Cecília

22 Aparências nada mais


Notas iniciais
Feliz por mais um capítulo postado, obrigada aos leitores. Beijos de luz a todos.

Na Estrela Dalva, Cecília pensava na conversa que teve com Leandro, sentada junta a mesa e com a mão no queixo, ensaiou um meio riso. Não houve necessidade de uma longa reflexão para ter certeza do que deveria fazer.

— Esse rapaz entende de negócios, Rosália, não vou perder a chance de contratá-lo. ─ Disse maneando a cabeça. Ao ouvi-la divagando sobre Leandro, cozinheira deixou os afazeres e veio sentar-se também. Os olhos expressivos denunciavam seu interesse no assunto. Antes de opinar, ela enxugou o suor do rosto no avental, só então falou.

— Você tem razão, é uma ideia realmente boa. Tomara que dê certo. Com esse rapaz na administração, a situação da fazenda vai melhorar.

— Bom, ele pediu para me visitar novamente, e eu disse que sim, quando ele vir, farei a proposta.

— E tomara que ele venha sozinho, que não traga a Joana, essa mulher me dá arrepios. Ela tem algo que eu não gosto. — Disse Rosália torcendo os lábios.

— Você tem razão, Rosália. A Joana é bem estranha; mas eu não estou interessada nela, e sim no Leandro, esse rapaz pode ser a chave que eu preciso para crescer financeiramente.

— Você é inteligente, Cecília, e enxerga longe, eu só espero que seu passado não seja um entrave na sua vida.

— Rosália, se você está se referindo ao Robério. — Ela fez uma pausa e semicerrou os olhos. — Eu já o esqueci. Eu só quero seguir minha vida e conquistar os meus sonhos.

A cozinheira mencionou um meio riso e maneou a cabeça, depois perguntou.

— Tem certeza que o esqueceu?

— Sim, Rosália, eu já o esqueci, como você acabou de mencionar, o Robério é meu passado, quanto ao meu futuro, eu decidi por viver. — Respondeu com voz firme.

Apesar da veemente resposta, ela sabia que mentia, não por ser fraca ou por medo de ouvir comentários indesejáveis, e sim, porque no fundo queria que isso fosse verdade, se bem que sabia que esquecê-lo era quase impossível. Ainda o amava.

A tarde quando Genaro e Robério chegaram do trabalho, Joana os esperava na porta, sorriu ao ver o marido se aproximando, de um pulo ela desceu, e propositalmente caiu sobre ele, que num gesto rápido a amparou para que não caísse.

— Meu Deus, Joana! Cuidado! — Acudiu ele.

— Ainda bem que você me segurou, meu amor. — Disse o abraçando.

Robério gentilmente a afastou, e meio constrangido falou.

— Eu vou tomar um banho. Estou muito suado.

— Eu adoro o cheiro do seu suor. — Ela o incitou.

— A janta já deve estar quase pronta. Pelo cheiro a mãe fez galinha ao molho. — Desconversou ele.

Ao perceber a evasiva do marido, Joana entendeu que não deveria insistir, o momento não era adequado para pressões indevidas.

À noite antes que Robério dormisse, Joana foi até o guarda-roupas, pegou algumas sacolas e as colocou sobre a cama, o que o fez sentar-se, pois ficou curioso. Especialmente nessa noite, Joana vestia uma camisola vermelha com um decote profundo, e ao abaixar-se para sentar, os seios ficaram um pouco à mostra, o que despertou a atenção do marido. Joana percebeu que o deixara agitado, e entendeu que tinha armas poderosas. Curvilínea e bem torneada, de fato ela era bonita e muito atraente. Propositalmente, ela sentou sobre a cama cruzando as pernas, o tecido leve da camisola desceu revelando as coxas firmes e grossas. Robério recuou o corpo, parecia pouco à vontade, o que não a incomodou, sorridente e aparentemente descontraída, ela começou a abrir as sacolas e mostrar o que tinha comprado para o bebê.

— Hoje à tarde, eu mostrei as roupinhas do nosso filho para sua mãe, agora vou mostrar pra você. — Ela riu mostrando a roupinha. — O que você acha desse conjuntinho, meu amor. É lindo, né?

