Notas iniciais
Eu escrevi essa história todinha numa semana só. Alguns chamam isso de inspiração. Eu, como boa mineira que sou, chamo de trem. Pois então... me deu um trem um dia desses e eu tive que escrever isso! O trem ficou tão grande que eu tive que dividi-lo em vagões (capítulos). Enfim, sem mais metáforas toscas e vamos à história. Espero que gostem e acompanhem.

CECI N'EST PAS UNE POMME

PRÓLOGO

POV L LAWLIET

— Light Yagami? Pro setor de reencarnação? Vocês perderam a cabeça? – exclamei, esbaforido.

— Prezado L Lawliet, poderia manter a calma, por favor? Já se passaram três milênios desde a morte de Kira. Três milênios! – explicou Serena, a supervisora do setor – Você há de convir que três milênios são muita coisa. Não julgue o rapaz por seu passado. Até crápulas como ele merecem uma segunda chance.

— Mas ele conseguiu provar ao tribunal superior que merece a reencarnação?

— Ao que parece, sim. Ele desceu ao inferno assim que faleceu, mas foi se purificando com o tempo. Após muitas súplicas, decidiram julgá-lo. E ele passou com todos os votos a favor.

— Mas, mas... Como eu não soube desse julgamento? Sou de um alto escalão do paraíso e sempre fui jurado em todas as decisões com relação ao setor de reencarnação. Além disso, conheço Light Yagami como ninguém! Por que não pude ser jurado do caso dele?

— Haha, você, jurado do caso Yagami? Acha mesmo que os outros membros do alto escalão não sabem que você é apaixonado por ele?

— Eu, eu... – minhas bochechas se ruborizaram completamente.

— Seu sentimento por ele poderia interferir no seu julgamento. E você sabe que não é permitido um anjo julgar seus parentes, amigos ou amantes.

— Ele não é meu...

— Não começa, Lawliet. Você quase perdeu suas asas por ter se apaixonado por aquele cara. Não venha me dizer que não sente nada. Se continuar tentando interferir em decisões que não te dizem respeito, pode acabar se tornando um anjo caído. Acha também que não vimos aquele beijo que...

— Isso foi três milênios atrás! Será que dá pra esquecer?

— Anjos não podem ter desejos carnais. Não podem se apaixonar por humanos. Ainda mais humanos como o Light. Supere isso. Você já cometeu um erro e tanto por ter revelado a sua forma de anjo a ele no passado. Você sabe, a regra-mor do paraíso diz que...

— “Os mortos não podem interferir no caminho dos vivos”. Blá-blá-blá! Isso é só um monte de mexilhões! E eu lá ia permitir que Kira destruísse o mundo?

— Pois você não mudou nada. Kira estava cada vez mais psicótico e revoltado. Ele cometeria suicídio mais cedo ou mais tarde. Você não salvou o mundo, apenas antecipou a catástrofe. Depois que ele enlouqueceu por sua causa e morreu pelas mãos do Shinigami Ryuk, a Terceira Guerra Mundial teve início. Era inevitável, não havia nada que você pudesse fazer. Achou mesmo que poderia mudar a mente de um ditador sanguinário com um reles beijo? Você só piorou tudo. Foi um anjo indisciplinado, quebrou a regra-mor. Aliás, você quebrou mil e uma regras-mor naquele dia. Você também se mostrou ao Shinigami Ryuk. Sabe muito bem que...

— “Shinigamis não podem saber que anjos existem”. Blá-blá-blá!

— Pare de zombar das nossas leis. Sabe que elas são fundamentais para a manutenção da ordem entre o céu e a terra. Mundos tão diferentes não podem se misturar sem que haja conflito. E é bom que os Shinigamis continuem pensando que o céu e o inferno não existem. Também é bom que eles continuem pensando que quem faz uso do Death Note não pode ir nem para o céu, nem para o inferno. É menos uma preocupação para nós.

