Enxugo as lágrimas com a manga do casaco e sento-me na primeira cadeira da fila do meio. Era o lugar de Penny Lock, quando estudávamos juntas, a ultima notícia que tive dela foi que um grupo de demônios lhe levou para o "outro lado".

Charlotte senta sobre a mesa do professor a minha frente.

–Então... Você está apaixonada por ela — foi mais uma confirmação do que uma pergunta.

–Estou... Ou estava. Não sei ainda — digo confusa — não queria que descobrisse minha sexualidade dessa forma.

–Eu já sabia — diz naturalmente.

–O quê? Como?

Levanto da cadeira e me aproximo.

–Ouvi você falando com B.

–Faz muito tempo?

–Não, alguns meses. Mas isso não importa.

–Vai contar por nossos pais?

–Pra quê? Eles não sabem nem qual o número do sapato que usamos. Depois que isso tudo aconteceu só temos uma à outra.

–Hum...

Ficamos em silêncio alguns segundos. Comecei a observar os outros trabalhos na parede. Aviso anti-bullying ao lado do quadro. Um pequeno mural de bilhetes na parede próxima ao lixeiro.

–Eu não devia ter dito aquelas coisas — Char diz e me chama atenção — não foi sua culpa meu namorado e minha melhor amiga... — ela não conseguia dizer.

–Transarem.

–Isso...

–Não se preocupe, nem se culpe por isso. Eles foram idiotas e perderam você.

Ela baixa a cabeça. Levanto e me aproximo mais, seguro seu queixo e lhe faço me olhar. Aqueles olhos tão verdes e brilhantes quanto os meus.

Recebo um leve sorriso.

–Minha pirralha tá crescendo.

Sorriu sem graça.

–Fiz 18 anos ontem, não pode mais me chamar de pirralha.

–Você vai ser pirralha até completar 88 anos.

–Você terá 92, senhora quase centenária.

–Hey, ainda tenho 22. Cale a boca.

Rimos juntas.

Puxa meu corpo pra mais perto e passa os braços envoltos de mim. Lhe aperto forte no abraço e sinto o cheiro familiar de seus cabelos.

Charlotte era o máximo que eu tinha de família ali. Eu não suportaria perde-la.
Eu sei que papai e mamãe me amavam, mas como Charlotte falou, eles agora tinham outras responsabilidades. E faziam papel de pais só por mera obrigação.

–Nunca mais me esconda nada. Está bem? — pede e me afasta pra olhar pra mim.

Respiro fundo.

–Ontem encontrei duas succubus. Uma dela se chamava Megan e ela disse que conhecia você, até mandou lembranças.

Se eu era mais branca do que minha irmã, agora ela me venceu. Seu rosto ficou pálido em meio segundo e sua boca abriu em surpresa. Não imaginei que agiria assim.

–O que ela falou?

–Que eu lembrava alguém que ela conhecia, depois que sugou o meu ar pediu que eu lhe mandasse lembranças. Quem é ela?

–Uma velha amiga — diz pensativa.

–Desde quando é amiga de um ser de outro mundo?

–Eramos amigas antes disso. Ela não era "assim" quando nos conhecemos... Espera, ela encontrou você e não te matou?

–Eu estou aqui, não é?

–Conta isso direito.

Sento ao seu lado e relato tudo o que aconteceu. Desde que eu sai dali com raiva dela, até Lizzie entra no portal.

–E foi isso, fim.

–Megan filha da puta. Aposto que ela mandou te matar e a outra não fez por pena.

–Não sei. Mas não paro de pensar em Lizzie desde que cheguei.

Charlie me olha confusa.

–Como é que é? Você tá louca?

–Não. Eu estou lhe falando a verdade. Aqueles lindos olhos azuis não saem da minha cabeça e me impedem de raciocinar direito.

–Exorciza, senhor — ela toca minha cabeça e começamos a rir feito loucas.