Robério riu, mesmo que momentaneamente, sentiu-se feliz. Ver as roupinhas do filho, deixou-o emocionado.

— É muito lindo Joana, olha só esse sapatinho!

— Você gostou?

— Nossa, Joana! É tudo muito bonito. Você tem bom gosto.

Ela fez um breve silêncio, pegou uma sacola que estava à parte, tirou um embrulho de dentro, inicialmente Robério fez-se rogado e não quis o presente, então ela insistiu.

— Esse é o seu presente. Eu comprei pra você. Pegue, por favor.

Meio contra à vontade, ele pegou o embrulho e desfez o laço. Os olhos brilharam quando viram o par de botinas de couro legítimo.

— Oh, Joana! Essa botina deve ter sido muito cara. Não precisava.

— Você é um bom marido, Robério, e merece que eu o presenteie.

— É uma botina muito bonita. Eu gostei, Joana, gostei mesmo. Mas não vou me desfazer dessa que eu uso, Foi um presente do meu avô. Ela vai ficar de lembrança, ali, no cantinho do quarto. — Disse apontado com o dedo em riste.

— Eu estou feliz que tenha gostado. Fiquei com tanto medo de comprar e ter que trocar. — Ela puxou as roupas para perto e começou a dobra-las. — Agora vou guardar essas coisas, para dormimos. — Disse um tanto animada.

De repente ela parou de colocar as roupas nas sacolas, momentaneamente, colocou a mão na testa, para então falar.

— Ah, meu amor, eu ia esquecendo de lhe contar, hoje, eu e o Leandro fomos visitar a Cecília, foi maravilhoso.

Nesse momento Robério franziu a testa.

— Vocês foram... Visitar a Cecília? — Perguntou intrigado.

Joana riu, posicionou-se frente ao marido e com voz entusiasmada falou.

— Confesso que foi intencional. Quero muito que meu irmão fique perto de mim... Então pensei... Se ele e a Cecília se apaixonarem...

Robério engoliu em seco, sentiu-se desconfortável, como se ar lhe faltasse, de um salto levantou da cama e com voz ríspida falou.

— Isso é uma bobagem. A Cecília não vai se apaixonar pelo Leandro!

Joana girou o corpo e sentou-se na beirada da cama, e com voz tranquila contra atacou.

— E, por que não? Ela é solteira, ele também. Ambos estão livres... Pode dar certo.

— O Leandro não é o tipo de homem que a Cecília gosta. — Robério garantiu.

A explicação inoportuna, a deixou bastante irritada, sabia no entanto que devia manter a calma e fingir-se inocente.

— Como você sabe que o Leandro não é o tipo de homem que a Cecília gosta, ela te falou?

Robério percebeu que falara uma bobagem; fechou momentaneamente os olhos e pensou em contar tudo para Joana, só que ao ver as roupinhas do filho sobre a cama, sucumbiu.

— Não Joana, ela não me disse nada. Eu é que imagino que ela prefira outro tipo de homem.

— Pois eu acho que você está imaginando errado. Eu vi como eles se olhavam. Ela pareceu bastante interessada no meu irmão.

— Eu não quero saber dessas coisas. Vamos dormir que é melhor. — Disse ele voltando para a cama e puxando a coberta para se cobrir.

Joana voltou a posição anterior e questionou-o.

— Por que ficou irritado?

— Eu não estou irritado, Joana. Seu irmão namora quem ele quiser. A vida é dele!

— Você acha que a Cecília não é uma boa moça? Se você sabe de algum podre dessa mulher, me fale agora. Assim eu impeço meu irmão de cometer um erro.

— Joana, eu pouco conheci a Cecília, por isso acho que seu irmão está indo com muita sede ao pote. Mas como eu disse. A vida é dele. Agora por favor, vamos dormir.

De costas um para o outro, tanto Robério quanto Joana, se debatiam para controlar os sentimentos que os sufocavam. Embora a dor e o ciúme corroessem ambos os corações, a seu modo, cada um buscou um escape para o sofrimento.

Três dias depois, Leandro começou a trabalhar na Estrela Dalva, o que para Joana foi mais uma vitória, Robério porém, sentiu que a vida lhe estava sendo roubada, e que talvez nunca mais a teria de volta.