— Danem-se as preocupações! Pelo menos eu tentei alguma coisa! O paraíso anda muito acomodado! Tudo que vocês fazem é se esconder da escuridão, construir uma fronteira que separe o nosso mundinho perfeito do mundo decadente dos humanos! Se continuarmos assim, a Terra será para sempre um lugar inóspito para se viver! Não me espanta haver tanta guerra lá embaixo. A culpa é de vocês, que não fazem nada, apenas observam! Vocês não são nada protetores, pois só vivem de braços cruzados; sempre fogem à luta, marcham encurvados! O que querem para si? Desfrutar da vida e da paz eterna enquanto só há morte e guerra lá embaixo? Pensei que fôssemos mais politizados, mas somos apenas um bando de almofadinhas! Temos privilégios, então que se dane quem não os tem, certo? Deixem que morram de fome, que padeçam na desigualdade! Depois, daremos a desculpa de que eles possuem o livre arbítrio! Que regra-mor mais conveniente, não? Assim, não precisamos fazer nada. Colocamos a culpa neles. Dizemos que eles precisam se purificar para merecer o céu, e não que precisamos estender a mão para auxiliá-los. Ora, que raio de anjos somos nós? Anjos negligentes, anjos sem visão! Que tipo de mãe abandona seus filhotes à própria sorte no ninho? Desistimos deles? Paramos de dar chances? É isso? Deveríamos ter mais empatia. Todos os anjos que vivem aqui já foram humanos algum dia, logo são em parte humanos. Vocês não têm amor à própria espécie? Ganharam um par de asas idiotas e já acham que são melhores que os humanos? Pois nós não somos deuses, também falhamos, também pecamos! Temos poder para salvar a Terra, mas preferimos esconder esse poder e guardá-lo só para nós! Isso é o paraíso, afinal? Pois esse paraíso está infestado de demônios!

— L... Você entendeu tudo errado... – ela parecia chorosa – Não é por covardia. Uma boa mãe jamais abandona seu filhote no ninho, mas também não faz todo o trabalho pra ele. Não temos o direito de salvar o mundo. O filhote, ou melhor, o ser humano precisa aprender a andar com as próprias pernas, do contrário nunca evoluirá espiritualmente. Você tentou ser a muleta do Light, mas não adiantou. Você se rebaixou para salvá-lo, mas não aceitou que ele já havia cavado a própria cova quando se tornou Kira. Uma mãe ensina tudo o que pode a seu filho, mas independente de qualquer coisa, ele cresce e segue o caminho dele. Pode até ser o caminho errado, mas a mãe não tem o direito de trancafiá-lo eternamente numa redoma e ensinar-lhe à força o que ela quer que ele aprenda. O filho um dia chega à maioridade, torna-se dono do próprio nariz. Deve deixá-lo ir. E você não deixou Light ir. Colocou-se no caminho dele. Adiantou algo? Não. Nada mudou. É por isso que existe o livre arbítrio. Seríamos tão tiranos quanto o Kira se tomássemos decisões que cabem aos humanos.

— Que seja! A senhora está dizendo que eu tomei uma decisão errada, mas a que vocês tomaram é mais errada ainda! Light Yagami é um manipulador de primeira! Quem te garante que o espírito dele realmente se purificou? Ele pode ter enganado todo o tribunal com aquela conversa de bom moço dele! Basta chegar, dizer que mudou, que está diferente! E se não for verdade? E se ele voltar à Terra como o pivô de uma possível Quarta Guerra Mundial? Você está insinuando que a minha paixão por Light me faria ter peninha dele, o que interferiria no meu julgamento. Mas eu jamais votaria a favor dele! Eu votaria contra! Mil vezes contra! Não importa se se passaram três milênios ou um milhão de anos: o espírito de Kira ainda é o mesmo! E em breve ele estará solto por aí, quando deveria estar no inferno! Você entende a gravidade disso?

— Ué, não foi você que disse que uma mãe não abandona o seu filhote no ninho? Agora quer que o Light queime eternamente no fogo do inferno? Que hipocrisia é essa? Tentou salvá-lo e agora quer que ele seja riscado do mapa?

— Até uma mãe concorda que certas coisas não têm perdão! Se Hitler fosse seu filho, você daria a ele uma segunda chance?

— Hum... Agora está mudando o discurso, né? Quando se trata do Light, é sempre diferente. Ele é um caso à parte, vero? Bem que eu disse que a sua paixão por ele atrapalharia o seu julgamento no tribunal. Você nem ao menos sabe o que pensar do Light. Cai em contradição o tempo todo. Ele embaralha a sua mente; é sua tentação, é sua ruína. Deveria manter distância dele. Três mil anos se passaram e você nunca o esqueceu. Deixe o caso dele para os outros membros do alto escalão. Isso não lhe compete.

— Mas, mas, mas... – gaguejei – Light é perigoso! Ele não pode reencarnar!

— Bom, eu não julgo quem vai reencarnar ou não, apenas supervisiono os funcionários que encaminham as almas selecionadas para a reencarnação. Logo, não é a mim que você deve recorrer. Mas já que você insiste, recorra aos outros membros do alto escalão. Foram eles que decidiram isso. Em minha opinião, não falharam. Eles não nasceram ontem, têm uma experiência enorme, são espíritos que passaram pela Terra desde o período pré-histórico. Não é possível que o espírito de Light Yagami conseguiria enganar toda aquela macacada velha.

