Ceci n'est pas une Pomme

7 ATO III:III — MORTE (Fim do terceiro e último ato)


Notas iniciais
Esse capítulo vai ser bem deprê xD

CECI N'EST PAS UNE POMME

ATO III:III – MORTE

POV L LAWLIET

Antes de me encontrar com Ryuk, eu precisava expressar minha raiva de alguma forma. Deitei-me sobre um imenso jardim de um cemitério da Pátria do Citrino. Lá havia flores de todos os tipos, inclusive as mais clássicas: belíssimas rosas vermelhas. Arranquei displicentemente todas elas, uma a uma, sem me importar com os espinhos. Sangrei minhas mãos completamente. Meu sangue dourado de anjo escorreu por entre as mil e uma pétalas das frágeis rosas, que fiz questão de despedaçar... pouco a pouco.

— Rosas inúteis, rosas inúteis! – chorei minhas merecidas lágrimas – Eu odeio rosas, odeio Pomme, odeio Light, odeio o paraíso, odeio o inferno, odeio os humanos, odeio até a mim mesmo! Desejo arrancar minha própria pele apenas para não ter que me lembrar mais de quem sou! Eu destruí tudo, eu destruí tudo! Serena estava certa, Light é minha tentação, é minha ruína! E eu me deixei tentar por ele, eu me arruinei por ele! Light, Light... Meu querido Light... O que aquele demônio não deve estar fazendo com você nesse exato momento? O mais impressionante é que... você escolheu isso, você quis isso, você... Você preferiu padecer no inferno a ir comigo! Você, você... Você não me ama. Não como eu te amei. Não como eu... te amei.

Deitei-me no chão do cemitério e me cobri com as rosas despedaçadas. Peguei uma que ainda estava inteira e a coloquei contra a luz.

— É idêntica à flor que eu fiz nascer na Catedral de São Basílio... três milênios atrás. É feia...

— ...mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio. – disse um velho conhecido meu, entrando subitamente em meu campo de visão.

— Ryuk? O que está fazendo aqui? Eu bem que gostaria de conversar com você, mas não agora e... Espera! Você ainda se lembra da...

— ...da poesia de Drummond? Claro. Como poderia esquecer? Mas não estou aqui por sua causa... – ele estava com tantas lágrimas nos olhos quanto eu – Sei que já até caímos na porrada, mas quero deixar nossas diferenças de lado hoje... Porque o velório de Pomme está acontecendo agora, dentro daquela capelinha... – o Shinigami apontou diretamente para ela – Vamos? Aí você me explica o que houve com ela... E como você conseguiu escapar do inferno...

— Está bem... – ele me puxou, levantando-me do chão – Obrigado.

~*~

Contei a ele toda a história, depois disse:

— Bom, e foi esse o destino trágico de Pomme, inevitavelmente o meu destino trágico também... – finalizei, após ter contado toda a terrível história ao Shinigami.

— Se você ama Pomme com todo o seu amor romântico e eu amo Pomme com todo o meu amor “paterno”... – disse ele – Por que inicialmente você queria a garota no inferno?

— Por medo de que ela acabasse com o mundo mais uma vez, ora.

— Então meu amor por ela é maior do que o seu – afirmou ele – Porque eu preferia que o mundo acabasse a ter que perdê-la.

— Acho que o amor de um “pai” sempre será mais forte do que o amor de um rapaz apaixonado... – suspirei pesadamente – Pois eu amei mais a humanidade do que ela... Porque sou um anjo. Ou pelo menos era...

— O caixão de Pomme chegou... – interrompeu Ryuk.

— Quer vê-la?

— Quero.

Como o corpo dela estava completamente desfigurado pelo impacto da queda do prédio, não foi permitido destampar o caixão. Seus pais choravam e rezavam por ela, mas suas orações eram inúteis. Eles mal sabiam que a alma dela sempre esteve condenada ao inferno.

É melhor eles não saberem... Nenhum pai merece saber que seu filho está sofrendo.

Ryuk se aproximou do caixão e acariciou a madeira maciça como se estivesse acariciando o rosto de Pomme. Ele, choroso, segredou-lhe:

— Esteja no céu ou no inferno, você sempre será a minha maçãzinha querida... – e beijou o caixão, derramando uma tímida lágrima sobre ele.

Acho que eu nunca presenciei algo tão triste...

— Quer ter o seu momento com ela também? – perguntou Ryuk.

— Sim. Lembra-se daquele dia na Catedral de São Basílio? Eu declamei uma poesia de Carlos Drummond de Andrade. Hoje, declamarei o Soneto XVIII de Shakespeare.

