Cecília
18 Um homem duas mulheres
Falando um pouco sobre dona Cida, ela era viúva, e morava sozinha há um bom tempo, o único filho que teve, casou-se com uma acriana e foi embora para Rio Branco, capital do estado do Acre.
Ao ver-se, sem marido, sem filho, e sem condições de manter a terra, dona Cida vendeu mais da metade do sítio deixado pelo falecido. Lhe restou uns poucos metros quadrados, onde ela criava animais de pequeno porte, e plantava algumas poucas verduras. Com o dinheiro da venda de ovos, galinhas, legumes e verduras, mais a aposentadoria deixada pelo marido, vivia sem muitos apertos.
Mas, creio que devo retornar a história e contar o que aconteceu com Joana.
Pobre mulher. Ao descobrir que fora miseravelmente traída, rumou para casa da sogra, no rosto, a expressão atordoada quase desesperada. Naquele momemto brotou em seu interior, um sentimento até então desconhecido, nunca em sua vida, sentira tanto ódio, a vontade que tinha, era de matar o marido e a amante. Se pudesse o faria, certamente que o faria.
Parou em meio a estrada e passou a mão pelo ventre; lágrimas confusas desceram por seu rosto. Amava Robério, sim, amava-o, e não imaginava sua vida sem ele, entretanto perdoar a traição...Não, não poderia.
Ao entrar em casa, respirou aliviada, a sala estava vazia. Ninguém a veria partir, não teria despedidas inúteis. Daquele maldito lugar, levaria apenas dor e tristeza.
Logo que entrou no quarto, viu-se transtornada e meio fora de si, num ímpeto quase selvagem, abriu a porta do guarda-roupas, e, em lágrimas, arrancou as roupas do cabide, jogando-as sobre a cama. O sofrimento a consumia por completo, trêmula e mentalmente perturbada, abraçou-se a si mesma, e sentou-se no chão. Visivelmente abalada, permitiu que as lágrimas rolassem livremente. Não escondeu a dor que sentia, como um cão doente, uivou angustiada. Na cozinha, Eulália sovava a massa para fazer pão, ao ouvir o estranho barulho vindo do aposento do filho, deixou a bacia sobre a mesa, e correu para ver o que estava acontecendo. Mesmo com a chegada da sogra, Joana continuou sentada no chão chorando e murmurando palavras, que aos ouvidos da interlocutora, não tinham sentido.
— Por quê? Por quê? Por quê, meu Deus?
— Joana! O que está acontecendo? Por que você está assim, minha filha?
— Eu já sei de tudo dona Eulália! — Ela rosnou com ódio.
—Você já sabe de tudo? Tudo o quê? — Perguntou Eulália espantada.
— Por que não me contou? Por que escondeu que o Robério tem uma amante? — Perguntou esforçando-se para levantar.
— Amante? Quem lhe disse tamanha mentira?
Já em pé, Joana forçou um riso, e com voz trêmula pelo choro argumentou.
— Se fosse mentira, a senhora não estaria tão nervosa.
Eulália percebeu que teria que contar a verdade, mesmo que um pouco distorcida. Antes de falar, ela suspirou, sentou-se na beirada da cama, e confessou.
— Está bem. Você tem razão, eu devia ter lhe contado que o Robério teve um breve caso com uma moça. Se não o fiz, foi para evitar desgastes como este que estou vendo. Eu não sei o que lhe contaram, eu sei o que o meu filho me contou.
Joana aproximou-se da cama e perguntou.
— E o que ele contou pra senhora?
— Bom, a moça é... Digamos... Meio fácil. — Eulália fez uma pausa. — Meu filho é homem, Joana. Mas eu lhe garanto, que foi algo frívolo e momentâneo, por isso, não vi motivos para lhe contar.
A argumentação da sogra fora convincente, o que não impediu Joana de contra argumentar.
— Seu filho me traiu dona Eulália! Não sei se a frivolidade torna a traição menos cruel.