— Você não conhece o Light. – retruquei, enojado – Ele conseguiu enganar toda a humanidade usando apenas um caderninho e a sua lábia. O que é um grupinho de anjos velhos pra ele?

— Cale essa boca, rapaz! São os anjos mais sábios do paraíso! Não se refira a eles como “um grupinho de anjos velhos”, até porque você faz parte desse grupo. Só não participou do julgamento porque é apaixonado pelo Light!

— O que você disse?

— Que você faz parte de um “grupinho de anjos velhos” e que...

— Exato! – bradei – Você disse alguns minutos atrás que eu cometi um erro e quebrei muitas regras. Logo eu, um anjo velho! Quer dizer que não sou infalível só por ser do alto escalão. Então os outros anjos velhos também não o são. Eles também podem ter cometido um erro quando permitiram a reencarnação de Light Yagami! Por que não?

— Está bem, agora você me pegou.

— Argh! Claro! Eu fui o maior detetive do mundo na minha vida passada! Fazia parte do meu trabalho encontrar falhas lógicas no raciocínio dos outros... – bufei nervosamente – Mas isso não interessa agora! Preciso recorrer urgentemente aos outros membros do alto escalão para que eles repensem essa ideia estúpida de trazer Light Yagami de volta à vida! A humanidade está muito mais segura com ele no inferno do que na Terra! Trazê-lo de volta ao mundo seria como trazer Stalin ou Mussolini! E por falar nele, onde está aquele maldito espírito de Kira? Tenho que impedir a reencarnação dele antes que...

— Essa não.

— O que foi?

— Acabei de receber uma mensagem de um dos funcionários do setor. Ele já encaminhou o espírito de Light Yagami para a reencarnação. Acho que você soube da notícia tarde demais.

— O quê? Você só fica sabendo das coisas depois que elas já acontecem? Que tipo de supervisora você é?

— Ei, eu sou a supervisora desse setor há mais de meio século. Me respeite.

— Dane-se, tenho mais com o que me preocupar! Light reencarnou, Light reencarnou!

— Sinto muito, L.

Um grande silêncio se fez no recinto. Eu quase pude ouvir um alfinete cair das mãos de um anjo alfaiate.

— É... – murmurei pesaroso – Já que o desastre está feito, tenho pelo menos o direito de saber em que corpo o espírito dele reencarnou?

— Acabei de receber mais uma mensagem do funcionário que o encaminhou. Light Yagami será uma linda moça de bochechas coradas. Nascerá na Pátria do Citrino e será batizada... Pomme Bordeaux Carpentier.

— Pomme? Por que Pomme? Pomme não é maçã em francês?

— Precisamente. A Pátria do Citrino fica mais ou menos onde milênios atrás foi a França, se não me engano. Você sabe, após a Terceira Guerra Mundial, o mundo se dividiu em sete pátrias e...

— Deixa a aula de História pra depois, Serena – sentei-me em minha típica posição esquisita e matutei por alguns instantes: – Pomme... Maçã... Hum... Por que será que esse nome me intriga tanto?

~*~

CONTINUA...

Notas finais
Se você não tiver entendido nada, é porque você provavelmente não leu a minha história "King Kill 33°". Sim, "Ceci n'est pas une Pomme" é uma continuação dela xD Eu sei, você deve estar pensando: "Ah, não, tia... Tem que ler toda a outra história pra entender essa? Eu tenho preguiça, então não vou ler nenhuma das duas". Calma aí, não se preocupe meu caro pimpolho, porque tem como entender a maior parte dessa história sem precisar ter lido a outra, até porque eu resumi "King Kill 33°" na sinopse dessa fic de agora só pra situar os leitores novos. Mas se você ainda não leu e quiser ler "King Kill 33°", pode ler e comentar, haha *u* Ela tá postada aqui também. É só fuçar o meu perfil que você acha. Aproveita e lê "Para Lawliet" também, que tem alguns easter eggs da transformação do L em anjo. Sim, "Para Lawliet", "King Kill 33°" e "Ceci n'est pas une Pomme" são uma sequência. Tremei diante de minha espetacular trilogia ò-ó Mas se você estiver REALMENTE com preguiça ou sem tempo, pode ler só essa mesmo, então clica no sininho pra ativar as notificações (brinks, haha). Quero dizer, clica em acompanhar e espera eu postar o próximo cap. Lembrando que a história já está todinha escrita, então sem hiatus, olha que beleza?