Deixo-a na sala de musica e ela me aconselha a ficar com algumas outra "garota do meu time" e esquecer os olhos azuis de Lizzie (Na verdade ela disse: "Esquecer esse tesão pela COISA de olhos azuis"). Eu apenas debochei de seu comentário.

Das 150 pessoas pessoas que compartilhavam a vida com a gente:

30 são crianças
25 são idosos
50 são casados (formando 25 casais)

Restando apenas 45 pessoas. 5 estavam fora de plano (eu, Charlie, B., Emily e Jason).

40 pessoas. 5 casaizinhos de namorados.

30 pessoas entre 16 a 40 anos. 10 homens, 20 mulheres.

Eu tenho a ficha de todo mundo e a certeza de que não tem nenhuma garota gay no meio delas. Era o trabalho de B. armazenar as informações. E esse era um dos lados bons de ser amiga dela.

Falando em B... Sai a sua procura pela escola e ninguém havia lhe visto. O único lugar que faltava era a biblioteca, onde eu devia ter ido primeiro. Ela quase sempre estava lá.

Entrei na enorme sala e o cheiro de livro velho me invadiu. As paredes estavam cobertas de estantes repletas de livros.
B. estava sentada em uma mesa no fundo da sala, de costas para a porta de entrada. Caminho silenciosamente até ela e cubro seus olhos com minhas mãos.

–Você sabe que isso não funciona comigo, Sam — ela diz rindo.

–Droga — reclamo de brincadeira e sento-me ao seu lado. Olho o seu caderno e tento ler o que ela escreve — o que você tá fazendo?

–Arrumando um jeito de te ajudar — diz e fecha todos os arquivos abertos sobre a mesa.

–Nem pedi nada.

Afasto a cadeira da mesa e começo a girar. Adoro fazer isso.

–Mas você vai pedir e preciso está preparada — continua a ler o livro de capa vermelha.

–Adiante logo pra mim — peço.

–De jeito nenhum. Sabe que não pode interferi no futuro.

–E o que você tá fazendo não interfere? Pela ordem natural você não deveria saber o que vai acontecer.

–Mas acontece que eu sei... Então eu posso fazer algo.

–Ok — digo por fim e paro de girar.

–Quer ir ao Skhon hoje? — começa a guardar o material.

–Hoje é sexta.

–O que que tem?

–Vai tá cheio de demônios por lá.

–Os de hoje não querem encrenca. Estou cansada desses livros,vamos logo...

Levanta e me puxa pela mão.

O deposito estava escuro aquela hora, mas isso não quer dizer isso nos impediu de entrar. Mesmo que sem autorização.
O que chamávamos de "deposito" era na verdade um antigo supermercado que foi abandonado na rua da frente.

A cidade toda era abandonada. Quem tinha juízo ia para a capital, mas o grupo em que vivíamos não estava de acordo com as regras do novo governo e eramos espíritos independentes. Era um estilo de vida alternativo.

Dormíamos no hotel no fim da rua. Menos as 30 crianças e 3 adultos que ficavam na escola por ser perigoso a saída de menores, mesmo com todo um sistema de segurança.
Os três hotéis vizinhos hospedavam os casais, idosos e o "resto". Não eram hotéis 5 estrelas, mas dava pra viver.

Pegamos roupas novas do estoque de mais cedo e tomamos banho lá mesmo. Na parte detrás ficava o estacionamento com diversos tipos de carros e motos . Por ser uma escapada discreta optamos por uma moto.

B. usa um feitiço que nos permite passar pelos guardas sem sermos vistas. O bar Skhon era um dos meus favoritos e ficava fora da cidade, no litoral. Cerca de 25 minutos após nossa saída, estaciono em um beco próximo ao restaurante "Piratas da Tempestade" que servia de esconderijo ao bar.

Entramos no restaurante e apenas a luz no fim no salão estava acessa. Ainda assim era possível ver a decoração destruída e caindo aos pedaços. O velho gordo mascava fumo atras do balcão e cutucava a unha do dedão com um canivete.