— Antes de tomar qualquer decisão, pense nessa criança, Joana. — Pediu Eulália ainda sentada na beirada da cama. — O Robério é um bom filho e será um bom pai. Não o condene por um momento de fraqueza. Você vai perder seu marido por algo sem nenhuma consistência?
— Não sei... O Robério está diferente. — Disse Joana reflexiva.
Eulália se levantou e ficou frente a Joana. Para persuadi-la a mudar de ideia, criou um contexto relacionando alguns fatores reais.
— É claro que ele está diferente. E como não poderia estar? Você acha que é fácil para um rapaz descobrir que vai ser pai, assim, de repente? Ele ainda não se acostumou com a ideia. Ajude-o a se acostumar, Joana. Vai dar certo, filha. Ele te ama.
— Eu queria ter essa certeza que a senhora tem.
— Você vai ver, quando essa criança nascer, as coisas vão mudar, tenha fé, Joana, e por favor, não abandone meu filho, ele precisa de você.
Depois da súplica da sogra, Joana enxugou o rosto e suspirou profundamente; com o semblante abatido, olhou para a pilha de roupa sobre a cama, submissa aos próprios sentimentos, sentou-se, e começou a dobrá-las. Naquela tarde, não guardou somente as roupas em seus devidos lugares, em algum lugar do seu interior, guardou também, uma amargura profunda.
Os dias passaram lentos e dolorosos; como uma ferida aberta, os corações sofridos latejavam continuamente.
Certa manhã, em que Cecília tomava café, Rosália puxou uma cadeira e sentou-se próximo a ela, a tristeza estampada no rosto outrora iluminado, constrangeu-a.
— Você sabe que ele não virá. Esqueça-o. — Ela pediu com voz silenciosa. A moça a encarou com olhar vazio, triste. Estava muito abatida, e com olheiras visíveis.
— Esquecê-lo? Você me pede o impossível, Rosália. Por mais que eu tente, não dá pra esquecer o que eu vivi com o Robério. Eu o amo! E sei que ele me ama. Ele jurou amor eterno!
A cozinheira suspirou antes de falar.
— Ele vai ser pai; e um filho muda sentimentos, Cecília! Esquece esse rapaz. Compreenda que ele já tem esposa, e não pode ser seu.
— O que eu faço para esquecê-lo, Rosália? — Perguntou como num lamento.
— Volte para o trabalho. Essa fazenda precisa de você.
Mesmo com o coração dilacerado, ela concordou com a empregada. Estivera trancada em uma concha durante vários dias, a tristeza a fizera esquecer do sonho do pai. Era hora de sair do escuro e enfrentar a claridade, por mais que a luz lhe ferisse os olhos.
— Você tem razão, Rosália. Como dizia meu pai, o trabalho é uma ferramenta essencial para ocupar a mente.
Depois desse dia, ela tomou as rédeas do trabalho, para uma moça jovem e sem experiência, não foi fácil fazer-se respeitar, principalmente, em meio a homens fortes e por vezes rudes. Foi com muita determinação que ela impôs limites, e criou um vínculo de confiabilidade com os trabalhadores, de fato a confiança era importante, visto que agora ela se tornara como eles.
Com o passar dos dias, sua posição de fato foi definida, era ela quem tomava as mais difíceis decisões; falava firme, dava ordens aos trabalhadores, e jamais baixava a cabeça ante a quaisquer divergências. Não que fosse autoritária, sabia no entanto, o lugar que ocupava. Quanto a tristeza pelo rompimento abrupto do namoro, ela ainda sofria silenciosa. Pois, verdadeiramente, amava.