— Como quiser.

Fui para trás do caixão de Pomme e pus minhas mãos sobre ele. Eu sabia que apenas Ryuk podia me ver ou me ouvir naquela capela, mas eu esperava que o som de minha poesia afetasse todo aquele ambiente de alguma forma. Que os humanos aprendessem comigo o que o paraíso nunca lhes dera o direito de aprender. Que bebessem de meus versos talvez não com os ouvidos, mas com a alma.

Respirei fundo e comecei a recitar:

— Se te comparo a um dia de verão, és por certo mais belo e mais ameno. O vento espalha as folhas pelo chão... e o tempo do verão é bem pequeno.

Ryuk parecia estático com o som da minha voz. Mesmo com tantas lágrimas em meus olhos, as palavras ainda saíam calmas e limpas de minha boca. Era como se eu estivesse em paz, tranquilo comigo mesmo. Eu não estava, mas podia fingir por alguns instantes.

Então, continuei:

— Às vezes brilha o Sol em demasia, outras vezes desmaia com frieza. O que é belo declina num só dia, na terna mutação da natureza.

Chorei durante alguns segundos e enxuguei uma lágrima ou outra antes de seguir para a terceira estrofe. Olhei para Ryuk, depois para os pais de Pomme e para o caixão. Prossegui:

— Mas em ti o verão será eterno, e a beleza que tens não perderás... Nem chegarás da morte ao triste inverno!

Cheguei com meus lábios bem perto do caixão. Quando o fiz, foi como se quisesse que o espírito dela me ouvisse melhor, ainda que ele já não estivesse mais dentro daquele corpo. Sussurrei, entre lágrimas:

— Nestas linhas com o tempo crescerás. E enquanto nesta terra houver um ser, meus versos vivos te farão viver.

~*~

Os anos se passaram e eu convivi com Ryuk durante todo aquele tempo. Ele me perdoou por meus crimes e até pelo chute na cara que eu havia dado nele. Adivinha? Ele até me deu um lar no mundo dos Shinigamis. Pois é, quem diria: um Shinigami foi mais condescendente comigo do que os de minha própria espécie. Vocês podem até argumentar que não foi um bom negócio, mas para quem imaginava um futuro vagando sem rumo, até que o mundo dos Shinigamis não era um lar tão ruim. Os semelhantes de Ryuk até que me tratavam bem, apesar de me fazerem mil e uma perguntas sobre o paraíso. Eu respondia todas, afinal não tinha mais o compromisso de manter segredo. E, com o perdão da palavra, eu queria mais era que aqueles anjos se fodessem.

Obviamente o tédio daquele mundo sombrio me era desesperador às vezes, mas a companhia de Ryuk me ajudava a matar o tempo. Eu realmente gostava dele... Olhando bem, até que era um cara legal. Nós saíamos para roubar maçãs nos mercadinhos e fazíamos piadinhas sarcásticas sobre os humanos. Com o tempo, até me esqueci um pouco de Pomme. No entanto, o que eu não sabia era que Ryuk jamais a esquecera... nem por um vão momento.

— Não sei se você sabe, L, mas vou te contar uma coisinha... – ele limpou a garganta – Um Shinigami só é imortal porque adquire os anos de vida restantes dos humanos que mata com o Death Note. Por exemplo, se eu matar um rapaz de vinte e cinco anos que esperava viver cem, eu ganho setenta e cinco anos de vida. Isso significa que posso ter vida eterna. Mas depois que Pomme morreu, eu parei de escrever nomes no meu Death Note. A minha existência já não fazia sentido antes, agora que não faz mesmo. Por isso, quando ela cometeu suicídio, eu quis morrer também. No entanto, eis minha desgraça: eu ainda tinha mais alguns anos pela frente, por causa dos humanos que eu havia matado antes da morte dela. Felizmente esses anos acabam hoje, e eu não pretendo mais estendê-los. Pelos meus cálculos, eu vou morrer daqui a um minuto.

— Não, Ryuk! – peguei o Death Note dele e o entreguei – Você é o único amigo que eu tenho! Não me deixe sozinho!

— Amigo? – ele riu, entregando-me de volta o infame caderninho de capa preta – Se seus coleguinhas celestiais tivessem te aceitado de volta, você nem olharia mais na minha cara!

— Ryuk...

— Adeus...

E converteu-se num monte de areia que caiu sobre meu colo.

~*~

CONTINUA...

Notas finais
Ainda tem o epílogo e.e