sem trocar uma só palavra, e como do nada você chega aqui em casa dizendo que tá chovendo e que precisa de um lugar para passar a noite.

– O que foi? Estava mesmo chovendo — Ele riu. – Você deveria parar de ficar pensando tanto. Olho para você na aula e tudo o que vejo é um menino de cabeça baixa, tentando justificar a própria existência. Antônio, você tá sempre tentando procurar o significado de tudo. Aposto que estava pensando no que essa noite de hoje significou, mas eu te respondo. Pode ter significado o mundo, mas ao mesmo tempo foi só mais uma noite. Eu não sou a porra de um filósofo, e nem preciso ser, mas sei que se for parar pra ficar pensando sobre tudo, vai chegar um momento em que eu vou quebrar. Você deveria deixar as coisas serem do jeito que são e pelo que são. Talvez hoje tenha sido só hoje.

Antônio tinha alcançado o momento em que quebraria, ele estava prestes a quebrar. Numa escala de materiais, ele era o vidro, e estava em pedaços. Tudo o que conseguia pensar era no quanto queria que aquele momento durasse para sempre, estar ao lado de alguém pela primeira vez. Dois corpos num só, dançando num ritmo que ele conhecia.

– Me desculpa, eu não achei que você notasse.

– Eu noto tudo, você não é exclusividade – ele continuava com um sorriso no canto da boca.

Os dois passaram mais alguns minutos deitados, em silêncio. As bocas podiam estar caladas, mas no fundo, Antônio estava gritando. Nisso, os minutos pareciam horas, e ninguém estava confortável.

– Parou de chover, – disse Tomás apontando para a janela – eu preciso fumar um cigarro e ir pra casa. Parece que que você ainda tem muito no que pensar.

– E como vai ser amanhã?

– O dia seguinte – ele riu.

O cigarro já estava na mão enquanto Tomás vestia a camisa preta com estampa espacial.

– Eu sei que você ainda tá olhando pro meu pau, viado.

Tomás se aproximou, e se aproximou. Antônio estava com medo. Tomás o beijou. Colocou a mão no seu rosto, estavam calados. Ele olhou firme nos seus olhos por uma última vez.

– Boa noite – disse Antônio.

Ele estava ansioso pelo dia seguinte.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.