Em Campinas, Jorge o irmão de Cecília, seguia com sua vida boemia e descompromissada. Quase não ia em casa, e pouco se preocupava com a solidão da mãe. Vinha em casa quando tinha fome, ou se lhe faltasse o vil metal. Uma noite, entrou sorrateiramente no quarto da mãe, que dormia profundamente. Devido a penumbra, tropeçou em uma cadeira, derrubando-a. O barulho do móvel batendo contra o piso, fez Elvira remexer na cama. Apreensivo com o movimento, o rapaz, pôs a mão sobre a boca, e aguardou alguns segundos, só então foi até a cômoda, abriu a bolsa marrom, e tirou duas folhas do talão de cheques.
Antes de voltar para o cassino, foi até a cozinha, e comeu o resto do risoto que estava no forno.
Alguns dias depois, Elvira descobriu o rombo em sua conta; aturdida com o sumiço do dinheiro, teve um ligeiro mal estar, e foi levada a um hospital. Após ser atendida e medicada, voltou para casa, e deitou-se para descansar. Já estava menos tensa, pois, sem muito esforço mental, identificara o autor do roubo.
— Filho de minhas entranhas, por que não o matei quando ainda eras um inocente? — Perguntava-se a si mesma.
Quatro dias depois desse acontecimento, Jorge retornou para casa. Como um felino, entrou pisando macio, para não acordar a mãe. Experiente na arte de usurpar o que não lhe pertencia, deduziu que a vítima já sabia quem era o autor do delito. Arregalou os olhos, quando a mãe acendeu a luz da sala.
— Mãe! Eu pensei que a senhora estivesse dormindo. — Alardeou.
— E como posso dormir, se tem um ladrão rondando minha casa. — Retrucou Elvira cruzando os braços sobre o peito.
— Um ladrão? — Ele fez-se de surpreso.
— Não sejas hipócrita, Jorge! Eu sei que foi você quem roubou meus cheques.
— Mãezinha. — Jorge a abraçou. — Eu sei que errei; mas, quem não erra? Aquele que nunca cometeu nenhum erro, que atire a primeira pedra. Não foi isso que disse Jesus Cristo? É, acho que foi mais ou menos isso.
A mãe desvencilhou-se do abraço e o afastou. A resposta do filho a deixara, indignada.
— Meu Deus! Onde foi que eu errei?
Jorge Riu ironicamente e jogou-se no sofá.
— Não fique alterada, dona Elvira. Eu vim para lhe devolver o que peguei emprestado. — Disse o filho tirando a carteira do bolso e segurando um maço de dinheiro na mão.
A mãe ao ver a quantidade de cédulas que o filho segurava, espantou-se.
— Seja sincero, Jorge. Onde você conseguiu tanto dinheiro?
— Meu santo é forte, mãe! Quando eu sentei naquela mesa, senti que quebraria a banca! — Disse Jorge separando uma parte das notas e entregando a Elvira.
Ela pegou o dinheiro e colocou no bolso do moletom azul; depois sentou-se no outro sofá.
— Duvido que algum santo se envolva com jogos de azar. — Reclamou acomodando-se no sofá.
— Bobagem, o que vale é a nossa fé. E eu tenho fé, que um dia serei muito rico. — Argumentou com veemência.
— Por favor, saia dessa vida, filho. Sua irmã foi embora, e a única pessoa que eu tenho aqui, é você. Então seja responsável.
— Mas eu sou responsável. Acabei de lhe pagar o empréstimo que peguei. O que mais a senhora quer?
A mãe, saiu do lugar em que estava, e sentou-se ao lado do filho. Num gesto carinhoso, segurou o rosto do primogênito, com ambas as mãos.
― Eu quero que você pare de jogar, que arrume um emprego decente, que não me deixe aflita a cada noite que tenho que dormir sozinha. — Pediu com voz suplicante.
Ele afastou as mãos da mãe, e franziu a testa.
― Eu tenho um emprego decente. Jogar é uma arte, mãe. É um mistério envolvente, que nos deixa aficionados pela próxima rodada de cartas.
“Está completamente perdido. Não tem volta” Pensou ao ver com que entusiasmo o filho narrava suas experiências com a jogatina.