–O que querem aqui? — pergunta sem nos olhar.

–"A morte nunca é uma escolha" — digo e ele passa a me encarar. Os olhos cansados e profundos ganham um novo brilho.

–Samantha — diz sorrindo abre os braços.

–Pé de Pano — pulo sobre o balcão e abraço o senhor com cheiro de rum e cigarro.

Pé de Pano se chamava, na verdade, de Leonardo. Mas desde que um licantropo arrancou o seu pé e ele usava um de pano no lugar o apelido pegou.

–Andou sumida, garota — afasto-me dele e ele bagunça os meus cabelos.

–Tive uns probleminhas com uns sangue-sugas na minha "mansão", mas já foi resolvido.

–Ah, tenho algo pra você — ele meche em um armário atras de si — soube que foi o seu aniversario.

Pega um embrulho pequeno e poe em minha mão.

–Não precisava disso — digo e o abraço de leve.

–Você vai gostar — disse entusiasmado.

Abro o embrulho de pano e viro o conteúdo em minha mão. A pedra vermelha brilha em meus dedos.

–Uma pedra de sangue — ele e B. dizem juntos.

Leo era como aquele tio legal que quase todo mundo tem. E eu o amava como se fosse realmente meu tio. Abraço-lhe mais uma vez e coloco um chocolate no bolso do seu sobretudo. Chocolate é o ouro desse seculo.

Depois de me despedir dele entro com B. na portinha atrás do velho. O som de indie antigo toca na jukebox como todas as sextas. O lugar não era um dos mais bem frequentados, mas tinha seu charme. As mesas na parede perto no bar eram rodeadas pelos sofás vermelho tradicional, uma pista de dança escura mantinha alguns jovens inumanos ocupados com passos de danças mal elaborados e o andar superior não era muito bem habitado.

Sentamos em uma mesa próxima a pista, eu queria observar bem o local. Um grupo de lobisomens gordos e peludos dançavam no canto da pista e eram motivos de risadas de alguns por ali. As garçonetes usavam uma tipica saia branca com azul e um top da mesma cor. Os cabelos sempre soltos e sexy.

Uma delas, provavelmente novata, para em nossa mesa.

–O que vão pedir? — diz a moça e exibe um sorriso.

Ela era uma vampira. Os seus caninos afiados e brancos deletavam ela.

–Eu quero VODKA — digo a ultima palavra mais alto.

–Nada disso, estamos de moto — B. corta o meu barato e a vampira segura o riso.

–Chata — cruzo os braços e faço bico.

Se eu não ia beber, o que iria fazer ali?

HUM... GAROTAS!

Olho ao redor enquanto B. faz o seu pedido. Avisto algumas garotas em uma mesa não tão longe dali. Eram um grupo de 4, elas riam e bebiam cervejas. As duas loiras da ponta pareciam ser um casal, mas não sei dizer se era o mesmo com a de olhos vermelhos e a morena. Eram todas demônios. Desisti de cara, elas só iriam me fazer pensar em Lizzie.


Passo o olhar mais uma vez ao redor e algo me chama atenção. A "nossa" garçonete vampira me olha com um sorriso sacana, nem tentava disfarçar. Eu já havia me envolvido com algumas vampiras. De todas as formas possíveis. Na cama e no ringue.
Hoje eu queria cama, mas amanha estaria de volta ao ringue. Não gostava de passar tanto tempo longe dele e alguém roubar meu trono.

A vampirete (vampira+garçonete, trocadilho merda) vem até nossa mesa e poe a bebida de B. ao seu lado e um refrigerante próximo a mim. B. pega a bebida e sai para a pista.

Antes de sair, a vampirete poe um guardanapo sobre a mesa e olha diretamente para mim.

"3 minutos. Banheiro dos fundos" — era o que dizia. Hoje a noite podia render e eu estava disposta a arriscar.