Os dias passaram e a esperança de ter Cecília em seus braços, esvaiam-se quase que totalmente. A presença do cunhado, tornou-se um grande obstáculo. Não obstante, depois de alguns dias, houve uma situação bastante desagradável, que culminou com a ida definitiva de Leandro para a Estrela Dalva. Uma fala tola de Eulália, deixou o rapaz ressentido. Ele entendeu que se tornara um fardo na casa dos Ferrazzo.

— Não fique triste, irmãozinho, a dona Eulália não falou por mal. — Dissera Joana ao irmão, enquanto o ajudava a arrumar a mala.

Nesse momento, Robério também se encontrava na sala e inevitavelmente sentiu-se angustiado, como se uma força maligna dominasse sua mente, sem que ele pudesse impedir, pensamentos terríveis invadiram sua cabeça.

Matar Leandro seria a solução, Joana também merecia morrer, pois ela trouxe o irmão para o sítio. E para selar a desgraça, mataria Cecília e depois estouraria o próprio crânio.

Completamente perturbado, ele saiu correndo da sala e embrenhou-se na mata, estava triste e confuso, começou a chorar, a cabeça não raciocinava direito e a razão já não existia. Desconsolado, caiu no chão e cobriu o rosto com as mãos, lágrimas amargas molharam o rosto triste. Ele passou um longo tempo ali. Estava perdido dentro de si mesmo, desconectado da realidade, os olhos azuis pareciam duas pedras vidrados nos pequenos insetos multicoloridos. Ao ver um inseto caindo na teia de uma aranha, sentiu-se preso em muitas cordas, das quais ele não podia se soltar.

À noitinha, voltou para casa, ao vê-lo entrar na cozinha, Eulália sentiu um alívio no coração, estivera demasiadamente preocupada com o sumiço do filho, sentada junto à mesa, Joana não expressou nenhuma reação, como se nada estivesse acontecendo, continuou comendo.

Angustiada, Eulália tentou uma aproximação com o filho, viu-se rejeitada por ele, e preferiu não insistir. Um silêncio mórbido e incompreensível, associou-se aos dois, ao perceber o sofrimento e a dor do filho, engoliu em seco, sentindo a culpa sobre os ombros. Arrasada, ela passou a mão sobre o rosto e o deixou ir. Um pouco mais, ouviu-se o bater da porta do quarto.

Um tempo depois, ouviram a porta da frente abrindo, Eulália e o marido correram para a sala, ambos viram o filho sumindo em direção a estrada, por duas vezes a mãe o chamou, não houve resposta.

— Deixa o menino, Eulália, ele não vai fazer nenhuma bobagem.

Era Genaro, que ao ver a aflição da esposa, veio apoiá-la. Meio a contragosto ela voltou para a cozinha, puxou uma cadeira e sentou-se junto a mesa, Joana já havia se retirado, agora ela podia chorar livremente.

— Não fique assim Eulália. — O marido a consolou.

— Eu fiz o que é certo, Genaro. Então porque estou sofrendo?

Genaro puxou uma cadeira e sentou-se frente a esposa, teve pena de vê-la tão triste.

— Você fez o que achava ser o certo, mas se está chorando é porque sabe que errou. Genaro fez uma pausa e por sobre a mesa, segurou a mão da mulher. — Só que agora... Creio que seja tarde demais.

Eulália balançou a cabeça concordando, Genaro estava certo, ela cometeu um erro irremediável.

Robério foi para o bar do senhor Antônio, lá chegando, pediu uma dose de pinga e engoliu de um único trago. A bebida desceu queimando sua garganta, e aquecendo seu coração. Outras doses vieram, e logo o rapaz segurava-se no balcão para não cair.

— Já chega, Robério. Você já bebeu demais. — Reclamou o dono do bar.

— O-o senhor nã- não sabe de nada! E-eu não esss-tou bêbado. Eu quero sssó mais uma dose.

O homem magro maneou a cabeça discordando.

— Adriano! Vai até o sítio, diga ao Genaro para vir buscar o Robério. — Disse o dono do bar a um dos rapazes presente.