No sítio dos Ferrazzo, Robério sofria os dissabores de viver longe de quem ele realmente amava; sofria ainda mais por ter que suportar a pressão da mãe, o coagindo o tempo todo. Às vezes odiava-a, queria ter coragem de enfrentá-la e dizer, NÃO. Visto que seria impossível concretizar tal fato, renunciava aos próprios anseios e, entregava-se ao martírio.
Uma tarde, em que limpava as armas de caça, com o pai, uma ideia lhe veio à cabeça. Nesse momento, um arrepio percorreu seu corpo.
“Perdoe-me Deus, porque vou pecar.”
Pensou alisando o cano da espingarda.
— Acho que hoje vou pra espera. — Falou vagamente.
— Podemos ir juntos. — O pai se ofereceu.
— Não. Eu prefiro ir sozinho . — Disse num murmúrio misterioso.
— Sozinho? Mas sempre esperamos juntos. — Retrucou o pai.
— Eu sei pai, mas estou precisando ficar sozinho, passar a noite na espera será um alívio.
— Eu entendo. — Genaro balbuciou metódico.
Joana, quando soube da novidade, argumentou para a sogra.
— Por que ele quer ir pra espera? Temos muito charque na despensa.
— Deixe-o ir, filha. A solidão da noite o fará refletir.
— Tomara que a senhora esteja certa. — Argumentou pensativa.
— Pode ter certeza que sim. — Confirmou a sogra.
A noitinha, Robério pegou a espingarda, alguns cartuchos, um canivete e adentrou a mata. Os passos no entanto, tomaram direção contrária. Um tempo depois, ele encostou-se a uma árvore e aguardou. Quando a noite se fez longe, o caçador caminhou em direção a presa. O coração batia acelerado, o medo de errar o tiro, e perdê-la para sempre, angustiou seu espírito. Trêmulo e vacilante, aproximou-se da janela, e bateu.
— Cecília! — Ele chamou baixinho.
A moça ao ouvir as batidas, abruptamente, sentou-se na cama, o coração disparou, a garganta ficou seca. Perplexa, ela colocou as mãos sobre o peito. E se fosse sua imaginação?
― É o Robério! É ele! — Sussurrou baixinho.
Ela engoliu em seco, não sabia se teria coragem de abrir a janela. Temeu. Mas abriu. Num ímpeto, Robério saltou para dentro do quarto, e na penumbra contemplou o amor de sua vida. Cecília aproximou-se, e o esbofeteou no rosto.
— Por que fez isso comigo, Robério? Por que mentiu? — Perguntou o abraçando em seguida.
— Eu nunca menti pra você, Cecília. Eu juro.
Ela o afastou, não seria enganada outra vez.
— Mentiu sim. Estava comigo e com ela! Você me traiu! — Ela o acusou com veemência.
Ele cruzou as duas mão sobre o peito, e com voz sincera confessou.
— Eu juro que não, Cecília! Nunca traí você. Antes de você retornar, a joana já estava grávida.
— Você está mentindo! — Ela o acusou novamente.
— Eu juro pelo nosso amor, Cecília, depois de você, eu não tive mais ninguém! Mesmo que eu quisesse, eu não poderia. Minhas mãos rejeitam tocarem em outra mulher. — Ele engoliu em seco para não chorar.
Foi a confissão mais linda que ela ouvira em toda sua vida, sem reservas, o abraçou e aconchegou-se em seu peito, permitiu que ele a acariciasse que a envolvesse em seus braços. Sentira tanta falta daquelas mãos sobre seu corpo, do cheiro que ele emanava, dos beijos quentes e sôfregos...
— Eu senti sua falta, Robério! Você não sabe o quanto. — Ela murmurou-lhe ao ouvido.
— Eu também meu amor. — Disse a tomando no colo, e a levando para a cama.
E o pecado foi consumado.
Depois dessa noite, as saídas para a espera se tornaram quase rotineiras, tão rotineiras que despertou a curiosidade do pai, ele via o filho colocando a espingarda nas costas, maneava a cabeça e pensava.
“Bom, enquanto ninguém descobrir, está tudo bem.”
Certa noite, Rosália ouviu um barulho estranho, e chamou o marido.
— Você ouviu Venâncio? Sonolento, o homem sentou-se na cama.
— Ouvi o que? — Indagou não entendendo a pergunta.
— Fique aí. Eu vou ao quarto da Cecília. — Ela cochichou.
Pé ante pé, a cozinheira caminhou até a porta do quarto da patroa, que estava trancada.
— Cecília? — Ela chamou batendo na porta.
Abruptamente, os amantes sentaram na cama e esperaram alguns segundos, então, a moça respondeu para a que batia à porta.
— Que foi Rosália?
— Eu ouvi um barulho.
A moça revirou os olhos e maneou a cabeça. Virou-se para o rapaz e cochichou.
— Esconda-se embaixo da cama. Eu vou convencê-la a ir dormir.
Ele riu, beijou-a, e se enfiou debaixo do móvel.
A moça então abriu a porta, e com voz preguiçosa perguntou.
— O que foi Rosália?
— Eu tenho certeza que ouvi um barulho, e veio do seu quarto. — Confirmou convicta.
— Huaaa. — Ela bocejou convincente. — Não se preocupe, Rosália, deve ser um rato. Agora, por favor, vamos dormir. Eu estou cansada.
— Está certo. — a cozinheira respondeu desconfiada.
Na manhã seguinte, Rosália não pode segurar a desconfiança. Antes que a patroa saísse para o trabalho, questionou.
— Há quanto tempo esse "rato" está dormindo na sua cama?
— Quê? — Ela fez-se de desentendida.
— Eu sei quem estava na sua cama, Cecília. E não era um rato de quatro patas.
— Shiiiii. — Fez a moça colocando o dedo indicador sobre o lábios. — Quer que todos descubram? Eu tenho o direito de ser feliz, Rosália. Então, esquece o rato! — Ordenou categórica.
A cozinheira maneou a cabeça, e indignada voltou às panelas.
Não adiantou muito buscar meios para esconder os encontros furtivos. Em pouco tempo, começou um disse me disse; que alguém falou para fulano, que contou para sicrano, que viram Robério pulando a janela de Cecília. Comentários maldosos, com o intuito nefasto de chegar aos ouvidos de quem realmente interessa.
Quando soube da segunda traição do marido, Joana sentiu uma pontada na barriga e um tremor no corpo. Embora estivesse interiormente devastada com a história, conseguiu manter certo equilíbrio.
— Quem contou essa fofoca para senhora, dona Cida?
A velha na entrada da casa, esticou o pescoço e olhou para dentro, não viu Eulália nem o marido, sentiu-se tranquila para contar o que sabia.
— Quem me contou não mente, Joana. Portanto, acho bom que acredite. Viram sim, seu marido pulando à janela da outra! Meu Deus! Que homem mais safado!
— Não é possível que ele seja tão canalha. — Joana falou com voz embargada.
— Tisc, tisc. — Fez dona Cida. — Eu fico triste com essa situação, Joana. Você não merece passar por mais esse constrangimento. Eu já teria ido embora. — Alardeou a mulher arregalando os olhos.
Joana maneou a cabeça e fechou momentaneamente os olhos. Tinha que ser forte e reconhecer que errara.
— A senhora tem razão dona Cida. Chega de ser enganada. Meu casamento acabou.
As duas mulheres conversavam, quando abruptamente, Eulália chegou a porta, e questionou para vizinha.
— O que a senhora está fazendo aqui, dona Cida?
A visitante ao ouvir o tom raivoso na voz, prudentemente, afastou-se para trás.
— Eu? Nada! — Respondeu franzindo a testa.
Nesse momento, Joana, pela primeira vez, ousou encarar a sogra e dizer o que sentia. Não foi com voz doce ou amedrontada que ela falou.
— Seu filho é um canalha, dona Eulália! E a senhora é cúmplice nessa canalhice. — Acusou-a.
A sogra a olhou indignada. De cenho franzido questionou a nora.
— Explique-me o que está acontecendo, Joana! Conte-me o motivo dessa acusação!
Joana mexeu os lábios involuntariamente, e maneou a cabeça.
— A senhora quer mesmo saber? — Joana riu forçado. — Conte a ela, dona Cida.
A mulher magra e de rosto enrugado, soltou alguns sons guturais, para depois falar.
— Eu... Eu já estava de saída. Acho que esqueci o feijão no fogo. — Falou deixando as duas mulheres sob forte tensão emocional.
Ensandecida, Joana entrou para a sala, Eulália a seguiu. Iniciou-se uma discussão ferrenha entre as duas, dona Cida nem se despediu, saiu rapidamente do local e rumou para casa. Já na estrada, pegou um ramo de mato e colocou na boca. E muito convincente alardeou ao vento.
— Quando é que a Joana vai entender, que o Robério prefere a outra? Ave Maria! Estamos em outros tempos. Como dizem aquelas tais feministas: “A mulher tem que se valorizar!”
Enquanto isso, a confusão na casa dos Ferrazzo continuava, e já não eram somente duas pessoas discutindo,
— Eu falei que esse casamento não ia dar certo. — Disse Genaro torcendo os lábios.
— Não piora as coisas, Genaro! — Redarguiu Eulália furiosa com o marido.
— A Joana tem que saber a verdade, Eulália. Chega de mentiras!
— Que verdade? — Eulália falou encarando-o. — A única verdade é que seu filho tem uma esposa! Embora ele pareça não se dar conta disso.
Genaro maneou a cabeça e desistiu de responder a esposa, ele sabia que não valeria a pena, ela jamais reconheceria que errou ao trazer Joana para o sítio. Desesperançoso, o homem saiu da sala e foi para a beira da represa. Na sala, guerra continuou.
— Eu vou embora desse lugar que só me trouxe tristeza. O Robério que fique com essa moça! Certamente eles se merecem! — Explodiu Joana com certo sarcasmo.
Eulália não desistiu e argumentou.
— Você vai entregar seu marido a essa mulher? Vai entregá-lo, sem lutar? Pensa no seu filho, Joana! Uma vez na vida seja inteligente! Use a criança a seu favor! — Aconselhou Eulália.
— Ha, ha, ha. — Ironizou Joana ao ouvir a proposta. — Usar meu filho para prender o Robério? Meu Deus! A que ponto chegamos. A senhora não percebe que o amor dele por mim, acabou?
— Você está enganada, Joana. Meu filho ainda te ama. Esse tipo mulher cega os homens. — Eulália engoliu em seco antes de concluir o pensamento. — Felizmente, a cegueira não dura muito tempo. Logo o Robério cai em si. Tenha um pouco de fé, filha. — Implorou Eulália.
Joana suspirou profundamente, sentou-se no sofá, colocou as duas mãos sobre o colo e, friamente analisou a situação.
— A senhora tem razão. Eu vou lutar pelo meu casamento! Farei isso pelo meu filho. — Falou mecanicamente.
Eulália não acreditou no que ouvira, com a mão sobre o peito, sentou-se no outro sofá, e deu mais um aconselho a nora.
— Seja prudente, Joana, não diga ao Robério que descobrimos a traição. Deixe que ele seja o enganado da história. Os homens são tolos, deixam-se enganar por suas próprias mentiras.
Joana semicerrou os olhos, estranhamente estava tranquila, todo o fulgor raivoso passara.
Ao concordar com a sogra, a voz saiu ponderada, porém firme.
— A senhora está certa, dona Eulália! Melhor que ele não saiba de nada!
Espera = Armação rústica de madeira, feita por caçadores, em cima das árvores. Lugar onde ficam a espera da caça, para matá-la.
Em algumas cidades do interior de Rondônia, usa-se também o termo, "trepa."
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